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Arte, manifestação da beleza

Arte, manifestação da beleza

Visita dos três anjos.jpg

Marc Chagall | D.R.

A experiência cristã precisa de ser traduzida na linguagem da beleza, na linguagem artística, como diz João Paulo II, na Carta aos Artistas: «Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. De facto, deve tornar percetível e, até, o mais fascinante possível, o mundo do espírito, do invisível, de Deus. Por isso, tem de transpor para fórmulas significativas aquilo que, em si mesmo, é inefável. Ora a arte tem uma capacidade muito própria de captar os diversos aspetos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de quem vê ou ouve».

E o Papa relê, no seu documento, toda a historia da salvação, até aos nossos dias, para mostrar como o mistério cristão na Bíblia foi, desde as origens do Cristianismo, uma fonte rica de inspiração artística. Durante séculos, tem sido o maior reportório simbólico e iconográfico da humanidade. Como dizia Paul Claudel, um «imenso dicionário de símbolos», «os vitrais transparentes do nosso apocalipse»; ou, segundo Eliot, «o jardim da imaginação»; e ainda, no dizer de Chagall, «o alfabeto cor da esperança», «um atlas iconográfico» onde a cultura e a arte foram beber.

Quem observar com atenção, aperceber-se-á de que nasceram e continuam a nascer, através da inspiração da fé cristã, obras de arte notáveis, tanto no âmbito da imagem como no da musica e da literatura.

Em síntese admirável e densa, von Balthasar mostra como a fé se torna força inspiradora de artistas crentes e não crentes e do belo que resplandece nas suas obras:

«O belo voltará a existir tão somente se – entre a salvação teologal e o mundo perdido no positivismo e na falta de coração – a energia do coração cristão se tornar suficientemente grande para experimentar o cosmo como revelação de um abismo de graça e amor absoluto e incompreensível. Não meramente «crer», mas experimentar.

É claro que Dante, Shakespeare e Calderon foram capazes disso. Mas mais surpreendente é que também Eichendorf e Runge, que se encontravam já presos do fragmentário, o conseguissem de igual modo; para já não falar do milagre de Mozart que, separado de todo o autentico mundo mítico, por um muro de convencionalismos, tem a suficiente energia de coração para ver todo o convencional a luz do autentico e infundir a todo o ser criado um som, que é ao mesmo tempo cristão e cósmico.

À sua maneira, de modo discreto, também Hopkins alcança a pureza de uma harmonia e o seu coração mantém tenso o arco que vai desde as exercitações espirituais≫ até à criação, experimentada de maneira verdadeiramente mítica.

O mundo total de Claudel, que ele chamava católico, mas que, a miúdo foi acusado de conter inconscientemente elementos pagãos, e um mundo de natureza e graça, de Céu e Terra, de Bíblia e natureza, de “eros” e “caritas”, de prazer na concriatura e de humilhação, de paixão fria de descobridor e de amor místico ao mistério insondável: este mundo só pode ser hoje o produto de um coração cristão cheio de energia. Nenhum outro autor deu, no nosso século, um sim tão rotundo ao ser, na sua totalidade, por muito que queiram criticá-lo os existencialistas.

E, a seu lado, não tão vitoriosamente compacto, mas talvez com maior energia de coração, na sua combinação de «alma pagã e alma cristã», está Charles Peguy, cuja poesia se converte diretamente em oração e em monologo de amor de Deus Pai, à vista do mundo criado por Ele, com o seu Filho morto no centro, envolvido no suave obscurecimento da noite… Mas, certamente, a hora atual e a hora da falta de amor que priva radicalmente os seres da sua beleza eterna.»

Para definir a influência decisiva que o mistério cristão tem na arte, poder-se-ia também partir de um artista concreto, de um escritor, de um poeta, de um músico, de um pintor, de um cineasta e, até, de cada uma das suas obras, dos seus quadros ou filmes. Mas isso seria uma tarefa ciclópica, para a qual me falta talento! Gostaria de sugerir o modelo de Marc Chagall. O que ele diz da Bíblia, pode referir-se a todo o mistério cristão: «Eu não li a Bíblia, sempre a sonhei. Sempre me pareceu e continua a parecer que é a maior fonte de poesia de todos os tempos. A Bíblia é como uma ressonância da natureza e procuro transmitir este segredo». G. Bachelard dizia: «Chagall lê a Bíblia e, imediatamente, as personagens bíblicas se convertem em luz». É a sintonia da fé com uma mensagem que é infinita, mas que é também carne, sangue, lágrimas, riso, musica, cores, simbolos, aromas, desejo insaciável, vida.

A Biblia é o canto da presença de Deus, no meio destas lágrimas e deste gozo, e Chagall vê na dor e na infelicidade da existência humana a reprodução da Biblia quase em filigrana, numa genuína atualização.

A exegese visual de Chagall está orientada pela fé e a fé é abertura ao infinito; é a tentativa de romper o silêncio do mistério. Chagall é o cantor do novo dia da história da salvação, um dia de esperança e de cores, purificado pelas lágrimas.

A interação fecunda entre a fé e a arte é de tal forma que, segundo o teólogo Marie-Dominique Chenu, citado pelo papa João Paulo II, «o historiador da teologia faria obra incompleta, se não reservasse a devida atenção às realizações artísticas, literárias ou plásticas, que constituem, a seu modo, não só ilustrações estéticas, mas verdadeiros lugares teológicos».

E J. Ratzinger, a seu modo, confirma: «Ouvindo Bach e Mozart, na igreja, ambos nos fazem sentir, de modo magnifico, a glória de Deus: nas suas músicas encontra-se o infinito mistério da beleza, deixando-nos experimentar, mais do que em muitas homilias, a presença de Deus, de forma mais viva e genuina≫.

D. António Marto 
Bispo de Leiria-Fátima 
In “O Evangelho da beleza”, ed. Paulinas
Publicado em 18.05.2017

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Questa voce è stata pubblicata il 19/05/2017 da in Arte e fede, Atualidade social, PORTUGUÊS con tag .

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