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Êxodo (2) O grito que nos faz ricos

As parteiras do Egito/2
Reflexão de Luigino Bruni sobre o livro do Êxodo.

O grito que nos faz ricos:
O nosso Deus ouve e “recomeça” a cuidar de nós

Camino de Éxodo (2) egipto3

Acorda, Senhor! Por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que desvias de nós o teu olhar e te esqueces dos nossos sofrimentos e aflições? A nossa alma está caída no pó e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te…! (Salmo 44(43), 24-27)

A primeira oração que aparece na Bíblia é um grito, um bramido ao céu que se ergue de um povo oprimido. Nunca será libertado quem primeiro não tiver experimentado a necessidade de libertação, quem não tiver gritado, acreditando ou esperando que haja alguém, do outro lado ou do alto, a acolher o seu grito. Ou, dito de outro modo, quem não se sente oprimido por qualquer faraó ou quem perdeu a esperança de que alguém escute o seu grito não terá qualquer motivo para gritar e não será libertado.

Moisés inicia a sua vida pública matando um homem: “Quando Moisés já era homem, saiu um dia para visitar os seus irmãos hebreus e viu que os seus trabalhos eram muito pesados. Viu também um egípcio a bater num dos hebreus. Olhou para todos os lados e como não viu mais ninguém, espancou o egípcio e enterrou-o na areia” (2,11-12). Moisés, que iria anunciar o preceito da Lei “não matar”, torna-se um assassino. Neste começo da história de Moisés, misterioso, e para nós um pouco desconcertante, reaparece uma das constantes mais profundas da Bíblia. Os patriarcas e profetas bíblicos não são heróis, nem modelos de virtude. Surgem-nos como mulheres e homens integrais, de tal modo humanos que no seu repertório incluem até o gesto homicida de Caim. É a essa humanidade total que se dirigem as suas vocações imensas; nela têm início e fim as suas grandes experiências espirituais e sempre humanas. É indispensável assumir a sua inteira humanidade, para que as suas histórias de salvação, esperanças e libertações possam tornar-se nossas, também.

Depois do homicídio, Moisés teve medo e fugiu do Egito; entrou na terra de Madiã como estrangeiro (2,22). O período de tempo em que Moisés viveu com os madianitas, separado do seu povo, é imagem do eclipse de Deus que Israel vive no Egito. A opressão do povo, as parteiras do Egito, Moisés salvo pelas mulheres, resgatado das águas, desenrolam-se num cenário de silêncio de Deus, numa noite da Aliança. No Egito, Deus mantém o silêncio, como se tivesse esquecido a sua Aliança. A promessa escureceu, o povo da Aliança é oprimido e escravizado em terra estrangeira. Mas o povo oprimido consegue achar força para gritar, e será o seu grito a pôr fim a esta noite: “Os filhos de Israel continuaram a lamentar-se e a queixar-se da sua escravidão. Então Deus escutou os seus lamentos e atendeu às suas queixas, lembrando-se da aliança que tinha feito com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu a escravidão dos israelitas e interessou-se por eles” (2, 24-25).

Até agora, na pré-história e na história de Israel vimos que, como agradecimento, os patriarcas elevavam ao céu estelas, altares e sacrifícios. Para encontrar a primeira oração tivemos que descer ao Egito, e chegar até aos campos de trabalhos forçados. Foi de lá que se elevou ao céu a primeira oração de Israel, o clamor coletivo de todo o povo escravo. Tal como quando Deus ouviu o choro do menino de Agar, no deserto (Gen. 21, 17), também agora escuta o choro-oração dos oprimidos. E responde. O Deus da Bíblia não é o deus dos filósofos: o SENHOR comove-se, esquece, fica indignado, tem ouvidos para escutar o grito do oprimido; recorda-se dele, toma-o a seu cuidado.

No clamor que se eleva e é escutado esconde-se, então, algo de precioso. Se até Deus pode ‘esquecer-se’ do pacto, se os gritos do povo oprimido conseguiram fazê-lo recordar as promessas que tinha feito, é porque gritar é mesmo importante. É importante sempre, mas é essencial quando se eclipsa um pacto, quando quem connosco estabelecera uma aliança a abandona, quando nos deixa alguém com quem fizéramos promessas. Se os gritos de dor dos pobres fizeram terminar o silêncio do céu e, depois, abriram caminho no mar, então também nós podemos e devemos gritar quando quem a nós está ligado por um pacto de reciprocidade se esquece de nós e nos abandona, escravos, no Egito. Se Deus esqueceu o seu pacto e o grito do pobre lho recordou, então também o Marco pode e deve gritar quando a Joana, esquecendo o seu pacto matrimonial, saiu de casa e não voltou. Podemos e devemos gritar quando o Francisco, com quem tínhamos acarinhado e construído o sonho de uma cooperativa com e para os pobres, foi atrás de miragens de grandes lucros e nos deixou. Podemos e devemos gritar quando aqueles que elegemos para o parlamento e para a administração pública esquecem o pacto político para o Bem comum e deixam os pobres morrer sob a opressão dos imperadores do jogo ou das armas.

Quando uma aliança se quebra e, sem culpa nossa, acabamos nos trabalhos forçados dos impérios, a primeira coisa que é preciso fazer é gritar, berrar. Estes gritos que sobem a quem se esqueceu da sua aliança conosco são o primeiro passo de uma possível reconciliação, porque dizem – a nós e aos outros – que estamos conscientes de estar injustamente no Egito, que sofremos e queremos sair daquela escravidão. Mas nem sempre é fácil gritar. A primeira condição é acreditar que a nossa dor pode chegar a quem nos abandonou, o nosso pranto pode comovê-lo, recordar-lhe o pacto e fazê-lo querer continuar a aliança. Grita-se quando se crê que o outro pode ainda escutar e pode recomeçar. O povo hebraico gritou porque acreditava ainda na Aliança e na promessa, e acreditava que o céu para onde gritava não estava vazio. Porque, quando se perde a fé-esperança de que é ainda possível recomeçar, o grito morre na garganta, deixa-se de gritar e o não-grito é o primeiro sinal de que está morta em nós a fé-esperança naquele relacionamento.

As pessoas, as comunidades, povos inteiros, aprenderam a rezar gritando. Descobre-se que o céu não está vazio quando o chamamos com força pedindo, implorando, que nos escute. Quando esgotados os olhares para o lado e para a frente, se descobre com surpresa e espanto que ainda se tem uma alternativa: o olhar eleva-se para o céu; olhos e voz, ao mesmo tempo. Começa então o tempo da oração verdadeira.

Muitos são os pactos que morrem e não ressuscitam porque alguém não quer ou não consegue escutar um grito de dor. Grita-se, clama-se em altos brados e não responde ninguém. A terra está cheia de gritos não escutados. Mas outros pactos há que não são restabelecidos por não se conseguir gritar. Não se consegue por falta de fé-confiança no pacto quebrado, por orgulho, ou pela muita dor que corta a respiração. Não havendo grito, ninguém o pode escutar; o libertador não chega por falta de grito de dor. Então não se poderá nunca saber se do outro lado havia alguém que esperava só ouvir um grito para recomeçar e que porventura continua ainda à espera. Não se consegue curar pactos quebrados quando se perde a fé em quem nos abandonou (ou que parece ter-nos abandonado); a fé em que ele pode escutar o nosso grito, comover-se e, talvez, recomeçar. Há também quem grite igualmente, mesmo sabendo que o outro não irá escutar e responder; e por vezes a fé-confiança regressa depois de um grito desesperado. Gritar pode ser um canto de amor, mesmo quando é uma oração-desesperada.

Os pobres continuam a sofrer. Algumas vezes conseguem gritar; de vez em quando alguém recolhe o seu grito e acontecem libertações. No entanto, para se ser libertado e fazer a experiência da libertação é preciso ser pobre, sentir alguma forma de indigência. Ainda que possa parecer paradoxal para quem só conhece o aspeto do consumo e do prazer da vida, a falta de gritos pode ser uma grave forma de pobreza. Os ricos e os poderosos não gritam, e por isso não podem ser libertados: permanecem escravos na sua opulência, e não fazem a experiência da libertação, uma das maiores e mais sublimes que na terra existe. A grande indigência da nossa sociedade é a indigência de libertação: a riqueza fictícia de produtos do mercado está criando a ilusão de que não é preciso ser libertado. Tornamo-nos escravos em outros trabalhos forçados, mas as novas ideologias dos novos faraós, adormecendo-nos, conseguem que não sintamos necessidade de libertação. Não existe escravidão mais grave da de quem não se dá conta da sua condição de escravo. É escravidão pior que a de quem, sentindo-se oprimido, já não grita: crê que ninguém o poderá escutar e libertar (e afeta muita gente, nas nossas cidades mudas). Hoje os ‘povos’ mais pobres são os opulentos que não gritam, não vêem ou não reconhecem Moisés; e não assistem ao milagre de um mar que abre caminho para uma terra onde ‘correm leite e mel’.

Os trabalhos e os não-trabalhos forçados continuam a aumentar no mundo, mas dos campos de trabalho já não se levantam mais gritos para o céu. Para encontrar de novo a força de gritar juntos, para ver chegar novos Moisés e nos metermos a caminho para atravessar o mar, precisamos de voltar a ser indigentes de libertação.

por Luigino Bruni
publicado em Avvenire 17/08/2014


 

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