COMBONIANUM – Formazione Permanente

UNO SGUARDO MISSIONARIO SUL MONDO E LA CHIESA Missionari Comboniani – Formazione Permanente – Comboni Missionaries – Ongoing Formation

Pelos caminhos da compaixão

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Lembranças da missão
Manuel João

É domingo. Deixamos muito cedo a ‘capital’ do norte do Benin, Paraku. Aproveitando da estrada livre, dirigimo-nos velozmente em direcção do sul. O piso foi refeito há pouco tempo. Trata-se da estrada principal do país, que o atravessa, como espinha dorsal, do norte ao sul, do Níger a Cotonu, capital económica do Benin. O manto de neblina que nos envolve abre pouco a pouco as suas cortinas ao sol resplandecente. Mergulhamos no verde da vegetação que nesta altura do ano, época das chuvas, cobre toda a paisagem como um maravilhoso tapete, de cores vivas e fortes que enchem olhos e coração.

A viagem, porém, não é sem perigos. As carcaças de automóveis que, de vez em quando, aparecem ao bordo da estrada convidam-nos à prudência. Com efeito, encontramos um grande camião que se virara de través na estrada, poucos minutos antes de nós. Conseguimos passar saindo fora da estrada. Dum lado e do outro a fila dos camiões, bloqueados pelo acidente, vai alongando-se e dispondo-se a uma longa e paciente espera. A paciência é virtude essencial para poder sobreviver aos revezes e contratempos que a vida por aqui oferece em profusão.

A certa altura deparamos com um longo cortejo de automóveis, viajando a toda a velocidade, felizmente no sentido contrário, em direcção do norte. Centenas de carros se sucedem uns atrás dos outros. Ficamos intrigados com a insólita procissão. Viremos a saber, mais tarde, que se trata de automóveis usados vindos da Europa, descarregados no porto de Cotonu  e destinados ao norte, ao Níger.

A meta da nossa viagem, que durará quatro horas, é Zagnanado, uma povoação no interior sul do país. Não muito longe de Abomey, berço cultural do Benin. Queremos visitar um hospital, o centro de saúde Gbèmonten, criado e dirigido pelas irmãs Franciscanas Missionárias da Mãe do Divino Pastor, conhecido pelo seu pioneirismo no tratamento da úlcera de Buruli. Não o encontramos à primeira, mas por fim lá damos com o caminho. Os pontos de referência que nos dão são um cruzeiro, junto à estrada, e um grande baobab (embondeiro) fetiche num cruzamento de caminhos. Eles revelam-se bem depressa, aos nossos olhos, altamente simbólicos. Por um lado, o Crucificado, assumindo o sofrimento dos que são atormentados por uma doença que toca profundamente a sua dignidade; por outro, a superstição e os tabus que tornam ainda mais dura e terrível a “maldição” que comporta esta enfermidade.

Entramos no recinto do hospital e dirigimo-nos à casa das irmãs. São espanholas e depressa a confiança e o à-vontade se instalam. A Ir. Júlia é a alma deste centro. Depois duma curta experiência na América Latina, foi destinada ao Benin e aqui se encontra há uns 30 anos. Confrontada com esta terrível doença, dedicou-se inteiramente ao tratamento destes pacientes. Ela mesma nos acompanha na visita ao hospital, embora seja domingo e seu dia de descanso.

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O centro foi aberto pela irmãs e inaugurado em 1991, com a capacidade para 150 camas, mas acolhendo frequentemente até 200 doentes. Durante anos foi o único a ocupar-se desta enfermidade de que se conhece ainda bem pouco. Aqui são tratados quatro centenas de casos por ano, na grande maior parte do Benin e da Nigéria, mas tamnbém algum togolês. Ele funciona igualmente como escola para enfermeiras auxiliares.

A irmã Júlia guia-nos através dos pavilhões e enfermarias, e vai falando-nos desta doença. A úlcera de Buruli existe em diversas partes do mundo, desde a América Latina à Austrália, mas incide particularmente em alguns países da África Ocidental (Benin, Togo, Nigéria, Gana…) e Central (Congo, Camarões…). É causada por uma micro-bactéria, atípica, da família da lepra e da tuberculose. O seu nome provem duma região do Ruanda, onde se deu uma epidemia nos anos setenta.

Aqui no Benin, a enfermidade aparece sobretudo nesta região do sul, e particularmente na zona pantanosa do Oueme, um rio que, atravessando metade o país, alcança Cotonu e Porto Novo. A maneira como se contrai esta doença é ainda incerta. Talvez através da água pantanosa, do peixe, da flora, do barro ou da areia… O microclima desta região parece favorecer a sua incubação e propagação. Aparece uma úlcera sobre a pele, que corrói aos poucos tecidos e ossos. Pode apresentar-se sobre diversas formas, desde o nódulo que não chega a alcançar grandes zonas epidérmicas, à hematose; em forma de placa, mais dura e grave, como a casca duma árvore, alcançando grandes áreas do corpo, ou em forma disseminada que começando a nível cutâneo vai alcançando também os ossos. Pode atingir todas as idades, mas concentra-se sobretudo nas crianças e adolescentes até aos 15 anos, talvez porque são estes os que mais frequentemente se movem ou brincam no meio natural pantanoso onde se desenvolve a bactéria.

A irmã Júlia apresenta-nos alguns casos particulares, como o da Nanan, uma adolescente de 15 anos, que se encontra aqui há mais dum ano. Trata-se dum dos casos mais graves que as irmãs receberam. Quando chegou era toda uma chaga. A doença tinha-lhe roído os ossos. Diz-me uma irmã que as suas pernas mais pareciam um coador, cheias de grossos buracos que atravessavam carne e ossos. O seu pai, que se opunha a trazê-la ao hospital, viu-se a isso obrigado quando um pé e uma mão da Nanan, com ossos e articulações completamente consumidos, já lhe pendiam do frágil corpito. Ele temia que durante a anestesia, aproveitando do estado de inconsciência, “roubassem” o espírito da sua criança!… Faço uma carícia à Nanan mas não consigo fazê-la sorrir.

Ao lado da Nanan, Samuel, uma criança de 6 anos, olha para nós com olhar choroso e amedrontado, quando a irmã diz às enfermeiras que o levem para a sala de tratamentos. Um pouco mais adiante, deparamos com uma outra criança, cujo nome não recordo (mas aqui todos são tratados pelo próprio nome!), com o corpo todo enfaixado. Fora encontrada abandonada às portas do hospital. Uma outra irmã que nos acompanha pega – dos braços doutra criança, sua irmãzita – num bebé que me impressiona pela magreza e sinais evidentes de desnutrição.

Através das estações desta longa “via crucis” seguimos em direcção à sala de tratamentos. Durante a semana vem ao hospital uma média de 200 pessoas, mas ao domingo não há consultas. Tratam-se só alguns casos mais urgentes. Na sala ao lado  ouvem-se choros. Os enfermeiros preparam algumas pessoas para a anestesia, em vista do tratamento. É muito doloroso, dado que se toca em carne viva. Uma criancinha, acompanhada pela mãe, jaz deitada num banco. Enquanto a enfermeira procura a veia no seu bracinho, ela olha para longe, com olhar vítreo, ofegante e cheia de febre. Nem sequer forças tem para gritar. Na sala de tratamentos, depois de retiradas ligaduras e pensos, deparamos com um espectáculo horrível: extensões enormes de carne viva, feridas profundas, músculos e carne consumidos, ossos esburacados… A primeira a ser tratada é a Nanan. A Ir. Júlia faz-nos ver os buracos nas suas pernitas. A pinça passa dum lado ao outro, como se um misterioso e feroz algoz se tivesse divertido a furar-lhe a perna. Não aguento a visão e saio fora para tomar umas golfadas de ar. Não sou o único. O P. Longinos, meu colega comboniano espanhol, e um operador que recolhe imagens para um documentário, também não resistem. Mas a irmã diz que não vimos o pior. Aqui trata-se de úlceras já limpas. Quando chegam ao hospital o cheiro é nauseabundo, insuportável, mesmo de longe. O tratamento passa por várias fases. Antes de tudo é preciso curar a chaga. Uma vez limpa e curada, a zona do corpo fica em carne viva (como no caso duma queimadura grave) e a irmã faz transplante de pele para cobrir e regenerar a área afectada. O processo naturalmente exige tempo (umas semanas geralmente) e perícia. A Ir. Júlia tornou-se uma especialista na matéria.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue com atenção este centro hospitalar. O Instituto de Medicina Tropical de Anversa (Bélgica), interessado na investigação, colabora com o hospital. Seguindo as directivas da OMS, a Ir. Júlia aplica uma série de antibióticos ligados ao tratamento da lepra e da tuberculose. Está-se ainda a níveis de experimentação. Não se sabe se actuam verdadeiramente. A Ir. Júlia tem as suas dúvidas quanto à eficácia deste tratamento para evitar recaídas. Perguntamos qual é a margem de recuperação destes pacientes. As sequelas da doença são maiores quando as formações ósseas ou os nervos foram tocados. Mas muito depende da coragem da pessoa. As crianças recuperam mais facilmente que os adultos. O optimismo e as ganas de viver ajudam. Há que passar pela fisioterapia para recuperar a mobilidade. Como é natural, uma eventual recaída pode abalar profundamente a psicologia do paciente. Neste caso, retraem-se e perdem a força para continuar a lutar.

A terrível doença faz-nos lembrar a lepra e perguntamos se é contagiosa. Não, como não o é propriamente a lepra. Na mesma família, uns contraem a doença, outros não. O contágio parece ter mais a ver com factores ambientais. Mas as pessoas têm medo e a doença acarreta marginalização. Uma irmã conta-nos que um jovem que viera visitar um irmão hospitalizado não se queria aproximar dele sem que um padre o aspergisse com água benta! Dois dos seus irmãos tinham já falecido desta doença e temia que o mesmo pudesse vir a suceder-lhe! Se toda doença tem a ver com o espírito do mal e está ligada à malefícios, como é crença geral, quanto mais o não será esta?! Por isso, as irmãs tentam promover uma campanha de prevenção e de sensibilização. Duas vezes por semana saem a visitar as aldeias e escolas da região para esclarecer as pessoas com meio didácticos. Também se lança mão de meios como a rádio e a televisão. Não é fácil vencer a superstição e o medo ancestral da gente que atribui esta doença a forças maléficas, mas sobretudo a resistência dos curandeiros tradicionais, que não estão dispostos a perder os seus “clientes”.

Dou mais umas voltas pelos pavilhões do hospital. Gracejo com um grupo de mulheres que preparam a comida para os familiares hospitalizados. Como é costume por aqui, um familiar deve acompanhar o paciente durante o tempo que este transcorre no hospital, para o assistir. Os pátios, por isso, encontram-se cheios de gente que lava, cozinha, conversa, descansa… à espera que estes “anjos do bem” que são as irmãs, com o seu “toque benfazejo”, façam o “milagre” de curar estes desventurados.

Terminada a volta pelos corredores do sofrimento, regressamos à casa das irmãs, acedendo ao convite para almoçar. A “paelha”, apesar de tudo, sabe-nos bem. Um pouco menos a… ‘sobremesa’: a Ir. Júlia mostra-nos ainda uns álbuns duma série de doentes, nas várias fases do tratamento. Esfolhamos… apressadamente… as fotografias “chocantes”, para não estragar a digestão!…

Retomamos o caminho de Cotonu. A estrada agora é bem pior, cheia de buracos que desafiam a minha perícia de condutor. À medida que nos aproximamos de Cotonu aumenta o trânsito e vemo-nos rodeados duma chusma de motocicletas que por estas bandas funcionam como táxi mais barato e ligeiro. Correm sem lei nem tino! Presenciamos dois acidentes, mesmo diante dos nossos olhos, felizmente sem consequências de maior. O meu colega, P. Longinos, continua a exclamar: “é incrível, é incrível!”.

Chegamos no fim da tarde à paroquia comboniana de Cotonu-Fidjrossé, dedicada a S. Francisco de Assis. Concluímos o nosso dia com a celebração da eucaristia. Coloco no altar todo aquele sofrimento humano que os nossos olhos presenciaram. Ele é bem conhecido pelo Crucificado e objecto particular da sua compaixão!

Manuel João Pereira Correia
(Benin, Cotonu, 17 de Julho 2005)


 

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Questa voce è stata pubblicata il 07/03/2018 da in PORTUGUÊS, Vocação e Missão con tag , .

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