COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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É o tempo da misericórdia

Na Igreja inteira é o tempo da misericórdia.

Extractos do discurso do Papa aos párocos de Roma

Nós não estamos aqui para fazer um bonito exercício espiritual no início da Quaresma, mas para ouvir a voz do Espírito que fala à Igreja inteira nesta nossa época, que é precisamente o tempo da misericórdia. Disto estou persuadido! Não se trata apenas da Quaresma; nós vivemos num tempo de misericórdia, desde há trinta anos ou mais, até aos dias de hoje.

Na Igreja inteira é o tempo da misericórdia.

Bom samaritanoEsta foi uma intuição do beato João Paulo II. Ele teve a «perspicácia» de que este era o tempo da misericórdia. Pensemos na beatificação e canonização da Irmã Faustina Kowalska; em seguida, introduziu a festa da Divina Misericórdia. Gradualmente progrediu, foi em frente neste campo.

Hoje nós esquecemos tudo depressa demais, e até o Magistério da Igreja! Em parte isto é inevitável, não podemos esquecer os grandes conteúdos, as intuições excelsas e as exortações transmitidas ao Povo de Deus. E a da Divina Misericórdia é uma delas. É uma herança que ele nos deixou, mas que provém do alto. Compete a nós, como ministros da Igreja, manter viva esta mensagem, principalmente na pregação e nos gestos, nos sinais e nas escolhas pastorais, por exemplo na escolha de voltar a dar prioridade ao sacramento da Reconciliação e, ao mesmo tempo, às obras de misericórdia. Reconciliar, fazer as pazes através do Sacramento, mas também mediante as palavras e as obras de misericórdia.

O que significa misericórdia para os sacerdotes?

Interroguemo-nos sobre o que significa misericórdia para um presbítero; permiti-me dizê-lo para nós, sacerdotes. Para nós, para todos nós! Os presbíteros comovem-se diante das ovelhas, como Jesus, quando via as pessoas cansadas e exaustas, como ovelhas sem pastor. Jesus tem as «vísceras» de Deus, e Isaías fala muito sobre isto: vive cheio de ternura pelas pessoas, especialmente por quantos são excluídos, ou seja os pecadores, os doentes dos quais ninguém se ocupa… Deste modo, à imagem do Bom Pastor, o presbítero é um homem de misericórdia e de compaixão, está perto do seu povo e é servidor de todos. Este é um critério pastoral que gostaria de pôr em grande evidência: a proximidade! A proximidade e o serviço, mas a proximidade, a afinidade! … Quem quer que se encontre ferido na própria vida, de qualquer maneira, pode encontrar nele atenção e escuta… Em particular, o sacerdote demonstra vísceras de misericórdia na administração do sacramento da Reconciliação; demonstra-o em todas as suas atitudes, no seu modo de acolher, de ouvir, de aconselhar e de absolver… Todavia, isto deriva do seu modo de viver o Sacramento em primeira pessoa, da forma como ele se deixa abraçar por Deus Pai na Confissão, permanecendo no interior deste abraço… Se vivermos isto em nós mesmos, no nosso próprio coração, poderemos também oferecê-lo aos outros no ministério. E agora faço-vos esta pergunta: como me confesso? Deixo-me abraçar?

Vem-me ao pensamento um grande sacerdote de Buenos Aires, é mais jovem do que eu, talvez tenha 72 anos… Uma vez ele veio visitar-me. É um grande confessor: para ele há sempre fila… A maioria dos sacerdotes vão à sua procura para se confessar… É um grande confessor! E uma vez ele veio ter comigo: «Mas Padre…», «Diz-me», «Eu tenho um pouco de escrúpulo, porque sei que perdoo demais!»; «Reza… se tu perdoas demais…». E falamos sobre a misericórdia. A uma certa altura ele disse-me: «Sabes, quando sinto que este escrúpulo é forte vou à capela, diante do Tabernáculo, digo-lhe: perdoa-me, a culpa é tua, porque Tu me deste o mau exemplo! E vou embora tranquilo…». É uma bonita prece de misericórdia! Se na Confissão vivermos isto em nós mesmos, no nosso próprio coração, também o poderemos oferecer aos outros.

O sacerdote é chamado a aprender isto, a ter um coração que se comove. Os presbíteros — permiti que use esta palavra — «ascetas», aqueles «de laboratório», completamente limpos e bonitos, não ajudam a Igreja. Hoje podemos pensar a Igreja como um «hospital de campo». Isto, perdoai-me se repito, porque o vejo assim, porque o sinto assim: um «hospital de campo». É necessário curar as feridas, e elas são numerosas. Há tantas chagas! Existem muitas pessoas feridas por problemas materiais, por escândalos, até na Igreja… Pessoas feridas pelas ilusões do mundo… Nós, sacerdotes, devemos estar ali, próximos destas pessoas. Misericórdia significa, antes de tudo, curar as feridas. Quando alguém está ferido, tem necessidade imediata disto, não de análises, como os valores do colesterol, da glicemia… Mas quando há uma ferida, curemo-la e depois vejamos as análises. Em seguida, façam-se os tratamentos com um especialista, mas antes é necessário curar as chagas abertas. Para mim, neste momento, isto é mais importante. E existem também feridas escondidas, porque há pessoas que se afastam, para que não se lhes vejam as feridas… Vem-me ao pensamento o hábito, para a lei mosaica na época de Jesus de afastar sempre os leprosos para que não contagiassem… Há pessoas que se distanciam porque sentem vergonha, aquela vergonha que lhes impede de mostrar as chagas… E afastam-se talvez um pouco melindradas com a Igreja, mas no fundo, lá dentro, há uma ferida… O que elas querem é um afago! E vós, amados irmãos — pergunto-vos — conheceis as feridas dos vossos paroquianos? Conseguis intuí-las? Permaneceis próximos deles? É a única pergunta…

Misericórdia significa nem mãos-largas nem rigor.

Voltemos ao sacramento da Reconciliação. Nem o laxista nem o rigorista dão testemunho de Jesus Cristo, porque nem um nem outro faz bem à pessoa com a qual se encontra. O rigorista lava as próprias mãos: com efeito, fixa-se na lei entendida de modo insensível e rígido; também o laxista lava as próprias mãos: só aparentemente é misericordioso, mas na realidade não leva a sério o problema daquela consciência, minimizando assim o pecado. A verdadeira misericórdia interessa-se pela pessoa, ouve-a atentamente, aproxima-se com respeito e com verdade da sua situação, acompanhando-a no caminho da reconciliação. Sim, não há dúvida, isto é cansativo. O sacerdote verdadeiramente misericordioso comporta-se como o Bom Samaritano… mas porque motivo age assim? Porque o seu coração é capaz de compaixão, é o Coração de Cristo!

Sabemos bem que nem o laxismo nem o rigorismo fazem crescer a santidade. Eles não santificam o sacerdote, nem santificam o fiel; nem o laxismo, nem o rigorismo! Ao contrário, a misericórdia acompanha o caminho da santidade, acompanha-a e fá-la desenvolver-se… É demasiado trabalho para um pároco? É verdade, é demasiado trabalho! E de que modo ele acompanha e faz progredir o caminho da santidade? Através do sofrimento pastoral, que é uma forma de misericórdia. O que significa sofrimento pastoral? Quer dizer sofrer pelas pessoas e com as pessoas. E isto não é fácil! Sofrer como um pai e como uma mãe sofrem pelos seus próprios filhos; permiti que diga, até com ansiedade…

Para me explicar, também eu vos dirijo algumas interrogações, que me ajudam, quando um sacerdote vem ter comigo. Ajudam-me também quando me encontro a sós com o Senhor!

Diz-me: tu choras? Ou perdemos as lágrimas? Recordo que os Missais antigos, aqueles de outrora, contêm uma oração extremamente bonita para pedir o dom das lágrimas. A oração encetava assim: «Senhor, Vós que confiastes a Moisés o mandato de bater na pedra para que dela brotasse a água, batei na pedra do meu coração, para que eu verta lágrimas…»: aquela oração era assim, mais ou menos assim. Era muito bonita! Contudo, quantos de nós choram diante do sofrimento de uma criança, perante a destruição de uma família, diante de tantas pessoas que não encontram o seu caminho? … O pranto do sacerdote… Tu choras? Ou neste presbitério nós perdemos as lágrimas? Tu choras pelo teu povo?

Diz-me, tu recitas a prece de intercessão diante do Tabernáculo? Tu lutas com o Senhor pelo teu povo, como Abraão lutou: «E se houver menos? E se houver só 25? E se houver só 20?…» (cf. Gn 18, 22-33). Aquela prece de intercessão cheia de coragem… Nós falamos de parrésia, de intrepidez apostólica, e pensamos nos planos pastorais, o que é bom, mas também a própria parrésia é necessária na oração. Tu lutas com o Senhor? Debates com o Senhor como fez Moisés? Quando o Senhor estava farto, cansado do seu povo, disse-lhe: «Fica tranquilo… Eu… destruirei todos, e far-te-ei chefe de um outro povo». «Não, não! Se Vós destruirdes o povo, destruireis também a mim!». Mas eles eram intrépidos! E eu faço-vos uma pergunta: também nós somos intrépidos, para lutar com Deus pelo nosso povo?

Dirijo-vos mais uma pergunta: à noite, como terminais o vosso dia? Com o Senhor, ou com a televisão?

Como é o teu relacionamento com aqueles que te ajudam a tornar-te mais misericordioso? Ou seja, como é o teu relacionamento com as crianças, com as pessoas idosas, com os enfermos? Tu sabes acariciá-los, ou tens vergonha de afagar um idoso? Não tenhas vergonha da carne do teu irmão (cf. Reflexiones en esperanza, I cap.). No final, seremos julgados segundo o modo como soubemos aproximar-nos de «cada carne» — como se diz em Isaías. Não te envergonhes da carne do teu irmão! «Aproximemo-nos»: proximidade, afinidade; aproximemo-nos da carne do nosso irmão. O sacerdote e o levita que passaram antes do Bom Samaritano não souberam aproximar-se daquela pessoa maltratada pelos bandidos. O seu coração estava fechado. Talvez o sacerdote tenha visto o relógio, dizendo: «Devo ir à Missa, não posso chegar atrasado para a Missa», e foi embora. Justificações! Quantas vezes nós encontramos justificações, a fim de evitar um problema, uma pessoa. O outro, o levita, ou o doutor da lei, o advogado, disse: «Não, não posso, porque se eu fizer isto, amanhã terei que prestar testemunho e perderei tempo…». Desculpas! … Eles tinham o coração fechado. Mas o coração fechado justifica-se sempre por aquilo que não leva a cabo. Mas o samaritano, ao contrário, abre o seu coração, deixa-se comover nas suas vísceras, e este movimento interior traduz-se em obra prática, numa intervenção concreta para ajudar aquela pessoa.

No fim dos tempos, só serão admitidos à contemplação da carne glorificada de Cristo aqueles que não se tiverem envergonhado da carne do seu irmão ferido e excluído. Confesso-vos — e isto faz-me bem — que às vezes leio o elenco sobre o qual eu serei julgado, faz-me bem: ele encontra-se no cap. 25 de Mateus.

Em Buenos Aires — falo-vos agora de outro presbítero — havia um confessor famoso: ele era sacramentino. Praticamente todo o clero ia confessar-se com ele. Quando João Paulo II pediu um confessor à Nunciatura, numa das duas vezes que veio, ele foi escolhido. É idoso, muito idoso… Foi o provincial da sua Ordem, foi professor… mas sempre confessor, sempre. E na igreja do Santíssimo Sacramento havia sempre fila. Naquela época, eu era vigário-geral e residia na sede da Cúria. Todos os dias de manhã cedo eu descia à sala do fax para ver se tinha chegado algo. E na manhã de Páscoa li um fax enviado pelo superior da comunidade: «Ontem, meia hora antes da Vigília pascal, faleceu o padre Aristi, com 94 — ou 96? — anos. O funeral terá lugar em tal dia…». E na manhã de Páscoa eu tinha que ir almoçar com os presbíteros da casa de repouso — como de costume eu fazia na Páscoa — e então — disse comigo mesmo — depois do almoço irei à igreja. Era uma igreja grande, muito grande, com uma cripta particularmente bonita. Desci à cripta e lá estava o féretro; só estavam presentes duas velhinhas que rezavam, e não havia flores. Pensei: mas este homem, que perdoou os pecados a todo o clero de Buenos Aires, e também a mim, nem sequer uma flor… Subi e fui a um florista — porque em Buenos Aires há floristas nas esquinas, ao longo das ruas, nos lugares onde passam as pessoas — e então comprei algumas flores, rosas… Depois, voltei e comecei a preparar bem o caixão, com as flores… Olhei para o Rosário que ele tinha nas mãos… Veio-me algo imediatamente ao pensamento — aquele ladrão que todos temos dentro de nós, não? — e enquanto eu arranjava as flores, peguei na cruz do Rosário e, com um pouco de força, arranquei-a. Naquele momento olhei para ele e disse: «Concede-me metade da tua misericórdia». Senti uma força que me incutiu a coragem de fazer isto e de recitar aquela oração! Em seguida, coloquei aquela cruz aqui, no bolso. As camisas do Papa não têm bolsos, mas eu trago-a sempre comigo num saquinho de pano e, desde aquele dia até hoje, aquela cruz está comigo. E quando me vem um pensamento mau contra uma pessoa qualquer, a minha mão vem sempre para o peito, sempre. E sinto a graça! Sinto que me faz bem. [aplauso]. Como faz bem o exemplo de um sacerdote misericordioso, de um presbítero que se aproxima das feridas…

Misericórdia. Pensai nos numerosos sacerdotes que se encontram no Céu e pedi-lhes esta graça! Que vos concedam aquela misericórdia que eles mesmos tiveram para com os seus fiéis. Isto faz bem!

Sala Paulo VI, 6 de Março de 2014

Ver versão integral:
 http://www.vatican.va/holy_father/francesco/speeches/2014/march/documents/papa-francesco_20140306_clero-diocesi-roma_po.html

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Questa voce è stata pubblicata il 24/03/2014 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , .

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Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
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