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Moisés: Entre solidariedade e solidão

O Mestre está cá, e chama-te. Bíblia e Vocação
Manuel João Pereira Correia

Sieger Köder Mosè e il roveto ardente.jpg

Vocação de Moisés
Entre solidariedade e solidão

A vida e a vocação de Moisés são um misto singular de solidariedade e solidão. Durante toda a sua existência foi um homem só. Colocado como profeta entre Deus e o seu povo, ele viveu entre dois mundos, dilacerado por duas paixões. (Êxodo, capítulos 2-7)

Todos conhecemos a história de Moisés, narrada no livro do Êxodo. É uma das personagens bíblicas mais populares e o representante por excelência do hebraísmo. Aparece 80 vezes no Novo Testamento. Nascido durante o período da escravidão do povo de Israel no Egipto, «salvado das águas» do Nilo pela filha do faraó (daí o seu nome), foi educado na corte e iniciado na sabedoria da cultura egípcia. Depois de uma tentativa fracassada de intervir em favor do seu povo, teve de fugir do Egipto e refugiar-se no deserto, onde acabou por se estabelecer, casando com uma das filhas de Jetro, sacerdote de Madiã. Um dia, enquanto pastoreava no deserto, Deus apareceu-lhe para lhe dar o encargo de regressar ao Egipto e libertar o seu povo. Depois de obrigar o faraó a deixar partir os israelitas – com as famosas 10 pragas do Egipto –, conduziu o povo em direcção ao Sinai, onde o Senhor estabeleceria a aliança com Israel. Seguir-se-ia uma longa peregrinação pelo deserto, de lenta e penosa aprendizagem da liberdade. Moisés acabaria por falecer às portas da terra prometida.

Uma vida, três etapas

Segundo a tradição bíblica, Moisés morreu com 120 anos e a sua vida subdivide-se em três etapas (cf. Actos 7,17-44; Números 14,34 ss.): 40 anos na corte faraónica como príncipe; 40 anos em Madiã como pastor; e 40 no deserto como profeta. Quarenta anos é o tempo ideal de uma geração mas também de uma fase da vida.

Durante 40 anos Moisés é educado como príncipe egípcio. Recebe uma educação refinada. Mas esta situação de privilégio, que o separa do seu povo, não o faz esquecer as suas origens e a situação de miséria e escravidão em que vive Israel. Aos 40 anos «a voz do coração» faz-se sentir e opta por «descer» para o meio da sua gente (cf. Actos 7,22). Sente-se responsável do destino do seu povo. Mas depois de um acto de valentia, verifica a sua impotência e, temendo pela vida, foge para o deserto.

De novo segregado do seu povo, seguem-se outros 40 anos. Moisés refugia-se na vida privada, na doçura de um lar e na solidão das longas transumâncias de pastor. Não se esquecera do passado, mas acaba por habituar-se à rotina tranquila do seu presente e por resignar-se à obscuridade do seu futuro de refugiado. No fim de contas, tinha encontrado uma nova terra, um povo, uma família. Que mais poderia esperar? Mas o coração não se sentia satisfeito. Prova-o o facto de dar o nome de Gerson ao seu primogénito: «sou um emigrante em terra estrangeira».

Quando tudo parecia indicar que por ali terminaria os seus dias, acontece o inesperado. Pastoreando nos arredores do Sinai, Deus aparece-lhe, revelando-lhe o seu Nome misterioso e impronunciável: ’ehjeh ’asher ’ehjeh, «Eu sou aquele que sou» (Êxodo 3,14). Um biblista lê: «Eu sou aquele que ama com paixão» (G. V. Rad). O Senhor apresenta-se numa planta espinhosa, uma sarça, que arde sem se consumir. Símbolo da solidariedade de Deus com o sofrimento do seu povo. O fogo desta paixão incendeia o coração de Moisés. Desde esse momento, ele será o instrumento do Senhor para libertar o Seu povo. Esta é a missão à qual Deus o destinara, o sentido da sua existência e da sua singular história. Durante 40 anos Moisés será então o Profeta «potente em palavras e obras» (Actos 7,22) que conduzirá Israel em direcção à liberdade.

São três etapas que encontramos na vida de todo o vocacionado. Uma fase de preparação, povoada de sonhos e ideais. Vivendo no seio de uma sociedade tantas vezes injusta e discriminatória, dispomo-nos a lutar contra a injustiça, empolgados pelo entusiasmo e a autoconfiança. Mas o impacto do nosso idealismo com a realidade concreta é sempre doloroso e pode levar a uma experiência de fracasso e desânimo, por vezes fatal. Como aconteceu a Moisés quando, depois de ter matado o egípcio, num ímpeto de revolta contra o opressor, se viu rejeitado pelo seu próprio povo e teve de fugir. Desiludido, renunciando ao sonho de libertador, deixa de solidarizar-se com a sorte dos outros, e não pensa senão em salvar a própria pele. Mas Deus continua a sua acção no silêncio do deserto, na insatisfação do coração. E acaba por vencer a tentação de uma vida tranquila e cómoda, e dissipar medos e resistências. Seduzido o coração, eis-nos lançados na grande aventura, com uma única segurança: «Eu estou contigo!» (Êxodo 3,12).

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Entre solidariedade e solidão

A vida e a vocação de Moisés são um misto singular de solidariedade e solidão. Durante toda a sua existência foi um homem só. E, ao mesmo tempo, profundamente solidário. É o confidente e amigo de Deus com quem fala «cara a cara» (Êxodo 33,11) mas pronto a sacrificar-se pelo seu povo: por ele abandona a comodidade da corte faraónica, por ele renuncia à sua vida matrimonial (18, 1-12), por ele está disposto a morrer (32, 31), partilhando de facto a sorte de quantos morreram no deserto, falecendo às portas da Terra Prometida (Deuteronómio 34,1-12).

Colocado como profeta entre Deus e o seu povo, ele viveu entre dois mundos, dilacerado por duas paixões. Em vão procurara fugir a esta «solidão», buscando um sustento em Arão, seu porta-voz, em Josué, seu discípulo, nos 72 anciãos seus ajudantes… Ele teve de aguentar com os golpes e contragolpes das peripécias da aliança de Deus com Israel. Numa história dramática tecida de solidão, hostilidade e rejeição, a resistência de Moisés, como um arco sempre em tensão, por vezes esteve prestes a romper-se: «Eu sozinho não posso suportar todo esse povo; ele é pesado demais para mim. Em vez de me tratar assim, rogo-vos que antes me façais morrer, se achei agrado aos vossos olhos» (Nm 11, 14-15).

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Fazer de ponte

Moisés foi a ponte entre Deus e o seu povo. Assim é chamado a ser aquela ou aquele que é chamado pelo Senhor a ser seu missionário: destinado a solidarizar-se totalmente com Deus de quem é profeta e com um povo de quem é pastor. Com o risco de experimentar muitas vezes a «solidão». Mas só assim uma vida se torna «sólida e solidária». Caso contrário será «só e solitária».

Permiti-me de concluir com uma longa citação tomada do P. José Luis Martin Descalzo (do livro Razões para a Alegria) que ilustra bem esta situação do Pastor.

«De todos os títulos que há no mundo, o que mais me agrada é o de Pontífice, que quer dizer literalmente construtor de pontes. Um título do qual, não sei porquê, se apoderaram o Papa e os Bispos, mas que na antiguidade cristã se referia a todos os sacerdotes e que, em boa lógica, ficaria muito bem a todas as pessoas que vivem de coração aberto.

É um título que me entusiasma, porque não há tarefa mais formosa do que dedicar-se a estender pontes entre os homens e as coisas. Sobretudo num tempo em que são tão abundantes os construtores de barreiras. Num mundo de tantas valas, que coisa melhor do que dedicar-se a superá-las?

Mas fazer pontes – e sobretudo fazer de ponte – é uma tarefa muito dura. Não se faz sem muito sacrifício. Uma ponte é alguém que é fiel às duas margens, mas que não pertence a nenhuma delas. Quando se pede a um padre que seja ponte entre Deus e os homens, quase se está a obrigá-lo a ser um pouco menos homem, a renunciar provisoriamente à sua condição humana para intentar esse duro ofício de mediador e de transportador de margem a margem.

Se a ponte não pertence por inteiro a nenhuma das margens, tem de estar firmemente assente em ambas elas. Não «é» margem, mas apoia-se nelas, é súbdita de ambas, depende de uma e de outra. Ser ponte é renunciar a toda a liberdade pessoal. Só se serve quando se renunciou.

É lógico que sai muito caro servir de ponte. É um ofício pelo qual se paga muito mais do que se recebe. Uma ponte é fundamentalmente alguém que suporta o peso de todos os que passam por ela. A resistência, a solidez, são as suas virtudes. Numa ponte, conta menos a beleza e a simpatia – embora seja muito bela uma ponte formosa –; conta sobretudo a capacidade de serviço, a utilidade.

Uma ponte vive no des-agradecimento: ninguém fica a viver em cima da ponte. Usa-se para passar, e pára-se na outra margem. Quem quiser carinhos escolha outra profissão. O mediador acaba a sua tarefa quando mediou. A sua tarefa posterior é o esquecimento.

Uma ponte é até a primeira coisa a ser bombardeada durante uma guerra. Por isso está o mundo cheio de pontes destruídas. Apesar disso, meus amigos, que grande ofício é ser ponte entre as pessoas, entre as coisas, entre as ideias, entre as gerações! O mundo deixaria de ser habitável no dia em que houvesse nele mais construtores de valas do que de pontes.»


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Questa voce è stata pubblicata il 09/02/2017 da in PORTUGUÊS, Vocação e Missão con tag , .

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