COMBONIANUM – Formazione e Missione

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FP.pt 6/2018 Coração e Compaixão (2)

Formação Permanente – português 6/2018
Coração e Compaixão
Texto word FP.pt 2018-6 Coração e Compaixão
Texto  PDF  FP.pt 2018-6 Coração e Compaixão

Jean Vanier e l'Arche

ABRIR-SE À TERNURA – A HISTÓRIA DE HELENA
Jean Vanier

A Helena, da comunidade de Punla nas Filipinas, morreu há alguns meses. Tinha quinze anos quando chegou à comunidade. Tinha vivido no hospital desde a nascença e era muito pequena. Era cega, incapaz de andar, de falar, de fazer fosse o que fosse com as mãos; um pobre corpinho ferido e frágil.

Era Keiko, uma jovem japonesa, que se ocupava dela. E quando fui a Manila nesse ano, Keiko disse-me como era difícil conviver com a Helena. Helena não tinha qualquer reacção. Era completamente amorfa, não reagindo a nada, não reclamando nada, capaz apenas de mamar o biberão que lhe metiam na boca. Era muito duro não saber nada do que ela podia sentir e não ter qualquer comunicação com ela.

Encorajei Keiko a falar-lhe com muita doçura, a tocá-la com muita ternura, a segurá-la com muito amor. E disse-lhe. “Se Deus quiser, um dia ela sorrirá. E, nesse dia, Keiko, mandar-me-ás um postal”.

Alguns meses depois, recebi um postal de Manila: “A Helena hoje sorriu”, escrevia Keiko. Helena tinha recuperado a vida: algo de emparedado nela, no fundo dela, se tinha libertado, uma pequena nascente havia surgido, tinha recuperado a confiança.

É assim, nós somos seres de comunhão, e quando a comunhão não é possível, fechamo-nos em nós próprios, tornando-nos incapazes de comunicar, de agir, de entrar nessa circulação vital do mundo e dos seres; é como se tivéssemos deixado de ser irrigados. A criança que está abandonada, deixada a si própria desde a nascença, fecha-se num mundo de tristeza e de depressão e torna-se incapaz de reagir. (…)

Tudo o que a criança pode viver é a comunhão, esse vaivém de amor em que se dá e se recebe. Ás vezes oiço os psicólogos dizerem que a criança não ama, que o amor é algo que se desenvolve, algo que é da ordem do dom e do altruísmo.

É verdade que há no amor essa dimensão oblativa que é necessário indubitavelmente adquirir pouco a pouco, mas é falso dizer que a criança não ama. Pelo contrário, a criança não é senão amor. Mas vive uma forma de amor que nós perdemos e de que temos muito medo: o amor de confiança.

Há um amor de generosidade de que sem dúvida o pequenino não é capaz. Um bebé não é generoso! Mas é extraordinariamente confiante e a confiança é já um dom de si.

Nós crescemos talvez em generosidade, mas perdemos a confiança: a confiança em Deus, a confiança nos outros. Temos tanto medo de ser enganados, manipulados, traídos, de depositar mal a nossa confiança que desenvolvemos todo um sistema de defesa, ao abrigo do qual procuramos provar a nossa independência, a nossa autonomia.

A criança não pode ser autónoma. É tão pequena quando nasce que nada pode fazer por si própria, nem sequer puxar os cobertores se tem frio de noite! Está dependente em tudo e só pode gritar. Mas o que é extraordinário é que o seu grito é também um sinal de confiança: “Tenho confiança em ti, sei que me amas, sei que queres o meu bem, que queres que eu seja feliz. Sei que responderás ao meu grito”, diz ela.

E a mãe responde ao grito da criança, interpreta o seu grito: “Tem fome, tem sede, sente-se triste, tem medo do escuro…” Gosto muito de ouvir uma mãe interpretar o grito do seu bebé, compreendê-lo, porque o ama e o conhece. (…)
A criança precisa de ser amada, com esse amor que lhe revela que é bela, que estamos felizes de estar com ela, felizes que ela exista, felizes de nos ocuparmos dela, de tocá-la, de a banhar, de a beijar ou de brincar com ela.

Ela sente-o através da forma como a tocamos, como lhe falamos, pois não contam apenas as palavras, mas também, e mais ainda, o tom de voz. Quando uma criança é pequena demais para compreender as palavras, compreende no entanto muito bem o tom de voz. (…)

Não conhecemos a história da Helena, não sabemos exactamente o que a feriu, mas sabemos que ela estava horrivelmente ferida. Deve ter chamado e chamado para receber amor, ternura, para que alguém se ocupasse dela com doçura, para que lhe fizessem sentir que ela era importante, que ela contava para alguém. E se ninguém respondeu – e ninguém deve ter respondido – um dia deixou de chamar, fechou-se em si própria, retirou-se o mais que pôde do mundo. (…)

Como sairá Helena da sua prisão de medo e de desespero? Como se abrirá de novo à comunicação? Encontrando alguém em quem possa ter confiança, alguém que não a julgue nem a condene. Porque se Helena se abre um pouco e logo a seguir é julgada ou condenada, se a acham “má”, ela fechar-se-á definitivamente.

Como tocar a Helena para lhe devolver confiança, para que não se sinta julgada? Helena grita pela comunhão e não-condenação, mas o seu grito está encerrado nela. É como uma pedra e não reage a nada. (…)

Para viver, uma Helena precisa imensamente de ternura, precisa de sentir que está em comunhão com os outros. E se recebe essa comunhão, deixará cair as suas barreiras de defesa, abrir-se-á pouco a pouco. E, um dia, sorrirá.

A história de Helena na comunidade foi muito curta. Foi Jing que, um dia, a resumiu assim: “A Helena veio, sorriu, foi baptizada e, depois, morreu”. A sua morte foi muito dolorosa: teve uma crise de epilepsia, mas não conseguiu recuperar a respiração e sufocou. Agora, é o anjo da guarda da comunidade, aquela que no coração de Jesus vela sobre a comunidade. É misterioso que tenha ficado tão pouco tempo connosco, cerca de uma ano. Talvez não tenha vindo senão para sorrir e nos ensinar o segredo da comunhão.

Helena não vivia senão de comunhão. Teve tempo de a recuperar e de nos ensinar quanto medo também nós temos, e quantos defesas; talvez não a imobilidade como ela – muitas vezes preferimos a hiperactividade – mas a hiperactividade é igualmente eficaz para nos fecharmos e nos escondermos dos outros. Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso que nós também nos abramos, que cessemos de querer fazer coisas, que também estejamos dispostos a viver em comunhão, para que não tenhamos mais medo da nossa doçura e da nossa própria ternura.

A Helena precisava que nós descobríssemos a nossa própria ternura e nossa doçura. Viveu profundamente a primeira bem-aventurança – era tão pobre – e tinha imensa necessidade da terceira bem-aventurança: “Bem-aventurados os mansos…” Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso ter muita mansidão, isto é, muita doçura; para a tocar sem a ferir, é preciso uma imensa ternura e se, no nosso íntimo, há violência, não poderemos tocá-la. Quanto mais alguém está ferido, mais doçura é necessária. Para lavar o corpo de alguém que vai morrer, é precisa uma doçura extrema.
elena ensinou-nos a viver a terceira bem-aventurança.

Jean Vanier, em “A Fonte das Lágrimas”
http://seguirjesus.blogspot.it

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Questa voce è stata pubblicata il 06/06/2018 da in Artigo mensal, PORTUGUÊS con tag , , .

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