COMBONIANUM – Formazione e Missione

–– Sito di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA –– Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa A missionary look on the life of the world and the church –– VIDA y MISIÓN – VIE et MISSION – VIDA e MISSÃO ––

A árvore da vida /12

A árvore da vida /12
Reflexões sobre o Gênesis por Luigino Bruni


Insubstituível palavra

Isaac “enganou-se” no filho, não na bênção

Não há mãos que me acariciem o rosto, (dura é a missão destas palavras que não conhecem amores) não sei o que seja a doçura dos vossos abandonos: coube-me ser guardião da vossa solidão: sou salvador de horas perdidas” (D.M. Turoldo)

isacco benedice giacobbe5Sem o livro de Job/Jó, o Cântico, os Salmos, o Evangelho de Lucas, o livro do Génesis, a arte, a poesia e a literatura seriam bem diversas; seriam certamente menos belas e mais pobres de palavras. Na base da força da Bíblia – incluindo a força poética – está uma radical, incondicional, absoluta fidelidade à palavra, muito difícil de entender para os leitores do nosso tempo, mas decisiva também para nós.

No ciclo de Isaac a natureza e a força da palavra emergem de uma tensão entre o plano “subversivo” de Rebeca e a vontade de Isaac. A Aliança entre JHWH e Abraão continua com dois gémeos apresentados como rivais, em conflito já no ventre da mãe (“dois gémeos lutavam um contra o outro no seu ventre“, 25,22). Esaútornou-se caçador experimentado, gostava da vida do campo. Jacob/Jacó, por seu lado, era uma pessoa tranquila e apreciava a vida no acampamento” (25,27). Paralelamente é-nos revelada uma predileção cruzada dos pais pelos filhos: “Isaac gostava mais de Esaú“, ao passo que a mãe “Rebeca gostava mais de Jacob/Jacó” (25,28). Sentindo que a morte se aproximava, Isaac pediu a Esaú para ir apanhar algumas peças de caça “para te dar a minha benção antes de morrer” (27,4). Rebeca “tinha estado a ouvir” a conversa e disse a Jacob/Jacó: “filho, ouve agora bem aquilo que te vou dizer… Vai ao rebanho e traz-me de lá dois cabritos bons, que eu vou preparar com eles um prato saboroso como o teu pai gosta … para que ele te dê a benção a ti antes de morrer” (27,8-10). E Jacob/Jacó: “Repare que o meu irmão, Esaú, tem muito pelo no corpo e eu não. Se o meu pai me tocar … dá-me uma maldição em vez de uma benção” (27,11-12). E Rebeca: “Se ele te amaldiçoar, essa maldição será para mim” (27,13). Rebeca “foi então buscar as melhores roupas de Esaú… e vestiu-as a Jacob/Jacó, seu filho mais novo. Com as peles dos cabritos cobriu as mãos e o pescoço dele” (27,15-17). E Jacob/Jacó foi ter com o pai e disse: “Eu sou Esaú, o teu filho mais velho” (27,19). Isaac toca o filho e diz: “A voz parece a de Jacob/Jacó, mas as mãos são as de Esaú” (27,22). Mas depois de sentir o perfume das suas roupas (“Ó meu filho, tu cheiras bem como um campo“, 27,28), pronuncia a sua benção: “Que Deus te conceda a chuva do céu e boas colheitas na terra, com abundância de trigo e de vinho…” (27,28-29). Depois da benção roubada, Esaú regressa da caça, e oferece ao pai as suas iguarias. E Isaac: “Quem és tu?“. Ele respondeu: “Sou Esaú, o teu filho mais velho” (27,32). É aqui que surge a viragem.

Um leitor moderno, que não conhecesse a sequência da narrativa, nesta altura esperaria que a justiça de Isaac o fizesse chamar Jacob/Jacó e revogar a benção, transformando-a porventura em maldição. Mas nada disso acontece: “Isaac ficou terrivelmente preocupado e disse: “O teu irmão veio antes e com astúcia conseguiu levar a benção que te era devida”” (27,35). Isaac reconhece o engano, sofre pelo filho predileto, mas não retira a benção: “Já lhe dei a benção, portanto fica abençoado” (27,33). Esaú “chorou em altos gritos” (27,38). E assim Esaú entra no povo invisível dos descartados mas não abandonados, na companhia de Ismael, Caim e seus muitos filhos.

Para entrar neste complexo episódio, precisamos de suspender o juízo “ético”, renunciar a análises políticas (Esaú torna-se patriarca de povos rivais de Israel) ou psicológicas sobre as atitudes de Jacob/Jacó e Rebeca, para nos concentrarmos sobretudo em Isaac e na lógica da Aliança e da palavra. Isaac é o filho-dom-redoado de Abraão, continuador da Aliança de seu pai e do arco-íris de Noé, herdeiro do Pacto com aquela Voz que tinha criado o mundo dizendo-o, pronunciando-o: a Palavra que chamara Abraão pelo nome, falara com ele e, depois, também com Isaac (26,2-6). Tinham dialogado com o Deus da Palavra criadora, tinham acreditado na força daquelas palavras. As palavras que tinham dito a promessa, que tinham sido eficazes; palavras ditas para sempre.

Então, guardar e ser fiel à Aliança deveria ser também guardar e ser fiel à palavra. Mas para guardar a palavra e não a fazer degenerar, o “preço” a pagar foi a sua irrevocabilidade: se a palavra cria dizendo, então cria sempre e para sempre, mesmo quando diz fazendo fé num filho que nos está a enganar. Isaac não pôde retirar a benção porque aquelas suas palavras eram palavras criadoras, tinham operado, tinham modificado a realidade; de Jacob/Jacó, o oportunista que não olha a meios, tinham feito um abençoado “e portanto abençoado ficará“.

O Génesis – e toda a cultura bíblica – salvou toda a força da Palavra afirmando e salvando também a irreversibilidade das palavras, assumindo todas as suas dolorosas, por vezes dolorosíssimas, consequências – veja-se o caso, extremo, do escandaloso episódio da filha de Jefté (Juízes 11,30-50). Mas foi graças a este guardar a palavra a todo o custo que um dia foi possível escrever: “A palavra fez-se carne” (Jo. 1,14).

Poetas, escritores, jornalistas, todos os que amam e são amigos da palavra, do seu valor e da sua responsabilidade, devem estar gratos a Isaac e ao Humanismo bíblico por ele ter salvo a força criadora da palavra. A nossa cultura deixou que esta força – de ser para sempre – se perdesse. Inundam-nos palavras que já não dizem nada, que se multiplicam; como se a multiplicação de palavras escritas pudesse compensar a morte do poder criador da palavra pronunciada. E assim se enchem os contratos com palavras sem conta, escritas mas jamais pronunciadas, que refletem a desconfiança e a ineficácia das palavras que lhes deveriam dar fundamento.

Mas a força dos contratos escritos só lhes pode vir da força das palavras. Os contratos surgiram como evolução dos pactos que eram – e são ainda – palavras criadoras. Os contratos são papel sem vida, quando por detrás da palavra escrita já nada mais resta de criador e eficaz – quando as civilizações decidiram pôr por escrito pactos, contratos e Lei fizeram-no para dar mais força à palavra dita, não para a substituir.

Hoje podemos encontrar alguma coisa da antiga força das palavras nos  (pouquíssimos)  pactos que não se tornaram ainda apenas contratos. Durante o rito matrimonial, por exemplo, são as palavras dos esposos que criam a nova realidade da “única carne“, palavras que depois são reforçadas e ratificadas pelas assinaturas dos esposos e das testemunhas. Se não existissem antes as palavras criadoras, as assinaturas no registo de casamento nada diriam ou o diriam muito mal. O que faz a família é o dizer-se reciprocamente a promessa; é o encontro das vozes que a cria. Quando pretendemos dizer alguma coisa importante a um familiar ou amigo – um sério pedido de perdão, por exemplo – não basta escrever uma carta, muito menos um e-mail. É preciso falar, dizer “perdoa-me”; é preciso ouvir dizer “estás perdoado”, não basta lê-lo. Todos nós sabemos isso e não deveríamos esquecê-lo. Tal como antigamente, para fundar relacionamentos, famílias, amizades, empresas, precisamos hoje de aprender e reaprender a falar; precisamos de dizer e voltar a dizer uns aos outros os pactos, promessas, alianças e dizê-lo “em voz alta“. Tudo isto vale também para as empresas e para os mercados; quando perdem o contacto com as palavras das pessoas, degeneram e deixam o território do humano. A força da palavra “amo-te” dita a uma pessoa (e a uma só) apenas se entende no interior de uma visão responsável – porque criadora e irreversível – da palavra e das palavras.

O nosso tempo atravessa uma profunda noite da palavra e das palavras e, por isso, corre o risco de morrer afogado num mar de tagarelice, de chat, de sms. Temos absoluta necessidade de nos reconciliarmos e de reencontrar a palavra e as palavras, a sua seriedade e responsabilidade. Para este novo encontro, uma grande e decisiva ajuda poderá vir-nos de escutar e frequentar os poetas. Eles são essenciais para a vida porque criam, fazem viver as palavras e defendem-nas da morte. São essenciais sobretudo nos tempos sem palavra – e por isso sem palavras – que vivemos. Após Leopardi os “lugares” de Recanati e do mundo já não são os mesmos: as meninas são “pequenas donzelas“, as colinas são “ermos“, e os pássaros “solitários“. A sua poesia recriou-os e transformou-os para sempre.

Obrigado Pai Isaac e obrigado Esaú: vocês pagaram um caro preço ao guardar para nós a palavra. Temos a responsabilidade de não malbaratar o dom que nos fizeram.

por Luigino Bruni

publicado em Avvenire em 04/05/2014

 

Annunci

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google photo

Stai commentando usando il tuo account Google. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informazione

Questa voce è stata pubblicata il 30/12/2014 da in A árvore da vida, Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , .

  • 298.682 visite
Follow COMBONIANUM – Formazione e Missione on WordPress.com

Inserisci il tuo indirizzo email per seguire questo blog e ricevere notifiche di nuovi messaggi via e-mail.

Segui assieme ad altri 576 follower

San Daniele Comboni (1831-1881)

COMBONIANUM

Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
p.mjoao@gmail.com

Disclaimer

Questo blog non rappresenta una testata giornalistica. Immagini, foto e testi sono spesso scaricati da Internet, pertanto chi si ritenesse leso nel diritto d’autore potrà contattare il curatore del blog, che provvederà all’immediata rimozione del materiale oggetto di controversia. Grazie.

Categorie

%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: