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Martini – O Evangelizador em São Lucas (4)


Testo word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (4)
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O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (4)
Carlo Maria Martini

Curso de Exercícios a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Quarta Reflexão
O SENSO DO PECADO NA EDUCAÇÃO DO EVANGELIZADOR

Hoje, proponho que se meditem alguns episódios da vida pública de Jesus nos quais aparece claramente como Cristo é Aquele que inverte as situações humanas fechadas e perdidas, e educa os seus discípulos a reconhecerem concretamente o que é o querigma e, portanto, como ele opera a salvação.

Os três episódios – vou deter-me no primeiro, indicando os outros à reflexão pessoal – são:

o chamamento de Pedro, Lc 5,1-11;

– a cura do paralítico, Lc 5,17-26

o perdão da pecadora em casa de Simão, Lc 7,36-50.

O que unifica estes três episódios é o senso do pecado ou a purificação do pecado. A educação do evangelizador significa, antes de mais nada, dar a este o verdadeiro sentido do perdão misericordioso de Deus sobre o pecado dos homens.

No capítulo 4, Lucas já nos mostrou Jesus que realiza algumas acções: não somente vai a Nazaré para a “evangelização fracassada”, mas depois dela retoma corajosamente a sua viagem de pregação, vai a Cafarnaum, cura um homem possuído pelo espírito impuro, cura muitos fora da sinagoga e depois visita as diversas sinagogas da Galileia. Somente neste ponto Lucas introduz Pedro; em primeiro lugar o próprio Jesus dá o exemplo de pregação, e somente mais tarde começa a chamar outras pessoas.

É um episódio importante porque o Evangelista quer dar-nos um modelo de chamamento do evangelizador ao ministério: Jesus começa a escolher acuradamente os evangelizadores e o faz de maneira que já é instrutiva para o tipo de missão que quer dar-lhes e para a via formativa na qual os introduz.

Na tua palavra lançarei as redes”

O chamamento de Pedro; Lc 5,1-11

O pano de fundo da cena: há muita gente que ouve Jesus. Jesus está perto do lago, vê duas barcas com os pescadores que já desceram e estão limpando as redes e, com muita liberdade e segurança, como se estivesse em casa, sobe numa daquelas barcas, a barca de Pedro. Pede que a afaste um pouco da margem e, sentado, põe-se a ensinar.

Podemos imaginar o sentimento de Pedro que fica envaidecido pelo facto de que foi escolhida a sua barca: quer dizer que não estou entre os piores – terá dito de si para si – provavelmente Jesus compreendeu que há em mim uma pessoa modesta, mas digna de ser honrada. Pedro está vivendo um momento de euforia.

Mas uma surpresa está preparada para ele: acabado o discurso, Pedro pensa em descer a terra e receber os cumprimentos do povo; mas Jesus, sem mais preâmbulos, diz-lhe que se faça ao largo e lance as redes. Certamente, há uma mudança em Pedro naquele momento – a Escritura não fala muito dos sentimentos internos das pessoas, e nos deixa imaginá-los e vivê-los pessoalmente – da resposta de Pedro pode-se adivinhar que na sua mente surgem dúvidas sobre as palavras do Mestre porque a hora já está adiantada, a pescaria acabou e não há peixes.

E não é só isso: provavelmente Pedro pensa na figura que farão se depois não acontecer nada, teme que toda a aldeia zombe dele porque se comportou de maneira boba, lançando-se à pescaria numa hora em que não espera pescar coisa alguma. É um instante difícil no qual a confiança de Pedro no Mestre pode ficar abalada: talvez lhe conviesse negar-se simplesmente a isso, evitando esta prova que poderia levá-lo, ao ridículo diante do povo. Compreendemos estas coisas na primeira parte da resposta: “Trabalhamos a noite toda e não pegamos nada”.

Detenhamo-nos neste verbo “trabalhamos” “kopiásantes»: é um verbo que o Novo Testamento usa outras vezes quando fala da fadiga apostólica; onde Paulo diz “trabalhei muito mais do que estes outros pseudo-apóstolos”, o verbo foi transferido da fadiga física para a fadiga apostólica. Por isso aqui podemos também citar muitas das nossas situações: cansei-me muito, gastei muita energia, empenhei-me a fundo, fiquei exausto e não aconteceu nada. É aquela sensação de cansaço evangelizador, de derrotismo, de desânimo:

Senhor, vós podíeis ajudar-me, por que não viestes até agora?

Eis o momento delicado no qual Pedro põe em jogo a própria pessoa: se ceder a este cansaço dizendo que já tentou, que é inútil, que é melhor ir para casa, estará recuando diante do oferecimento de Jesus. Se, ao contrário, Pedro se decidir correr certo risco, a fazer alguma coisa, a superar tanto a fadiga que o oprime como também o ridículo que o ameaça e disser “vamos em frente” então teremos o evangelizador que supera a própria desconfiança: “Na tua palavra lançarei a rede”. Notemos quanto há de profundo neste “epí de to rémati sou” na tua palavra, porque é a expressão que na Bíblia, nos Salmos designa a atitude do homem diante de Deus. “Confio na tua palavra”, “é a Tua palavra que me dá vida”, Senhor. Tu me afligiste, permitiste tantos sofrimentos, mas na tua palavra eu confio.

Aqui Pedro deixa de ser o pequeno episódio privado, e passa a ser a figura do homem que se compromete também nas coisas pequenas e simples mas que exigem certa decisão, certa coragem. Sai dos cálculos e atira-se, confiando na palavra do Senhor: Temos uma das características típicas que Jesus busca no evangelizador e das pequenas provações com que Jesus o forma.

Sabeis melhor do que eu, pela experiência que podeis ter tanto convosco mesmos como com os outros na vivência com meninos por exemplo, que, de modo geral, os que calculam muito, os que estão continuamente preocupados consigo mesmos, com as vantagens que possam auferir, os que querem verificar tudo para ver se coincide ou não com as próprias seguranças, não são terreno bom de vocações. Na realidade, o evangelizador mostra-se precisamente nestes momentos; é questão de arriscar um pouco, de afastar-se um pouco do figurino, de perder o senso do cálculo, de perder um pouco o senso de medida. O Evangelizador caracteriza-se sempre por este “quid” irracional: “irracional”, naturalmente, não no sentido de algo que vai contra a razão, mas no sentido de dar algum passo além daquilo que é puramente seguro e sólido.

Voltando a Pedro: no fundo, é ele mesmo que pula para fora da barca para lançar-se ao lago. Também aqui é necessária uma pitada de loucura para dar esse passo. É precisamente aquele pouquinho de loucura que faz o homem. Não dizemos com frequência – e o Papa o afirmou claramente na encíclica “Redemptor Hominis” – que o homem não pode viver sem amor? É o amor que suscita no homem este ir além dos cálculos, este atirar-se. Aqui Pedro é tocado por Jesus na sua disponibilidade para aquela capacidade de risco na qual Jesus o exercitará sempre mais, e que é característico daquilo que o evangelista deve ser.

E a rede lançada na palavra de Jesus se enche; chegam outras barcas e também estas estão para afundar. Que acontece então? Vendo isso (eis um aspecto do querigma: há um facto, um facto notável, imprevisto), Pedro descobre a manifestação do poder de Deus e lança-se aos pés de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, pois sou homem pecador”. Algo aconteceu. O poder de Jesus faz sobressair a pecaminosidade de Pedro: Pedro não estava entre os maiores pecadores de Cafarnaum, mas certamente também ele era um homem que, colocado diante do poder, da santidade de Deus, sentia que muitas coisas da sua vida não funcionavam. O que mais fortemente impressiona neste modo de agir de Jesus para com Pedro é precisamente a delicadeza que Jesus mostra.

Se Jesus tivesse sido aquele educador mesquinho que às vezes talvez temos diante de nós, teria dito: Pedro, você quer seguir-me mesmo? Então, lembre-se que é um pecador, e por isso a primeira coisa que deve fazer é arrepender-se dos seus pecados, purificar-se, porque, de contrário, não será digno de seguir-me. Em vez disso, Jesus leva Pedro a provar um acto de confiança. Depois daquele acto de confiança, Pedro reconhece a grandeza de Jesus, a sua bondade, o seu poder e, instintivamente, facilmente, sem nenhum esforço surge o próprio pecado. Jesus leva Pedro para onde queria levá-lo, a uma sincera purificação, à humildade, ao reconhecimento da necessidade da misericórdia de Deus, para que esteja em condições de compreender a misericórdia do querigma, da palavra de salvação. Leva-o desta maneira tão humana, livre, sem grandes transtornos.

Poderíamos fazer logo uma aplicação ao nosso caminho penitencial, caminho tão necessário para todo homem e mulher deste mundo, e necessário antes de mais nada para o evangelizador. Costumamos, em cada curso de Exercícios, dedicar um momento especial à penitência; o que sublinho é precisamente como a nossa necessidade de salvação, a nossa pobreza, sobressaem mais diante da consideração da misericórdia de Deus para connosco, diante da consideração do seu poder, da sua bondade. Toda introspecção, se não for feita diante deste quadro de abertura que é o poder de Deus manifestado a Pedro, não só não é evangélica, como talvez pode ser até prejudicial.

Agora Pedro pode dizer estas coisas com extrema simplicidade e tranquilidade, sem medo de ninguém porque é tão grande aquilo que está diante dele que, embora os outros sintam que ele é pecador, não se importa mais com nada. Já deu um passo tão decisivo de libertação interior que todos os temores que antes podia ter com relação àquilo que pensa e diz o povo, foram superados.

Jesus forma o evangelizador através destes saltos de confiança com a apresentação do seu poder; gradualmente faz emergir um verdadeiro sentimento penitencial.

O episódio encerra-se com uma última reviravolta da realidade. Pedro espera que o Senhor o confirme no seu sentimento de penitência, mas Jesus diz-lhe: “Não temas; doravante, a partir deste momento, serás pescador de homens”.

É uma reviravolta da situação. Antes, de um Pedro um pouco jactancioso, faz um homem que sabe lançar-se confiadamente; deste homem confiante fez um homem que soube reconhecer espontaneamente a própria pobreza; agora, deste homem humilhado na sua pobreza, faz um homem cheio de confiança. Eis o que significa experimentar o poder de Deus, eis a formação do evangelista, daquele que é formado pelas admiráveis transformações que o poder de Deus realiza sobre nós, subvertendo as nossas situações humanas.

O Evangelho é força de perdão para quem confia

A cura do paralítico: Lc 5,17-26

Vejamos agora brevemente, continuando este discurso, que ensinamento podemos tirar do segundo episódio, a cura do paralítico. Qual é a situação que se apresenta se a confrontarmos com a situação de Pedro?

Também aqui, cinco homens correm o risco de cair no ridículo porque este facto de subir no teto da casa, de descer este homem pelo telhado, sem saber se Jesus quer recebê-lo, pode acabar em nada: fará ou não o milagre? Que acontecerá: este homem voltará mais prostrado e humilhado do que antes?…Não é coisa de pouca monta esperar um milagre: se depois não acontecer, será a morte para este homem.

Também aqui houve um acto de coragem, um momento em que o cálculo foi posto de lado, uma iniciativa não plenamente racional para a qual foram arrastados por uma confiança ilimitada neste homem que pouco conheciam. Qual é a consequência? A consequência é que, depois deste acto de coragem e de confiança, a situação deste homem ficou completamente modificada: os seus pecados são perdoados, a sua doença é curada. Jesus aparece como aquele que perdoa e cura; o querigma, o evangelho é força de perdão e de cura para os que confiam, para os que ousam dar este passo corajoso, para os que se lançam. A coragem que estas transformações realizadas por Jesus exigem impressiona-me muito porque pertence precisamente à maturação do homem que descobre que, somente num momento de coragem, de saída de si, consegue alcançar o que deseja profundamente.

Alguns dias atrás, passeando entre as montanhas, notei maravilhosas cascatas onde a água descia a prumo de dezenas ou centenas de metros, e em alguns pontos formava espuma. A imagem da cascata permaneceu impressa na minha mente porque eu procurava, contemplando aquela cena, identificar-me com a água, e dizia: se tivesse medo de atirar-me, que faria? Permaneceria lá, não seguiria este instinto da água de lançar-se para baixo, seria prisioneiro do temor, não tomaria nenhuma iniciativa, não seria o que devo ser.

Sou o que devo ser na medida em que sigo esta tendência a confiar. Desta tendência própria do homem a ir além de si mesmo, através de um acto de confiança nos homens, nasce a sociedade, nasce a amizade, nascem o amor e a fraternidade. Se ninguém corre o risco, não nasce nada. É desta confiança na palavra de Jesus que nasce a possibilidade de salvação; é de uma confiança particularmente qualificada que nasce a possibilidade evangelizadora. O evangelizador lança as redes confiando nas palavras de Jesus, o seu tipo de formação leva-o a dar-se.

O perdão da pecadora

A mulher pecadora em casa de Simão: Lc 7,36-5 O

Analiso simplesmente algum núcleo do episódio. Como é a situação? É uma situação ambígua. Há um homem, Simão, que se julga importante, que tem em mãos a situação, e que não correu risco algum: recebeu Jesus, mas com o mínimo de cortesia porque dessa forma pensa agradar a todos. De um lado, recebendo Jesus, mostra-se um homem aberto, capaz de enfrentar as novas ideias, um homem que tem certa inteligência e certa abertura de espírito; mas, deixando de prestar-lhe todas as honras devidas, sempre pode dizer que o manteve à distância, que o vigiou para ver o que dizia.

Esta necessidade de estar bem com todos mas sem comprometer-se, é exactamente a imagem da acção política que sempre nos ameaça: sim, fazemos uma coisa, mas de maneira que ninguém possa criticar-nos e assim navegamos, com extremo equilíbrio, entre duas partes, sem comprometer-nos. É verdade que às vezes pode ser necessário, e a necessidade da vida o exige mas certamente o homem que vive assim não vive, isto é, vive a situação de Simão que prepara um banquete para Jesus e deixa que a atmosfera fique tensa, cautelosa; Jesus sente-se observado por alguém que provavelmente não fala com muito entusiasmo e com serenidade; os outros também se sentem observados, e também eles não arriscam mais do que assuntos genéricos que não comprometem ninguém.

Em determinado momento, eis que entra uma mulher e rompe todas as convenções criando um enorme mal-estar em todos: todos se olham, voltam os olhos, fazem sinais, perguntam e cada qual culpa o outro por tê-la convidado; ninguém quer admitir que a conhece. Mas a mulher avança sem temor e, num gesto de confissão pública, realiza com relação a Jesus aqueles sinais de afecto, de reconhecimento, de veneração, que ninguém havia sabido realizar.

Esta é a situação. Nenhuma das pessoas ali presentes se arrisca; a mulher, ao contrário, arriscou muito: que fará Jesus, de que lado se colocará? Mais uma vez, admiramos a capacidade de Jesus de inverter as posições: Jesus não censura imediatamente, embora nestes momentos cruciais seja necessário agir com certa prudência e atenção. Com uma oportuna parábola narrada a Simão e com uma pergunta final, faz com que este reconheça que a situação, na realidade de Deus e também na realidade humana, é exactamente o contrário daquilo que parecia a todos. O embaraçado, o intruso, aquele que não soube agir foi Simão; a pessoa que se comportou de maneira digna da situação, verdadeira, real e humana é a mulher: foi ela que compreendeu, foi ela que viveu esta realidade.

De novo, a maneira com que o Evangelho leva ao reconhecimento da culpa, ao caminho da purificação: não através de censuras amargas que colocam a pessoa em estado de defesa, mas suscitando na mulher a coragem, a energia, a liberdade de coração. Tudo isso a torna uma perfeita imagem do homem e da mulher que percorrem o caminho da purificação e obtêm de Deus o perdão num acto de amor e de transformação da sua existência.

Neste sentido, parece-me que estes dois episódios iluminam, sob outros aspectos, o que aconteceu a Simão Pedro – a espontaneidade que nele se manifestou inicialmente, de maneira alegre e clamorosa, e depois na confissão dos pecados – a inversão de situação pela qual o homem, que publicamente se declara pecador, é investido da maior confiança por parte de Jesus.

Eis o que faz o querigma: produz uma reviravolta nas situações humanas, deixa-as emborcadas, expõe à vergonha os que julgavam possuir e destaca os que agiram com humildade, com verdade, com simplicidade, seguindo o seu desejo de dar-se, de fazer algo mais, de arriscar alguma coisa por amor. No fundo, a palavra amor, que não foi pronunciada no episódio de Pedro, aqui é colocada no centro: “Perdoa-se-lhe muito porque amou muito”. Também Pedro fez um acto de muito amor, também o paralítico, instintivamente, era levado pelo amor, e todos eles foram refeitos pelo poder do querigma.

A palavra evangélica leva o homem à própria verdade, à própria espontaneidade, leva-o aonde ele quer e deve estar por natureza; isto é, confiante, comprometido, capaz de correr riscos, capaz de amor, de afecto profundo, capaz de exprimir também publicamente a própria liberdade alcançada. Este é o primeiro momento da formação do evangelista que insiste nestes aspectos, que os focaliza, os descobre, os leva à ribalta. Se evangelização significa libertação do homem a partir das suas potencialidades, da sua capacidade de exprimir-se, de superar o peso do pecado, tudo isso deve manifestar-se primeiramente no evangelizador; e Jesus mostra-nos como isso acontece, com sábios toques.

O nosso caminho penitencial

No início da meditação dissemos que o primeiro momento da educação do evangelista é dar-lhe o verdadeiro sentido do perdão de Deus; e seguimos o caminho que assim levou rapidamente Pedro a dizer: “afasta-te de mim, Senhor,. porque sou pecador”; que levou o paralítico a ouvir as palavras: “os teus pecados te são perdoados”; e que levou a mulher pecadora a ouvir esta declaração: “Foi-lhe perdoado muito porque amou muito”.

Procuremos agora reflectir, de modo particular, sobre o nosso caminho penitencial. Sabemos que é importante – explicamos isso tantas vezes aos outros – mas temos consciência, talvez pouco aprofundada, de que este caminho penitencial, na Igreja de hoje, sofre um momento de paralisação.

Em tempos passados seguia-se a prática da confissão frequente, que é uma expressão do caminho penitencial; esta prática sofreu um grande retrocesso; conheço povoados e cidades em que a confissão se tornou muito rara; é substituída – de vez em quando – por liturgias penitenciais que, no fim de contas, certamente são mais cómodas do que fazer o esforço de uma confissão individual. Não foi sem motivo que João Paulo II, na última parte da encíclica “Redemptor Hominis”, lembrou o direito de todo fiel de poder ser ouvido e reconciliado na confissão individual. Seria muito longo falar da crise da penitência – já muito estudada, nestes últimos anos, na Igreja – e, provavelmente, uma das razões da crise é imputável também a um certo formalismo penitencial em que se caiu. Todos nós, ao menos os mais velhos de ministério de confissão, tivemos a experiência de pessoas que se confessavam muitas vezes, mas com pouca vantagem, de maneira habitudinária… como acontece. Agora passou-se ao excesso oposto: quando uma coisa se torna habitudinária prefere-se deixá-la em vez de aprofundá-la e torná-la mais verdadeira.

Por isso estamos percorrendo uma curva incerta cujo futuro não conhecemos. Mas a Igreja recuperou um sentido penitencial muito mais forte do que antes, sobretudo no que se refere à consciência dos pecados sociais, da injustiça, da necessidade de fraternidade, embora permaneçam temas ainda bastante genéricos. Não quero ocupar-me muito com isso – seria um tema vasto e interessante – mas com aquele que é o caminho penitencial de cada um de nós.

A nós, como evangelizadores, assim como a Pedro, propõe-se com insistência um início penitencial ao qual devemos sempre voltar: colocar-nos diante do Senhor com a consciência daquilo que realmente somos, da nossa fragilidade, da nossa necessidade de salvação. O risco que a Igreja corre – e, nela, cada um de nós – nesta diminuição do senso penitencial, do senso do pecado, da culpa e por isso mesmo, do perdão, da reconciliação, certamente é um risco grande porque se poderia acabar perdendo de vista o senso da gratuidade da salvação, o senso da necessidade de salvação, como dom de Deus que perdoa os pecados. A salvação é reduzida a um problema de justa organização de relações entre as pessoas, o Evangelho torna-se um modelo desta organização e não se compreende mais aquilo pelo qual São Paulo lutou, aquilo que levou Jesus a proclamar: “Não vim para os justos mas para os pecadores, não para os sadios mas para os doentes”.

Deus justifica gratuitamente o pecador e esta é a salvação que o homem recebe continuamente. O homem, incapaz de amar realmente até ao fim, torna-se capaz de amar pela transformação do Espírito que purifica. Se perdermos este ponto de passagem – o Espírito que gratuitamente purifica e torna capaz de amor vencendo o egoísmo e o medo da morte – não seremos mais capazes de construir a comunidade cristã, com toda a boa vontade que temos de instaurar relações fraternas entre as pessoas. O risco que se corre é certamente grave no que se refere ao sentido da penitência e do pecado.

Que coisa poderia acrescentar, à maneira de conselho, para a nossa experiência pessoal? Eu distinguiria a nossa experiência, ou melhor, a experiência da penitência em duas categorias.

Há pessoas para as quais a penitência segundo a forma antiga, isto é, como confissão breve, frequente, na qual se coloca como que uma série de pedras miliárias que nos ajudam a nos purificar de todas as culpas diárias e a manter vivo em nós o sentido da gratuidade da salvação, ainda tem um sentido preciso. Para quem acha fácil este caminho, para quem está acostumado a isso e usa este método sem problemas, é uma graça; isso significa que o Senhor o guia e o guiará por este caminho.

Mas às vezes, existem sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que, tendo vivido a experiência da mudança de regime penitencial, acharam muito mais difícil continuar a prática da confissão regular; consideram-na muito dura, um tanto formal, pouco útil, pouco estimulante. Desejaria falar sobretudo para estes. Tendo eu experimentado um pouco este tipo de dificuldade, procurei ver como poderia sair disso. Ajudou-me uma consideração simples e que parece paradoxal. Disse a mim mesmo: se me é tão difícil fazer a confissão breve, por que não experimentar fazê-la mais longa? É uma certa inversão das situações. E nasceu a experiência (que depois confrontei com outras experiências de grupos, pessoas, situações, também em outras partes do mundo) do colóquio penitencial que quer salvar os valores, da confissão tradicional, mas inserindo-os num quadro um pouco mais pessoal. Que entendo por colóquio penitencial? Entendo um diálogo feito com uma pessoa que representa a Igreja, concretamente um sacerdote, no qual procuro viver o momento da reconciliação de uma forma que seja mais ampla do que aquela que é a confissão breve, que enumera simplesmente as faltas.

Procuro descrever-vos como isso acontece – o novo Ordo paenitentiae admite esta ampliação – podendo, como sugere o Ordo paenitentiae, é melhor começar o colóquio com a leitura de uma página bíblica, por exemplo um Salmo, que alguém procurou porque corresponde ao próprio estado de ânimo; recita-se, pois, uma oração, possivelmente espontânea, que coloca logo numa atmosfera de verdade. Segue um tríplice momento que sinteticamente chamo: confessio laudis, confessio vitae e confessio fidei.

Confessio laudis: repete precisamente a experiência de Pedro em Lc 5. Pedro, como primeira coisa, experimenta que o Senhor é grande, que fez por ele uma coisa imensa e o encheu de dons inesperados. Confessio laudis é começar este colóquio penitencial respondendo à pergunta: desde a última confissão, quais são as coisas que mais me levam a agradecer a Deus? Quais são as coisas em que sinto que Deus esteve mais particularmente perto de mim, em que senti a sua ajuda, a sua presença? Fazer emergir estas coisas, começar com esta expressão de agradecimento, de louvor, que coloca a nossa vida no justo quadro.

Depois vem a confessio vitae. Evidentemente, considero muito justo o que se ensinava na prática da confissão, isto é, de confessar-se segundo os dez mandamentos ou segundo outro esquema, mas para esta confessio vitae sugiro – para os que têm uma possibilidade maior de tempo – esta pergunta: a partir da última confissão, o que é que, sobretudo diante de Deus, não gostaria que tivesse acontecido? O que é que me pesa? Por isso, mais do que preocupar-se em fazer emergir uma lista de pecados – que poderá existir também quando há coisas muito graves e precisas porque, neste caso, emergem por si mesmas – trata-se de ver as situações que temos vivido e que nos pesam, que não desejaríamos que existissem e que precisamente por isso colocamos diante de Deus para sermos libertados e purificados delas.

Aqui a afesis amartión tem o seu sentido próprio: tirar de nós um peso, e um peso poderia ser, por exemplo, que, temos vivido uma certa antipatia sem conseguir libertar-nos dela e não sabemos ver exactamente se houve culpa ou não, mas pesou no nosso ânimo; ou então vivemos certa fadiga de fazer o bem, certa dificuldade no amar, no servir, que talvez tenha sido a causa de outros defeitos, porque é uma raiz de fundo.

Assim focalizamos verdadeiramente a nós mesmos, como nos sentimos. O que é que eu gostaria que não tivesse acontecido? O que é que eu gostaria que Deus tirasse de mim? Dessa forma é mais fácil fazer emergir a pessoa com as suas situações sempre mutáveis, com a sua realidade de pecado frequentemente não documentável e que os outros conhecem e vêem melhor do que nós, que talvez criticam e que nós não conseguimos identificar a não ser através deste modo.

Rezemos para sermos libertados porque o poder de Deus é para libertar-nos realmente, e não simplesmente para libertar-nos de um ponto de vista contábil ou moralista; é para dar-nos espaço, para infundir-nos ânimo, para fazer-nos retomar uma nova espontaneidade.

Por fim, a confessio fidei, que é a preparação imediata para receber o perdão, a proclamação diante de Deus: Senhor, conheço a minha fraqueza, mas sei que tu és mais forte. Creio no teu poder sobre a minha vida, creio na tua capacidade de salvar-me assim como sou agora. Confio a minha pecaminosidade a ti, arriscando tudo, coloco-a nas tuas mãos e não tenho mais medo.

É necessário procurar viver a experiência de salvação como experiência de confiança, de alegria, como o momento em que Deus entra na nossa vida e nos dá a Boa Notícia: “Vai em paz”, assumi a carga dos teus pecados, da tua pecaminosidade, do teu peso, da tua fadiga, da tua pouca fé, dos teus sofrimentos interiores, das tuas cruzes. Tomei tudo isso sobre mim para que tu sejas livre.

Aí está uma das muitas maneiras, Parece-me que este tipo de colóquio é mais capaz de dar-nos uma verdadeira ajuda e a impressão que nos fica é a de querer repeti-lo de boa vontade porque saímos um pouco diferentes e nos faz bem.

A confissão não é apenas um dever: é uma alegre ocasião que se busca. Também nas confissões ordinárias, nas quais está presente tanta gente, às vezes vejo que é belo fazer esta pergunta às pessoas que se confessam rapidamente: mas você tem alguma coisa na sua vida de que gostaria de agradecer a Deus? É uma pergunta que já põe o colóquio num plano diferente, não apenas formal, é já um entrar na vida daquela pessoa.

Procuremos, pois, ajudar-nos mutuamente a viver este momento penitencial ao qual Jesus tenta conduzir Pedro desde o início do seu chamamento; peçamos ao Senhor que nos ajude – como ajudou Pedro – a compreender o que deseja que façamos, tudo o que nos promete e tudo o que nos dá.

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Questa voce è stata pubblicata il 15/10/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , , .

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