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A teoria do “gotejamento” que não agrada ao papa.

“Não basta deixar cair algumas gotas
quando os pobres agitam essa taça que nunca derrama por si só”

desigualdade-social

A teoria do “gotejamento” que não agrada ao papa.

 Poucos notaram, mas, no discurso aos movimentos populares pronunciado no dia 9 de julho, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, o Papa Francisco voltou a citar, embora de passagem, a teoria do “trickle-down”, ou seja, do “gotejamento”, segundo a qual os benefícios concedidos às classes mais ricas – por exemplo, do ponto de vista fiscal – favorecem toda a sociedade e “gotejam” também sobre os pobres. Substancialmente, segundo essa tese, quando o líquido (a riqueza) dentro do copo aumenta, em certo ponto, transborda e escorre para baixo, provocando repercussões favoráveis tanto sobre a classe média quanto sobre os mais pobres. A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 16-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco tinha falado sobre isso no número 54 da exortação apostólica Evangelii gaudium (novembro de 2013). “Alguns defendem ainda as teorias da ‘recaída favorável’ que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Essa opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar”.

Poucas semanas depois, respondendo a uma pergunta do jornal La Stampa e do sítio Vatican Insider sobre as críticas recebidas dos Estados Unidos, o Papa Bergoglio havia mencionado novamente a teoria do “trickle-down”: “Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi para as teorias da ‘recaída favorável’, segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres se beneficiariam. Ao contrário, acontece que, quando ele está cheio, o copo magicamente cresce e, assim, não sai mais nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito: eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista”.

Embora indireta, uma referência a essas teorias também se encontra na recente encíclica Laudato si’, dedicada à proteção da criação, que liga inextricavelmente o tema da proteção do ambiente ao da justiça social. “Em alguns círculos – escreve Francisco –, defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com linguagens não acadêmicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. Não é uma questão de teorias econômicas, que hoje talvez já ninguém se atreva a defender, mas da sua instalação no desenvolvimento concreto da economia” (n. 109).

Em uma passagem posterior da mesma encíclica, o papa observa: “Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos” (n. 190).

A essas citações, agora se acrescentou um trecho do discurso aos movimentos populares, que Francisco proferiu em Santa Cruz de la Sierra, no dia 9 de julho passado, durante a viagem para a Bolívia. Um texto que pode ser considerado como uma “miniencíclica” social.

O papa primeiro observou: “A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a carga é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, muito especialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos. E essas necessidades não se limitam ao consumo”.

Depois, acrescentou, com evidente referência à teoria do “trickle-down”: “Não basta deixar cair algumas gotas quando os pobres agitam essa taça que nunca derrama por si só. Os planos assistenciais que atendem certas urgências só deveriam ser pensados como respostas passageiras, conjunturais. Nunca poderiam substituir a verdadeira inclusão: a que dá trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário”.

Há alguns meses, na entrevista publicada no livro Papa Francesco: Questa economia uccide (Ed. Piemme), o professor Stefano Zamagni, professor de economia política da Universidade de Bolonha, explicou por que Bergoglio tem razão do ponto de vista científico.

“A tese da ‘recaída favorável’ – afirma o estudioso – é conhecida na literatura econômica como tese ‘do ‘efeito de gotejamento’, eficazmente emprestada do aforisma – usado pela primeira vez, ao que parece, pelo economista norte-americano Alan Blinder – segundo o qual ‘uma maré que cresce levanta todos os barcos’. Durante muito tempo, o pensamento neoliberal acredito nela: portanto, não seria preciso se preocupar com a distribuição da renda e das riquezas, porque, depois, todos acabarão ficando melhor. O importante é aumentar as dimensões da torta (o PIB), sem se preocupar com o corte das fatias individuais. Está aí o fundamento do bem conhecido ditado dos conservadores: ‘Não nos preocupemos com os pobres, porque, para cada rico a mais, há um pobre a menos'”.

“Pois bem – acrescentava Zamagni – o papa nos diz que, nas atuais condições históricas (globalização dos mercados e financeirização da economia), o efeito de gotejamento não pode mais se verificar, como qualquer economista não cego por posições preconcebidas sabe muito bem (…) Portanto, o papa tem razão sob o perfil científico”.

Segunda, 20 de julho de 2015

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