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FP.pt 4/2015 – Contra as três líbidos: resistir.

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Há três dominantes fundamentais que atuam sobre as esferas humanas do amar, do ter e do querer: a dominante do eros (libido amandi), a dominante da posse (libido possidendi), a dominante do poder e da afirmação de si (libido dominandi). Diante destes decisivos riscos, a ‘luta interior’ é o caminho através do qual, no espaço da liberdade e do amor, se aprende a ‘arte da resistência’ às tentações e a ‘arte da escolha’.
A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 29-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

File PDF    FP.pt 2015-4 Enzo Bianchi – Contra as três líbidos
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Não é possível a edificação de uma personalidade humana e espiritual robusta sem a luta interior, sem um exercício ao discernimento entre bem e mal, de modo a chegar a dizer “sins” convencidos e “nãos” eficazes: “sim” ao que podemos ser e fazer para viver uma vida humana digna desse nome; “não” às pulsões idolátricas e egocêntricas que nos alienam e contradizem as nossas relações com nós mesmos, com os outros e com as coisas e, para quem crê, com Deus: relações chamadas a ser marcadas por liberdade e amor.

Nesse sentido, eu gostaria de analisar três dominantes fundamentais que atuam sobre as esferas humanas do amar, do ter e do querer: a dominante do eros (libido amandi), a dominante da posse (libido possidendi), a dominante do poder e da afirmação de si (libido dominandi).

1. A dominante do eros (libido amandi)

O homem encontra o sentido da sua vida no amar, e o eros é a pulsão fundamental que o habita, é parte integrante da sua fome de amor. No entanto, ele também deve encontrar limites, isto é, deve ser atravessado pela dinâmica do desejo. O eros deve aceitar a diferença e a distância: não é por acaso que o interdito primário fundamental em todas as culturas é o do incesto.

Em um tempo em que a imagem é galopante, enquanto se perdeu o valor do símbolo, o eros é mais espetacularizado do que vivido na suas profundidade. E talvez esteja aqui, na atual tirania da imagem, a raiz da idolatria da esfera erótica: a idolatria é construção de uma imagem para substituir a realidade, é fuga no imaginário, perdendo a adesão à realidade e evitando também as dificuldades, os sofrimentos, as angústias que ela traz consigo. Na imagem publicizada, a sexualidade é vivida sem angústias, sem conflitos: eis a ilusão sedutora do erotismo tornado ídolo, às custas de uma sexualidade despersonalizada, sem mais nenhum valor simbólico, sem o outro, sem o seu rosto. Nesse sentido, não se pode esquecer o imperante exercício da sexualidade virtual, consumida online, além da pornografia disponível na rede sob várias formas…

Como lutar nesse âmbito? O dominante do eros deve fugir da coisificação do outro e da perversão do desejo, para voltar a ser dinamismo de encontro e imersão no mistério de comunhão em que o homem e a mulher expressam o seu amor, até celebrá-lo naquela que João Paulo II ousava chamar de “liturgia dos corpos”. Nesse caminho, é preciso se exercitar na ascese humana, na luta contra a despersonalização da pulsão e a reificação da sexualidade.

2. A dominante da posse (libido possidendi)

O ser humano não tem só o direito, mas também o dever de viver uma relação com as coisas e com os bens: sem essa relação que lhe permite satisfazer a necessidade de pão, de casa e de roupas, o homem não constrói a si mesmo e não vive aquela plenitude que lhe cabe como homem e que a fé cristã lê como vocação para ser pastor, rei e senhor dentro da criação.

No entanto, nessa relação com as coisas, é grande a tentação idolátrica, a sedução do anseio pela posse. Mas quando a relação com as coisas se torna idolátrica? Quando a posse se torna um fim em si mesmo, justificando também qualquer meio a fim de obtê-lo, quando se quer afirmar “o meu” e “o teu” – essas frias palavras, diziam os Padres da Igreja! –, contradizendo uma elementar exigência de justiça e desconhecendo o destino universal dos bens. Há, portanto, um claro discernimento a ser feito: ou sermos guiados pelo dinamismo da comunicação e da comunhão, ou sermos alienados pela dominante da posse, tertium non datur.

Neste tempo de crise da interioridade, de remoção da interioridade da esfera da existência, grande é a tentação de se deixar definir por aquilo que se tem, ou, correlativamente, por que se faz, em suma, por aquilo que é visível e quantificável, por aquilo que é exterior: pela imagem que o outro vê. Cada vez mais, nesse pseudocultura, o outro é entendido não como diferente com o qual se pode comunicar, mas como espectador: em particular espectador do meu sucesso, da minha riqueza.

Certamente, o anseio por possuir responde a uma forma de angústia e de luta contra a morte, a uma busca de onipotência e de tranquilização que vêm da sensação de poder adquirir tudo, eliminar as necessidades satisfazendo-as imediatamente. Afinal, vivemos em um canto do mundo em que é possível a satisfação de qualquer necessidade, mas em que se perdeu o sentido da autêntica necessidade, da necessidade real: muitas vezes, as necessidades são induzidas, criadas, mas exigem, com toda a força do ídolo, uma força que repousa em uma radical inconsistência, a satisfação.

Começa-se a desejar a posse de uma coisa e, pouco a pouco, o anseio por possuir leva a não considerar os outros: quer-se tudo e já, mesmo às custas dos outros. Esse aspecto surge com força particular da constatação do sentimento generalizado de irresponsabilidade com relação àqueles que virão depois de nós. O “tudo e já” se torna também “tudo é meu”, “tudo é nosso”.

Aqui, a luta exige da parte de cada um a capacidade de pôr uma distância entre si mesmo e as riquezas, para não cair no terrível equívoco daqueles que se deixam definir por aquilo que possuem. É preciso sair da lógica estreita e angustiada do “meu” e do “teu”, para entrar na liberdade da partilha e da comunhão dos bens.

3. A dominante do poder e da afirmação de si (libido dominandi)

A última tentação “mãe” é a do poder, da afirmação de si sobre os outros: a libido dominandi, talvez o ídolo que requer a adoração mais total, quando chega até a exigir o sangue dos outros nossos irmãos e irmãs em humanidade. Não por acaso, para o Apocalipse de João, esse ídolo chega a assumir os traços do próprio Deus (cf. Ap 13), a se travestir de Deus para ver voltadas a si a adesão e a adoração que devem ir somente a Deus.

Ora, é evidente que o homem é um ser-em-relação e, por conseguinte, exerce uma influência sobre os outros, pelos quais, por sua vez, é influenciado: desse jogo relacional brota a criação de uma vida comum, a construção de uma cidade, de uma polis, a edificação de uma convivência. Mas quando se passa da lógica da inter-relação e da troca – em que a presença dos outros é vista como positiva e sentida como essencial – a uma afirmação de si contra ou acima dos outros, quando se transforma o próprio eu em absoluto, quando nos deixamos inebriar pela sede de poder, então se precipita na idolatria.

Se não for freada e se não receber um limite, a libido dominandi se torna o ídolo mais devastador em nível social e político. Segundo Julia Kristeva, ele é a forma culminante do narcisismo e leva o indivíduo ou o sujeito político ou institucional a olhar para si mesmo como para Deus. Mas o resultado sociopolítico de um narcisismo extremo é o poder totalitário, ditatorial. Uma instituição, um partido, um sistema que faça de si mesmo e da sua própria sobrevivência o único fim ou, melhor, que se considere depositário do único e verdadeiro bem para todos, bem que, portanto, poderá e deverá ser imposto a todos, torna-se liberticida. Isto é, incapaz de aceitar que haja quem tome e mantenha uma distância dele, que conserve uma alteridade, uma diversidade.

Não por acaso, uma sociedade como a nossa, em forte condição de instabilidade e de crise, carente de ideais coletivos, esfacelada no seu tecido social, com perda de confiança nas instituições políticas, vê surgir o culto à personalidade e crescer os fenômenos de personalização e de espetacularização de todos os poderes. E torna-se assim terreno de possíveis soluções políticas “idolátricas”.

Diante desses riscos decisivos, a luta interior é o caminho através do qual, no espaço da liberdade e do amor, aprende-se a arte da resistência à tentação e da arte da escolha. Ter um coração unificado, um coração puro, sensível e capaz de discernimento, um coração que cuide e gere pensamentos de amor: eis o objetivo do combate e da resistência interior, arte realmente apaixonante. É necessária uma grande luta anti-idolátrica para sermos livres para servir e amar cada homem, cada mulher, cada criatura; em suma, para chegar a fazer da nossa vida humana uma obra-prima.

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