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Martini – O Evangelizador em São Lucas (1)


Curso de Exercícios do cardeal Martini a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Texto word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (1)
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O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (1)
Carlo Maria Martini


Jesus em Nazaré.jpg

INTRODUÇÃO

É uma grande alegria encontrar-me aqui, convosco, com certa calma, certa distensão, por um tempo um pouco prolongado. Tudo isso me parece quase um milagre, depois de meses durante os quais tive encontros com tantas pessoas, mas brevemente e no meio do ruído. Desejaria viver nestes dias um pouco no espírito daquelas palavras de São Paulo aos Romanos: “Tenho um desejo ardente de ver-vos” (Rom 1,11). Também eu tenho este desejo ardente de encontrar-me convosco, “de fazer-vos participantes dos dons do Espírito que se tornam ainda mais fortes”, mas – como prossegue São Paulo no v. 12 – “sobretudo desejo ver-vos para que, no meio de vós; também eu possa sentir-me confortado por aquela que é a vossa e a minha fé”.

É o fruto fundamental que espero destes dias. O texto grego que aqui traduzi como “sentir-se confortado”, é symparaclethénai, ter uma consolação comum; segundo a linguagem do N.T., significa “estar cheios da luz do Espírito”, estar cheios de alegria, de entusiasmo, de coragem. Paulo, no texto citado, dá a preeminência à fé dos ouvintes: é precisamente esta a atitude com que vim e me encontro diante de vós. Desejo ver-vos para poder sentir-me confortado e consolado por aquela que é a vossa fé.

Neste espírito, proponho logo um breve exercício: com efeito, os Exercícios são uma actividade, uma elaboração de alguma coisa. Devemos procurar responder a uma pergunta: Como descrever a minha, a nossa situação no início destes dias?

Começo descrevendo a minha, de modo a encaminhar-vos a fazer, cada qual pessoalmente, a própria autodescrição no silêncio e na oração. A minha não é a situação ideal de quem desejaria guiar outros, porque a situação ideal parece ser – como o Evangelho diz de Jesus que, sentado no monte, ensinava os discípulos – aquela de quem se encontra falando bem à vontade, numa situação tranquila, com todas as próprias relações espirituais, de fé, de vida ordenadas e, a partir deste organismo de equilíbrios bem feitos, propõe alguma coisa. Em vez disso, reflectindo sobre mim mesmo nesta tarde, devo descrever-me com outra imagem, aquela de Abraão, três dias depois do chamamento: Abraão está de viagem porque a Palavra o chama e nada sente a não ser que deve mover-se. Movendo-se, Abraão sabe que deve começar a refazer todos os equilíbrios da própria vida, a suprimir muitas relações e a travar outras; pede-se-lhe que reequilibre todo o próprio sistema afectivo, relacional, todo o próprio modo de ver, à luz das novas situações nas quais a Palavra de Deus o colocou. Portanto, é um estado de certo desequilíbrio, de uma busca de Deus que me chama agora, nesta experiência muito mais incorpada de Igreja, também como organismo, como estrutura, como complexidade de relações que se desfaz de equilíbrios anteriores. Infelizmente, o meu discurso é o de alguém que está caminhando e nem sempre tem à disposição o alento como desejaria: nem que quisesse poderia inventar ou fingir uma situação diferente.

O que vou dizer-vos provavelmente terá o estigma da minha nova fadiga. Cabe a vós receber com benevolência, com paciência e com participação o que vou procurar comunicar-vos na minha busca pessoal do mistério de Deus e dos equilíbrios eclesiais que cada qual deve continuamente reconstruir, sobretudo em períodos novos da própria existência, nos momentos dos chamados diferentes, inesperados, imprevistos.

Compreender o ponto de partida no qual nos encontramos, é compreender o ponto de partida das reflexões que faremos sobre a Escritura. Convido-vos a responder à pergunta, talvez procurando uma página bíblica, um salmo em que possais encontrar-vos descritos. Certamente, as posições serão bastante diversas: cada qual poderá especificar ulteriormente a própria situação dependendo das provações, das tentações, das dificuldades, das fadigas, dos entusiasmos, dos desgostos, das esperanças, dos sofrimentos pelos quais estamos passando. Conhecer o ponto de partida é muito útil para poder percorrer um caminho preciso.

Qual será o assunto que ajudara no caminho comum? Entre as várias escolhas possíveis, pensei em ater-me ao Evangelho segundo Lucas, sobretudo porque é o Evangelho do evangelizador, o Evangelho que responde à pergunta: como se forma o evangelizador? Como é formado na Igreja aquele que tem o ministério, o serviço, a diaconia da evangelização?

Teremos presentes, juntamente com o terceiro Evangelho, os Actos dos Apóstolos, que são a sua continuação, a explicitação eclesial, e a segunda carta aos Coríntios, que exprime a mesma fadiga de Paulo. Paulo pergunta-se: “Que faço quando evangelizo? Que significa? Que tipo de experiência estou vivendo?” Durante os tempos que quiserdes dedicar à leitura sugiro-vos, por isso, uma “lectio continua” de Lucas, dos Actos e da segunda carta aos Coríntios.

Desejaria sublinhar um aspecto dos Exercícios: a “comunicação de fé” através do silêncio, por vós proposto como escolha responsável que coloca cada qual num clima de rigor, de austeridade, de fadiga, mas que vale a pena ser vivido. Este silêncio deveria tornar-se fonte de “comunicação na fé”, segundo a expressão do Apóstolo quando escreve da palavra que deve habitar e girar na comunidade (cfr. Col 3,16).

Ao lado da experiência de oração silenciosa, contemplativa, de audição e adoração, seria importante que houvesse algumas experiências de comunicação na fé sobre aquilo que a leitura ou a reflexão da Escritura, por graça de Deus, nos fez compreender e que pode ser útil a outros. Esta comunicação de fé é importante para a evangelização: o evangelizador forma-se na comunicação da experiência ou do dom de fé. Comunicação não é discussão, não é aprofundamento, mas simples oferta daquelas coisas que nos pareceram úteis diante de Deus e que poderiam ajudar outros.

Por fim, desejo recomendar-vos outro versículo da Escritura, no qual Paulo comunica o que aconteceu a ele como evangelizador: “Pois o Deus que disse: Das trevas brilhe a luz, é quem fez brilhar a sua luz nos nossos corações, para manifestar a luz do conhecimento da glória de Deus, que se reflecte na face de Cristo” (2 Cor 4.6). Esta passagem me impressiona muito, porque sublinha a actividade de Deus na nossa vida: o mesmo Deus que ordenou o cosmos pela positividade e pela vida, encarrega-se de testemunhar nos nossos corações a luz resplandecente de Cristo da qual parte toda vida e toda evangelização.

Este versículo do Apóstolo poderia ser meditado, palavra por palavra, porque reflecte em síntese o Antigo e o Novo Testamento, revelação divina na natureza, na história, na graça e na vida do homem; no início destes dias, nos ajuda a dizer: “Sejas tu, ó Senhor, a operar nos nossos corações. Nós estamos nas trevas, tacteamos no escuro e quando olhamos em torno de nós percebemos que sabemos bem poucas coisas, respondemos a bem poucos problemas e, pelo contrário, existe uma multidão de coisas que nos espantam e nos fazem sentir a nossa impotência. Nós te pedimos, ó Senhor, que faças resplandecer em nós a luz do rosto de Cristo para que possamos caminhar na luz e, se o quiseres, possamos ajudar também outros a caminhar”.

Primeira Reflexão
PARA A COMPREENSÃO DO QUERIGMA

Nós te agradecemos, Senhor, por este tempo que nos dás para ouvir a tua Palavra. Nós te pedimos, Senhor: faz de nós ouvintes atentos, porque na tua Palavra está o segredo da nossa vida, da nossa identidade, da nossa verdadeira realidade para a qual fomos chamados.

Tira de nós, Senhor, toda prevenção, todo preconceito que possa impedir-nos de acolher livremente a Palavra do Evangelho. E quem será digno, Senhor, de proclamar esta Palavra senão tu mesmo? Quem de nós poderia interpretar adequadamente esta Palavra de salvação?

Peço também para mim, que me preparo para expor algo sobre a tua Palavra, para que tires o que é preconceito ou ideia pessoal e faças resplandecer somente o que Tu, no Espírito, queres dizer a cada um de nós.

Maria, Mãe do Senhor, que repensavas no teu coração as palavras e os factos de Jesus, faz que te imitemos com simplicidade, com tranquilidade, com paz; tira de nós todo esforço, ânsia ou nervosismo e faz ouvintes atentos para que nasça em nós o fruto do Evangelho.

Nós te pedimos, ó Mãe, pelo nome do teu Filho glorioso, vivo, que reina no meio de nós, na nossa comunidade, na Igreja de todos os tempos, no mundo, na história, por todos os séculos dos séculos. Amém.”

Evangelizadores e pastores

Como se forma o evangelizador segundo as páginas do Evangelho de Lucas? Antes de mais nada, é preciso esclarecer o que se entende por evangelizador e depois explicar por que Lucas é apropriado para responder a esta pergunta.

1 – Que se entende por evangelizador?

Com o termo “evangelizador” quero referir-me àquele dom particular, edificativo do Corpo de Cristo a que se refere a carta aos Efésios (4,11), onde se fala dos dons de Jesus que subiu ao céu. Por estes dons, alguns são feitos apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores, outros doutores. São cinco dons que Paulo enumera como construtivos da comunidade cristã para a edificação do Corpo de Cristo. Sabemos que não são os únicos dons porque, em outras cartas de Paulo, encontramos indicados outros carismas; neste versículo da carta aos Efésios o apóstolo pensa, porém, especificamente na construção da Igreja. O apóstolo é aquele que coloca o fundamento inicial de uma comunidade e a levanta, o profeta interpreta os desígnios de Deus para o momento actual da comunidade, o evangelista proclama o querigma, a boa notícia e, portanto, agrega à comunidade novos fiéis que são atraídos pela palavra da salvação, o pastor guarda e leva avante a grei, o doutor aprofunda, através da catequese, a doutrina e a teologia, tudo o que faz parte do corpo da comunidade.

São cinco grandes carismas formativos da comunidade. Uma comunidade sadia, bem fundada, é aquela que desenvolve todos estes carismas que, na história da Igreja, se exprimiram de diferentes maneiras: os fundadores de comunidades, isto é, os apóstolos e os profetas, que interpretam para o próprio tempo a palavra de salvação, passaram depois para outros ofícios, para outros serviços eclesiais e, hoje, é próprio dos Bispos levar avante o ofício de sustentar a unidade da comunidade e o empenho de interpretar para a comunidade os desígnios de Deus sobre o presente. É a acção magisterial e unificadora do Bispo.

Os dois carismas seguintes, evangelistas e pastores, embora sendo próprios também do Bispo, referem-se em particular àqueles que têm o cuidado específico dos vários membros e situações da comunidade. Concretamente e para boa parte, a Igreja, hoje, confia aos seus presbíteros a dupla tarefa de evangelistas e de pastores; mais ainda, sobretudo a tarefa de evangelista não está – como nos mostra o Novo Testamento – ligada exclusivamente aos membros da hierarquia e pode ser estendida, sob a sua orientação, aos leigos, como acontece hoje.

Todavia, a função principal, a responsabilidade fundamental de evangelizar e apascentar é aquela que os bispos compartilham com os presbíteros e que os presbíteros exercem nas diversas localidades e em cada comunidade. A Igreja viverá se mantiver em si estes dois dons de evangelizar e de apascentar num equilíbrio que, evidentemente, poderá variar segundo as circunstâncias e as situações.

Quando o equilíbrio se rompe e uma Igreja, por exemplo, se torna unicamente evangelizadora sem pensar em levar avante e sustentar a comunidade, temos então aquele tipo de igrejas entusiastas, nas quais dominam unicamente as forças de ataque, mas não se constrói. Quando, pelo contrário, todo o peso é aplicado à acção pastoral, então a Igreja apascenta a si mesma indefinidamente e perde aquele ponto de expansão que a faz ser Igreja.

Eis a importância destes dois carismas conjugados, evangelizadores e pastores.

Nos evangelizadores prevalece, em certo sentido, a iniciativa, o ímpeto, o ataque, a capacidade de enfrentar situações diversas, de compreender o mundo que pensa de outra forma, de interpretar as necessidades dos que parecem distantes, de entrar no desejo profundo de verdade, de justiça, de Deus, que há em, cada um e torná-lo explícito. É uma actividade que vai, em vez de esperar; que se move, em vez de fazer a torre em que se deve entrar.

Esta actividade é especificada, aqui e ali, no Novo Testamento, mas é clara principalmente na figura de Filipe.

Filipe é o Evangelista que representa este tipo de acção. Em At 8,40, evangeliza as várias cidades correndo de uma para outra, está presente junto ao carro do eunuco etíope e depois encontramo-lo noutra parte da Palestina, com o ânimo atento às necessidades do povo. Filipe ousa enfrentar o homem que está lendo no carro, e sem esperar ser interrogado, suscita a pergunta e a esclarece. Por isso é chamado o evangelizador, aquele que tem o dom de euangelistês (Ef 4,11), depois mencionado em At 21,8 em relação a 8,40, onde é assim descrita a sua actividade: “Filipe percorria todas as cidades evangelizando”. Eis uma ideia concreta deste tipo de carisma que dá uma certa capacidade de entrar no ânimo de outrem, de descobrir as necessidades também não expressas do povo, de se encontrar em situações onde parece que há distância do Evangelho, de ajudar a fazer um caminho de conversão descobrindo os germes da graça etc.

Como dizia, esta não é a única actividade eclesial: a actividade pastoral permanece fundamental; quem recebeu a graça do Evangelho em ordem ao caminho cristão. Todavia, é um carisma muito importante e é distribuído na Igreja de diversas maneiras: alguns possuem-no em medida maior, outros em grau menor. Alguns são mais pastores, outros mais evangelizadores. A Igreja pede aos seus presbíteros uma certa dose de um e de outro; ou melhor, no corpo orgânico da igreja são necessários ambos os dons para que haja equilíbrio e não excessiva estaticidade, para que não haja apenas o vento do entusiasmo sem uma sólida construção.

2 – Por que o Evangelho segundo Lucas é particularmente apropriado para iluminar a figura do evangelizador?

Não posso deter-me por muito tempo neste ponto: seria necessário um estudo exegético do Evangelho. Numa tese de láurea feita no Pontifício Instituto Bíblico, um estudante americano aprofundou muito atentamente este problema e chegou a demonstrar que todas as passagens características de Lucas – o tipo de sentenças de Jesus que Lucas gosta de recolher, as insistências particulares do seu Evangelho – derivam, com toda probabilidade, dos grupos de evangelizadores que andavam pela Palestina e Síria (é quase certo que Lucas era um deles), e que tinham um interesse particular em esclarecer a si mesmos o ministério evangelizante que realizavam. Era o “seu” problema, daí o seu modo de ler a vida de Jesus, de recolher as suas palavras, de pô-las em ordem.

Precisamente por isso, Lucas sentiu a necessidade de continuar com os Actos, de modo a dar uma série de exemplos de evangelização e prosseguir, a realização de um Evangelho – no qual aparece, em particular, a força evangelizadora de Jesus e a sua educação dos evangelistas – com um segundo volume, no qual houvesse exemplos concretos de evangelização na Igreja primitiva.

Por isso, o Evangelho, segundo Lucas é o mais apropriado para espelhar-se na própria acção evangelizadora. Aqui podemos recordar – como exemplo – que somente Lucas menciona os famosos 70 ou 72, que são precisamente aqueles evangelizadores itinerantes cuja principal finalidade era deslocar-se para várias regiões levando a Palavra, e que certamente não existiam somente no tempo de Jesus; depois continuaram este tipo de actividade, propiciando assim as colecções de palavras e ditos de Jesus, presentes sobretudo na segunda parte do Evangelho em muitos episódios característicos, alguns dos quais serão examinados por nós.

Como nos dirigiremos a este Evangelho, que tipo de leitura proponho para corresponder à pergunta que nos interessa: como se forma o evangelizador na escola de Jesus? Pensei num certo tipo de leitura que ajude a chamar a atenção para alguns pontos focais do Evangelho que me parecem tipicamente lucanos e particularmente apropriados para fazer-nos reflectir sobre o nosso empenho de evangelizadores.

Cada qual pense um pouco sobre os pontos focais que escolheria se quisesse focalizar a formação do evangelizador que este Evangelho pode dar. Pensando nisso, cheguei a uma conclusão que, evidentemente, não é apodíctica, não é absoluta, mas pode constituir um ponto de partida: é preciso tomar dois episódios que, juntos, formam a moldura do Evangelho.

O primeiro é o episódio inaugural: Jesus em Nazaré: Lc 4,16-30. É um relato tipicamente lucano porque construído por Lucas com materiais da tradição evangélica – encontram-se aqui e ali nos outros Evangelhos – por ele reunidos a fim de dar um quadro introdutório à sua apresentação.

O segundo episódio focal – também ele presente somente em Lucas, que o elaborou com cuidado particular para mostrar-nos Jesus, mestre de evangelização – é o de Emaús: Lc 24,13-35.

O método que sigo não é temático; num curso de Exercícios, o mais importante não é adquirir uma série de ideias claras e distintas, mas, antes, entrar na manifestação gloriosa de Deus dentro do ocultamento da pobreza de Cristo e por esta manifestação de Deus deixar-se formar, transformar, para entrar na força da vida de Jesus recolhida nas palavras evangélicas e sustentada, ainda hoje, pelo poder do Espírito Santo. Este é o método para colocar-nos precisamente na escola do Evangelho.

Jesus, evangelizador fracassado

Primeiro episódio: Lc 4,16,30

Jesus vai a Nazaré, entra na sinagoga, entregam-lhe o rolo; ele abre-o e lê uma passagem de Isaías (o Espírito do Senhor está sobre mim); depois fecha o rolo, senta-se e toda a gente o olha fixamente. Sublinha-se que este é um momento decisivo para a vida de Jesus. Se errar, talvez depois todo o ministério errará. São os momentos próprios do primeiro impacto; se alguém erra no início, muitas consequências podem sobrevir. Há uma sensação de espera um pouco espasmódica: vejamos o que diz este homem de quem se dizem tantas coisas! Todos o contemplam fixamente; Jesus fala e – segundo Lucas – diz em substância uma só palavra: “Hoje se cumpre a passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Aqui não se compreende bem o que acontece e até hoje os exegetas não conseguiram desenredar o mistério destes versículos 22 e 23. Inicialmente parece que os ouvintes gostaram, pois começam as discussões: mas quem é, que faz, por que não fez aqui aqueles milagres…? Concretamente, a primeira impressão que parecia favorável rapidamente se modifica. Jesus sente que a atmosfera se torna hostil e então recomeça o discurso: “Sem dúvida, me citareis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo! Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-lo igualmente na tua terra. Depois acrescentou: Eu vos declaro: nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Sem dúvida, eu vos afirmo que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu ficou fechado durante três anos e seis meses e grande fome devastou todo o país. No entanto, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas, sim, a uma viúva de Sarepta, na região de Sídon. Havia também muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu; e nenhum deles foi curado, a não ser o sírio Naamã”.

A esta altura, a emoção chega ao ápice, o povo fica exasperado e acontece o baque: Jesus é posto fora precisamente para ser morto e a sua história parece encerrar-se; num dia tudo parece acabado, o seu ministério fracassou.

Daqui deve começar a nossa reflexão.

Confesso que, sempre que me ponho diante desta passagem, não acabo de maravilhar-me: por que Lucas começa dessa forma o seu Evangelho? E penso que se tivesse querido começar a escrever um evangelho para a educação do evangelizador, teria tomado uma série de episódios belos, atraentes, onde Jesus evangeliza com sucesso e por isso leva a segui-lo: eu teria colocado uma série de quadros muito positivos do método de Jesus, da sua capacidade de compreender o povo, de despertar nele o gosto pela doutrina, de agir sobre ele e, somente depois de um certo número de capítulos, teria feito entender as dificuldades e os problemas. Espanta-me sempre de novo o facto de que Lucas tenha começado a apresentação da actividade pública de Jesus com um episódio que se poderia intitular: Jesus, evangelizador fracassado.

Jesus não conseguiu, não se fez compreender, os ouvintes não o entenderam, e ele teve que partir apressadamente. Aqui começa aquele choque evangélico que sinto todas as vezes que, lendo a Escritura, me coloco diante da situação e digo: como teria escrito eu este episódio? Em vez disso, por que esta maneira estranha de Jesus se apresentar segundo o Evangelho? Convido-vos a uma primeira reflexão precisamente sobre este tema: Jesus, evangelista fracassado. Convido-vos a meditar sobre este exemplo de evangelização sem sucesso e que é quase proposta como programática.

Em vez de dar logo uma resposta muito rápida àquelas perguntas, procuremos deixar entrar dentro de nós este problema real: por que Lucas começou assim a apresentação da vida pública de Jesus? Proponho reflectir sobre o episódio, segundo alguns pontos, a partir do último versículo, o v. 30: “Jesus passou pelo meio deles e seguiu o seu caminho”. Consideremos toda a tristeza desta partida de Jesus: é claro que aqui há também um aspecto do misterioso poder de Deus. Jesus não foi morto e deixaram-no ir embora talvez porque, no último momento, o povo teve medo diante daquilo que estava fazendo, ou sentiu terror diante da sua própria reacção, e Jesus foi embora. Mas, como vai embora dali? Certamente parte derrotado.

Esta é a primeira imagem de Jesus evangelizador que se nos apresenta: derrotado, expulso, não ouvido, não aceite, e é realmente uma cena misteriosa se pensarmos que Jesus é o evangelizador. Podemos também imaginar a amargura, por exemplo, de Maria, sua Mãe, ao ver que o Filho não teve êxito, a amargura dos seus amigos, dos seus admiradores que não compreendem o que aconteceu, que temem o que poderá acontecer, que crêem acabadas as esperanças que haviam alimentado.

Depois de ter esclarecido esta cena também interiormente, procuremos ver outras análogas no Novo Testamento; esta não é uma cena solitária e se Lucas a colocou aqui, é porque sabe que está tocando em alguma coisa que pertence a uma constante do Reino de Deus. Indico duas.

A primeira procura interpretar a passagem evangélica de Lucas com os Actos. A situação e os sentimentos de Jesus que deve ir embora reencontram-se, por exemplo, quando, depois de uma aparência de êxito em Antioquia de Pisídia, Paulo e Barnabé voltam a pregar: “Vendo aquela multidão, os judeus ficaram cheios de inveja e responderam às palavras de Paulo com pesados insultos” (At 13,45). Eles, então, têm que partir: como parte Jesus, assim também Barnabé e Paulo devem ir embora. O seu ministério não teve êxito, a Palavra não foi ouvida. Podemos partir daqui para examinar outras páginas do Novo Testamento, onde não se oculta o sofrimento do evangelizador. Jesus que diz “Eu vos farei pescadores de homens”, não ilude acrescentando “só haverá êxitos”, “pescareis logo muitos peixes”. É verdade que não sabemos quais foram os sentimentos de Jesus no momento em que foi expulso de Nazaré, mas conhecemos os sentimentos de Paulo em situações análogas: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis isso: o perigo que corremos na Ásia nos acabrunhou acima das nossas forças” (2 Cor 1,8). São palavras pesadas essas de São Paulo: “acima das nossas forças”; isto é, o que aconteceu deixou-nos abalados, a ponto de não suportar mais, e de “duvidar também da vida”, chegamos ao ponto de dizer: acabou. Como para Jesus em Nazaré, faltou pouco para que toda a sua acção se concluísse em poucas horas. “Tínhamos recebido em nós próprios a nossa condenação de morte. E assim, não podíamos confiar mais em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Cor 1,9). Também em At 14,22 ensina-se aos discípulos: “… é através de muitas tribulações que devemos entrar no Reino de Deus”.

Portanto, Paulo experimentou várias vezes, nestes tristes êxodos de uma cidade para outra, o que Jesus experimentou naquela cena inicial. Alguém poderia dizer que aquela cena inicial foi construída por Lucas, e isso é verdade, mas com isso se aumenta o problema da razão por que Lucas construiu assim aquela página do Evangelho. E a resposta é que Lucas queria, desde o início, fazer reflectir profundamente sobre quem é o evangelizador.

Voltando a Lc 4,16-30, quero fazer-vos notar um elemento que sobressai fortemente e que eu tiro da composição entre as palavras “Todos os olhos da sinagoga estavam fixos nele” (4,20), “Vós me direis: Médico, cura-te a ti mesmo (4,23), “mas não há profeta que seja recebido na sua pátria, e Elias e Eliseu fizeram muitos milagres fora de Israel” (4,27). Como é que se nos apresenta a figura de Jesus evangelizador nestes dois momentos, quando todo o povo o olha fixamente e quando responde enfrentando o descontentamento do povo?

Na primeira cena leio um fenómeno bastante comum: o povo espera muito de Jesus, tenta quase prendê-lo, todos estão ali ouvindo e procuram envolvê-lo nas suas expectativas. São as expectativas que o quadro restrito de Nazaré – um pouco de trabalho, um pouco de comércio – podia oferecer. Lendo estas expectativas à luz da história da Igreja primitiva, das brigas entre os parentes de Jesus pelo primado, dos litígios entre Jerusalém e a Galileia, já se pode entrever certa ânsia de “apoderar-se” do profeta, de fazer dele objecto de glória do povoado e, talvez, de um pouco de ganho material: no fundo, se começar a fazer alguns milagres o povo virá, os albergues serão controlados e se poderá ganhar alguma coisa. Devemos ver estas coisas muito realistas na mentalidade da gente da Igreja primitiva: “o profeta é nosso”; há um pouco de raiva porque não começou os milagres ali, mas em Cafarnaum; as coisas que fizeste em Cafarnaum fá-las aqui, pois és um dos nossos, fomos nós que te ajudamos, e agora deves retribuir-nos de alguma forma.

De um lado, Jesus está sob a ameaça de uma captura, daquilo que o povo quer dele, de uma tentativa de adaptar o que ele diz às expectativas, às necessidades, para ter sucesso e depois ser rapidamente encaixado em toda aquela pequena série de interesses que formam o tecido social da pequena aldeia.

De outro lado, emerge a extrema liberdade de Jesus que, sem se preocupar com o sucesso, com o que lhe poderia acontecer, com a má fama que aquele primeiro encontro poderia espalhar pelos povoados vizinhos, sem se preocupar com as pessoas que não irão mais procurá-lo e não o convidarão mais, fala livremente; mais ainda, parece até provocar um pouco o povo lembrando-lhe que existem outros confins, outros horizontes, outros interesses do Reino de Deus muito mais vastos; lembra-lhe que os pagãos valem muito mais do que aquela aldeia, porque podem ser merecedores de uma particular presença de Deus.

Jesus aparece aqui como o evangelizador dotado de absoluta liberdade de espírito, de uma liberdade tão profunda que contempla o mistério de Deus e todo o mundo.

Esta liberdade dá-lhe, desde o começo, uma estatura profética totalmente fora daquela de um pequeno pregador de aldeia, a estatura de quem leva a si mesmo e a sua liberdade para o mundo porque tem diante de si os horizontes de Deus.

Chamados a estar com Jesus

Podemos deter-nos por um momento na oração e dizer: Senhor, que é que nos ensinas com esta tua primeira maneira de apresentar-te? Tu nos ensinas que evangelizar não significa, antes de tudo, fazer alguma coisa, obter algum resultado, colocar em seu devido lugar alguma pedra que depois permanecerá, mas significa participar da tua liberdade, dos teus vastos horizontes, significa entrar na riqueza desta liberdade extraordinária.

Evidentemente, isso não significa imitar Jesus na sua eficácia de provocação – na qual às vezes caímos por mau humor ou por birra! – mas significa imitá-lo neste absoluto desapego no qual somente ele pode pregar a liberdade de Deus. Se remontamos ao início do episódio, vemos que Jesus prega liberdade, libertação, nova maneira de viver, presença habitual do Reino libertador (Lc4,18-19). Mas ele pode fazer isso porque vive esta absoluta liberdade, esta superioridade a todas aquelas que podem ser as expectativas imediatas e mesquinhas do povo: é ele que, com a sua pessoa, proclama a presença do Ungido de Deus que liberta, que esclarece, que ilumina, que dá remissão dos pecados. A mensagem libertadora de Jesus é ele mesmo.

O que impressiona, nesta primeira parte do episódio, é a extrema personalização da mensagem; é mais uma pregação sobre o mensageiro do que sobre a mensagem. “O Espírito de Deus está sobre mim, por isso me ungiu e me enviou”: entre as tantas frases do Antigo Testamento que poderiam ser escolhidas, é escolhida uma passagem extremamente personalizada na figura do Messias, “enviou-me para libertar, para perdoar, para proclamar”.

Eis a primeira coisa que somos chamados a ler nesta página evangélica tão densa: Senhor, chamando-nos a evangelizar, tu nos chamas não a dizer ou a fazer alguma coisa, mas antes de tudo a ser alguma coisa contigo, a participar da tua liberdade, da tua missão. Antes de pensar no que devemos fazer, o que devemos dizer, que resultados devemos obter, é preciso que sejamos participantes da tua missão, da tua liberdade que te vem de ser Filho, que te vem do facto de seres Um com o Pai.

Eis a primeira mensagem encarnada: o homem libertado da sua participação na vida de Jesus Filho, proclamador do Evangelho da liberdade. Sobre isso podemos reflectir atentamente, porque sem dúvida se trata de um núcleo de todo o chamamento evangelizador. Não podemos ajudar, libertar, pacificar os outros se antes nós mesmos não somos livres, pacificados, salvos pela presença de Jesus, pela nossa permanência nele como libertador e salvador.

E se quiserdes acrescentar uma última reflexão, procuremos perguntar-nos como é possível que o povo de Nazaré não o escute. Provavelmente não o ouviram porque alguns dos seus interesses foram atingidos e algumas das suas expectativas desiludidas. É um exame de consciência sobre nós mesmos: quais são as expectativas desiludidas, os interesses atingidos que poderiam impedir-me de aceitar Jesus como libertador, como salvador, como mensageiro de boa notícia para mim?

Daqui pode partir a oração a fim de que o nosso coração se abra à audição da Palavra, à salvação que Jesus promete, antes de mais nada, ao evangelizador.

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Questa voce è stata pubblicata il 03/09/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , .

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