COMBONIANUM – Formazione e Missione

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FP.pt 8/2015 – Provocações do Papa aos sacerdotes e consagrados.

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Da espiritualidade do zapping ao Alzheimer espiritual!

Durante a Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Equador, Bolívia e Paraguai (5-13 de Julho de 2015) ele encontrou os sacerdotes, religiosos e seminarista nestes países. Destes três discursos resulta uma pequena antologia, rica, variada e vivencial, um instrumento particularmente estimulante neste Ano da Vida Consagrada.

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Encontro com o Clero, Religiosos/as e Seminaristas do EQUADOR:
Por favor, não cobrem a graça!

Bom dia, irmãos e irmãs,
Nestes dois dias, 48 horas, que tive contacto convosco, notei que havia algo estranho – perdão – algo estranho no povo equatoriano. Onde quer que vá, a recepção é sempre alegre, feliz, amigável, religiosa, piedosa, em todos os lugares. Mas no que se refere à piedade, no modo, por exemplo, de pedir a bênção do mais idoso ao wawa, a primeira coisa que que se aprende é fazer este gesto [de unir as mãos]. Havia algo diferente, e eu também tive a tentação, como o bispo de Sucumbíos, de perguntar: Qual é a receita deste povo? Qual é? E fiquei dando voltas na minha cabeça e rezava; Perguntei a Jesus várias vezes na oração: O que tem este povo de diferente? E esta manhã, orando, lembrei-me da consagração ao Sagrado Coração.

Eu acho que devo transmiti-lo como uma mensagem de Jesus: Toda essa riqueza que tendes, riqueza espiritual, piedade, profundidade, vem de ter tido a coragem – porque eram tempos muito, muito difíceis –, a coragem de consagrar a nação ao Coração de Cristo, esse coração divino e humano que nos ama tanto. E noto-vos um pouco com isso: divinos e humanos. Claro que sois pecadores, eu também… mas o Senhor perdoa tudo. Protegei esta realidade! E então, alguns anos depois, veio a consagração ao Coração de Maria. Não vos esqueçais: essa consagração é um marco na história do povo do Equador e percebo como que essa graça que tendes, essa piedade, essa realidade que vos torna diferentes, vem dessa consagração.

Hoje eu tenho que falar aos sacerdotes, seminaristas, religiosos, religiosas e dizer-vos alguma coisa. Tenho um discurso preparado, mas não quero lê-lo. Portanto, eu o entrego ao Presidente da Conferência dos Religiosos para torná-lo público mais tarde.

Duas palavras de Maria: gratuidade e memória

E eu pensava na Virgem, pensava em Maria. Há duas palavras de Maria – agora a memória está falhando-me –, não sei se ela disse outra palavra: «Faça-se em mim». Bem, de facto, Ela pediu uma explicação ao anjo sobre por que a tinham escolhido. Mas, mesmo assim, Ela diz: «Faça-se em mim». E outra palavra: «Fazei o que Ele vos disser». Maria não protagonizou coisa alguma. Ele discipuleou a vida inteira. A primeira discípula de seu Filho. E Ela tinha consciência de que tudo o que possuía era puro dom de Deus. A consciência da gratuidade. Por isso, «Faça-se» e «fazei», que se manifeste a gratuidade de Deus.

1. Todas as noites voltai a situar-vos na gratuidade

Religiosas, religiosos, sacerdotes, seminaristas, todos os dias, voltai, fazei este caminho de volta para a gratuidade com que Deus vos escolheu. Vós não pagastes a entrada para entrar no seminário, para entrar na vida religiosa. Vós não o merecestes. Se algum religioso, sacerdote ou seminarista ou uma freira que está aqui acredita que o merecia, que levante a mão. Tudo é gratuito. E a vida inteira de um religioso, de uma religiosa, de um sacerdote e de um seminarista tem de ir por este caminho – e, já que estamos aqui, digamos também –, a vida dos bispos têm de ir por este caminho da gratuidade, voltar todos os dias: «Senhor, hoje eu fiz isso; aquilo deu certo; tive esta dificuldade; todas essas coisas eu fiz, mas … tudo vem de Ti, tudo é de graça». Essa gratuidade. Somos objecto da gratuidade de Deus. Se esquecermos disso, pouco a pouco, vamos nos considerando importantes para nós. E assim «Veja só o fulano, quantas obras está fazendo» ou «Veja só, fizeram a este outro bispo… como é importante, este aqui, fizeram-no monsenhor, ou a este tal…». E assim lentamente vamo-nos afastando daquilo que é a base, daquilo que Maria nunca se afastou: a gratuidade de Deus. Um conselho de irmão: todos os dias, à noite quando poderia ser melhor, antes de ir dormir, olhes para Jesus e diz-lhe: «Deste-me tudo de graça», e volta a situar-te. Assim, quando me mudarem de destino, ou quando houver uma dificuldade, não reclamo, porque tudo é gratuito, eu não mereço nada. Isso foi o que fez Maria.

São João Paulo II, na Redemptoris Mater – que recomendo que leiais; sim, tende-la em mãos, lede-la. É verdade, o Papa São João Paulo II tinha um estilo de pensamento circular, de professor, mas era um homem de Deus; então é preciso lê-la várias vezes para poder obter todo o suco que está contido nela – e ele diz que Maria – não me lembro bem a frase, estou a citar, mas o que eu quero é mencionar o facto – no momento da cruz da sua fidelidade poderia ter querido dizer: «E falaram-me que Ele [Jesus] iria salvar Israel! Enganaram-me!». Ela não o disse. Nem se permitiu pensar nisso, porque era a mulher que sabia que tinha recebido tudo gratuitamente. Um conselho de irmão e de pai: todas as noites voltai a situar-vos na gratuidade. E dizei: «Faça-se. Obrigado por tudo que Tu me deste».

2. Não caiais no Alzheimer espiritual

A segunda coisa que eu queria dizer é que cuideis da saúde, mas acima de tudo, que cuideis para não cair numa doença, uma doença que é meio perigosa, ou melhor, que é inteiramente perigosa para nós, aqueles que o Senhor chamou gratuitamente para O seguir ou servir. Não caiais no Alzheimer espiritual; não percais a memória, especialmente a memória de onde eu fui tirado. Pensemos na cena de quando o profeta Samuel foi enviado para ungir o rei de Israel: vai a Belém, até à casa de um senhor chamado Jessé, que tem de 7 ou 8 filhos -não sei bem –, e Deus lhe diz que entre estes filhos estará o rei. E, claro, ele os vê e diz: «Deve ser este», porque o mais velho era alto, grande, bonito, bem presentado, parecia valente… E Deus o diz: «Não, não é este». O olhar de Deus é diferente daquele dos homens. E assim fez passar todos os filhos de Jessé e Deus o diz: «Não, não é». E o profeta se encontra sem saber o que fazer; e em seguida, pergunta a Jessé: «Então, não tens outro filho?». E ele responde: “Sim, há o menor que está a cuidar das cabras e das ovelhas». «Mande-o chamar» e eis que vem o rapazinho, que devia ter entre 17 e 18 anos – não sei bem – e Deus o diz: «É este». Tiraram-no do cuidado do rebanho. E outro profeta, quando Deus lhe diz para fazer certas coisas como um profeta, contesta: «Mas quem sou eu, se fui tirado do cuidado do rebanho». Não vos esqueçais de onde fostes tirados. Não renegueis as raízes.

Vê-se que São Paulo intuía este perigo de perder a memória e ao seu filho mais querido, o bispo Timóteo, a quem ordenara, lhe dá conselhos pastorais, entre os quais há um que toca o coração: «Não te esqueças da fé que tinham a tua avó e tua mãe», o que significa dizer: «Não te esqueças de onde te tiraram, não te esqueças das tuas raízes, não te sintas promovido». A gratuidade é uma graça que não pode conviver com a promoção e, quando um sacerdote, um seminarista, um religioso, uma religiosa entra na carreira – não o digo por mal, na carreira humana – começa a ficar doente de Alzheimer espiritual e começa a perder memória de onde foi tirado.

Dois princípios para vós sacerdotes, consagrados e consagradas: todos os dias renovai o sentimento de que tudo é gratuito, o sentimento de gratuidade na eleição de cada um de vós – ninguém entre nós a merece – e peçais a graça de não perder a memória, de não sentir-se mais importante. É muito triste quando alguém vê um sacerdote ou um consagrado, consagrada, que na sua casa falava o dialecto ou falava outra língua, uma dessas nobres línguas antigas que os povos têm – o Equador possui muitas – e é muito triste quando essa pessoa esquece a língua; é muito triste quando essa pessoa não quer falar nessa língua. Isso significa que se esqueceram de onde foram tirados. Não vos esqueçais disso, pedi a graça da memória, são estes os dois princípios que eu queria destacar.

Dois princípios vividos por meio de duas atitudes

E estes dois princípios, se os viveis – mas todos os dias, trata-se de um trabalho diário, todas as noites lembrai destes dois princípios e pedi a graça – se viveis estes dois princípios, os vivereis por meio de duas atitudes.

1. Em primeiro lugar, o serviço: Por favor, não cobrem a graça!

Deus me escolheu, me tirou de algum lugar. Para quê? Para servir. E servir num serviço que me é peculiar. «Mas eu devo ter o meu tempo… devo fazer essa coisa… não posso…, que eu já estou por fechar a secretaria… sim é verdade que eu tinha que ir abençoar as casas mas… não posso, estou cansado…» ou – aqui falo com as freirinhas: «hoje se transmite uma bela telenovela na televisão…». Serviço, servir, servir, e não fazer outra coisa, e servir quando estamos exaustos e servir quando as pessoas nos cansam.

Dizia-me um velho padre, que por toda a sua vida foi professor em colégios e na universidade, leccionava literatura, letras, era um génio… Quando se aposentou, pediu ao provincial de envia-lo para um bairro pobre, um desses bairros formados de pessoas que vêm, que migram à procura de trabalho, pessoas muito simples. E este religioso, uma vez por semana, ia para a sua comunidade religiosa e conversava; ele era muito inteligente. E a comunidade era uma comunidade de faculdade de teologia; Ele falava com os outros sacerdotes da teologia no mesmo nível, mas um dia ele disse a um deles: «Vós que sois [professores]… Quem aqui dá aulas sobre o tratado da Igreja? O professor levanta a mão: «Sou eu». «Faltam duas teses no teu tratado». «Quais?». «Que o santo Povo fiel de Deus é essencialmente olímpico, ou seja, faz o que quer, e ontologicamente cansativo». E isso tem muita sabedoria, porque quem vai pelo caminho do serviço deve deixar-se cansar sem perder a paciência, porque está ao serviço, nenhum momento lhe pertence. Devo estar para servir, servir naquilo que devo fazer, servir diante do sacrário, pedindo pelo meu povo, pedindo pelo meu trabalho, pelas pessoas que Deus me confiou.

Serviço, misture-o com a gratuidade e então… [se viverá] aquilo que Jesus disse: «O que de graça recebestes, de graça deveis dar». Por favor, por favor, não cobrem a graça; por favor, que a nossa pastoral seja gratuita. É muito feio quando alguém vai perdendo esse sentido de gratuidade… Sim, faz coisas boas, mas perdeu esse sentido.

2. A segunda atitude é o júbilo e a alegria

E a segunda atitude que se nota em um consagrado, uma consagrada, um sacerdote que vive esta gratuidade e esta memória – estes dois princípios dos quais falei ao início, memória e gratuidade – é o júbilo e a alegria. E isso é um dom de Jesus, e é um dom que Ele dá, que Ele nos dá se o pedimos e se não nos esqueçamos daquelas duas colunas da nossa vida sacerdotal ou religiosa, que são o sentido da gratuidade, renovado todos os dias, e não percamos a memória de onde nos tiraram.

Desejo-vos isso. «Sim, Padre, tu nos falaste que a receita do nosso povo talvez fosse… que somos assim por causa da consagração ao Sagrado Coração». Sim, isso é verdade, mas eu vos proponho outra receita, que está na mesma linha, na mesma linha do Coração de Jesus: um sentido de gratuidade. Ele fez-se nada, abaixou-se, humilhou-se, fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. Pura gratuidade. E sentido de memória… e fazemos memória das maravilhas que o Senhor fez na nossa vida.

Que o Senhor vos conceda esta graça a todos, nos conceda a todos nós que estamos aqui, e que continue – estava por dizer “a premiar” – que continue a abençoar este povo equatoriano a quem tendes que servir e sois chamados a servir. Que Deus continue a abençoá-lo com essa peculiaridade tão especial que eu notei desde o início, ao chegar aqui. Que Jesus vos abençoe e a Virgem Maria vos cuide.

Rezemos juntos ao Pai, que nos deu tudo gratuitamente, que nos mantém a memória de Jesus connosco. [Pai Nosso …] Que o Deus Todo-Poderoso vos abençoe, Pai, Filho e Espírito Santo. E, por favor, por favor, peço-vos que rezeis por mim, porque eu também sinto muitas vezes a tentação de me esquecer da gratuidade com a qual Deus me escolheu e de esquecer-me de onde me tiraram. Pedi por mim.

Santuário Nacional Mariano “El Quinche”, Equador, Quarta-feira, 8 de Julho de 2015

Encontro com o Clero, Religiosos/as e Seminaristas da BOLÍVIA:
Não negues as tuas raízes!

Queridos irmãos e irmãs, boa tarde!

Estou contente com este encontro convosco para partilhar a alegria que enche o coração e a vida inteira dos discípulos missionários de Jesus. Assim o manifestaram as palavras de saudação de D. Roberto Bordi e os testemunhos do Padre Miguel, da Irmã Gabriela e do seminarista Damián. Muito obrigado por terem partilhado a própria experiência vocacional.

E no relato do Evangelho de Marcos, ouvimos também a experiência de outro discípulo, Bartimeu, que se juntou ao grupo dos seguidores de Jesus. Foi um discípulo da última hora. Era a última viagem que Senhor fazia de Jericó a Jerusalém; aqui Ele seria entregue. Cego e mendigo, Bartimeu estava na beira do caminho – mais exclusão que isso, impossível! -, marginalizado; quando, porém, soube que era Jesus que passava, começou a gritar, fez-se sentir, como esta irmãzinha que com a bateria se fazia escutar e dizia “estou aqui”. Felicito-te, tocas bem.

Ao redor de Jesus, caminhavam os apóstolos, os discípulos, as mulheres que habitualmente O seguiam, com quem percorreu durante a sua vida pública os caminhos da Palestina para anunciar o Reino de Deus. E uma grande multidão. Se traduzimos isto, forçando a linguagem, em torno a Jesus iam os bispos, os padres, as freiras, os seminaristas, os leigos comprometidos, todos os que seguiam-no, escutando a Jesus, junto com o povo fiel de Deus.

Três reacções ao grito dos pobres

Aparecem aqui duas realidades, que se nos impõem com força. Por um lado, o grito, o grito do mendigo e, por outro, as diferentes reacções dos discípulos. Pensemos nas diferentes reacções dos bispos, padres, freiras, seminaristas aos gritos que vamos escutando ou não escutando. Quase parece que o Evangelista nos queria mostrar que tipo de eco encontra o grito de Bartimeu na vida das pessoas, na vida dos seguidores de Jesus; mostrar como reagem perante o sofrimento de quem está na beira da estrada, com quem ninguém se importa – no máximo dão uma esmola – da pessoa que está sentada na sua dor, que não entra neste círculo de pessoas que está seguindo o Senhor.

São três as respostas aos gritos do cego e hoje também estas três respostas têm actualidade. Poderíamos exprimi-las com as palavras do próprio Evangelho: ‘Passar”; “Cala-te”; “Coragem, levanta-te”.

1. Passar: espiritualidade do zapping

Passar ao largo; alguns, porque não ouvem. Estavam com Jesus, olhavam a Jesus, queriam ouvir Jesus. Não escutavam. Neste passar, temos o eco da indiferença, do passar ao lado dos problemas, procurando que estes não nos toquem. “Não é meu problema”. Não os ouvimos, não os reconhecemos. Faz-se ouvidos surdos. É a tentação de ver como coisa natural a dor, a tentação de habituar-se à injustiça. Sim, há gente assim: eu estou aqui com Deus, com a minha vida consagrada, escolhido por Jesus para o ministério e, sim, é natural que existam doentes, que existam pobres, que existam pessoas que sofrem; e como já é tão natural, não chama-me atenção um grito, um pedido de auxílio. Acostumar-se. E dizemos cá para nós: é normal, sempre foi assim, com tal que não me toque – mas isto entre parêntesis. É o eco que aparece num coração blindado, num coração fechado, que perdeu a capacidade de admiração e, portanto, a possibilidade de mudança. Quantos seguidores de Jesus corremos o perigo de perder a nossa capacidade de admiração, inclusive com o Senhor? Este estupor do primeiro encontro vai como que se degradando, e isso pode passar com qualquer um, passou com o primeiro Papa: «Para onde iremos Senhor, só tu tens palavras de vida eterna?”. E depois o trai; nega-o, a admiração se degradou. É tudo um processo de acostumar-se. Um coração blindado. Trata-se de um coração que se habituou a passar sem se deixar tocar; uma existência que, andando por aqui e por ali, não consegue radicar-se na vida do seu povo, simplesmente porque faz parte desta elite que segue ao Senhor.

Poderíamos chamá-la a espiritualidade do zapping. Passa e volta a passar, mas não fica nada. São aqueles que correm atrás da última novidade, do último «bestseller», mas não conseguem entrar em contacto, não conseguem relacionar-se, envolver-se inclusive com o Senhor a quem estão seguindo, porque a surdez progride.

Podereis dizer-me: «É que essas pessoas estavam seguindo o Mestre, estavam atentas às palavras do Mestre; estavam a ouvi-Lo». Julgo que isto é o maior desafio da espiritualidade cristã. Como nos lembra o evangelista João: «aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20b). Eles acreditavam que escutavam o Mestre, mas também traduziam, e as palavras do Mestre passavam pelo alambique dos seus corações blindados. Dividir esta unidade – entre escutar a Deus e escutar o irmão – é uma das grandes tentações que nos acompanham ao longo de todo o caminho daqueles que seguimos Jesus. E temos de estar cientes disto. Tal como escutamos o nosso Pai, assim escutamos o Povo fiel de Deus. Se não o fazemos com os próprios ouvidos, com a mesma capacidade de escutar, com o mesmo coração, alguma coisa se quebrou.

Passar, sem escutar a dor do nosso povo, sem nos radicarmos nas suas vidas, na sua terra, é como ouvir a Palavra de Deus sem deixar que lance raízes dentro de nós e seja fecunda. Uma planta, uma história sem raízes é uma vida seca.

2. “Cala-te”.

Esta é a segunda atitude perante o grito de Bartimeu. Cala-te, não chateies, não perturbes, que estamos fazendo a oração comunitária, que estamos num momento de espiritualidade de profunda elevação. “Não chateies, não perturbes”. Ao contrário da atitude anterior, esta escuta, esta reconhece, toma contacto com o grito de outro. Sabe que está ali e reage duma forma muito simples: repreendendo. São os bispos, os padres, os monges, os Papas do dedo assim [em riste, em sinal ameaçador]. Na Argentina, dizemos das professoras do dedo assim [em riste]: “Esta é como a professora do tempo de Yrigoyen, daquelas que estudavam a disciplina muito rígida”. E o pobre Povo fiel de Deus, quantas vezes é reprendido, pelo mau humor ou pela situação pessoal dum seguidor ou duma seguidora de Jesus. É a atitude de quem, à frente do povo de Deus, continuamente o está repreendendo, resmungando, mandando-o calar. Dê-lhe uma carícia, por favor, escuta-o, diz-lhe que Jesus o ama. “Não, isto não se pode fazer”. “Senhora, tire o bebé da igreja, pois ele está chorando e eu estou pregando”. Como se o choro de um bebé não fosse uma sublime pregação.

É o drama da consciência isolada, daqueles discípulos e discípulas que pensam que a vida de Jesus é apenas para aqueles que consideram aptos. No fundo, há um profundo desprezo pelo Povo fiel de Deus: «mas este cego, quem é ele para meter-se, que fique onde está!». A seus olhos parece lícito que encontrem espaço apenas os «autorizados», uma «casta de pessoas diferentes» que pouco a pouco se separa, diferenciando-se do seu Povo. Fizeram da identidade uma questão de superioridade. Esta identidade, que significa pertença, faz sentir-se superior, já não como pastores, mas como capatazes: «Eu cheguei até aqui, tu, coloca-te no teu lugar» Ouvem, mas não escutam, vêem, mas não olham.

Permito-me contar uma história que vivi, era ao redor do ano 75, [dirigindo-se a um bispo presente] na tua diocese, na tua arquidiocese. Eu tinha feito uma promessa ao Senhor dos Milagres de ir todos os anos a Salta, em peregrinação, para El Milagro se Ele mandasse 40 noviços. Mandou 41. Bom, depois de uma concelebração – neste local, como em todo o grande santuário, há uma missa depois da outra, confissões e não ficas parado; eu saía falando com um sacerdote que me acompanhava, que estava comigo, tinha vindo comigo, e eis que se aproxima uma senhora, já de saída, com uns santinhos, uma senhora muito simples, não sei, seria de Salta ou teria vindo não sei de onde –às vezes demoram dias para chegar na capital para a festa do El Milagro. «Padre, abençoa-me», pede ela ao sacerdote que me acompanhava; «Senhora, tu estiveste na missa». «Sim, padre». «Pois bem, lá a bênção de Deus, a presença de Deus abençoa tudo, tudo…». «Sim, padre, sim, padre». «E depois, a bênção final abençoa tudo». «Sim padre, sim padre». Neste momento sai outro sacerdote amigo daquele primeiro, mas que não se tinham visto. Então: «Oh, tu que estás ai». Gira-se e a senhora, que não sei como se chamava – digamos a senhora do “sim, padre” – olha-me e me pede: «Padre, abençoe-me o senhor».

Aqueles que sempre colocam barreiras ao Povo de Deus, separam-no. Ouvem mas não escutam; deitam em cima um sermão, vêem, mas não fixam o olhar. A necessidade de se diferenciar bloqueou-lhes o coração. A necessidade, consciente ou inconsciente, de dizer «eu não sou como ele, não sou como eles» afastou-os não só do grito do seu povo e do seu pranto, mas também e particularmente dos motivos de alegria. Rir com aqueles que riem, chorar com os que choram: está aqui parte do mistério do coração sacerdotal e do coração consagrado. Às vezes existem castas que nós vamos criando com este comportamento e assim nos separamos. No Equador, tomei a liberdade de dizer aos sacerdotes – as freiras também estavam presentes – que, por favor, pedissem todos os dias a graça da memória, de não esquecer-se de onde o tiraram. Tiraram-te de junto do rebanho. Nunca te esqueças, não te assoberbes, não negues as tuas raízes, não negues essa cultura que aprendeste da tua gente porque agora tens uma cultura mais sofisticada, mais importante. Existem sacerdotes que sentem vergonha de falar a sua língua originária e então se esquecem do seu quíchua, do seu aimara, do seu guarani: «Porque não, agora falo de modo elegante». A graça de não perder a memória de Povo fiel. É uma graça. No livro do Deuteronómio, quantas vezes Deus fala ao seu Povo: «Não te esqueças, não te esqueças, não te esqueças». E Paulo admoesta ao seu discípulo predilecto, que ele mesmo consagrara como Bispo, Timóteo: «Lembra-te da tua mãe e da tua avó».

3. “Coragem, levanta-te”

A terceira palavra: “Coragem, levanta-te”. É este é o terceiro eco. Um eco que não nasce directamente do grito de Bartimeu, mas da reacção das pessoas que vêem como Jesus se comportou perante o grito do cego mendicante. Ou seja, aqueles que não davam lugar às suas súplica, aqueles que não lhe abriam um lugar, ou alguém que fazia-lhe calar-se… Mas, claro, quando vê que Jesus reage assim, muda: “Coragem, levanta-te”.

É um grito que se transforma em Palavra, em convite, em mudança, em proposta de novidade frente às nossas formas de reagir ao Santo Povo fiel de Deus.

Ao contrário dos outros que passavam, diz o Evangelho que Jesus Se deteve e perguntou: «O que está a acontecer? Quem “toca a bateria”?». Deteve-se perante o clamor duma pessoa. Sai do anonimato da multidão para o identificar, comprometendo-se assim com ele. Radica-se na sua vida. E, longe de o mandar calar, pergunta: «Que posso fazer por ti?» Não precisa de diferenciar-se, não precisa separar-se, não lhe faz um sermão, não catalogá-lo e pergunta para ver se está autorizado ou não a falar. Limita-se a fazer uma pergunta, a identificá-lo pretendendo ser parte da vida daquele homem, querendo assumir a sua própria sorte. Deste modo restitui-lhe gradualmente a dignidade que tinha perdido, à margem do caminho e cego. Faz a sua inclusão. E longe de olhá-lo de fora, esforça-se por se identificar com os problemas e, assim, manifestar a força transformadora da misericórdia. Não há compaixão – compaixão e não lástima – não existe compaixão que não se detenha. Se não te deténs, se não “padeces com”, tu não tens a compaixão divina. Não existe uma compaixão que não escute. Não existe uma compaixão que não se solidarize com o outro. A compaixão não é zapping, não é silenciar a dor; pelo contrário, é a lógica própria do amor, o “padecer com”. É a lógica que não está centrada no medo, mas na liberdade que nasce de amar e coloca o bem do outro acima de todas as coisas. É a lógica que nasce de não ter medo de se aproximar da dor do nosso povo. Embora muitas vezes se reduza a estar ao seu lado e fazer desse momento uma oportunidade de oração.

E esta é a lógica do discipulado. Isto é o que faz o Espírito Santo connosco e em nós. Disto somos testemunhas. Um dia Jesus viu-nos à beira da estrada, sentados nas nossas dores, nas nossas misérias, nas nossas indiferenças. Cada um conhece a sua história antiga. Não silenciou os nossos gritos; antes, deteve-Se, aproximou-Se e perguntou que podia fazer por nós. E, graças a tantas testemunhas que nos disseram «coragem, levanta-te», gradualmente fomos tocando aquele amor misericordioso, aquele amor transformador que nos permitiu ver a luz. Não somos testemunhas de uma ideologia, não somos testemunhas de uma receita, uma forma de fazer teologia. Não somos testemunhas disso. Somos testemunhas do amor sanador e misericordioso de Jesus. Somos testemunhas da sua intervenção na vida das nossas comunidades.

E esta é a pedagogia do Mestre; esta é a pedagogia de Deus com o seu Povo. Passar da indiferença do zapping a «coragem, levanta-te que [o Mestre] chama-te» (Mc 10, 49). E não porque somos especiais, não porque somos melhores, nem porque somos os funcionários de Deus, mas apenas porque somos testemunhas agradecidas da misericórdia que nos transforma. E quando se vive assim, há júbilo e alegria, e podemos nos unir ao testemunho da irmã, que assumiu na sua vida o conselho de Santo Agostinho: «Canta e caminha». Esta alegria que vem do testemunho da misericórdia que transforma.

Não estamos sozinhos, neste caminho. Ajudamo-nos uns aos outros com o exemplo e a oração. Estamos circundados por uma nuvem de testemunhas (cf. Heb 12, 1). Lembremos a Beata Nazária Ignacia de Santa Teresa de Jesús, que dedicou a sua vida ao anúncio do Reino de Deus cuidando dos idosos, com a «panela do pobre» para aqueles que não tinham nada para comer, abrindo orfanatos para crianças sem ninguém, hospitais para feridos da guerra, e até criando um sindicato feminino para a promoção da mulher. Lembremos também a Venerável Virgínia Blanco Tardío, devotada totalmente à evangelização e ao cuidado das pessoas pobres e doentes. Elas e muitos outros anónimos, tantos, daqueles que seguimos Jesus, servem de estímulo no nosso caminho. Esta nuvem de testemunhas! Vamos para diante com a ajuda de Deus e a cooperação de todos. O Senhor serve-Se de nós para que a sua luz chegue a todos os cantos da terra. E seguir adiante, canta e caminha. E enquanto cantais e caminhais, rezai por mim, que necessito. Obrigado.

Colégio Dom Bosco, Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) Quinta-feira, 9 de Julho de 2015

Vésperas com Bispos, Sacerdotes, Diáconos, Religiosos, Religiosas, Seminaristas e Movimentos Católicos do PARAGUAI:
Firmes como um campanário!

Como é belo rezarmos as Vésperas todos juntos! Como não sonhar com uma Igreja que espelhe e repita, na vida quotidiana, a harmonia das vozes e do canto! Fazemo-lo nesta catedral que tantas vezes teve de ser começada de novo; esta catedral é sinal da Igreja e de cada um de nós: às vezes, as tempestades de fora e de dentro obrigam-nos a pôr de lado o que se construiu e começar de novo. Sempre, porém, com a esperança em Deus; e, se olharmos para este edifício, sem dúvida Ele não decepcionou os paraguaios. Porque Deus nunca desilude! E por isso O louvamos agradecidos.

A oração litúrgica, com a sua estrutura e ritmo pausado, quer dar voz à Igreja inteira, esposa de Cristo, que procura configurar-se com o seu Senhor. Na oração, cada um de nós quer tornar-se cada vez mais parecido com Jesus.

A oração traz à superfície aquilo que vivemos ou deveríamos viver na existência diária; pelo menos uma oração que não queira ser alienante ou apenas preciosista. A oração dá-nos impulso para pôr em acção ou examinar-nos sobre o que rezamos nos Salmos: nós somos as mãos de «Deus, que levanta o pobre da miséria» e somos quem trabalha para que esterilidade com a sua tristeza se transforme na alegria do campo fértil. Cantando que «muito vale aos olhos do Senhor a vida dos seus fiéis», somos os que lutam, pelejam, defendem o valor de toda a vida humana, desde a concepção até os anos serem muitos e poucas as forças. A oração é reflexo do amor que sentimos por Deus, pelos outros, pelo mundo criado; o mandamento do amor é a melhor configuração do discípulo missionário com Jesus. Estar agarrados a Jesus dá profundidade à vocação cristã, que – interessada no «agir» de Jesus, que engloba muito mais do que as actividades – procura assemelhar-se a Ele em tudo o que realiza. A beleza da comunidade eclesial nasce da adesão de cada um dos seus membros à pessoa de Jesus, formando um «conjunto vocacional» na riqueza da diversidade harmónica.

As antífonas dos Cânticos Evangélicos deste domingo recordam-nos o envio dos Doze por Jesus. É sempre bom crescer nesta consciência de trabalho apostólico em comunhão! É belo ver-vos a colaborar pastoralmente, partindo sempre da natureza e função eclesial de cada uma das vocações e carismas. Quero exortar-vos a todos – sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e seminaristas, bispos – a que vos empenheis nesta colaboração eclesial, especialmente a partir dos planos de pastoral das dioceses e da Missão Continental, cooperando com toda a disponibilidade possível para o bem comum. Se a divisão entre nós provoca esterilidade (cf. Evangelii gaudium, 98-101), não há dúvida que, da comunhão e da harmonia, surge a fecundidade, porque estão em profunda consonância com o Espírito Santo.

Todos temos limitações; ninguém pode reproduzir totalmente Jesus Cristo. E, embora cada vocação se conforme de maneira mais saliente com este ou aquele traço da vida e obra de Jesus, há alguns elementos comuns e indispensáveis a todas. Ainda agora louvámos o Senhor porque «não fez alarde da sua condição divina» (Fil 2,6), sendo isto uma característica de toda a vocação cristã, «não fez alarde da sua condição divina». Quem foi chamado por Deus não se pavoneia, nem corre atrás de reconhecimentos ou aplausos efémeros; não sente ter subido de categoria nem trata os outros como se estivesse num degrau superior.

A supremacia de Cristo aparece claramente descrita na liturgia da Carta aos Hebreus; acabámos de ler quase o final dessa carta: Deus «nos faça perfeitos como o grande Pastor das ovelhas» (13,20), e isto supõe que todo o consagrado esteja configurado com Aquele que, na sua vida terrena, «por entre orações e súplicas, com grande clamor e lágrimas» alcançou a perfeição quando aprendeu, sofrendo, o que significava obedecer. E isto também é parte da vocação.

E agora acabemos de rezar as nossas Vésperas; o campanil desta catedral foi reconstruído várias vezes; o som dos sinos antecede e acompanha vários momentos da nossa oração litúrgica. Sempre que rezamos, somos feitos de novo por Deus, firmes como um campanário, felizes por pregar as maravilhas de Deus. Partilhemos o Magnificat e deixemos o Senhor fazer – que Ele faça-, através da nossa vida consagrada, grandes coisas no Paraguai.

Catedral Metropolitana de Assunção, Sábado, 11 de Julho de 2015

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San Daniele Comboni (1831-1881)

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