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FP.pt 5/2018 Maria dos outros

Formação Permanente – português 5/2018
Maria dos outros
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M23

Maria, embaixadora do diálogo inter-religioso
Hendro Munsterman

Maria é uma figura espiritual a qual muitos cristãos fazem referência. Miriam também é uma personagem-chave na religião muçulmana. Sem esquecer que Maria era judia.
A análise é do teólogo alemão Hendro Munsterman, professor da Universidade Católica de Lyon, em artigo publicado na revista francesa Témoignage Chrétien, 11-08-2011.

Este ano, o dia 15 de agosto caiu no meio do Ramadã. Tradicionalmente, duas semanas antes dessa festa cristã que celebra a Assunção da Virgem Maria, os coptas do Egito jejuam. Os fiéis cristãos se unem aos jovens muçulmanos. Porque Maria, que tem um papel importante na Bíblia e no cristianismo, é igualmente importante no Alcorão e no Islã. É precisamente por essa razão que, em 2010, o Líbano havia decretado que o dia 25 de março, festa da Anunciação, fosse um dia festivo para celebrar o vínculo entre as duas religiões.

Para os cristãos, a presença de Maria (Miriam) no texto corânico é muitas vezes uma surpresa. Ali se encontram paralelos mais ou menos diretos com o texto bíblico, a Anunciação, por exemplo. Mas também se encontram informações não bíblicas. São informações que podem ser inspiradas pelos evangelhos apócrifos (Proto-Evangelho deTiago, Pseudo-Mateus etc.) e, acima de tudo, por discussões entre judeus e cristãos da época, ou entre diversas seitas cristãs (nestorianos, monofisitas, jacobinos etc.).

As semelhanças às vezes são surpreendentes: no Alcorão, Miriam é louvada como “pura” e é chamada de “aquela que permaneceu virgem”, “aquela que permaneceu fiel a Deus”, “a mãe virginal de Isa”. Mas também há diferenças, como o belo relato do nascimento milagroso do seu filho Isa (Jesus). De fato, na sura 19, que é denominada de “Sura Miriam”, o nascimento ocorre sob uma palmeira, enquanto Miriam está sozinha. José não aparece no relato. Enquanto os textos bíblicos lhe dão um lugar, mesmo que muito discreto, ele não é citado no Alcorão, dando a impressão de que se trata de uma família monoparental.

A maior diferença entre Miriam e Maria está ligada à que existe entre Isa e Jesus. Na Bíblia, assim como na teologia cristã, tudo o que os cristãos afirmam a propósito de Maria tem uma razão e uma função cristológica. É Jesus deNazaré, confessado como Cristo e Filho de Deus, que está no centro das atenções. A Bíblia fala, portanto, muitas vezes, da “mãe de Jesus” ou da “sua mãe”: Maria é apresentada através do seu filho.

No Alcorão, as coisas não podem ser assim: Isa é um profeta, certamente, também muito grande, mas não “Filho de Deus”, “Verbo feito carne”, “Messias”. Miriam, por isso, não é “a mãe do meu Senhor”, como Isabel a chama no Evangelho segundo Lucas. Ela tem uma identidade mais autônoma com relação ao seu filho. O Alcorão não a chama de “a mãe de Isa”, mas, ao contrário, por 22 vezes, Isa é chamado de “o filho de Maria”. Uma espécie de feminismo “ante litteram”, dado que sabemos que, naquele tempo, havia o hábito de definir a identidade de um menino a partir do pai.

Também podemos nos surpreender com uma dupla desproporção no paralelo: enquanto o Alcorão dá muito mais informações do que a Bíblia sobre a vida de Maria, a veneração da mãe de Isa permaneceu muito mais discreta do que o culto de Maria desenvolvido no cristianismo.

Para os muçulmanos, Miriam certamente é virgem e mãe, mas, acima de tudo, é “aya”, sinal de Alá, uma palavra usada na tradição do Islã para designar as maravilhas da criação. Consideradas como sinais que convidam a crer, essas maravilhas geralmente não são seres humanos. Salvo Miriam, que, ao se submeter à vontade de Deus, tornou-se um exemplo para todos os muçulmanos.

Desde o tempo dos hadith, existe um debate dentro do Islã sobre Miriam: ela é a mais perfeita muçulmana entre as mulheres? Ela se encontra em concorrência com a filha do profeta Maomé, Fátima, que, dentre outras coisas, deu o seu nome à cidadezinha de Portugal conhecida por ser um dos santuários marianos católicos mais visitados depois dos acontecimentos de 1917. No fim, Fátima é a o mais venerada no Islã: é chamada de “mãe das dores”, “a pura”, “Mulher do povo do céu” e também “a maior Maria” – títulos que têm ressonâncias com aqueles que os católicos dedicam a Maria.

Portanto, cristãos e muçulmanos veem em Maria um exemplo feminino de fé, assim como para ambas as tradições Abraão é um exemplo de fé no masculino. Mas, para os cristãos, ela é mais do que isso: a sua participação na encarnação encontrou a sua expressão teológica no título de Theotokos, “aquela que gerou Deus” (mal traduzido no Ocidente como “Mãe de Deus”). Esse evento essencial da fé cristã é, sem dúvida, a razão da maior importância da veneração de Maria no cristianismo do que no Islã.

Há um outro paralelo entre as duas tradições referente a Maria. Por muito tempo, e muitas vezes ainda agora, cristãos e muçulmanos (deliberadamente) ignoraram um elemento-chave da identidade de Miriam/Maria: o fato de que ela era judia! É verdade que, na antiga literatura rabínica, encontram-se algumas raras passagens mais ou menos difamatórias sobre Maria (“essa mulher se afastou do seu marido”), sem dúvida alimentadas pelas polêmicas judaico-cristãs.

Mais recentemente, alguns pensadores judeus tentaram dar um lugar para Maria/Miriam. Por exemplo, David Flusser vê na Mater Dolorosa a representante de todas as mulheres judias que tiveram que ver seus filhos sofrerem e morrerem durante as perseguições. Hoje, Miriam/Maria é uma ponte entre cristãos e muçulmanos, e nós não podemos mais ignorar que, antes de “nos pertencer”, o seu lugar estava no seio do povo judeu, a quem Deus se revelou em primeiro lugar.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/46570-maria-embaixadora-do-dialogo-inter-religioso

Quem é Miriam para os judeus

“O que importa, na prática, considerando que os usuários dessas histórias não eram filólogos, mas pessoas comuns, é que Maria resulta como uma mulher virtuosa e como uma vítima, diferentemente de outras fontes puramente polêmicos a seu respeito. Assim, assistimos a um paradoxo em que a figura de Maria, mesmo em um contexto polêmico, preserva aspectos de inocência e todos compreendem e compartilham seu sofrimento pessoal”, escreve Riccardo Di Segni, rabino-chefe de Roma, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 02-05-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Estas breves notas poderão decepcionar aqueles que procuram uma atenção especial no judaísmo em relação a Maria, mas a raiz do problema é que, em Maria, emergem as distâncias e as incompatibilidades entre os dois mundos. A messianidade e a divindade de Jesus são rejeitadas pelo judaísmo e isso constitui um dos pontos fundamentais da diferença entre a fé judaica e o cristianismo. O resultado foi que na história e na cultura judaica gerou-se um distanciamento da figura de Jesus, que se expressa de várias maneiras diz

Jesus, no judaísmo, é geralmente ignorado; outras vezes há uma forte evitação; sempre que o judaísmo precisa confrontar-se com o problema, isso acaba ocorrendo no contexto de doutas polêmicas ou de toscas formas de contraposição; apenas nos últimos séculos surgiram, por parte de alguns estudiosos, incipientes tentativas de recuperação de sua doutrina, entendida como doutrina judaica, evidentemente sem a aceitação dos pontos de fé que constituem a essência do cristianismo.

Tais atitudes nos confrontos de Jesus também são estendidas de várias formas para o círculo de seus discípulos e apóstolos e aos seus familiares, primeiramente à sua mãe, Maria. Assim, não deve causar surpresa se no imaginário coletivo judaico a personagem de Maria é substancialmente e basicamente ignorada. Não é só uma mera falta de interesse, mas o que mais se destaca é a diferença doutrinária: tudo o que, especialmente no mundo católico, caracteriza o culto de Maria como mãe de Deus e mãe sofredora, parece ser desnecessário e não compartilhável. Eventualmente, a alternativa para o distanciamento não é o interesse e o compartilhamento, como poderia acontecer para os aspectos doutrinários da pregação de Jesus, mas a contraposição e o ataque à sua própria figura. Isto acontece em algumas formas que podemos chamar de populares e, certamente, constitui apenas um nicho marginal. A maneira com que esse tema se desenvolve – em alguns aspectos, contraditória – constitui um interessante campo de estudo, evidentemente de viés histórico, dificilmente de tipo dialógico.

O ponto de partida é um contexto polêmico. Como se sabe, a crença cristã do nascimento virginal de Jesus foi contestada desde o início pelos adversários, pagãos e judeus. A demonstração escritural dos Evangelhos (Mateus 1, 23), com base no versículo de Isaías (7, 14: “Eis que a almah grávida, dará à luz”), em que almah, “moça”, traduziu-se por “virgem”, é inaceitável no âmbito judaico, no qual, quando muito, poderá ser considerada como um elegante exercício exegético, mas jamais uma prova. Assim, nos primeiros séculos circulavam versões polêmicas, que não só negavam o nascimento virginal, mas falavam de um relacionamento adúltero e de um pai biológico diferente de José; pai, por vezes, identificado com um romano (portanto, não judeu) chamado Pantera. Desses relatos subsistiram traços fragmentários nos escritos rabínicos dos primeiros séculos. Caso fosse uma relação de adultério, consequentemente Mariatambém foi adúltera e, como tal, culpada.

Deve ser dito, porém, que as poucas e confusas fontes da Antiguidade não se aprofundam sobre esse ponto, preferindo enfatizar a natureza de Jesus, em vez das qualidades maternais. Neste contexto a única exceção provém de uma vertente narrativa específica, a dos Toledot Yeshu (“Histórias de Jesus”), que são lendas amplamente difundidas nos círculos judeus sobre Jesus e os primórdios do cristianismo. Em algumas dessas lendas é dedicada muita atenção às circunstâncias que levaram ao nascimento de Jesus, com histórias que ao longo dos séculos foram se enriquecendo de detalhes até se transformarem em uma espécie de romance.

A essência da história é que Jesus seria o resultado de um adultério, mas a mãe não é uma pecadora, aliás, é a vítima inocente de um engano em que uma pessoa assumiu o semblante do marido. E, na sequência da história, vemos Maria (Miriam no texto) dedicar-se carinhosamente ao filho, à sua educação e a tudo que caracteriza uma mãe virtuosa. O exame filológico dessa história revela aspectos surpreendentes. Trata-se, na realidade, de um tema narrativo muito antigo, do adúltero que assume a aparência do marido e da mulher vítima inocente do engano.

É um tema que costuma seguir duas vertentes, uma sagrado-mitológica, que descreve o nascimento de semideuses (como Héracles, por Zeus que assume a aparência de Anfitrião) ou de personagens especiais (Merlin, na saga do Rei Artur); a outra, literária e polêmica, vai das lendas sobre o nascimento deAlexandre Magno até a novela do Decameronde Teodolinda. Portanto, o tema está presente nas lendas judaicas e é difícil agora identificar se é apenas uma narrativa polêmica ou se reflete o surgimento de uma antiga narrativa heterodoxa em que Jesus era considerado uma espécie de semideus.

O que importa, na prática, considerando que os usuários dessas histórias não eram filólogos, mas pessoas comuns, é que Maria resulta como uma mulher virtuosa e como uma vítima, diferentemente de outras fontes puramente polêmicos a seu respeito. Assim, assistimos a um paradoxo em que a figura de Maria, mesmo em um contexto polêmico, preserva aspectos de inocência e todos compreendem e compartilham seu sofrimento pessoal.

O quadro da relação judaica com Maria deve ser complementado por duas outras séries de considerações. A primeira é que a imagem de Maria, tal como se apresenta na tradição cristã, está intimamente associada a origens judaicas. Bíblicas em primeiro lugar: o modelo de personagens bíblicas do sexo feminino, Raquel, mulher de Jacó que dá à luz durante uma viagem; Miriam, irmã de Moisés, da qual toma o nome; a esposa de Manoá e mãe de Sansão, cuja história prefigura a cena da anunciação e Ana, mãe de Samuel, cuja história antes e depois do nascimento do filho inspira alguns momentos de Maria e cuja oração de gratidão torna-se o modelo do Magnificat; sem esquecer a exaltação da mulher virtuosa no último capítulo dos Provérbios, em que algumas características aparecem em Maria.

Maria dos Evangelhos respeita as normas de purificação puerperal do Levítico; seu laço nupcial corresponde ao das regras rabínicas. Mais ainda, a Maria dos apócrifos, em que é descrita como uma criança servindo no Templo de Jerusalém resulta da mistura de diferentes elementos nos quais, contudo, é fácil reconhecer, embora deformada, a raiz hebraica: não havia meninas a serviço no Templo, mas a história de seu nascimento na área protegida reproduz as normas rituais de pureza judaica, e o fim do seu serviço em idade precoce também está ligado a padrões de rituais de pureza judaicos. Em última análise, a figura de Maria, apesar de tudo o que de não judaico caracteriza-a na evolução histórica, não seria o que é sem raízes judaicas muito sólidas.

A segunda consideração aborda uma questão muito delicada: Maria, especialmente no catolicismo, desempenha um papel muito feminino de mediação salvífica entre o plano divino e o humano, e a ela são dirigidas as esperanças e as orações dos fiéis. Tudo isso, como dissemos, é impensável no âmbito judaico, mas seria interessante questionar se a ausência e o vazio desta figura e desses papéis no judaísmo, não teriam induzido o desenvolvimento de formas alternativas e de compensação.

Chama a atenção que no judaísmo o aspecto feminino místico e salvífico não é vivido no nível individual, através de uma única personagem: é possível idealizar as matriarcas ou outras mulheres bíblicas, mas nenhuma resume em si tudo o que o cristianismo concentra em Maria; ao contrário, é a coletividade de Israel que se torna um símbolo de noiva, de mãe, da filha divina, ora amada, ora sofredora.

Para encontrar algum símbolo de mediação talvez seja preciso olhar para o campo místico, onde a última das Sefirot (chamada Reino) torna-se o elo entre a realidade superior e a terrena. O Reino vai para o exílio e s

egue o povo nos seus sofrimentos. Mas, no judaísmo, ninguém jamais irá orar dirigindo-se ao Reino; mas sim, se for um fiel místico, pedirá que o Reino reúna-se com o Alto. Em suma, mesmo no que de longe poderia sugerir alguma linha de semelhança, percebe-se uma diferença substancial intransponível.

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Maria dos outros

 

“Para a protestante Marion Muller-Colard, a Nossa Senhora – para ela uma mulher como outra qualquer – é objeto de amor, companheira de um destino feminino compartilhado por tantas, e tão próxima que desperta o desejo de falar diretamente com ela, de forma íntima”, escreve Lucetta Scaraffia, escritora e historiadora italiana, em artigo publicado por L’Ossevatore Romano, 02-05-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Maria não é só nossa – ou seja, dos fiéis católicos e ortodoxos que a veneram – mas também é parte de tradições não cristãs, como o judaísmo e o islamismo, sem esquecer, é claro, os protestantes. Com este número do caderno “mulheres igreja mundo”, queremos olhar para Maria também pelo ponto de vista deles, entender como os outros a imaginaram, como a descreveram. É uma nova perspectiva que nos abre a descobertas interessantes.

Para os judeus, não existe apenas a conhecida lenda denegritória do adultério que Maria teria perpetrado com soldado romano Pantera: o rabino Riccardo Di Segni nos torna partícipes de uma reviravolta narrativa em que “testemunhamos um paradoxo, em que a figura de Maria, mesmo em um contexto polêmico, preserva aspectos de inocência e todos compreendem e compartilham seu sofrimento pessoal”.

No IslãMaria desempenha um papel de extrema importância, é o único nome feminino que aparece no Corão. Embora não seja considerada a mãe do filho de Deus, a sua imagem é intensamente carregada de valor simbólico e espiritual. Mas também é parte da história, fundindo-se com o culto que os xiitas reservam a Fátima, filha de Maomé e ela mesma mãe de dois filhos que morreram mártires, evento que marca a separação, no mundo islâmico, entre sunitas e xiitas. Para a protestante Marion Muller-Colard, a Nossa Senhora – para ela uma mulher como outra qualquer – é objeto de amor, companheira de um destino feminino compartilhado por tantas, e tão próxima que desperta o desejo de falar diretamente com ela, de forma íntima.

Mas Maria é também uma das imagens mais frequentes e mais pungentes da história da arte ocidental, protagonista daquele episódio essencial para a tradição cristã que é o Verbo que se faz carne, que se torna um de nós. As formas com que esse mistério foi representado tornaram-se patrimônio do inconsciente coletivo, e por sua vez servem para decifrar as aparições marianas por testemunhas jovens e inexperientes. Uma nova maneira para iluminar esta figura tão importante para nós, para dedicar-lhe uma vez mais o mês de maio.

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Questa voce è stata pubblicata il 05/05/2018 da in Artigo mensal, Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , .

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