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Jerusalém, cidade da paz sem reconciliação: Da Idade do Bronze até hoje

Gerusalemme


«No próximo ano vou a Jerusalém!»: quem não se propõe visitá-la ao menos uma vez na vida? E se esta é a promessa ritual que os judeus trocam por ocasião da Páscoa, um chamamento mais cedo ou mais tarde chega a todos. Depois da Jerusalém celeste vem a terrestre, pelo menos nos desejos.

As dúvidas colocam-se, todavia, no momento de partir. Travam-nos compromissos, medos de atentados, incertezas políticas de que as notícias estão cheias. E depois a dúvida sobre o que se vai encontrar. Uma sensação de desilusão está presente em muitas narrativas de viajantes que chegaram à cidade santa ao longo dos séculos, desorientados pela aparente normalidade de um lugar concebido como meta final de toda a peregrinação. O contínuo sobrepor-se de uma e de outra dimensão, real e imaginária, é o fulcro do livro “Jérusalem: Histoire d’une ville-monde des origines à nos jours”, escrito por quatro investigadores franceses – Vincent Lemire, Katell Berthelot, Julien Leiseau e Yann Potin –, que percorre os milhares de anos transcorridos desde a fundação.

Começa-se com a Idade do Bronze, quando só há «uma fortaleza em torno de uma fonte». Daí flúem as muitas culturas e dominações, egípcia, hitita, cananeia e finalmente judaica, e ainda persa, helénica, romana e depois, a seguir à destruição do templo israelita, bizantina, islâmica, franca. Cada época cultiva as suas intolerâncias, o desprezo por quem a precedeu, a ambição de voltar a partir do zero, restaurando uma presumível autenticidade. Ninguém, nem sequer os cruzados, escapa a esta fúria aniquiladora das diferenças.

Mas a surpresa para o leitor vem da narrativa da longa «paz otomana», que sob as insígnias imperiais, entre 1516 e 1917, parece garantir aos habitantes a estabilidade e um regime de certo modo tolerante. Entre a construção das muralhas de Solimão, no século XVI, e o colapso do império turco sob a primeira guerra mundial, Jerusalém não conhece a genérica decadência ilustrada habitualmente pela historiografia ocidental, mas sobretudo um processo de lenta agregação interconfessional e interétnica, controlada, é verdade, pelo domínio absolutista turco, mas tendendo para uma frutuosa colaboração comunitária e civil.

O império otomano considera Jerusalém uma cidade santa, mas de estatuto inferior a Meca, Medina e Hebron. As autoridades imperiais autorizam, por princípio, as peregrinações de todas as religiões aos respetivos santuários, embora proíbam as manifestações demasiado vistosas e a construção de novos lugares de culto. Privilegiada do ponto de vista fiscal, mas politicamente periférica, Jerusalém pode beneficiar da miscigenação entre as suas diferentes almas, arménia e judaica, turca, latina e grega, enquanto os imãs e dervixes se misturam livremente com representantes dos outros cultos. É como se a ideologia otomana quisesse fazer de bastião às rivalidades nacionalistas, conseguindo obter um consenso crescente.

O culminar deste processo, por ironia da História, é afetado pela revolução dos Jovens Turcos, concluída em 1908. O ovo da serpente nacionalista que antecede o genocídio dos arménios ainda não se revelou, e a cidade colhe apenas as proclamações laicas e liberais, desce à praça e ostenta a insígnia vermelha e branca constitucional, sem distinções de pertença. Num impulso efémero de fraternidade laica, abraçam-se e visitam-se os santuários em tempos cortados aos descrentes. Cresce inclusivamente uma tendência à “hibridação” dos lugares sagrados, fenómeno até àquele momento vedado pelas compreensíveis desconfianças recíprocas. O processo recorda o cadinho da Europa Central: o nascimento de uma burguesia capaz de prosperar e de exprimir nas várias línguas.

Mas a modernidade, como sucede, de resto, ao império vienense, irrompe com violência na queda do estado otomano. Emerge, súbita e claramente, que o direito de autodeterminação dos povos, apoiado pelo presidente americano Wilson, não é aplicável a uma população multirreligiosa, de fronteiras linguísticas incertas, espalhada em todos os bairros. Então o protetorado britânico, a quem foi entregue a cidade desde 1918 a 1948, assegura a mudança. Já na declaração Balfour, repleta de consequências, aponta-se para a divisão: os judeus têm o direito de estabelecer na cidade um seu «lar nacional», os árabes o direito de manter os «seus direitos civis e religiosos».

É neste ponto que Jerusalém perde a sua ocasião histórica: a possibilidade de uma internacionalização, ou seja, uma gestão civil supranacional que teria amortecido os extremismos, permitindo a formação de uma identidade social integrada, sobre base laica. Mas os ingleses temem que uma escolha desse género favoreça os rivais franceses, e para consolidar o seu poder agem ao contrário: empurram judeus e árabes para identidades e lugares de residência separados, abatem a Torre do Relógio, simbólico monumento urbano interconfessional. Seguem-se os primeiros recontros entre judeus sionistas e árabes nacionalistas, preanunciando os conflitos de hoje. Rapidamente Jerusalém torna-se duas e o novo poder israelita, estabelecido desde 1948 nos bairros ocidentais, imporá entre si e os outros uma fantasmagórica e inultrapassável terra de ninguém.

As consequências políticas serão pesadas: o Ocidente olhará para as democracias europeias, o Oriente para o deserto jordano e os autoritarismos árabes. Deixará de haver cidadãos de Jerusalém, mas israelitas ou palestinianos, especularmente decididos a impor a capital do seu respetivo (e incompatível) estado nacional. Em 1967 a conquista israelita de toda a cidade antecede a estratégia de expansão para leste, com os colonatos que criam o facto consumado. Mas Israel nunca conseguirá anular a fronteira urbana, e mental, que separa as almas.

http://www.snpcultura.org

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Questa voce è stata pubblicata il 01/03/2018 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag .
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