COMBONIANUM – Formazione e Missione

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O Pão do 3º Domingo da Quaresma (B)


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Se negociamos com Deus, Ele vira-nos a mesa
Ermes Ronchi

Jesus entra no templo de Jerusalém (cf. João 2, 13-25): e é como entrar no centro do tempo e do espaço, no fulcro em torno do qual tudo gira. O que Jesus vai fazer e dizer no lugar mais sagrado de Israel é de capital importância: está em jogo o próprio Deus.

Jesus prepara um chicote e atravessa a esplanada como uma torrente impetuosa, arrasando homens, animais, mesas e moedas. As mesas derrubadas, os bancos virados ao contrário, as gaiolas lançadas ao chão mostram que a reviravolta operada por Jesus é total.

Vendem-se bois para os ricos e pombas para os sacrifícios dos pobres. Jesus abate tudo: acabou o tempo do sangue para dar graças a Deus. Como tinham gritado em vão os profetas: Eu não bebo o sangue dos cordeiros, Eu não como a sua carne; quero misericórdia, e não sacrifícios.

Com o seu sacrifício, Jesus abole qualquer outro; o sacrifício de Deus pelo ser humano toma o lugar dos muitos sacrifícios do ser humano a Deus.

Deita por terra o dinheiro, o deus dinheiro, estandarte erguido sobre todas as coisas, instalado no templo como um rei no seu trono, o eterno vitelo de ouro está espalhado no chão, desmascarada a sua ilusão.

E aos vendedores de pombas diz: não façais da casa do Pai uma casa de mercado. Deus tornou-se objeto de compra e venda. Os espertos usam-no para o lucro, os devotos para o merecer. Dar e ter, vender e comprar ofendem o amor. O amor não se compra, não se mendiga, não se impõe, não se finge.

Não usar com Deus a lei medíocre da troca, onde tu lhe dás qualquer coisa para que Ele te dê qualquer coisa. Como quando pensamos que indo à igreja, cumprir um rito, acender uma vela, dizer aquela oração, fazer aquela oferta, absolvemos o nosso dever, demos e por isso podemos esperar algum favor em troca.

Dessa forma somos apenas cambistas, e Jesus vira-nos a mesa. Se acreditamos que envolvemos Deus num jogo mercantil, temos de mudar de mentalidade: Deus não se compra e é de todos. Não se compra nem sequer ao preço da moeda mais pura.

Deus é amor, quem quer pagar-lhe vai contra a sua própria natureza e trata-o como uma prostituta. «Quando os profetas falavam da prostituição no templo, referiam-se a esse culto, tão piedoso quanto ofensivo para Deus» (S. Fausti): eu dou-te orações e ofertas, Tu dás-me vida, fortuna e saúde.

Casa do Pai, a sua tenda não é só o edifício do templo: não façais comércio da religião e da fé, não façais comércio do ser humano, da vida, dos pobres, da mãe terra. Cada corpo de homem e de mulher é templo divino: frágil, belíssimo e infinito. E se uma vida vale pouco, nada vale tanto quanto uma vida. Porque com um beijo Deus transmitiu-lhe a sua respiração eterna.

Ermes Ronchi

In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: Ippolito Scarsella
Publicado em 01.03.2018

Jesus, lugar do encontro definitivo com Deus
Enzo Bianchi 

Neste Terceiro Domingo da Quaresma, a Igreja nos oferece um relato tirado do quarto evangelho, referente à primeira epifania de Jesus em Jerusalém, no início de seu ministério público.

O episódio é introduzido pela anotação temporal: “Estava próxima a Páscoa dos judeus”, a festa que Israel celebra todos os anos na lua cheia da primavera como memorial do êxodo do Egito, a ação salvífica com a qual o Senhor criou seu povo santo, libertando-o da escravidão para conduzi-lo à terra da liberdade.

Essa especificação temporal relativa à subida de Jesus a Jerusalém será retomada outras duas vezes no evangelho (cf. Jo 6, 4; 11, 55). É um detalhe de profundo significado, porque todas as vezes a festa da Páscoa recebe da ação e das palavras de Jesus um significado mais pleno, até a revelação de que ele mesmo é o cordeiro pascal morto na véspera da Páscoa, que ele inaugura a Páscoa de salvação definitiva e universal.

Tendo subido a Jerusalém por ocasião dessa festa, Jesus entra no templo (ierón), o lugar do encontro com Deus, onde está o Santo dos santos, o local de sua Presença (Shekinah) na Terra, mas constata que ele não é respeitado na sua função; ao contrário, de lugar de culto a Deus, tornou-se lugar comercial, sede de tráficos “bancários”, mercado onde reina o ídolo do dinheiro.

O sinédrio, de fato, havia organizado sobre o Monte das Oliveiras um caminho para os animais destinados ao sacrifício, e Caifás tinha reservado uma parte do átrio para o mercado das vítimas necessárias aos sacrifícios. Como é possível tal perversão?

No entanto, de acordo com as invectivas dos profetas, isso ocorreu com o primeiro e o segundo templos (cf. Is 7, 7; Jr 7, 17; Ml 3, 1-6), e continua acontecendo também em muitos lugares cristãos… O mercado – na época, de animais necessários para os sacrifícios; hoje, de objetos sagrados, devocionais – facilmente se instala onde as pessoas acorrem, sempre lentas para crer, mas facilmente religiosas.

É claro, aquele mercado na área do templo, exatamente no átrio reservado aos gojim, às pessoas, para que pudessem se aproximar e buscar o Deus vivo, proporcionava uma enorme riqueza aos sacerdotes, aos serventes do templo e a toda a cidade santa. Em particular, naquele lugar, eram instalados bancos de trocadores de moedas, que permitiam que aqueles que provinham da diáspora trocassem as moedas, fizessem ofertas ao templo e adquirissem as vítimas para os sacrifícios.

Encontrando essa realidade, imediatamente Jesus “fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!’”.

Jesus faz uma ação, um sinal e diz uma palavra. Desse modo, revela-se como um profeta que denuncia o culto perverso, que, com parrhesía, com franqueza, lê a situação presente e ousa declarar diante de todos o triste fim daquela que ainda é a casa de Deus, seu Pai.

Jesus pede para pôr fim àquela prática indigna de Deus, dá um sinal do cumprimento da purificação da casa de Deus anunciada pelos profetas para os últimos tempos e implementa a profecia de Zacarias: “Naquele dia, não haverá mais nenhum comerciante na casa da Senhor” (Zc 14, 21). Como Jeremias, ele critica a prática religiosa que o templo parecia exigir em nome de Deus (cf. Jr 7, 15), mas, dizendo que aquela é a casa de seu Pai, revela que é o Filho, portanto, o Messias, o Filho de Deus (cf. Sl 2, 7), esperado pelos judeus como purificador e juiz.

O gesto feito por Jesus é escandaloso para os sacerdotes e para os homens religiosos da cidade santa. Diante dessa ação que contradiz sua função e autoridade, eles se perguntam quem é esse Jesus que veio da Galileia. Portanto, pedem-lhe as credenciais: que autoridade ele tem? E, se a tiver, que dê um sinal, que mostre sua autorização para agir desse modo!

Ao expulsar todas as vítimas destinadas ao sacrifício pascal, Jesus, de fato, impede a celebração da Páscoa de acordo com a Torá, atenta ao próprio culto. Diante dessa acusação, implícita nas afirmações daqueles homens religiosos que se voltam para ele, Jesus responde com palavras enigmáticas, que são uma profecia, mas que aqueles contestadores não podem compreender em sua verdade. Ele diz, de fato, desafiando-os: “Destruí este santuário (naós), e em três dias o levantarei, o farei ressurgir”.

Jesus identifica a si mesmo, seu corpo, com o santuário, com a tenda levantada no deserto onde Deus habitava, na qual residia a Shekinah. Aqueles inimigos de Jesus podem suprimi-lo, e assim efetivamente acontecerá, porque o levarão à cruz e à morte; mas, em três dias, ele levantará novamente aquela tenda da Presença de Deus que é seu corpo. Será sua ressurreição dos mortos! Mas essas palavras ressoam como incompreensíveis, porque aqueles judeus veem o templo de Deus feito de pedras e se perguntam: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário (naós) e tu o levantarás em três dias?”.

Em todo o caso, Jesus já estabeleceu o sinal, disse a palavra necessária, aquela que quer que o templo não seja casa de comércio, mas casa de Deus, e depois entra no silêncio, em uma tristeza indizível. O templo, lugar dele, por ser casa de Deus, seu Pai, o templo que o deveria ter reconhecido e se aproximado dele como o Senhor, o Kýrios que toma posse dele, precedido por João, o novo Elias (cf. Ml 3, 1-2.23-24), na realidade, não o reconhece, não o acolhe. E, logo depois, a atividade comercial e o sistema bancário retomam exatamente como antes dele, como se Jesus nunca tivesse feito aquele gesto…

Mas, ao lado dessa hostilidade, que só crescerá até a condenação de Jesus à morte, o quarto evangelho também registra a reação dos discípulos que haviam descido com ele a Jerusalém de Caná da Galileia. Quando o viram fazer aquele gesto, que não causou um mal físico a ninguém, que não era um gesto de violência, mas uma mímica altamente expressiva e eloquente, uma clara condenação do sistema religioso sobre o qual se regiam o templo e o sacerdócio, consideraram-no cheio de paixão, zelo, como Elias (cf. 1Re 19, 10.14), e o salmo tantas vezes rezado moldou seu pensamento: “A paixão pela tua casa me consumirá” (Sl 68, 10).

Na verdade, no salmo, o verbo está no passado; aqui, ao contrário, no futuro, como que dizendo que esse gesto o levará a ser consumido como o Cordeiro da Páscoa: sim, essa paixão por Deus levará Jesus à condenação e à morte! E quando Jesus, consumido por essa paixão, ressurgir, pois tal paixão-amor “até o fim” (eis télos: Jo 13, 1) por Deus e pelos homens não podia morrer, então os discípulos se lembrarão das suas palavras sobre a ressurreição em três dias: “Jesus estava falando do santuário (naós) do seu corpo”. Não será reerguido o templo de pedras destruído, mas seu corpo morto se reerguerá para a vida eterna.

Agora, portanto, o lugar do encontro com Deus é o corpo de Jesus, o lugar do verdadeiro culto a Deus é Jesus. É isso que significam suas palavras dirigidas mais tarde a Tomé Filipe: “Ninguém vem ao Pai senão por mim (…) Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 6.9). A economia e os ritos dos sacrifícios animais acabaram para sempre, Jesus é a verdadeira vítima do sacrifício: o único sacrifício de acordo com a revelação de Jesus, de fato, é “dar a vida pelos outros” (cf. Jo 15, 13) e “oferecer o próprio corpo por amor” (cf. Rm 12, 1). Essa é a boa notícia cristã, o Evangelho: o lugar da Presença de Deus não é um edifício, mas é Jesus Cristo mesmo, é um homem, é sua carne em que “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2, 9).

Consequentemente, o lugar da Presença do Senhor é o corpo de Cristo (cf. 1Co 12, 12-29), que é sua Igreja, porque os cristãos são o templo de Deus (cf. 1Co 3, 16-17). É no corpo de Cristo que se revelou a glória de Deus, e é no nosso corpo que Deus habita agora através de Cristo, na comunhão do Espírito Santo.

Mas devemos confessar: aqueles judeus não conseguiam discernir em Jesus a Presença de Deus, e nós, cristãos, não sabemos discernir que Cristo está em nós. Paulo no-lo repreende: “Examinem a si mesmos e vejam se estão na fé. Ponham-se à prova. Vocês reconhecem que Jesus Cristo habita em vocês, sim ou não?” (2Co 13, 5).

Um Padre do deserto, abba Pambo, se dirigia assim a um irmão: “Tu sabes que és um tabernáculo do Senhor? Sabes que Deus habita no teu corpo e que teus membros são membros de Cristo? É no teu corpo que tu podes dar glória a Deus e fazê-lo habitar no mundo, entre os humanos!”. Uma admoestação que dá vertigem.

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A tradução é de Moisés Sbardelotto

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Questa voce è stata pubblicata il 02/03/2018 da in Fé e Espiritualidade, O Pão do Domingo, PORTUGUÊS con tag .

San Daniele Comboni (1831-1881)

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