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Entrevista Enzo Bianchi: “As mulheres devem estar nos lugares de decisão da Igreja”


Enzo Bianchi


Ao fim de 50 anos, a comunidade monástica de Bose, em Itália, continua a ser uma experiência singular na Igreja de coexistência entre homens e mulheres de várias confissões cristãs. O seu fundador e prior, Enzo Bianchi, é uma voz activa na dignificação do papel da mulher na Igreja e diz que o papa Francisco “tem, de verdade, no coração a promoção da mulher”.
São palavras proferidas poucos dias antes de Francisco ter nomeado três mulheres como consultoras para a Congregação para a Doutrina da Fé. Pela primeira vez na história da Igreja, as mulheres ascendem a este cargo e passam a ser maioria (três em cinco) neste órgão que já foi a Inquisição.
A entrevista com Enzo Bianchi, que esteve em Lisboa com o filósofo Massimo Cacciari para uma das Lições Italianas organizadas pelo Instituto Italiano de Cultura e o Citer (Centro de Investigação em Teologia e  Estudos de Religião da Universidade Católica), é uma parceria do PÚBLICO com este centro universitário.

Qual é, para si, a principal mensagem da recente exortação apostólica do papa Francisco, Gaudete et Exsultate?

A mensagem central que eu identifico na Gaudete et Exultate é o destaque de que o verdadeiro santo cristão é um santo quotidiano, é um santo da vida normal, não é um herói, mas simplesmente quem na vida quotidiana, onde quer que se encontre, pode muito bem praticar o seguimento de Jesus Cristo, e vivê-lo a partir dos seus sentimentos, com as suas atitudes, com as suas preferências. Toda a vida humana é atravessada por fragilidade, por pecado, por contradições, mesmo aquela que tenta conformar-se à vontade de Deus. Mas é esta tentativa, este empenho, este esforço de amor que é a santidade comum. O papa chama-lhe “santidade ao pé da porta”, quase a convidar-nos a vê-la naqueles que habitam o mesmo condomínio, o mesmo alojamento, a reconhecê-la em vidas que são quase escondidas, que não têm nada de extraordinário, que não têm nada de heróico, mas podem igualmente ser vidas de observância e santidade cristã.

É isso a que papa se refere quando fala da “classe média da santidade”

Não é que o papa peça uma vida média, no sentido de baixa, ou que não tenda verdadeiramente para uma santidade que seja plena. Porém, é como se dissesse que a santidade não é um projecto que o homem elaborou por si composto por uma construção de esforços heróicos e de méritos. A santidade é algo que Deus faz sobre as nossas vidas, as nossas vidas comuns, porque Deus purifica-nos dos nossos pecados e perdoa-nos. E dá-nos a força para arrostar as dificuldades. E nesta dinâmica, creio eu, está a classe média da santidade, como lhe chama o papa.

As duas heresias de que o papa fala na sua exortação, o gnosticismo e o pelagianismo – hoje raras de se ouvir -, são uma resposta aos críticos conservadores?

Certamente, o papa está a falar de duas tentações que estiveram sempre presentes ao longo da história da Igreja e estarão sempre presentes. Na história do cristianismo sempre se deram estas duas visões contrapostas, e ambas não correspondentes à verdade do Evangelho: de um lado, a ideia que tudo depende do homem, da vontade, simplesmente daquilo que ele faz, das suas obras; de outro lado, a ideia que a salvação é toda questão de conhecimento intelectual, de compreensão.

Ora, o papa estigmatiza estes dois vícios permanentes, que renascem sempre no seio do cristianismo, mas não lhe pertencem, diferentemente das outras religiões que não vêem problema nisso. Exactamente porque tem esta fé no amor de Deus gratuito e preveniente, o cristianismo é profundamente crítico em relação seja ao gnosticismo, como ilusão que o conhecimento possa tornar-se meio de salvação, simplesmente como compreensão, sabedoria, seja ao pelagianismo, à soberba confiança na auto-suficiência das obras do homem.

Certamente nestas duas tentações encontram-se também críticos do papa Francisco, porque de um lado ele é mal aceite por um certo intelectualismo católico que se alimenta de uma teologia decerto altíssima, mas que acaba por confiar mais em preceitos doutrinais que não na força do Evangelho e, portanto, o papa estigmatiza-os.

Por outro lado, há uma resistência contra o magistério do papa que vem de uma atitude própria de alguns sectores conservadores, os tradicionalistas, que tendem a ver a santidade simplesmente como o resultado dos esforços das pessoas. Assim, mesmo a liturgia, perdida no mundo tradicionalista, torna-se não uma via de salvação na qual Deus perdoa os nossos pecados e nos acolhe na nossa miséria, mas torna-se simplesmente um trajecto para alcançar a comunhão com Deus que devemos merecer através de uma série de ritos, de observâncias minuciosas, como se isso fosse decisivo para a salvação do homem.

Diz que o teísmo o assusta. Porquê?

O deísmo é a afirmação de Deus como uma entidade meta-histórica, alheia à contingência que, ao contrário, é núcleo essencial da encarnação de Jesus Cristo, que é algo que podia não haver, é um acontecimento de liberdade radical. Pascal dizia por isso, com razão: “É melhor o ateísmo que o deísmo .”

Ora, também nós, porém, os católicos, estamos um pouco doentes de deísmo. Estamos presos numa tradição doutrinal em que primeiro afirmávamos Deus em si e, depois, afirmávamos Jesus Cristo. Mas este dualismo vem de um modelo cultural exterior ao cristianismo, que se aninhou nele. O que constitui o cristianismo é a absoluta centralidade de Jesus Cristo, a via, o caminho aberto por Jesus – “Eu sou o caminho”. Para chegar a Deus passamos por Jesus Cristo. O nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo. Tudo isto faz, sim, que o teísmo, quando é afirmado de uma maneira autónoma em relação à cristologia, torna-se realmente uma espécie de deísmo e assim um grande problema para a fé. E creio que hoje há sectores culturais da Igreja que estão ainda ligados a um racionalismo metafísico que contorna o tema da encarnação, não o leva a sério. A fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado dissolve-se assim numa religião desencarnada da história, num deísmo que mata a verdade central do cristianismo, que é Deus feito homem, feito carne.

Como vê a possibilidade da comunhão dos recasados?

Este tema, que, claramente, foi tratado pela [exortação] Amoris Laetitia, pelo Sínodo e pelo papa Francisco, é um tema, sem dúvida, não fácil, porque temos por trás um tempo em que precisamente se fazia crer às pessoas que os divorciados estavam excomungados. Os divorciados nunca estiveram excomungados pela Igreja. Havia em relação a eles uma disciplina de não admissão aos sacramentos, mas excomungados nunca estiveram. No entanto, no pensamento popular, pensava-se que eles estavam excomungados. E o papa justamente, e não simplesmente por uma condição de contingência, porque hoje os católicos divorciados são muitos, mas precisamente a partir de uma reflexão sobre o Deus que é misericórdia, abriu um caminho de acolhimento que não significa que os divorciados possam fazer automaticamente a comunhão. Isto não é verdade, porque fica assente o princípio doutrinal de que a fidelidade matrimonial é um dever absoluto, com o fundamento sobre uma palavra de Jesus no Evangelho, não é alguma coisa de que a Igreja possa dispor.

O que o papa diz é que em certas condições, em certas situações, em que não se pode refazer uma história de fidelidade com o cônjuge anterior, em que se desenvolveram todas as exigências de justiça para com o outro cônjuge, e para com os filhos, e se há uma vida cristã e se há uma vida eclesial, quando todas esta condições são cumpridas, então deve ser dada ao recasados a possibilidade de iniciar um caminho que seja, antes de mais, de penitência, mas que, ao mesmo tempo, leve a usufruir dos dons que Deus nos dá nos sacramentos, e sobretudo na eucaristia, porque o papa Francisco repete o que tinha dito Bento XVI ao declarar que já o Concílio de Trento tinha estabelecido “A eucaristia não é um prémio para os bons, para os justos, mas é um dom oferecido para a salvação dos pecadores”. O Concílio tridentino, que decerto tem por trás a tradição católica, afirmou vigorosamente que a eucaristia é um sacramento para a remissão dos pecados, portanto, remite também os pecados. Tudo isto faz, assim, que, em certas condições, através do trabalho de discernimento, haja a possibilidade de os divorciados estarem na mesa da eucaristia. Mas esta não é uma lei geral e automática, prevê e requer caminhos de purificação espiritual. Para sintetizar: o que se dá é uma mudança de uma disciplina da Igreja, não uma modificação da sua fé ou da sua moral.

Qual é o significado de uma exortação apostólica que defende claramente a mulher, a exalta, falando até de um “génio feminino”, e a liga a períodos muito difíceis da história da Igreja?

Creio que o papa Francisco tem, de verdade, no coração a promoção da mulher e o desejo profundo que na Igreja haja esta possibilidade real de a mulher poder ser verdadeiramente um sujeito e não simplesmente uma destinatária, porque, de facto, está na hora de a mulher não estar na Igreja unicamente como corpo discente, mas ser parte de uma Igreja magisterial. Devo dizer francamente, todavia, que esta expressão “génio feminino”, que se deve a João Paulo II, não me satisfaz, assim como não agrada a muitas mulheres. Porque para haver um génio feminino, então deve haver um génio masculino, e entramos num jogo de distinções, algo vão.

Creio que devemos estar atentos à retórica que às vezes a Igreja usa, sobretudo em relação às mulheres e em relação aos jovens. A retórica é geralmente inimiga da mudança real de atitudes e um reconhecimento daquela metade do mundo que são as mulheres, não pode passar apenas por grandes palavras, mas antes de mais pelos factos.

No seu livro Jesus e as Mulheres, fala dessa espiritualidade e da dificuldade da Igreja em aceitar a mulher. De que tem medo a Igreja, ao certo?

Eu escrevi Jesus e as Mulheres exactamente para poder dizer que é absolutamente necessário procurar no comportamento e no estilo de Jesus em relação às mulheres alguma coisa que inspire também a praxis da Igreja hoje.

Jesus teve discípulos e teve discípulas, teve um discípulo amado e teve uma discípula amada, Maria de Magdala. No final do Evangelho é Maria de Magdala a primeira a receber e transmitir a mensagem da ressurreição, o que faz dela uma apóstola dos apóstolos. Mas para definir o papel da mulher na Igreja não podemos focar-nos unicamente em Maria de Magdala, mas dar adequado relevo ao conjunto da palavra e dos actos de Jesus. Jesus viveu uma vida normal, entre o seu povo, em que procurou remover todos aqueles tabus e todas aquelas proibições que impediam uma verdadeira comunicação com as mulheres e que as retinha, mesmo às crentes, numa situação de menoridade em relação aos homens. Jesus enfrentou, combateu esses tabus, rompeu barreiras e há nos evangelhos tantos exemplos desta determinação e, no meu livro, estão todos descritos e comentados. Eu estou convencido de que a Igreja deve ter a coragem de iniciar este caminho na sequela de Jesus e que o primeiro passo deve ser de dar a palavra às mulheres.

Termino, dizendo sobre a Igreja e as mulheres, que para que as mulheres façam parte da Igreja no papel de plena igualdade e dignidade que Jesus Cristo lhes reconheceu, para que as mulheres não se tornem uma parte em falta da Igreja, (o que é um risco crescente), é preciso que elas possam tomar a palavra. Isto é para mim o essencial: as mulheres devem estar nos lugares de decisão da Igreja, porque é preciso escutá-las. Há um princípio na tradição cristã: o que respeita a todos deve por todos ser tratado, meditado e deliberado. Não se pode pensar que isto não diz respeito às mulheres, que são a metade da humanidade.

Por consequência, creio que se requer uma mudança radical, que suscita um grande medo em muitos, porque a Igreja é ainda muito clerical e os homens, sem dúvida, monopolizam os postos de poder, são eles que estão habituados há séculos a decidir e a representarem eles a Igreja e a não a deixarem representar também por uma mulher. São hábitos de séculos que devem ser mudados e tudo isto faz com que o caminho seja muito, muito difícil e custoso. Mas devemos sair da retórica mais depressa e dar passos muito concretos de forma que as mulheres se sintam verdadeiramente implicadas na vida eclesial como sujeitos e em plena igualdade.

Há condições neste momento para uma mudança?

Agora, para uma mudança com vista à ordenação das mulheres, não creio que haja condições, porque isto, por um lado, é um problema ecuménico que deve ser resolvido com a Igreja Ortodoxa e hoje não há maturidade do povo cristão para pensar que haja ordenações presbiterais dadas às mulheres. Mas ao lado desta questão há todo um caminho a fazer. Penso por exemplo, em quantos organismos poderiam ser confiados às mulheres e não serem simplesmente monopólio dos homens, clérigos e leigos. Se abríssemos este caminho, dar-se-ia sem dúvida uma mudança radical da condição de sujeição das mulheres na Igreja.

A comunidade de Bose é uma comunidade monástica singular, juntando homens e mulheres de várias confissões cristãs. Quantas confissões cristãs tem hoje Bose e quantos elementos?

A comunidade de Bose compõe-se de cerca de noventa membros, homens e mulheres. Os católicos constituem certamente a maioria, mas temos também um número significativo de membros das diversas igrejas da Reforma, e um pequeno núcleo de ortodoxos. A composição da comunidade de Bose é, decerto, igual à da Igreja actual e, para nós, isto é muito importante porque, em comunidade, experimentamos uma espiritualidade a sério, que sem fazer compromissos nem sincretismos, se alimenta de todas as tradições eclesiais e se enriquece com estas. É uma grande graça, e nós, agora, fazendo isto há 50 anos, vemos que estacomunhão no pluralismo das tradições é possível, que não é só fonte de uma reconciliação, mas que é possibilidade de um caminho comum e de uma única confissão do Senhor Jesus.

Ao fim de todos estes anos, qual é a principal experiência de que Bose é testemunho?

Não creio que tenhamos um carisma especial, porque estamos no interior da regra monástica. Certamente o nosso caminho teve dois elementos característicos que foram escolhidos como resposta a uma urgência que reconhecemos na altura da nossa constiuição e que se confirmaram como aspectos centrais da nossa experiência comunitária. O primeiro é a lectio divina (leitura orante da Bíblia), que fomos efectivamente nós a redescobrir no princípio dos anos de 1970 como praxis eclesial de primária importância e que a seguir se divulgou crescentemente na Igreja até que hoje ela é expressamente recomendada pelos papas. A revitalização da antiga tradição monástica da lectio divina é reconhecida como um marco da nossa comunidade e muitos vêm ainda a Bose, porque em Bose se pratica a lectio divina, porque em Bose todos os dias há a lectio divina e porque as nossas vidas são plasmadas por ela.

A outra característica peculiar da nossa experiência é a coexistência de homens e mulheres. É decerto uma mensagem positiva, passados 50 anos desde a fundação da comunidade, não ter havido escândalos, nem situações difíceis, não houve ‘embaraços’, o que prova a nossa intuição de partida: homens e mulheres podem viver em conjunto, escolhendo consagrar-se inteiramente a Deus. O fruto deste convívio é uma certa maturidade afectiva, uma normalidade humana importante. Sermos homens e mulheres na Igreja, na comunidade, não deve tornar-se um factor de separação e de sujeição de alguns aos outros, mas deve afirmar-se como um enriquecimento recíproco, como a construção de um caminho comum.

Tudo isto tem um significado peri-monástico que caracteriza Bose como uma forma de monaquismo numa sociedade secularizada. Um monge teólogo da grande abadia beneditina de Sainte-Marie-de-la-Pierre-qui-Vire, Ghislain Lafont, creio que era jovem quando disse que o monaquismo de Bose é o primeiro monaquismo que conseguiu inculturar-se numa sociedade secular. Creio que isto será o que decerto Bose deu, dá, e esperamos que possa ainda dar nos anos próximos.

O que atrai os jovens que vão a Bose?

Temos efectivamente a presença de muitos jovens, para os quais organizamos frequentemente acções formativas, jornadas teológicas, sessões de lectio divina, retiros… E temos uma procura que supera muito a nossa oferta. Não conseguimos efectivamente acolher mais do que cem, cento e vinte jovens de cada vez. Frequentemente os pedidos de inscrição alcançam o dobro.

Porque vêm? Essencialmente, creio, por duas razões. Em primeiro lugar porque em Bose nós os escutamos. Os jovens querem ser escutados. Não devem ser tratados apenas como destinatários passivos de uma mensagem, mas devem ser reconhecidos também como sujeitos, portadores de uma palavra a escutar. Estou convencido que o que faz falta aos jovens não é atenção de os considerar destinatários de mensagens e ofertas, mas a escuta, o silêncio e paciência que os põe em condição de se exprimir.

Em segundo lugar, o que atrai os jovens é o facto que a nossa proposta é extremamente simples e se articula em dois aspectos. Por um lado, o que fazemos é transmitir uma gramática humana básica para enfrentar a vida, para os ajudar a viver o caminho de humanização que deve ser a nossa existência. Porque um jovem tem absoluta necessidade de ser exercitado na escuta, na palavra, nas relações, nas histórias de amor, e é precisamente isto que nós procuramos fazer, na sabedoria possível de comunicá-lo e de verificá-lo juntos. Por outro lado, apresentamos aos jovens, simplesmente, humildemente, a palavra evangélica. Achamos que o nosso papel é oferecer aos jovens a possibilidade se se encontrarem com o evangelho, nada mais. Não insistimos noutros temas do cristianismo, nem em questões doutrinais, que eles terão tempo de percorrer e de assumir.

A comunidade de Bose é uma comunidade onde os monges e as monjas fazem votos de celibato e vida comunitária. E é uma associação laica. Isso é importante para Bose?

O monaquismo sempre foi um fenómeno de laicos, e nós não o devemos esquecer porque todos os padres do deserto eram laicos: Pacómio era laico, Basílio era laico, mesmo S. Francisco permaneceu laico, nunca se tornou diácono, como diz a lenda. Por isso, o monaquismo, por si, é laico e eu não quis de todo que fosse diferente. Devo dizer que os bispos [da diocese a que Bose pertence] que se sucederam me pediram que eu fosse ordenado padre, mas eu sempre recusei este convite, porque quero ficar um simples fiel, um simples laico como os monges. Não esqueço aquela frase dita por Pacómio ao patriarca de Alexandria, o grande patriarca que foi procurá-lo e que era Atanásio, e que perguntou: “E a comunidade?” E ele respondeu: “Somos simples laicos.”

O que eu escolhi foi simplesmente manter-me fiel a esta tradição. É claro que isto tem consequências. Por exemplo, ter menos vocações, porque muitos querem, sim, tornar-se monges, mas também padres, o que não é certo que seja possível ao escolher ser monge de Bose. Porque em Bose é só a necessidade da comunidade que determina a ordenação de um monge como padre. Se a comunidade precisa de um padre, então dá-se uma ordenação. Mas a maioria de nós fica laico para toda a vida. É uma escolha que afasta um número consistente de jovens, e todavia, vemos que há uma resposta constante, que para nós é suficiente. Não é tanto uma questão de números, quanto de qualidade da vida comunitária. Estamos contentes ao ver que a comunidade se mantém por meio desta opção como um corpo muito mais homogéneo, muito mais unido, porque somos irmãos e simples irmãos, sem hierarquias. O nosso reconhecimento jurídico, que foi feito pelo bispo, é de uma comunidade monástica, mas no nosso estatuto, como na nossa regra, a condição é laical.

Ir para um mosteiro hoje é fugir do mundo?

Não. O mosteiro deve sempre ter esta posição de estar não marginalizado, mas marginal, nas bordas, porque se o mosteiro se separa do mundo torna-se uma seita. Deve absolutamente estar sempre à escuta do mundo, ter a capacidade de estar presente no mundo, testemunhando uma diferença, que não deve ser expressão de um medo, não pode tornar-se uma contracultura, uma forma de defesa e recusa da sociedade. Dentro do monaquismo há o celibato, uma vida fraterna comum, o trabalho e a oração criam uma antropologia diversa, em comparação com a que se encontra no mundo, mas diversa não significa contrária, não significa em luta, significa simplesmente que pode ser alternativa, porque é capaz de fazer esta estrada e a sente como a sua verdade, mas não é uma estrada de perfeição, não é um caminho melhor. O título do meu livro sobre a vida religiosa [em edição espanhola, No Somos Mejores, Una Vision Renovada De La Vida Religiosa] formula precisamente este ponto central: Nós não somos melhores.

Voltando à Gaudete et Exsultate, o papa Francisco pede aos cristãos que dêem tanta atenção aos imigrantes e sobretudo aos pobres como se dá ao aborto. Surpreende-o isso?

O papa, nesta exortação apostólica, põe os pontos nos is. Um primeiro ponto é deflacionar a contraposição entre a contemplação e vida activa. Ele diz que não podemos refugiar-nos na oração e ignorarmos o irmão em necessidade, não nos pode recolher em silêncio e fugir assim daqueles que pedem ajuda. Ele recusa como um desvio este dualismo que polariza a vida contemplativa e a vida activa como formas alternativas de vida cristã, convidando a integrar estas duas dimensões na experiência de fé de cada um. Os cristãos seguem o Senhor, certamente em momentos de contemplação, de oração, de escuta da palavra de Deus, mas da mesma maneira devem escutar os homens, escutar as mulheres, escutar os irmãos, escutar os necessitados.

Um segundo ponto no i, uma segunda chamada de atenção é feita aos católicos que fazem grandes batalhas contra o aborto, pela bioética, em defesa dos “seus valores”, e não fazem absolutamente nenhuma pelos migrantes, pelos pobres, por aqueles que sofrem a opressão. Neste caso, observa o papa, há uma defesa da vida muito teórica, cultural e política, que não corresponde a uma batalha igualmente determinada em prol da vida real, dos seres humanos em carne ossos, nas suas necessidades.

Hoje há sectores da Igreja, nomeadamente nos Estados Unidos, muito empenhados em grandes batalhas identitárias, contra o aborto, contra a eutanásia, contra a moral sexual mas que não se ouvem em relação às situações de pobreza, injustiça, exploração, opressão que se vê no mundo. Isto é escandaloso, e é este dualismo que o papa denuncia de maneira muito forte.

A dificuldade em se perceber o que é o humanismo cristão vem da dificuldade de se dizer a palavra “Deus”?

Bem, sim e não, no sentido de que hoje, sem dúvida, a palavra “Deus” é uma palavra que se esvaziou muito, de forma dramática na última geração, no milénio actual. Muitos dizem que Deus já não interessa, que podemos viver a vida sem Deus. E frequentemente esta posição é associada a uma reivindicação humanista de tolerância e de convivência pacífica, porque no contexto actual de radicalismos e fundamentalismos emergentes Deus acaba por ser associado ao fanatismo, à intolerância religiosa, aparece exactamente como factor detonante do fanatismo terrorista. Deus é uma palavra que não goza de boa saúde actualmente e devemos tomar consciência disso. Mas o facto é que a fé dos cristãos não consta na confissão de um Deus em geral, de uma entidade suprema, abstracta, meta-histórica. O nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo e Jesus Cristo revelou-nos Deus através de uma vida humaníssima. Portanto, é inspirando-nos na vida humana de Jesus que podemos avançar em direcção a Deus, um Deus inefável, indizível, de que não conseguimos dizer nada porque nunca o vimos, que é a fonte de vida, que é a fonte do amor, e que é o Pai de Jesus Cristo. Este é, na minha opinião, o caminho que devemos fazer.

Onde há espaço para o humanismo cristão no mundo de extremismo, populismo, violência, discurso do ódio?

Certamente hoje é fácil o fundamentalismo, é fácil a intolerância, em consequência, mesmo no interior da Igreja Católica. O papa, na exortação Gaudete et Exsultate lamenta-se da violência que se manifesta e se espalha na Web, no mundo da Internet. Mas creio que o humanismo cristão, exactamente porque é esta praxis que ajuda a convivência, que ajuda um caminho de humanização, pode ser extremamente fecundo hoje. E hoje, mais do que ontem, este humanismo evangelicamente inspirado é reconhecido antes de mais pelos mesmos cristãos, como uma mensagem de reconciliação e de integração social, como uma força que contraria a solidão e a fragmentação.

O papa Francisco terá dito a um jornalista italiano que o inferno não existia. Faz sentido hoje discutirmos isto?

O debate voltou de novo e decerto Eugenio Scalfari [jornalista italiano que alega ter ouvido essa frase ao Papa] interpretou como quis as palavras do papa. Porque o que o papa pode dizer, dentro de uma fidelidade ao Evangelho, é isto: que o inferno é uma ameaça que se encontra directamente nas palavras de Jesus.

Ousarei dizer que, se há uma novidade do Novo Testamento, é a possibilidade do inferno. No Antigo Testamento, esta noção não se encontra: no Além veterotestamentário há um repouso, há uma escuridão, mas não se fala de ressurreição, de vida ultra-terrena, nem propriamente de condenação eterna. O Novo Testamento, pelo contrário, anuncia a ressurreição, que implica a possibilidade do inferno. Isso é de uma condição para além da condição terrena que se confirme na escolha existencial do pecado, como opção de viver sem Deus, sem amor. Este é o núcleo da palavra evangélica, que se reveste do imaginário judaico do fogo, da desolação de lugares ultraterrenos, mas estes são apenas ícones necessários para simbolizar o mistério.

Para os cristãos, o que é isto?

Para os cristãos, o imaginário dado por Dante dentro da Divina Comédia continua predominante. Como há o reino dos bem-aventurados, há um reino na profundidade do inferno onde há tormentos, sofrimentos diversos, conforme os pecados. Na realidade, do inferno não sabemos nada. Digamos que Jesus põe diante de nós a possibilidade de um caminho mortífero, que leva ao mundo sem Deus, sem amor, e uma vida com Deus, com amor, que é chamada Reino dos Céus, que é chamada paraíso.

O que faz o cristão? O cristão sabe e deve saber que existem estas duas possibilidades diante dele e que é ele que escolhe, aqui. O que está em jogo nesta promessa de salvação e nesta possibilidade de perdição não é um segredo que nos escapa. O essencial é claríssimo para cada um: eu hoje escolho o inferno, hoje escolho o Reino de Deus, escolho por meio das minhas acções. Esta opção levar-nos-á àquilo que é um juízo diante da misericórdia de Deus e é isto, a consciência do juízo de Deus, de um Deus que conjuga misericórdia e justiça que conta e que deve condicionar o nosso discurso. Na minha opinião, é estúpido querer saber se o inferno está vazio ou cheio. O que interessa é se queremos ou recusamos o amor de Deus, vivendo-o como amor para os irmãos.

Há apenas uma consideração que considero relevante a este respeito. Um verdadeiro cristão pode pensar na sua felicidade no Reino de Deus sem que ali se encontrem os outros? Uma pessoa não se salva sozinha. Por isso, a esperança de um cristão deveria ser que para o inferno não vai ninguém, que a misericórdia de Deus abrange tudo. Para dizer a verdade, quando penso no Além, temo o inferno, mas temo-o por mim, e pergunto-me: se para o inferno vai qualquer pessoa, porque não hei-de ir eu? Sou assim tão santo? Duvido, por isso, espero que ninguém vá para o inferno.

É a atitude de Paulo que dizia: espero que a nenhum dos meus irmãos judeus aconteça que não seja salvo. É a atitude de tantos santos da tradição oriental, que diziam: se há o inferno, Senhor, manda-me a mim, para que outros não entrem no inferno. É a atitude de quem é nutrido de amor. Não pode haver um verdadeiro cristão que afirme que há inferno, porque quer mandar para lá os outros, pensando que ele não vai

O papa Francisco disse há algumas semanas: “Queridos jovens, vocês têm o que é preciso para gritar contra a anestesia.” Cinquenta anos depois do Maio de 68, é a Igreja, o papa Francisco, a exortar os jovens a gritar. Há 50 anos a Igreja era o símbolo do conservadorismo. Não é uma ironia?

Sem dúvida, que na história, sabemo-lo bem, há estes movimentos, estes refluxos, com uma oscilação entre momentos de grande esperança e, por consequência, também de contestação da situação existente e de batalhas para a mudança e momentos de recuo e bloqueio, em que todos parecem paralisados e mesmo as vozes de mudança se mostram extremamente fracas. No mundo ocidental estamos a viver um destes momentos de anestesia social e histórica. O problema é que todos, inclusive os jovens que geralmente são uma força de transformação, hoje estão muito homologados por esta cultura da sociedade de consumo. Então o papa quer acordá-los, dizendo “Gritai, não deixeis gritar as pedras” e desafia-os a tomar consciência do seu papel na história.

Pois, também aqui estejamos atentos a que não se torne uma retórica. O que é preciso não é só dizer aos jovens “gritai”, mas é preciso dizer “Nós estamos dispostos a tomar-vos a sério e a escutar-vos. Digam-nos alguma coisa. Não basta gritar, digam-nos a nós que, juntos, queremos mudar as coisas.”

É conhecido o seu gosto pela cozinha. De onde lhe vem?

Essencialmente da minha família e da minha terra, o Monferrato, que é sabido ser uma terra de grande tradição gastronómica, refinada pelo intercâmbio com a França. A minha avó era uma cozinheira francesa e o meu avô era padeiro. Não éramos uma família de lavradores, mas de artesãos, ligados profissionalmente à cozinha ou mais em geral à alimentação. A este contexto local e familiar acrescentaram-se as circunstâncias da vida: a minha mãe morreu quando eu tinha oito anos, o que me obrigou a preparar a comida para o meu pai que voltava do trabalho. Já aos nove anos eu era responsável pelo menos para a refeição do meio-dia, todos os dias. Desde então, nunca mais deixei de cozinhar. Cozinhava para mim e para os companheiros de alojamento quando estava na universidade, no alojamento tinha de preparar a minha alimentação. Continuei a cozinhar depois de mudar-me para Bose, porque pelo menos durante os primeiros seis ou sete anos eu era o único disponível para acolher aqueles que chegavam.Isto nunca foi para mim um peso, mas uma alegria. Por isso, quando devo fazer festa em comunidade ou quando convido amigos, a primeira coisa que gosto de fazer é cozinhar para eles, convencido de que fazer os cozinhados é a primeira maneira de dizer a alguém “quero-te bem”.

Portanto, a comida na mesa é amor?

Sim, exactamente, é a manifestação do amor. A mesa é o magistério do amor. Come-se, mas também fala-se, compartilha-se, para que haja comida para todos, dá-se atenção aos produtos que se utilizam. À mesa celebram-se todas as nossas histórias, os casamentos, os nascimentos, as mortes. A mesa é o lugar onde se iniciou a humanização, é o lugar onde nasceu a linguagem, a palavra. Então a mesa deve ser levada a sério. O problema é que hoje a mesa se tornou o lugar da máxima estranheza, quando a mesa tem a vocação para a máxima comunhão.

chef italiano e seu amigo, Carlo Petrini, diz que o ensinou a cozer ovos com base em ave-marias. Como é que as ave-marias são mais precisas que os relógios?

A razão é muito simples: os nossos antepassados quando cozinhavam os ovos não tinham relógio e por isso tinham essa sabedoria extremamente camponesa, imbuída de religiosidade, que o tempo de fazer um ovo à la coque é exactamente o de rezar dez ave-marias, enquanto para obter um ovo cozido temos que contar o tempo de vinte pai-nossos… Hoje que temos os relógios, achamos que já não precisamos das ave-marias, mas se calhar eram as nossas avós que sabiam mais!

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Questa voce è stata pubblicata il 06/05/2018 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag , .

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