COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

–– Sito di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA –– Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa A missionary look on the life of the world and the church –– VIDA y MISIÓN – VIE et MISSION – VIDA e MISSÃO ––

Redivivo.

Homenagem a uma palavra lida em Herberto Helder.

Gabriel Pacheco 1973 - Mexican Surrealist  Visionary painter - Tutt'Art@ (40)

Por vezes de um dia que vivemos, de um filme, de um poema… por vezes de alguém, conservamos uma palavra. Não saberemos explicar porquê, mas essa palavra aloja-se dentro do nosso pensamento, atravessa vagarosamente os nossos silêncios, fecha-se à chave dentro de nós. Estamos, depois, sempre a vê-la. Anos e anos passaram e nunca pensámos nessa palavra ou no que ela nos traz. E, depois, estamos sempre a vê-la escrita ou a ver letras dispersas que quase, quase a escreveriam. A meio de uma conversa insuspeita, colocamos essa palavra, a testar, para adivinhar como seria se ela nos pertencesse, mas sabemos donde vem essa pequena herança que talvez o acaso, talvez o amor, abandonaram à nossa escuta, como se estivesse em nós a possibilidade de proteger ou até mesmo de salvar esse mundo tão vasto que, às vezes, é na nossa vida uma simples palavra.

Num tempo como o nosso, onde o real se evapora em palavras é difícil amar uma só palavra. As palavras acumulam-se, multiplicam-se, extenuam-nos. A retórica contaminou os nossos hábitos. Recebemos uma educação para o discurso, não para a palavra. Sabemos interpretar os longos períodos, as narrativas, porém uma palavra emudece-nos. A interpretação, como escreveu Susan Sontag (“Against Interpretation”, 1961), é «a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo, para instaurar um mundo espectral de significados. É transformar o mundo neste mundo». Isso sabemos fazer. Mas ser travado, por uma palavra, uma matéria que na sua pobreza aponta, em silêncio, o ilimitado, uma coisa bruta, que não é uma ideia, nem um conceito, nem uma razão para interpretar, apenas um fragmento arrancado ao segredo, apenas um murmúrio surpreendido, entrevisto, desconcerta-nos.

Mas se mesmo assim conservamos uma palavra, se uma ou outra insiste em ocupar-nos, como uma deflagração íntima que não conseguimos justificar, é porque a vida teima em desproteger-se. Em ser vida.

No poema inédito que Herberto Helder publicou como conclusão de “Ou o poema contínuo”, há uma palavra que foi assim para mim. Redivivo. O poema de Herberto é uma admirável reflexão sobre essa palavra que, lembram os dicionários, significa «ressuscitado; o que retornou à vida». Li, muitas vezes, o fim do poema: «Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não/ se sabe o quê que arrancou/ à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície/ de Deus, e assim é/ que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,/ apenas».

Essa mínima palavra caminhou comigo, já não era o livro que eu levava para toda a parte, era uma palavra, a frágil e escondida marca de uma palavra, que, em certas horas, senti que era tudo quanto tinha. Redivivo. Foi por essa mínima palavra que fui reler o penúltimo versículo do Antigo Testamento e aprender, em comentários da apocalíptica judaica, que redivivo é «o que está para vir», o que há de apascentar, da opacidade à luz, os corações. E que, depois, cheguei a um dos primeiros textos cristãos, o Evangelho de Lucas, sobre o qual passo os dias a trabalhar, para descobrir também aí, nesse texto que está, afinal, tão perto de mim, a palavra redivivo. Para minha surpresa era a interrogação que João Batista mandou, por emissários, colocar a Jesus de Nazareth: «És tu o redivivo?». Não sei de pergunta mais bela que um homem tenha feito a outro homem.

José Tolentino Mendonça
Publicado em 24.03.2015
http://www.snpcultura.org/

Ou o Poema Contínuo, de Herberto Helder (A Girafa; 536 páginas; 49 reais) – Considerado por muitos como o maior poeta português contemporâneo, Herberto Helder é um criador obsessivo, que revisa incessantemente as obras que já produziu. Reunindo títulos que vão de A Colher na Boca, de 1961, a Do Mundo, de 1994, Ou o Poema Contínuo é o mais recente resultado dessa revisão sem fim. Em verso geralmente livre, seus poemas cultivam imagens que se aproximam daquele clima de sonho típico do surrealismo: “As pedras cantavam e os mitos davam / a forma das coisas”. Mas a poesia vigorosa de Helder não se enquadra completamente em nenhuma escola ou rótulo.

 

 

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo di WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google photo

Stai commentando usando il tuo account Google. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

Questo sito utilizza Akismet per ridurre lo spam. Scopri come vengono elaborati i dati derivati dai commenti.

Informazione

Questa voce è stata pubblicata il 25/03/2015 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag , , .

  • 350.930 visite
Follow COMBONIANUM – Spiritualità e Missione on WordPress.com

Inserisci il tuo indirizzo email per seguire questo blog e ricevere notifiche di nuovi messaggi via e-mail.

Segui assieme ad altri 760 follower

San Daniele Comboni (1831-1881)

COMBONIANUM

Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
combonianum@gmail.com

Disclaimer

Questo blog non rappresenta una testata giornalistica. Immagini, foto e testi sono spesso scaricati da Internet, pertanto chi si ritenesse leso nel diritto d’autore potrà contattare il curatore del blog, che provvederà all’immediata rimozione del materiale oggetto di controversia. Grazie.

Categorie

%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: