COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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O fundamentalismo, suicídio do pensamento.

Questões de fé para quem crê e não crê (4):

O fundamentalismo.

Card. Gianfranco Ravasi.

fundamentalismoCada vez que ouvimos a palavra “fundamentalismo”, associamo-la ao islão. É um atalho simplista: por um lado, não é possível reduzir todos os muçulmanos a esta classificação (mesmo se eles estão ainda bem longe de uma leitura “crítica” do Corão); por outro, existe igualmente um fundamentalismo bíblico cristão que se exprime através de diversos grupos religiosos, nomeadamente protestantes, e que começa a tocar alguns movimentos católicos. Poderia esclarecer-nos sobre esta perspetiva?

Trata-se de um domínio muito mais vasto do que a questão da interpretação (ou hermenêutica) de um texto, sobretudo quando ele diz respeito a um texto sagrado ou inspirado por Deus. Detenhamo-nos nas raízes desta degradação da interpretação da Bíblia que é o fundamentalismo, degradação que à primeira vista é paradoxal dado que pretende buscar a maior fidelidade ao texto.

Em 1895, em Fort Niagara, estado de Nova Iorque, reuniu-se o congresso bíblico americano com exegetas protestantes de tendência conservadora. Um documento coroou os seus trabalhos, apresentando cinco verdades bíblicas «fundamentais» incontornáveis e indiscutíveis: a inerrância [infalibilidade] ou a verdade literal das Escrituras, a divindade de Cristo, o seu nascimento virginal, a doutrina da expiação do pecado humano por parte de Cristo, a sua ressurreição corporal e, na sua sequência, a nossa ressurreição corporal, aquando da segunda vinda de Cristo.

Do recurso aos fundamentos da fé nasceu o termo “fundamentalismo”, antes que fosse aplicado a outras correntes religiosas e, por analogia, sobretudo ao mundo muçulmano. A declaração de Fort Niagara foi desenvolvida entre 1905 e 1915 através da publicação de 12 pequenos volumes intitulados “Os fundamentos: um testemunho da Verdade” (The fundamentals), graças, especialmente, a três pastores de diferentes denominações protestantes americanas.

É assim que nasce, em 1919, a Associação Fundamentalista Cristã Mundial (World Christian Fundamentals Association). O interesse pela questão chegou ao grande público com o “Processo do Macaco”, em 1925, quando os fundamentalistas denunciaram ao tribunal um professor de uma escola superior de Dayton, no estado do Tennesse, John Scopes, porque ele ensinava a teoria evolucionista, que, na opinião dos acusadores, minava a doutrina criacionista transmitida pelas Escrituras. O movimento provocou uma cisão nas Igrejas protestantes americanas e, aos poucos, entrou em crise, sobretudo devido ao afrontamento radical da ciência.

O fundamentalismo conheceu um forte renascimento nos anos de 1970, nomeadamente com a utilização de meios televisivos (os famosos telepregadores), as interferências com a política (a “maioria moral” e, mais recentemente, os “teoconservadores”), o apoio de grupos religiosos influentes como as Testemunhas de Jeová e seitas marginais economicamente prósperas, como também, de forma mais discreta, através de movimentos espirituais e carismáticos, ou os famosos “evangélicos”. Ao mesmo tempo, o fundamentalismo expandiu-se na Europa, na África, na Ásia e, de forma muito vigorosa, na América Latina.

Baseando-se numa autêntica exigência de fidelidade doutrinal e, frequentemente, numa boa fé pessoal, esta aproximação ao texto sagrado apoia-se numa metodologia errada porque recorre à via da negação da incarnação e, portanto, da historicidade da revelação cristã. Se «o Verbo se fez carne», então a Palavra de Deus chega até nós através de uma linguagem humana e foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos, com os elementos históricos e culturais do seu mundo, com modelos linguísticos, uma determinada visão do mundo, géneros literários, fraseologia e simbolismos marcados por uma época histórica bem precisa.

Ao ignorar esta dimensão “incarnada”, ao limitar as passagens bíblicas à “letra”, ao rejeitar toda a interpretação correta e toda a análise histórico-crítica, corre-se o risco não apenas de impedir a comunicação que a Bíblia, com a sua linguagem, quer estabelecer, mas também, e paradoxalmente, de chegar a teses opostas.

No que concerne ao Evangelho, os fundamentalistas ignoram que estes textos não são, antes de tudo, uma apresentação direta do Jesus histórico, que a sua redação foi marcada pela fé pascal da Igreja e pelas perspetivas teológicas dos diferentes evangelistas: com essa recusa, como compreender a diversidade entre as “Bem-aventuranças” em Mateus (5, 3-12) e as que se encontram em Lucas (6, 20-26)? Ou se escolhem as primeiras e abandonam-se as segundas (que incluem igualmente as maldições), ou faz-se o inverso. Na realidade, elas respeitam um fenómeno histórico e teológico que faz surgir a incarnação e a atualização da palavra de Jesus no contexto histórico e eclesial da comunidade cristã das origens.

Sob este ângulo, as raízes longínquas do fundamentalismo encontram-se nas fontes da reforma protestante, com o princípio da “Sola Scriptura”. Aplicado mecanicamente, este princípio rejeita a interpretação da Bíblia pela Tradição. É por isso que o fundamentalismo é muitas vezes anti-eclesial e se desenvolve justamente nos meios mais isolados que consideram como diabólico tudo o que se encontra para lá do seu perímetro sectário.

Como é evidente, se a interpretação não segue cânones específicos e rigorosos, tanto na pesquisa histórico-crítica como no domínio teológico, arrisca-se a arruinar-se e a destruir-se até aos fundamentos sob o pretexto de um processo histórico e literário. Mas isso não justifica a negação da realidade das Escrituras, Palavra de Deus nas palavras humanas, que pedem para ser decifradas e compreendidas, e que não são, em caso algum, um ditado divino palavra a palavra.

A Pontifícia Comissão Bíblica sublinhou-o no documento “A interpretação da Bíblia na Igreja”: «O fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele coloca na vida uma falsa certeza, pois ele confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substancia divina dessa mensagem». Mesmo se S. Paulo as emprega noutra perspetiva, podemos aplicar muitas vezes ao fundamentalismo estas palavras: «A letra mata», enquanto que «o Espírito vivifica» (2 Coríntios 3, 6).

Card. Gianfranco Ravasi
Biblista, presidente do Pontifício Conselho da Cultura,
In “150 questions à la foi, ed. Mame”
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
http://www.snpcultura.org/

 

 

 

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