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Etty Hillesum – Um itinerário espiritual


Etty Hillesum – Um itinerário espiritual

ettyEtty Hillesum – Um itinerário espiritual – Amesterdão 1941-Auschwitz 1943″ revela a «intensa transformação espiritual» da protagonista, «que faria dela um caso raro de serenidade e coragem no caos que, em breve, se abateria sobre a comunidade judaica da Holanda, exposta à desumanidade da ocupação nazi e da sua “solução final” para o “problema judeu”.

A obra organizada pelo padre jesuíta Paul Lebeau, que a Editorial A.O. lançou recentemente, por ocasião do centenário do nascimento de Etty (1914-1943), oferece «abundantes e longas citações» do seu “Diário” e das suas “Cartas”, organizadas tematicamente e brevemente comentadas.

«Este testemunho de uma mulher jovem, apaixonadamente ávida da verdade, não pode senão incitar-nos a que, a seu exemplo, nos tornemos testemunhas fiéis e lúcidas daquilo que nos é dado viver e descobrir, hoje, nesta Europa da qual Etty se sentia cidadã, e cujo destino solidariamente pressentia. Tal como ela escrevia, dois meses antes de desaparecer no anonimato de Auschwitz: “Tenho a sensação de ser um dos inúmeros herdeiros de uma grande herança espiritual. Daqui em diante serei a sua fiel guardiã. Partilhá-la-ei com uma multidão por quanto tempo quanto as forças mo permitirem”.»

Apresentamos alguns dos inúmeros escritos de Etty Hillesum incluídos neste volume.

Etty Hillesum – Um diário espiritual
Etty Hillesum, Paul Lebeau (org.)

«Eu queria apenas dizer-vos: a miséria é grande e, mesmo assim, acontece-me muitas vezes, à noite, quando o dia findo se sumiu, atrás de mim, nas profundezas, caminhar com passo leve ao longo da cerca de arame farpado e acontece-me sentir sempre subir do meu coração – nada posso contra isso, é assim, aquilo vem de uma força elementar – o mesmo encantamento: a vida é uma coisa maravilhosa e grande. Depois da guerra temos de construir um mundo inteiramente novo e, a cada nova imposição que nos façam, a cada nova crueldade, devemos opor um pequeno suplemento de amor e de bondade conquistado sobre nós mesmos. Nós temos o direito de sofrer, mas não de sucumbir ao sofrimento. E se sobrevivermos a esta época sãos de corpo e, sobretudo, de alma, sem amargura, sem ódio, teremos também a nossa palavra a dizer depois da guerra. Talvez eu seja uma mulher ambiciosa: gostaria muito de ter uma modesta palavra a dizer.»

«Depois de uma noite como esta, pensei por momentos, com toda a sinceridade, que voltar a rir seria pecado… Quando penso nos soldados de farda verde da escolta armada… Meu Deus, aquelas caras! Examinei-as uma após outra, encurralada no meu posto de observação, atrás de uma janela. Nunca nada me aterrorizou tanto como aquelas caras. Fiz a mim mesma perguntas sobre esta frase que é o fio condutor da minha vida: “E Deus criou o homem à sua imagem.” Sim, estas palavras tiveram em mim uma difícil manhã…

Tenho de me apressar a escrever tudo, mesmo desordenadamente. Mais tarde já não serei capaz porque já não poderei acreditar na realidade do que se passou… Poderia amaldiçoar-me. Nós sabemos muito bem que abandonamos à fome, ao calor, ao frio, à nudez, ao extermínio, os nossos doentes, os nossos internados sem defesa, e, mesmo assim, nós próprios os levamos até aos vagões para animais, de madeira nua – os abandonamos no maior desamparo sobre as traves de madeira quando eles já não podem andar. Mas que é isto? Que enigmas são estes, de que fatal mecanismo ficámos prisioneiros? Não podemos fugir a estas contradições dizendo que somos todos cobardes. E, aliás, nós não somos tão maus. Encontramo-nos perante questões mais profundas…

Esta tarde, véspera da partida do comboio, voltei a fazer, mais uma vez, a ronda do meu abarracamento da enfermaria, passando de cama em cama. Quais delas estarão vazias amanhã? As listas não são publicadas senão no último momento, mas alguns sabem de antemão que vão partir. Uma rapariga chama por mim. Está sentada, muito direita, em cima da cama, de olhos muito abertos. É uma rapariga de pulsos muito magros, com um rosto fino e diáfano. Está parcialmente paralítica. Acabava exatamente de reaprender a andar, entre duas enfermeiras, passo a passo. “Já lhe disseram? Vou partir. – Como, tu também?” Por momentos, olhamos uma para a outra, com um nó na garganta. Ela deixou de ter cara, não tem senão dois grandes olhos. Acaba por dizer, com uma vozinha baça e monocórdica: “Que pena, hã? Dizer que tudo o que aprendemos na vida não terá servido para nada!” E: “Como é difícil morrer, hein?” Repentinamente, a expressão estranhamente imóvel do seu pequeno rosto desfaz-se. Deixa correr as lágrimas e soltar-se um grito: “Oh, ser obrigada a deixar a Holanda, isso é o pior!” e: “Oh, porque é que eu não pude morrer antes?…” Mais tarde, já de noite, vê-la-ei uma última vez.

Na lavandaria, uma mulher de aspeto simples segura no braço roupa ainda gotejante. Agarra-me quando por ali passo. Tem ar de estar um tanto perdida. Lança sobre mim uma torrente de palavras: “É impossível! Como é possível? Tenho de partir e a minha roupa não vai estar seca para amanhã! E o meu filho está doente, tem febre. Não pode conseguir que eu fique aqui? E nem sequer tenho roupa suficiente para a criança!… Oh, isto é de ficar doida! E dizer que não podemos levar senão um cobertor! Vamos gelar, hein, que pensa a senhora? Tenho cá um primo, chegou quando eu, mas ele não é obrigado a ir porque tem documentos de valor. Acha que posso aproveitar eu também? Peço-lhe, diga que eu não tenho de me ir embora! Sabe se eles deixam ficar os filhos com as mães? Sim, volte cá esta noite, talvez possa ajudar–me. Que diz? Acha que os documentos do meu primo…?”

Quando eu digo: esta noite estive no inferno, pergunto-me o que exprime esta palavra para vós. Disse-o para mim mesma no meio da noite, em voz alta, num tom de constatação objetiva: “É isso, é então isso, o inferno”.

Impossível distinguir entre os que partem e os que ficam. Quase toda a gente está levantada. Os doentes vestem-se uns aos outros. Vários deles nada têm para vestir, a sua bagagem perdeu-se, ou não chegou a vir… preparam-se os biberons de leite para dar aos bebés, cuja gritaria lamentável perfura as paredes dos abarracamentos. Uma mãe jovem diz-me, quase pedindo desculpa: “Habitualmente, o pequeno não chora. Até parece que ele sente o que se vai passar.” Pega nele, um magnífico bebé de oito meses, e diz-lhe a sorrir: “Se não te portas bem, não partes em viagem com a mãe!”… Ela dirige-me um piscar de olho, com um ar matreiro, esta pequena mulher delgada e escura, de tez de azeitona, de rosto espiritual: “Estou a rir, mas estou mais assustada do que parece!”

A mulher da roupa molhada está prestes a ter uma crise de nervos. “A senhora não poderia esconder o meu filho? Peço-lhe, esconda-o, faça isso por mim, ele tem uma febre muito alta, como poderia eu levá-lo?” Ela designa-me um bebé de caracóis loiros, com o rostozinho todo encarnado, que se agita numa cama de madeira para bebés. A enfermeira quer pôr à mãe uma écharpe suplementar de lã sobre o vestido. Ela gesticula: “Não, eu não quero nada, para quê? Meu pequenino…” E soluça: “Uma criança doente, eles tiram-na à mãe e nunca mais a voltamos a ver”.

(…) Os gemidos dos recém-nascidos ampliam-se, enchem os mais pequenos recantos, as mais pequenas fendas deste abarracamento fantasmaticamente iluminado. É quase intolerável. Sobe-me aos lábios um nome: Herodes.»

Tudo o que eu posso dizer é que, para mim, tal como sou, nada é menos abstrato do que isto: Deus não é o artesão do mundo. Ele não o fabricou como um relojoeiro o seu relógio. Ele não constrói coisas que ficam logo prontas. Pelo contrário, Ele retira-Se para que surjam de si mesmos e por si mesmos os seres que Ele suscita… Se Deus interviesse para que fossem evitadas as tentativas, as desordens, as resistências da inércia, os maremotos, as epidemias, o mundo seria para Ele como um objeto que se pode manipular. A nossa imaginação, deslizando para o infantilismo, veria nisso um maior amor, sem dúvida. Mas Deus não ama como nós quereríamos que Ele amasse quando projetamos n’Ele os nossos sonhos. Ele não nos pouparia o sofrimento senão à custa de um paternalismo pelo qual cessaria de ser o Amor. O que há de sério em Deus é o respeito e o sofrimento. Tanto de um como de outro, apenas de muito longe nos podemos aproximar, apoiando-nos sobre a nossa esperança mais alta. Efetivamente, Deus respeita-nos demasiado para evitar, de forma mágica, que soframos e respeita-Se demasiado a Si mesmo para Se poupar o sofrimento do nosso sofrimento.

E quanto ao mal que é obra da nossa liberdade – a violência, a guerra, da qual Levinas diz que ela “suspende a moral” – como é, a este nível, mais exigente e como é mais profundo o sofrimento do Amor criador! Estamos, aqui, em pleno coração do mistério – ouso dizer – da humildade de Deus».

«A força, o amor e a confiança em Deus que temos em nós e que, nestes últimos tempos, crescem tão maravilhosamente em mim, é preciso manter-se disposto a partilhá-los com quem quer seja que, por acaso, cruze o nosso caminho e deles tenha necessidade… Mesmo no sofrimento é possível ir buscar forças… Temos de escolher: pensar em nós próprios sem nos preocuparmos com os outros, ou distanciarmo-nos das nossas preferências pessoais e entregarmo-nos. E para mim, este dom de si [overgave] não é uma resignação, um abandono à morte. É um suster a esperança, onde me for possível estar e onde Deus me colocou.»

«Tu, que tanto me enriqueceste, meu Deus, permite-me que eu também possa dar às mãos cheias. A minha vida transformou-se num diálogo ininterrupto contigo, meu Deus, um longo diálogo. Quando fico parada num canto do campo, com os pés fincados na terra, os olhos levantados para o teu céu, tenho por vezes a cara inundada de lágrimas – único escape da minha emoção interior e da minha gratidão. À noite também, quando, deitada na minha cama, me recolho em Ti, meu Deus, lágrimas de gratidão me inundam às vezes o rosto. É a minha oração.

As lágrimas: esta repercussão corporal – e tão simbólica! – do sentimento de se ser ultrapassado, de estar por vezes submerso pela prova – o que já é uma forma de renunciarmos à nossa «suficiência» – , mas também de ser mais do que cumulado pela experiência, totalmente gratuita, de uma ternura, de uma generosidade, de uma alegria sem medida comum com as magras satisfações que cada um pode tentar obter para si mesmo. De resto, na Bíblia chora-se muito, e nós sabemos que o «dom das lágrimas» faz parte da tradição espiritual da Igreja, que nele vê a graça de uma «confissão», que surge no ponto onde todas as palavras se tornam desadequadas, o ponto da glória e da fidelidade, da proximidade, intimior intimo meo (Santo Agostinho), do Deus “sempre grande”.

Desde há alguns dias que estou muito cansada, mas isso vai passar, como o resto. Tudo progride segundo um ritmo profundo, peculiar a cada um de nós. Devíamos ensinar as pessoas a escutar e a respeitar esse ritmo: é isso que um ser humano pode aprender de mais importante nesta vida. Eu não luto contigo, meu Deus. A minha vida mais não é que um diálogo contigo. Talvez eu nunca seja a grande artista que queria ser, porque estou demasiado bem abrigada em Ti, meu Deus. Por vezes, gostaria de traçar à ponta seca pequenos aforismos e pequenas histórias vibrantes de emoção. Mas a primeira palavra que me vem ao espírito, sempre a mesma, é: Deus. Ela contém tudo e torna todo o resto inútil. Toda a minha energia criadora se converte em diálogos interiores contigo. O bater do meu coração tornou-se mais amplo desde que estou aqui, mais animada e mais apaziguada simultaneamente, e sinto que a minha riqueza interior cresce sem cessar.”

Inexplicavelmente, Jul [Spier] paira sobre a lande, nestes últimos tempos. Ele continua a alimentar-me, dia a dia. Acontecem, mesmo assim, milagres numa vida humana! A minha vida é uma sucessão de milagres interiores. E como é bom poder ainda dizê-lo a alguém.»

In Etty Hillesum – Um itinerário espiritual, ed. A.O. Publicado em 09.10.2014

http://www.snpcultura.org

 

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Questa voce è stata pubblicata il 26/10/2014 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , .

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Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
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