COMBONIANUM – Formazione e Missione

— Sito di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA — Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa — Blog of MISSIONARY ONGOING FORMATION — A missionary look on the life of the world and the church

Uma erótica do cuidar: O desejo e o amor como fundamentos antropológicos para uma boa relação de cuidado

cuidados-auxiliares-geriatria.png


É o desejo, por carência e plenitude, que, aproximando e juntando as pessoas, cria a cidade. Será o desejo a criar comunidade ou nada criará comunidade. A comunidade supõe uma erótica de relação que faça que um ser humano queira estar com outro ser humano tendo como fim de tal relação não o ser humano que em si próprio é, mas o ser humano que o outro é.

Salvo isto, toda a relação humana, sem dúvida classificável como social, não passará, nunca passará, de uma relação, porventura complexíssima, de parasitação. O mundo em que se tem até hoje vivido e o mundo em que hoje se vive é, socialmente, sobretudo, um ato de parasitismo, a que se têm oposto, como têm podido, a dinâmica e a cinética eróticas da ação pelo e para o bem do outro.

Por exemplo, algo com a atividade em enfermagem nasceu do desejo de contribuir de forma especial e especialmente poderosa para anular a exclusiva dinâmica e cinese parasitária do ser humano sobre o ser humano, especialmente na guerra, e de reconstruir, constituindo, construindo, uma forma alternativa de humanidade, humanidade curadora, não-parasitária, humanidade de e do dom, não de roubo. Tal é a grande honra da enfermagem, que reside no «eros» de bem que a informa desde o seu fausto nascimento.

É no encontro entre seres humanos, proporcionado pelo desejo como carência, que estes se descobrem como entidades não apenas de carência, não sobretudo de carência, mas, sobretudo, de abundância e de possibilidade de dom

Este mesmo desejo de bem do outro, traduzido em vontade, em forma universal, institui os laços relacionais que são o ato complexo próprio da cidade. De qualquer cidade como macrocosmos humano, de que o local de cura é, apenas, mas significativa e exemplarmente, um microcosmos.

Temos, já, um conjunto fundamental de noções, de entre outras possíveis, que enquadram a raiz própria da enfermagem como prestação de cuidados de saúde. Deste modo, talvez a noção principal aqui em causa seja a de que o desejo é, neste âmbito, fundamentalmente positivo.

Se a base lógica do desejo diz respeito a algo de que se é carente, sem o que nada haveria que desejar, constituindo esta base lógica do desejo isso que inicialmente encaminha ser humano para ser humano, é no encontro entre seres humanos, proporcionado pelo desejo como carência, que estes se descobrem como entidades não apenas de carência, não sobretudo de carência, mas, sobretudo, de abundância e de possibilidade de dom.

O desejo em estado puro, isto é, apenas como desejo, não basta. Este é sempre da ordem do passional, mesmo quando a paixão não se centra objectual e objetivamente no seu sujeito, mesmo quando é paixão pelo bem do outro

Como de abundância? Observemos a relação, inicialmente, pela negativa: se um ser humano se aproxima de outro ser humano por carência e dele apenas retira o que lhe convém a si, que possibilidade de duração estará a imprimir a tal relação? Apenas a que durar o que duraro bem que o outro tem e é do interesse do carente que se aproxima. No limite, é possível pensar-se que tal relação dure muito, se for bem administrado o modo como o roubo do bem do outro é operado, isto é, não eliminando este e vivendo às custas do mesmo seu bem.

Ora, conhecemos este limite desde sempre na história da humanidade e chama-se escravatura. Praticamo-lo uns com os outros desde sempre e praticamo-lo também com algumas das outras espécies, que exploramos parasitariamente sem piedade e sem remorso.

Se se complexificar tal relação, obtemos uma sociedade em que um – o tirano – ou uns poucos – os oligarcas – obtêm o bem de que são carentes às custas do bem roubado a todos os outros, os escravos. Estes escravos podem estar em estado de consciência alienada e serem chamados, por exemplo, de povo democrático. Tal não invalida a substância parasitária da relação. O mundo sempre viveu geralmente assim e assim continua a viver. Ressalvam-se as honorabilíssimas exceções.

O que desencadeia o ato de cuidado é da ordem da vontade, que é o ato humano em que o simples e fundamental desejo se metamorfoseia em ação. Ação que pode ser de parasitismo ou de cuidado

Ora, dos poucos lugares – na realidade, atos complexos – em que tal relação geral não se vive, podemos apontar os lugares do cuidado do bem do outro pelo bem do outro que são, por exemplo, as enfermarias hospitalares e todos os outros lugares e atos a que estas servem de exemplo e modelo: o quarto em que se cuida do bebé ou do velho, em casa, assim, tornada lar; a escola em que que se procura, não escravizar os alunos ao padrão social do momento, mas libertá-los, através do livre exercício do pensamento; todos os lugares-atos em que um ser humano exerce a sua ação em prol do bem de um outro, sem mais esperar do que esse mesmo bem possível e, assim, realizado.

Como deve ser evidente, esta gratuidade do sentido do bem a realizar não deve ser confundida com uma qualquer ausência de forma de retribuição: se, para a mãe ou o pai cuidador do bebé, um sorriso do infante basta, talvez já para um profissional de prestação de cuidados de saúde, que vive desse mesmo trabalho, um salário decente seja requerido.

Tal reciprocidade é parte integrante da relação de cuidado. Existe sempre, nem que seja apenas na satisfação que um ser humano tem quando pratica o bem. Mas tal pode não bastar, e a ausência de remuneração adequada configura sempre um modo de escravização, mais ou menos clara, de quem trabalha.

O ato que cria e mantém a cidade, isto é, o ato em que seres humanos vivem em realização do melhor de suas possibilidades de humanidade, universalmente, quer dizer, para todos, sem exceção, é um ato de cuidado, complexo, interativo, universal e necessário, sem o qual a cidade como tal morre

Tudo o que ficou dito abunda na evidência da grandeza positiva da erótica humana, que é, sobretudo desejo de dar, não desejo de receber, como comummente se pensa. Este sentido positivo do «eros» desmente quase todas as teorias montadas para justificar a opressão dos seres humanos uns pelos outros, baseadas na erótica humana como negativa, como necessariamente depredatória.

No entanto, o desejo em estado puro, isto é, apenas como desejo, não basta. Este é sempre da ordem do passional, mesmo quando a paixão não se centra objectual e objetivamente no seu sujeito, mesmo quando é paixão pelo bem do outro.

O que desencadeia o ato de cuidado é da ordem da vontade, que é o ato humano em que o simples e fundamental desejo se metamorfoseia em ação. Ação que pode ser de parasitismo, onfalocêntrico, ou de cuidado. Noutras palavras, ato que se pode consumar e consumir numa ética do total encerramento egoísta do sujeito erótico ou que se pode assumir em dimensão política, quando é ato que se espraia na relação que propriamente cria com o outro cuidando do seu possível bem, que, deste modo, transforma, através de tal vontade, de tal saída de si próprio, em real bem.

A prestação de cuidados de saúde contribui para evitar esta situação de escravatura, pois previne e repara o bem antropológico mais precioso, a saúde, entendida não como um acrescento ou um adorno antropológico, mas como um outro nome do que cada ser humano é em sua possibilidade de grandeza ontológica

É esta a matriz ontológica, onto-antropológica, com imediatas consequências éticas e políticas, do ato de cuidar. É esta a matriz antropológica profunda do ato próprio da ação em cuidados de enfermagem.

Ora, em termos universais, o ato que cria e mantém a cidade, isto é, o ato em que seres humanos vivem em realização do melhor de suas possibilidades de humanidade, universalmente, quer dizer, para todos, sem exceção, é um ato de cuidado, complexo, interativo, universal e necessário, sem o qual a cidade como tal morre.

Esta evidência ajuda a perceber qual é a verdadeira importância, para a cidade, do exercício dos cuidados de saúde, precisamente como «cuidados de saúde», não como «cuidados de doença». A enfermagem, progressivamente, é chamada a um contributo cada vez maior neste horizonte humanamente necessário de prestação de cuidados de saúde.

Deste modo, é a relação de cuidado, como ato de cura do bem do outro, que institui e constitui, que cria e mantém, uma possível comunidade humana, e, a partir desta mesma possibilidade, uma real comunidade humana, não apenas como uma coisa social com nome de comunidade, que, todavia, não passa de um agregado de parasitas humanos procurando roubar o mais que podem uns dos outros, situação extrema, mas muito próximo da qual hodiernamente nos encontramos.

O cuidado, antes de ser reparador – erro de interpretação frequente – é criador, criador de vida, criador de possibilidades antropológicas, impossíveis sem saúde, boa saúde; criador, mesmo quando, sendo reparador, por meio da reparação, cria novos horizontes de possibilidade

A prestação de cuidados de saúde contribui para evitar esta situação de escravatura, pois previne e repara o bem antropológico mais precioso, a saúde, entendida não como um acrescento ou um adorno antropológico, mas como um outro nome do que cada ser humano é em sua possibilidade de grandeza ontológica própria: não há distinção entre o que sou como ser humano total e isso que sou como ato de saúde.

A pessoa não tem saúde: é ou não é saúde.

A promoção da saúde humana percebe-se, deste modo, muito mais evidentemente, como promoção do bem do ser humano ou do ser humano, sem mais. Todavia, também se percebe por que razão se aposta tanto em manter a saúde humana em cota baixa, pois um ser humano saudável é um ser humano indomável, politicamente incontrolável por quem o queira escravizar. Neste sentido, política e educação e educação para a saúde estão intimamente relacionados quer como promotores gerais do bem do ser humano quer como libertadores deste mesmo ser.

Quem quiser escravizar um povo não tem muito mais que fazer do que trabalhar, manipular, a seu modo a prestação de cuidados de saúde e a educação. Que teria acontecido em Auschwitz se aquela população de mais de cem mil seres humanos estivesse plenamente saudável? Deixar-se-iam tais cem mil tão facilmente reduzir e esmagar?

Dá que pensar.

Ao cuidado opõe-se a violência, como ato que tem como fim aniquilar o outro, seja de que modo for, ato que se pode operacionalizar de muitos modos, desde a agressão com consequências físicas, à agressão dita verbal, ao corte de verbas para a prestação de cuidados de saúde

Assim, o cuidado, antes de ser reparador – erro de interpretação frequente – é criador, criador de vida, criador de possibilidades antropológicas, impossíveis sem saúde, boa saúde; criador, mesmo quando, sendo reparador, por meio da reparação, cria novos horizontes de possibilidade antropológica, permitindo ao desejo de ser de cada pessoa estar num âmbito novo rasgado pelo ato de cuidado de saúde. Lembre-se a vacinação e o bem que aportou, como absoluto de possibilidade de vida, a centenas de milhão de seres humanos, de outro modo condenados à mundana aniquilação: que espantoso bem assim realizado. Lembremos, por exemplo, o bem que tem sido realizado pela maquinação protésica. Os exemplos, todos notáveis, deste tipo de bem, seriam imensos. Ficam estes como breve homenagem.

Como já percebido, ao cuidado opõe-se a violência, como ato que tem como fim aniquilar o outro, seja de que modo for, ato que se pode operacionalizar de muitos modos, desde a agressão com consequências físicas, à agressão dita verbal, ao corte de verbas para a prestação de cuidados de saúde, havendo ainda recursos disponíveis para o serviço do tirano ou da oligarquia, à inação propositada ou simplesmente ditada pela humana estupidez, dos des-governos do mundo, ao prestador de cuidados de saúde que não estudou e não estuda e assim não tem os devidos conhecimentos científicos que deveria possuir. Os exemplos, tristes, estes, são, também, imensos. Todos deveriam ser erradicados, tendo em consideração que para erradicar alguns destes erros há que erradicar quem os pratica: em Auschwitz havia pessoal de saúde dedicadíssimo… a servir Hitler.

Todo o ato jurídico que viole a dignidade humana é, em si mesmo, nulo e deve ser desrespeitado, como tal, e aniquilado o mais brevemente possível, sob pena de ser ele a contribuir para aniquilar a humanidade

Pode, deste modo, perceber-se que a vida propriamente humana, vida da cidade, é um constante confronto entre uma erótica do cuidado e uma erótica da violência. Do saldo deste confronto, saldo em permanente alteração, depende o bem atual da cidade, isto é, a própria cidade. Ora, nos nossos dias, já se percebe que a «cidade» é o mundo como um todo.

Sendo assim, do saldo final universal deste confronto depende o futuro geral da humanidade: quando este saldo for irrevogavelmente negativo tal significará a aniquilação da humanidade.

O trabalho dos cuidadores, de todos os cuidadores, em sentido também universal, é o ato que mantém, que vai mantendo, o saldo positivo. De entre os cuidadores, relevam-se os técnicos de saúde merecedores do título, mormente e cada vez mais, o pessoal de enfermagem, também merecedor do título, isto é, seres humanos cujo ato é um genuíno ato de cuidado, uma erótica do cuidar em ato pelo bem de quem se cuida, não mercenários que mecanicamente praticam atos de intervenção dita cuidativa, assim, facilmente substituídos, e com vantagem, por máquinas, mais baratas e sem caprichos ou estados de alma.

Compete ao prestador de cuidados de saúde uma ação que seja implacável no sentido do bem de quem cuida e no sentido de lutar contra tudo o que tal impeça

Entre o «alfa» da junção di-haploide dos humanos gâmetas feminino e masculino, quaisquer, princípio físico, químico, biológico, mas também ético e político de toda a antropologia, possível e real, e o «ómega» que é o ato da morte, encontramos esta realidade que é o ser humano, em toda a sua possibilidade, potencialidades e realidades atuais próprias e irredutíveis.

Qualquer tentativa ou concretização de redução antropológica constitui um ato de violência, de tirania, que, imediatamente, atenta contra a dignidade propriamente humana de tal ser. Tal é independente de quaisquer juízos, sempre «demasiado humanos». A própria dimensão, posterior quando não postiça, legal – toda ela – deve respeitar sempre este sentido de dignidade humana, de que, aliás, promana, pois, sem seres humanos não há direito, abstendo-se de violar precisamente o que deve ser o seu objeto único, o bem humano enquanto humano.

Neste sentido, todo o ato jurídico que viole a dignidade humana é, em si mesmo, nulo e deve ser desrespeitado, como tal, e aniquilado o mais brevemente possível, sob pena de ser ele a contribuir para aniquilar a humanidade. Lembremo-nos das famigeradas «Leis de Nuremberga» e da inação internacional que perante elas houve, com as consequências por demais conhecidas.

Por mais anti-humano que seja o ambiente social, político, jurídico, mesmo ético em que o prestador de cuidados de saúde aja, deixará de ser merecedor de usar tal nome se não for capaz de reger a sua ação segundo apenas um eros de bem, que se transforme em cada situação possível de cura, em ato de vontade no sentido do bem de esse de quem cuida.

O mais é humanamente indigno, em sua negatividade, e nem sequer deveria ser aqui mencionado porque não deveria existir. Compete ao prestador de cuidados de saúde uma ação que seja implacável no sentido do bem de quem cuida e no sentido de lutar contra tudo o que tal impeça. É sobre isso que vai ser julgado pela sua própria consciência e pela história.

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 18.07.2018
http://www.snpcultura.org

Annunci

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google+ photo

Stai commentando usando il tuo account Google+. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informazione

Questa voce è stata pubblicata il 22/07/2018 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag , , .

San Daniele Comboni (1831-1881)

Inserisci il tuo indirizzo email per seguire questo blog e ricevere notifiche di nuovi messaggi via e-mail.

Segui assieme ad altri 614 follower

Follow COMBONIANUM – Formazione e Missione on WordPress.com
luglio: 2018
L M M G V S D
« Giu   Ago »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

  • 239.270 visite

Disclaimer

Questo blog non rappresenta una testata giornalistica. Immagini, foto e testi sono spesso scaricati da Internet, pertanto chi si ritenesse leso nel diritto d'autore potrà contattare il curatore del blog, che provvederà all'immediata rimozione del materiale oggetto di controversia. Grazie.

Categorie

%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: