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Onde estás, Senhor?

Onde estás, Senhor?

de Gianfranco Ravasi.

Onde_estas_Senhor-201x300“Onde estás, Senhor?”, do biblista e presidente do Pontifício Conselho da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, parte de uma reflexão sobre o símbolo para refletir sobre um tema que percorre as Escrituras: o espaço.

Com efeito, escreve o prelado italiano na introdução, «a Bíblia é permeada pela perceção do espaço: alguns dos seus lugares tornaram-se familiares a culturas inteiras; em muitos deles articula-se aquele complexo entrelaçado de relações que constitui a história da salvação: Deus e o homem encontram-se num espaço, habitam-no e imprimem nele as marcas da sua presença».

Por isso, «decifrar essas marcas significa reconhecer nelas o sinal luminoso, em constante mutação, de uma realidade diferente e mais complexa, que ainda não está completa, mas que deve ser aguardada na esperança e na fé».

O volume explora a riqueza da simbologia bíblica partindo «metaforicamente de “baixo” para “cima”: começando pelo «espaço habitado, moldado pela perícia do homem que o fez vergar frente às suas próprias necessidades, mas que por vezes abriu nele uma janela, escancarando-a sobre o horizonte sem fim do divino».

A seguir, «o espaço criado, moldado pelas mãos de um Deus que nele imprimiu o selo da sua presença», e por fim «o espaço para lá do espaço, da vida para além da vida terrena, conceptualmente infinito (…), fora do alcance dos vivos, mas testemunha de uma particularíssima modalidade do habitar».

Apresentamos um excerto deste livro, centrado precisamente no Paraíso, esperança além da vida.

O jardim florido do Paraíso

A mais óbvia contrapartida ao simbolismo do Inferno é, claramente, o do Paraíso. Este tema – há que referi-lo – costuma ser alvo de deturpação. Como tem acontecido ao longo da história da tradição cristã, muitos estão convencidos de que o Paraíso enche, com a sua presença, toda a Bíblia. A verdade, porém, não é essa, a começar por aquele célebre «paraíso terrestre» do Génesis, que, na realidade, no texto hebraico, é denominado simplesmente gan, «jardim».

Foi a antiga versão grega dos Setenta, seguida pela tradição subsequente, que denominou esse jardim com um termo raro de origem persa: pairidaeza, em iraniano antigo, pardes; em hebraico, parádeisos; em grego, o nosso «paraíso». Este vocábulo referia-se a um jardim vedado, fértil e florido, e já na antiga língua mesopotâmica, o acádico, pardesu significava «pomar vedado».

Este vocábulo, no Antigo Testamento hebraico, aparece apenas três vezes: uma no Cântico dos Cânticos (4,13) – onde constitui a representação simbólica do horizonte mágico do amor e da intimidade –, e, mais duas vezes, para definir um parque real (em Ne 2,8, onde se fala de um tal Asaf, guardião do «paraíso», parque do rei, e em Ecl 2,5, onde o autor, falando em nome do rei Salomão, se refere aos «paraísos», ou parques reais, e aos jardins por ele cultivados). A ideia do «paraíso terrestre» teve portanto a sua origem neste retrato do jardim do Éden, tornando-se depois popular.

Não faltou, então, quem partisse para a Arábia, para o Iémen ou para a Mesopotâmia na vã tentativa de identificar o verdadeiro jardim do Éden. É verdade que o autor do Génesis talvez tivesse em mente algum cenário exótico das terras do Oriente; todavia, esse jardim continua a ser, a seus olhos, o símbolo de um cosmo pacificado e sereno, sendo para ele uma paisagem existencial ideal, dentro da qual o homem é colocado para guardá-la e cultivá-la. O facto de o horizonte descrito pelo autor sagrado não ser meramente geográfico, mas simbólico, também se revela pela presença, a par da vegetação normal, das duas plantas metafóricas, «a árvore da vida» e «a árvore do bem e do mal», sinais, respetivamente, da imortalidade e da opção moral livre, feita pelo homem entre bem e mal.

O jardim do Éden é, portanto, uma grandiosa representação do projeto divino para a criação, um projeto frustrado pela livre escolha e pela alternativa do homem (cf. Gn 3, com a história do pecado). Todavia, Deus não cessa de atuar para que este seu plano de harmonia se possa realizar. De facto, a meta para a qual Ele aponta é a de chegarmos a ver «novos céus e nova terra», onde a justiça tenha lugar e o homem e a natureza vivam em sereno diálogo. É este o verdadeiro «paraíso», o jardim da felicidade e da paz.

É curioso notar que se o Génesis coloca este «paraíso terrestre» no início da criação e da história (esquema «protológico», como nos habituámos a dizer em linguagem teológica), o livro de Isaías e outras páginas da Bíblia transferem-no para o fim (esquema «escatológico»). Com efeito, o profeta canta a era messiânica futura como um «paraíso», em que «o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo se deitará com o cabrito; o leão e o novilho pastarão juntos […], as suas crias repousarão juntas, o leão comerá palha como o boi. O menino de peito brincará sobre a toca da áspide e a criancinha meterá a mão na cova da víbora. […] A terra estará cheia do conhecimento do Senhor, tal como as águas cobrem o mar» (Is 11,6-9).

Esta apresentação «escatológica» de um jardim «paradisíaco» como espaço de salvação aparecerá várias vezes na Bíblia, mas sempre sem o termo específico de «paraíso». No século VI a.C., o profeta Ezequiel, para incitar à esperança os Hebreus exilados na Babilónia, anunciará uma regeneração da terra, recorrendo à imagem do Mar Morto restaurado para uma nova vida mediante uma água pura e santa, que brota do lado direito do Templo de Jerusalém. Semelhante a uma onda fecundante – lemos no capítulo 47 do livro daquele profeta –, ela não só purifica as águas do Mar Morto, fazendo-as pulular de peixes, mas transforma o Deserto de Judá em jardim: «Ao longo da torrente, nas suas margens, crescerá toda a espécie de árvores frutíferas, cuja folhagem não murchará e cujos frutos nunca cessam: produzirão todos os meses frutos novos, porque esta água vem do Santuário. Os frutos servirão de alimento, e as folhas, de remédio» (Ez 47,12).

Na esteira desta página, o Apocalipse, último livro da Bíblia, que é, por excelência, o canto da escatologia, ou seja, do fim último para o qual está orientada a história, descreverá a cidade santa, a nova e perfeita Jerusalém, caracterizada, precisamente, por um rio e por um jardim verdadeiramente «paradisíaco». São estas as palavras do autor: «Mostrou-me, depois, um rio de água viva, resplendente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e nas margens do rio está a Árvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada mês o seu fruto, e as folhas da árvore servem de medicamento para as nações» (Ap 22,1-2). (…)

Referência à parte merece também o «paraíso» do amor celebrado pelo Cântico dos Cânticos: «Os teus rebentos», diz o amado à sua mulher, «são um paraíso (pardes) de romãzeiras com frutos deliciosos: alfenas e nardos, nardo e açafrão, canela e cinamomo, com toda a espécie de árvores de incenso, mirra e aloés, com todos os aromas mais preciosos» (Ct 4,13-14). A imagem situa-se no interior de uma estrofe poética (Ct 4,12-5,1), em que predomina o simbolismo do jardim irrigado e rico de uma vegetação luxuriante. Desenvolve-se um diálogo entre Ele e Ela, os dois protagonistas do poema bíblico.

Em primeiro lugar, o enamorado canta a beleza da sua mulher e, nas suas palavras, predomina a imagem do jardim irrigado por uma nascente e cheio de vegetação, um símbolo aliás clássico na poesia amorosa. A comparação desenrola-se num crescendo que, no final, transforma o canto do esposo num dueto com a esposa. O jardim está ligado a uma fonte e ambos estão selados, fechados aos estranhos (cf. Ct 4,12). Este tema, alusão bastante clara à castidade da mulher, à sua fidelidade, à exclusividade da posse recíproca dos dois enamorados, também está presente em muitos textos egípcios antigos.

Tendo entrado no jardim, definido como um «paraíso», o amado descobre uma grande exuberância de romãzeiras, a árvore cara ao Cântico, e de outras plantas referidas em número de dez: romãzeira, alfena, nardo (referido duas vezes), açafrão, canela, cinamomo, que é um aroma extraído da casca de uma árvore indiana e utilizado como ingrediente para o bálsamo da consagração (cf. Ex 30,23), incenso arábico, mirra, aloé aromático indiano (diferente do amargo medicinal) e todo o tipo de essências balsâmicas, numa espécie de nuvem perfumada, feita de aromas sagrados e profanos (cf. Ct 4,13-14).

O canto do esposo termina com o retomar, quase à maneira de antífona, de um versículo já utilizado anteriormente na sua essência temática: «Fonte que irriga os jardins, poço de águas vivas, que brotam do Líbano» (Ct 4,15). A mulher é para o homem como uma fonte de águas abundantes e fresquíssimas, alimentada pelas neves da cadeia do Líbano.

A força desta comparação deve ser entendida no contexto da paisagem crestada pelo sol e ressequida da terra de Israel. No itinerário muitas vezes duro e desolado da vida, o amor é como um poço que o homem procura para se dessedentar e revigorar. Esta simbologia do jardim paradisíaco como ventre fecundo, como refúgio de paz e como oásis que oferece frutos e bebida, tem remetido muitas vezes os leitores judeus e cristãos para o Cântico a Sião, jardim perfeito onde Deus acolhe o homem e o enche de bens e de consolações (cf. Sl 46). O cântico transformar-se-ia, então, num hino dos fiéis, que na terra da eleição se sentem acolhidos por um amor infinito, que é o divino, e antegozam a experiência «paradisíaca» da futura e perfeita comunhão com Deus.

Passemos agora às três únicas passagens neotestamentárias em que «espreita» o termo parádeisos, «paraíso». A primeira é paulina e é expressão de uma vivência mística de transcendência e de comunhão divina. Nela o Apóstolo fala de si próprio na terceira pessoa: «Sei de um homem, em Cristo, que, há catorze anos – ignoro se no corpo ou se fora do corpo, Deus o sabe! – foi arrebatado […] até ao Paraíso (parádeisos) e ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir» (2 Cor 12,2-4).

Paulo, portanto, descreve a sua experiência mística em termos de arrebatamento, uma metáfora bíblica clássica para indicar a chegada do justo à eternidade divina e à união com o seu Senhor. A meta desta assunção até Deus é descrita inicialmente como «o terceiro céu», segundo a conceção semita que considerava os céus estratificados (somando três, sete ou dez): para o Apóstolo tratar-se-ia do horizonte supremo transcendente, depois do céu atmosférico e do céu estelar. O importante é notar que esta meta é depois definida, precisamente, como «paraíso»: estamos, portanto, perante um uso do termo em chave claramente escatológica.

A experiência vivida por Paulo é, então, uma espécie de antecipação da imortalidade bem-aventurada, concedida ao justo pela graça divina, depois do seu itinerário terreno.

É nesta perspetiva que se coloca, de modo explícito, a segunda passagem. O evangelista Lucas, na célebre cena dos dois malfeitores (provavelmente revolucionários antirromanos) crucificados com Jesus, coloca na boca de Cristo esta frase em relação ao malfeitor arrependido: «Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23,43). É significativo o paralelo com a súplica do condenado, que pede: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino» (Lc 23,42).

O «paraíso» é, assim, o Reino de Deus, já plantado na história, mas destinado a florir na sua plenitude no horizonte escatológico. O «hoje» de Lucas une em si a dimensão histórica do presente da salvação com a instantaneidade suprema da eternidade a que este convertido chega com Cristo.

Por fim, e sempre segundo esta trajetória, move-se também a terceira passagem paradisíaca neotestamentária. Esta sela a primeira das sete cartas dirigidas a outras tantas Igrejas da Ásia Menor, colocadas no início do livro do Apocalipse. A Igreja de Éfeso recebe esta promessa da parte de Cristo glorioso: «Ao que sair vencedor, dar-lhe-ei a comer da árvore da Vida que está no Paraíso de Deus» (Ap 2,7). É evidente a referência ao jardim do Génesis, a partir de agora relido – segundo a versão grega dos Setenta – como um «paraíso», tal como noutro lugar o mesmo João de Patmos evocará, na sua obra, os Céus onde os justos celebram a liturgia do Cordeiro e esperam a ressurreição final.

De qualquer forma, a promessa é clara: será restaurado o esplendor do paraíso perdido, novamente aberto ao homem, que dele fora expulso. Ele entrará aí e descobrirá que a «árvore da vida» já não é proibida, mas que o próprio Deus oferece o seu fruto, dando assim à criatura humana a participação na vida divina, a comunhão com a eternidade bem-aventurada. A tradição iconográfica subsequente optou muitas vezes por representar esta árvore como se fosse a cruz de Cristo, fonte de salvação e de vida. É com esta árvore que o deserto da história volta a florescer, como se fosse de novo o jardim paradisíaco do Éden.

In Onde estás, Senhor?, ed. Paulinas 27.03.14

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Questa voce è stata pubblicata il 29/03/2014 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , .

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