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Elias: O profeta de fogo e zelo

O Mestre está cá, e chama-te. Bíblia e Vocação
Manuel João Pereira Correia

Vocação de Elias
O profeta de fogo e zelo

Vivemos em «tempos maus», dizemos frequentemente. Mas em realidade os «tempos bons» existem só na nossa curta memória nostálgica. Todas as épocas apresentam desafios e dificuldades que põem à prova a fé do crente (1Reis, capítulos 17-19).

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Os tempos de Elias foram também difíceis. Exerceu o seu ministério a meados do século ix antes de Cristo, no reino de Israel. Do ponto social e político, foi um momento auge do Reino do Norte, uma época de paz e de prosperidade económica. Mas também de grande infidelidade idolátrica. Como a nossa!…

Idolatrias

Reinava então em Israel o ímpio rei Acab, que, para cúmulo dos males, casara com a perversa rainha Jezabel, filha do rei de Tiro. Jezabel trouxe consigo o seu «senhor» e «esposo», Baal, o deus da chuva e da fecundidade. Determinada como era, pelas boas e pelas más, acabou por impor por todo o lado o culto a Baal (1 Reis 16,30-33). Também nisto podemos ver uma analogia com a nossa época. Muda só o nome da «rainha» e do seu «deus». Todos seríamos capazes de dar-lhes um nome e um rosto. O método para ofuscar as mentes e escravizar as consciências, a indiferença com que se sacrificam tantas vítimas ao ídolo não diferem substancialmente. A luz da fé parece extinguir-se, a voz das testemunhas é silenciada e até o céu parece ofuscar-se…

É neste contexto que Deus suscita uma testemunha extraordinária na pessoa do profeta Elias. Ele aparece de uma maneira abrupta no capítulo 17 do primeiro Livro dos Reis, anunciando uma carestia. As suas palavras ressoam como um relâmpago em céu sereno no rico e idólatra reino de Israel: «Juro pelo nome do Senhor, o Deus de Israel, a quem sirvo, que não cairá orvalho nem chuva nos próximos anos, excepto mediante a minha palavra.» E o céu obedece. Não chove, não obstante que Baal se proclame senhor da chuva. E a terra ressequida não pode alimentar a vida. A morte ameaça a todos: homens e animais.

Fogo e zelo

O profeta Elias é uma das grandes figuras bíblicas. A sua personalidade extraordinária, o seu carácter intrépido e heróico, o carisma profético singular fizeram dele o profeta por antonomásia. Recordemo-nos que Elias aparece com Moisés, falando com Jesus durante a transfiguração. A sua figura continuou a suscitar um fascínio particular ao longo dos tempos na tradição judaica e cristã.

Elias é o profeta de fogo: «Suas palavras queimavam como uma tocha ardente» (Eclesiástico 48,1). A sua oração faz descer o fogo do céu para devorar o sacrifício preparado para o Senhor no Monte Carmelo, desafiando e desconfessando os profetas de Baal (1 Reis 18). No final da vida, será levado para o céu num carro de fogo.

É profeta de fogo porque o seu coração está «cheio de zelo pelo Senhor», como ele repete por duas vezes na epifania de Deus no monte Sinai (1 Reis 18). Este zelo consome toda a sua vida e o seu ministério. Como Jesus. Também trouxe o fogo sobre a terra e o seu coração consumia-se pelo mesmo zelo: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero eu senão que ele se acenda?» (Lucas 12,49). Em grego, a palavra «zelo» tem a conotação de «fogo».

Hoje falta tal fogo no coração do cristão. Onde foi parar a chama ateada pelo coração de Cristo? Abundam os corações apagados, cobertos de cinzas. Tudo se faz sem zelo e sem exaltação. Os nossos ideais não despertam entusiasmo, liquefeitos como são e versados em corações amorfos. Dir-se-ia que nos sentimos incapazes de nos enamorarmos, de nos apaixonarmos verdadeiramente, por uma pessoa ou por um ideal. Até desconfiamos e ficamos de pé atrás quando alguém defende um princípio com certa convicção ou manifesta um pouco mais de zelo no que faz. Não é «politicamente correcto», pode «ofender a sensibilidade» dos outros. Impera o relativismo e, por conseguinte, a apatia.

Parece que o zelo hoje é mais característico das forças do mal. Basta pensar, por exemplo, no terrorismo e na sua energia destrutiva intensa, cheia de ódio e violência. Ou a manipulação aguerrida das consciências orquestrada por certos movimentos promotores daquela que João Paulo II apelidou de «cultura da morte». Ou, ainda, o sistema económico mundial, hoje patrão supremo, que com as suas «leis de mercado» marginaliza populações inteiras, difundindo aquela que o Papa Francisco chama a «cultura do desperdício».

À escola de Elias e de Jesus

Hoje temos necessidade de profetas de fogo e zelo como Elias, para testemunhar o Deus vivo e verdadeiro e promover a cultura da vida. Como obtê-los? Como despertar em nós o espírito de Elias? Como herdar uma sua «dupla porção» como pedira o seu discípulo Eliseu? Frequentando a sua mesma escola: retirando-se na solidão e convivendo com os pobres! Uma dupla escola. Como Jesus. Primeiro, no retiro de Nazaré e do deserto, para receber o ensinamento do Espírito e ser revestido pela sua força. Depois, convivendo com os pobres e a miséria do mundo para experimentar e receber a compaixão do Pai. E por isso proclamará na sinagoga de Nazaré: «O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados, a pregar a liberdade aos cativos, a dar a vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar um ano de graça de Senhor» (Lucas 4,18-9).

Enviado em retiro…

Se a estrutura de um edifício não é suportada por alicerces adequados, o prédio corre o risco de desmoronar-se. O mesmo acontece no caso da pessoa chamada a exercer um ministério na Igreja: é preciso, antes de tudo, que tenha estado a sós com Deus e que as raízes da sua espiritualidade tenham chegado às águas profundas da contemplação. Caso contrário, será um propagador de ideias mas não uma testemunha. É necessário que o seu ouvido esteja habituado a «ouvir», para que a língua seja capaz de «falar». Sem tempos de deserto e solidão que favorecem o encontro com Deus na oração, não há profecia.

Por isso a primeira coisa que Deus faz com Elias é mandá-lo em retiro: «Retira-te daqui, e vai para o oriente, e esconde-te junto ao ribeiro de Querite…» (1 Reis 17,3). Saber «retirar-se», «orientar» a própria vida, «esconder-se», eis o abc de todo discípulo. É o mesmo convite que Jesus nos dirige: «Quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente» (Mateus 6,6).

Só nessa escola conheceremos o nosso verdadeiro nome: «Elias» (Eli-Ya, «o meu Deus é Javé») e aprenderemos a «estar continuamente na presença de Deus» como Elias (cf. 1 Reis 17,1, 18,15). O testemunho da sua vida ajuda a compreender que a verdadeira tentação e o mal supremo não é o ateísmo, mas a idolatria. O ateísmo pode ser um grito de sofrimento e a dor de uma ausência. A idolatria, pelo contrário, transforma-se pouco a pouco num coma profundo, antecâmara da morte.

Enviado à periferia da cidade…

Da «periferia» do seu retiro situado do «outro lado», à «esquerda do Jordão», Elias é enviado ao norte nas terras pagãs da rainha Jezabel, a uma outra periferia, a da cidade, a dos pobres e desfavorecidos: «Vai imediatamente para a cidade de Sarepta de Sídon e fica por lá. Ordenei a uma viúva daquele lugar que te forneça comida» (1 Reis 17,9). Partilhar a vida do pobre, regressando à essencialidade e simplicidade de estilo de vida, é o estágio do apóstolo. Trata-se de outro lugar privilegiado da Presença de Deus. Só lá se pode reconhecer o verdadeiro rosto de Deus, o do amor e da justiça. Duas faces inseparáveis. Deus que ama e restabelece a justiça, respondendo ao grito da viúva.

As muitas barreiras criadas pelas diferenças sociais, étnicas, religiosas… separam-nos não só dos «outros» de diferente raça e cor, língua e cultura, mas também do «Outro» que em todos se incarnou. Falta-nos a convivência com os «marginais», embora nunca como hoje estiveram tão perto de nós. De aí a insistência do Papa Francisco a convidar os pastores da Igreja (mas não só eles!) a ir para as «periferias».

Concluo com este seu fogoso apelo dirigido aos sacerdotes na Quinta-Feira Santa: «O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia-a-dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, “as periferias” onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças…

Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermediário e o gestor “já receberam a sua recompensa”. É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de coleccionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o “cheiro das ovelhas” – isto vo-lo peço: sede pastores com o “cheiro das ovelhas”!»


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Questa voce è stata pubblicata il 17/02/2017 da in ITALIANO, PORTUGUÊS, Vocação e Missão con tag , .

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