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Martini – O Evangelizador em São Lucas (5)


Testo word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (5)
Testo   PDF Martini – O Evangelizador em S. Lucas (5)

O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (5)
Carlo Maria Martini

Curso de Exercícios a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Quinta Reflexão
JESUS EDUCA OS SEUS DISCÍPULOS

O encontro de hoje é uma meditação de síntese porque não temos tempo de percorrer todas as páginas de Lucas do cap. 5 em diante.

Vimos alguma coisa no cap. 4 e também do cap. 5 em diante, até ao momento da Paixão, ao qual deveremos voltar porque é fundamental para a educação do evangelizador; todavia, não podendo percorrer página por página, desejaria ao menos lançar um olhar sintético, uma chave de leitura sintética dos, capítulos 5 ao 18 de Lucas.

Também hoje, antes da reflexão, façamo-nos uma pergunta: que é que me seria útil para alcançar o que desejo?

Na tranquilidade do recolhimento já pode emergir, para cada um, alguma coisa: ou um pouco mais de tempo dedicado à oração durante o ano ou um maior empenho na direcção espiritual, ou a prática do colóquio penitencial mais regular, ou então a solução de algum problema comunitário, algum motivo de perdão, de reconciliação; e então notemo-la prontamente, porque é precisamente este o momento em que vemos melhor o que o Senhor nos pede.

Diaconias ex-fide e diaconias fidei

Vamos colocar uma nota prévia. Já se falou dos carismas indicados por Paulo (Ef 4,11) – apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, doutores. Agora lembro brevemente alguma outra passagem em que se descreve um maior número de diaconias, fruto do Espírito; por exemplo, Rom 12,6-8: “Temos dons diferentes, de acordo com a graça que nos foi dada. Quem tiver o dom da profecia, use-o em harmonia com a fé. Quem tem o dom do ministério que o exerça. Quem tem o dom do ensino, dedique-se ao ensinamento. Quem tem o dom da exortação, exorte. Quem dá, faça-o sem cálculo; quem preside, seja solícito; quem exerce a misericórdia, faça-o com alegria”. Ou então 1 Cor 12,8-10: “A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé no mesmo Espírito; a outro, o dom de curar, neste mesmo Espírito; a outro, o poder de operar milagres; a outro, a profecia etc.” E ainda, no fim do capítulo (1 Cor 12,28), uma passagem muito semelhante a Ef 4,11: “Por isso Deus estabeleceu na Igreja, em primeiro lugar, a uns como apóstolos, em segundo lugar, como profetas, em terceiro como doutores. Depois vêm os dons de realizar milagres, de curar, de assistir, de governar as diversidades das línguas”.

Tomando o material destas várias indicações, proponho uma distinção que é útil para orientar-nos na formação do evangelizador.

1 – Há alguns serviços na Igreja que podem ser chamados diaconias ex-fide.

São todos aqueles serviços que nós prestamos aos irmãos, a partir da fé, portanto do Baptismo, da nossa conversão baptismal; mas que podem ser feitos por muitos outros e em colaboração com os outros: o serviço dos doentes, drogados, deficientes, o serviço da justiça, os serviços sociais, o serviço da instrução, a ajuda aos encarcerados, e todas as formas de marginalização. De uma forma ou de outra, são diaconias, obras de misericórdia e de assistência de todo tipo e que para o cristão provêm ex-fide e que, de per si, podem nascer simplesmente de um desejo de humanidade, de solidariedade com o irmão. Mas para o cristão adquirem uma característica particular porque são fruto da própria fé madura; quanto ao objecto, não se distinguem dos outros serviços.

2 – Há Outros serviços (sobretudo os cinco lembrados em Efésios – apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, doutores) que são específicas diaconias fidei, em que o objecto do serviço é a fé.

Constituem o serviço da fé as várias formas de evangelização, do serviço pastoral, do sustento da comunidade, do esclarecimento da esperança. Estas duas diaconias estão relacionadas entre si; as diaconias ex-fide referem-se antes à promoção humana, ao passo que as diaconias fidei se referem à evangelização, o serviço no qual a fé é objecto do dom comunicado.

Certamente, para um cristão, a diaconia fidei é o maior serviço que se possa prestar: se é verdade que há tantas necessidades do homem, a fundamental é a sua necessidade irrenunciável de fé, de esperança, de amor sem limites.

Todos os outros serviços são úteis, mas na visão cristã adquirem a sua ponta de diamante no serviço dos serviços, no ministério dos ministérios, aquele que dá a um homem a força de esperar e de viver. É importante dar o pão, a justiça, a possibilidade de uma vida humana: mas se depois não se der um motivo profundo para viver, de que servirão todas as outras coisas?

O cristão coloca-se em estado de serviço da humanidade sabendo que há um serviço que é irrenunciável para que todos os outros serviços sirvam à plena satisfação do homem.

Deve-se ter presente esta distinção para melhor compreender o ensinamento de Jesus em Lucas (cap. 5 – 18).

A educação do homem cristão

Há bastante acordo entre os exegetas em admitir, no capítulo 9, uma divisão importante a partir do v. 51. Naquele ponto inicia-se a viagem de Jesus para Jerusalém. É uma secção que só Lucas tem: nela o evangelista condensou toda uma série particular de palavras e ditos de Jesus. Por isso, os capítulos dividem-se claramente do 5 ao 9 e de 9 a 18. Se eu tivesse que dar um título a estas duas partes, as exprimiria assim:

a educação do homem cristão (cap. 5-9);

a formação do evangelizador propriamente dito (cap. 9-18).

Evidentemente, com estes dois títulos não exaurimos todo o conteúdo daqueles capítulos porque o Evangelho é um mundo infinito de riqueza, e quando indicamos um título é só para dar uma certa indicação de leitura e para focalizar alguns aspectos, conscientes de que se poderiam sublinhar muitos outros.

Examinemos brevemente o conteúdo dos primeiro capítulos, do 5 ao 9. O capítulo 4 era a ouverture, a introdução de “Jesus evangelizador fracassado”, e sozinho contém todos os temas fundamentais de Lucas, incluída a paixão e a morte.

Com o capítulo 5 começa o chamamento dos discípulos, isto é, a actividade de Jesus propriamente dita, em público. O conteúdo destes capítulos pode ser subdividido assim: primeiro uma série de sete milagres. São por assim dizer milagres que seguem uma linha ascendente, porque terminam com a ressurreição de um morto. Recordemo-los brevemente: a cura do endemoninhado, a sogra de Simão, o leproso, o paralítico, o homem da mão paralisada, o servo do centurião, o filho da viúva de Naim. Depois de uma breve pausa, outra série de milagres: a tempestade serenada, o endemoninhado de Gerasa, a hemorroíssa, a filha de Jairo ressuscitada, a multiplicação dos pães, a Transfiguração e o epiléptico curado.

Quatorze milagres – duas vezes sete – e depois o capítulo 9 que começa com: “Convocando os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre os demónios, assim como poder de curar as doenças. E enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes”. É interessante o poder comunicado aos Apóstolos depois da primeira série de milagres.

Juntamente com estes milagres temos depois palavras de Jesus com conteúdo diferente: vou colocá-las, sinteticamente, sob três títulos, ainda que seja difícil resumi-las a fundo; antes de tudo, são aquelas que eu chamaria palavras de ensinamento fraterno, cujo terna fundamental é amor, misericórdia, execução prática e corajosa do que é pedido; palavras de polémica contra a falta de fé e contra a desumanidade religiosa dos fariseus (Lc 6,1-11). Por fim, palavras messiânicas ou de subversão: “Bem-aventurados os pobres… Ai de vós, ricos!” Eis o conteúdo global destes capítulos. Este é o tipo de educação que recebem Pedro, Tiago, João, os discípulos que seguem Jesus; estão com ele e na sua escola.

Jesus preocupa-se em dar-lhes a educação do homem cristão, isto é, a educação para todas aquelas atitudes que formam o homem maduro, capaz de dar-se conta das necessidades e dos sofrimentos dos outros. Pense-se no valor educativo dos milagres aos quais os discípulos assistem e que fazem desfilar diante deles todos os sofrimentos humanos: das doenças às desgraças, das formas de obsessão ao sofrimento físico e psíquico.

Os discípulos, como espectadores destes factos, aproximam-se destas pessoas, vêem quanto mal há no mundo, quanto sofrimento, quanto abandono, quanta depravação e são educados a fim de adquirir para cada realidade um coração, uma sensibilidade, uma capacidade de sintoma. É a educação para a bondade, para a beneficência, para a compreensão de todo o mal do homem. É a educação para aquela abertura do coração que é proclamada como característica de Jesus; como quando Pedro resume o que Jesus fez dizendo: “Andou por todo lugar fazendo o bem e curando todos os que o Diabo tinha escravizado” (At 10,38). Jesus torna os seus discípulos participantes da sua compaixão sensível, pronta, da sua capacidade de ver os sofrimentos e os males dos outros.

Em segundo lugar, é uma educação referente também ao relacionamento dos discípulos com Jesus; é a sua educação à confiança na sua missão de Messias. Os Apóstolos são testemunhas da bondade de Jesus, do seu sucesso, da sua capacidade de conquistar o povo. Os Apóstolos entusiasmam-se e adquirem confiança nele, na sua honestidade, na sua limpidez, na sua sensibilidade para as situações mais secretas de sofrimento do coração humano, e a sua confiança cresce também diante da capacidade que o Mestre possui de guiá-los e conduzi-los.

Em terceiro lugar, Jesus educa os discípulos a olhar os problemas de fundo dos homens. Pensemos no episódio do paralítico: “Teus pecados te são perdoados”; na palavra de Jesus: “Não vim para os justos mas para os pecadores”; na palavra dirigida à mulher em casa de Simão: “Perdoa-se-lhe muito porque muito amou”. Em outras palavras, os discípulos que provavelmente tinham uma experiência muito limitada da vida e interesses imediatos pelos próprios familiares, como toda pessoa que está imersa no trabalho e na fadiga, são educados a ver que há tanto sofrimento, tanta necessidade de compaixão, gente que sofre interiormente, que está dilacerada por contradições e necessitada de uma palavra de conforto.

Isto é o que eu chamo educação do homem cristão, sublinhando a palavra homem, isto é, um ser capaz de dirigir-se aos outros com fraternidade. Devemos dizer que é a pregação mais fácil de Jesus porque é tudo óbvio e belo: fraternidade, compaixão, beneficência; nenhum homem poderia dizer que não deve ser assim. São as páginas mais conhecidas do Evangelho no mundo, e que tanto fazem apreciar Jesus como um grande mestre de humanidade, também da parte de muitos jovens que não crêem. Algumas vezes vemos que jovens se empenham em obras de voluntariado sem que eles mesmos tenham uma fé precisa, mas de boa vontade se lançam na ajuda ao próximo, para servir; ninguém pode dizer que sejam escolhas inúteis ou estranhas. Portanto, esta primeira escola é importante e o evangelizador deve passar por ela. O padre, em particular, poderá compreender as necessidades mais secretas do povo – aquelas mais subtis, precisamente porque mais íntimas ao mistério da pessoa – se tiver compreendido as necessidades mais imediatas como a doença, a fome, a solidão, a alienação de todo tipo; se tiver um coração sensível para estas coisas. São as diaconias ex-fide que aqui são exaltadas, os muitos tipos de serviço, de assistência, de descoberta, do pobre; diaconias essenciais para, chegar àquelas mais profundas.

Uma comunidade cristã verdadeira e madura é a que suscita abundantemente nos seus baptizados experiências deste tipo, que educa as crianças e os jovens neste sentido. Do contrário, corremos o risco de oferecer ao povo um alimento excelente sem ter compreendido a sua capacidade, a sua necessidade imediata de um alimento já pronto e mais apropriado.

É um problema sobre o qual é preciso reflectir atentamente, sobretudo quando se trata da educação sacerdotal; é bom que o sacerdote seja educado num certo isolamento que lhe permita o estudo, a oração, a aquisição de uma disciplina, de uma austeridade de vida que é tão necessária, e sem a qual não se pode resistir nas dificuldades da vida sacerdotal.

Mas é igualmente fundamental e importante que o sacerdote passe por estes exercícios da vida cristã e nunca os esqueça. Encontram-se, assim, sacerdotes que, querendo despertar um pouco a própria vocação, se dedicam por certo período ao serviço imediato dos pobres, dos doentes e assim redescobrem o gosto pelo evangelho e o sentido da vida concebida como dom. De outro lado, deve-se dizer que toda a nossa vida está ligada a este tipo de ajuda, de serviço, de compreensão, particularmente. com os doentes, que são realmente a flor da humanidade, os mais necessitados das nossas maiores atenções.

Não posso deixar de lembrar que para nós é importantíssima a ajuda aos sacerdotes doentes; mais ainda, é um ponto de referência para ver se mantemos ou não esta educação do homem cristão, embora dedicando-nos mais expressamente, entre os mil serviços possíveis, ao ministério evangélico. Precisamente nestes dias, chegou-me uma carta de um sacerdote idoso, doente, que vive a sua condição de maneira singular, do ponto de vista da fé e da aceitação; ele me escreve que reza ardentemente por todas as intenções que, na minha visita, lhe recomendei: a Igreja, o Papa, a vasta diocese ambrosiana, os sacerdotes.

Parece-me útil lembrar que devemos fazer resplandecer a vida de Cristo também na cuidado para com os nossos confrades doentes: não bastam as estruturas jurídicas. Como sabeis, há alguns sacerdotes, que em nome de toda a diocese, estão encarregados de visitar os doentes e de dar-me conta, depois, do estado de cada um; mas a diocese é tão vasta que só de tempos em tempos voltam a visitar as mesmas pessoas.

O Vigário episcopal também visita; o Bispo procura visitar os casos mais graves, mas são gotas; é preciso que ajamos em conjunto, é preciso que cada qual pense – ainda que tantas sejam as coisas a fazer – em estabelecer um momento de pausa para uma visita. Com frequência os doentes estão sujeitos a melancolias, estados de temor em que vêm tudo escuro, e uma visita pode mudar a situação, devolver serenidade e paz.

Esta educação não acaba nunca, cada um de nós é sempre estimulado a interrogar-se: como vivo, nas situações que me cercam, a caridade, a fraternidade, a misericórdia que Cristo ensinou e para a qual educou os seus discípulos, particularmente em relação aos doentes e muitas outras formas de pobreza?

A formação do evangelizador

Quais são as características desta segunda parte? Nela os milagres de Jesus diminuem. Não passam de cinco, e muitos deles são contados rapidamente. Depois do cego de Jericó (Lc 18,3543) não há mais milagre algum. A partir do ingresso em Jerusalém, cessa completamente esta actividade de Jesus. Em contraposição, aumentam as palavras, e sobretudo as palavras reservadas aos Doze, aos evangelizadores.

Portanto, parece claro que, na segunda parte da sua vida, Jesus dedica o tempo particularmente àqueles que lhe estão perto, para formá-los de maneira especial.

É típica da segunda parte também a passagem do discurso de Jesus para o povo e vice-versa. Por exemplo, no capítulo 12 que começa assim: “Entretanto, milhares de pessoas se ajuntavam, à multidão, de modo que se esmagavam uns aos outros (na ânsia de correr para Jesus) e Jesus começou, a dizer antes de tudo aos discípulos”. E, no v. 4: “Digo a vós, meus amigos”; no v. 13: “Alguém da multidão lhe disse” e Jesus lhe responde. No v. 22: “Depois disse aos discípulos”. Portanto parece claro, aqui, que Jesus fala um pouco ao povo, mas, facilmente e de boa vontade, se retira para falar com os seus. Há uma atenção particular para com os Doze.

É de que tipo são as palavras que Jesus usa nesta segunda parte da pregação? O seu tom é bastante diferente das primeiras, concretamente são as palavras mais duras e mais intransigentes do Evangelho, aquelas que com dificuldade se explicam às pessoas que estão na Igreja.

Em tempos passados, quando se repetiam sempre todos os anos as mesmas passagens evangélicas, quase nunca apareciam na liturgia, ao passo que agora, no ano C, aparecem – do mês de junho em diante – e a gente chega e encontra-se em dificuldade. Eu mesmo passei por este embaraço, ao ter que explicá-las na televisão, durante o verão. “Não vim trazer a paz mas a espada, vim dividir etc.” Em resumo, as palavras da segunda parte de Lucas são para quem já seguiu um certo itinerário. Portanto, é normal que, ditas assim, possam ser mal entendidas, e alguém que nunca ouviu o evangelho fique chocado, impressionado.

Querendo tentar sintetizar estas palavras de Jesus em momentos fundamentais, emergem três temas que me parecem dominantes.

Antes de mais nada, a educação ao desapego e à liberdade do coração. “Vendei o que possuís e dai-o de esmola. Fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro nos céus que não se esvaziará, do qual o ladrão não se aproxima e a traça nada destrói Porque, onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração. Estai preparados: com a roupa bem presa na cintura e com as lâmpadas acesas” etc. (Lc 12,33-35).

Quem segue Jesus de perto é educado, gradualmente, para a liberdade do coração, a não apegar-se a nenhuma daquelas coisas que poderiam afastá-lo da sua tarefa: o ganho, o interesse, a carreira, as preocupações pessoais.

Com palavras fortes, Jesus lembra esta necessidade do coração livre e desapegado.

Um segundo tema é o da educação ao abandono de si mesmo ao Pai.

O discípulo deve saber que, tendo seguido Jesus, a sua vida está nas mãos do Pai, deve confiá-la a ele. Deve confiar a ele o seu presente e o seu futuro. “Qual de vós é o pai que daria uma serpente a um filho que lhe pede peixe?… Portanto, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. (Lc 1,11-13).

Ou ainda: “Por isso eu vos declaro: não andeis muito preocupados em relação à vossa vida, com o que tereis que comer, nem em relação ao vosso corpo, com o que tereis para vestir. A vida vale mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa. Reparai como os corvos não semeiam nem ceifam; não têm celeiro nem dispensa; e, no entanto, Deus os sustenta! E como valeis mais do que os corvos! Quem dentre vós pode com a sua preocupação acrescentar um momento sequer à duração da sua vida? Portanto, se não podeis fazer as coisas mínimas, por que estais ansiosos por causa das outras? Reparai como os lírios não trabalham nem fiam. E eu vos garanto: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Portanto, se Deus veste deste modo a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais fará convosco, homens pobres de fé! Não vos perturbeis a respeito do que tereis para comer ou para beber, nem vos atormenteis; porque as pessoas mundanas é que procuram estas coisas; mas o vosso Pai sabe que precisais delas. Procurai então o Reino de Deus e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Deixai de lado este medo, pequeno rebanho, porque foi do agrado do Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,22-32).

Já dissemos nas meditações precedentes que é importante para o homem confiar. Agora, aqui, o confiar tem um objecto preciso: é o Pai que não deixará cair um cabelo no chão sem que Ele esteja perto. O Pai não vos abandonará, deveis confiar nele. É o que Jesus pede daqueles que ele prepara para serem os evangelizadores.

Por, fim, o terceiro tema que reaparece sistematicamente: a educação para o sentido da cruz. Não aparece nos primeiros capítulos, começa a aparecer somente num certo ponto, onde as três predições da Paixão escandem os capítulos 9 a 18. A primeira: “O Filho do homem deverá sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sacerdotes-chefes e mestres da lei e, afinal, ser morto, mas ressuscitará no terceiro dia” (9,22). Depois a segunda (9,44), e a terceira (18,31). As nove predições enquadram os nove capítulos como que para dar, um pouco de sentido geral: Jesus educa os seus para o sentido da cruz.

Uma educação feita na vida

Esta educação tem uma característica muito importante para toda a pregação evangélica. Não se trata de uma educação ideológica: Jesus anuncia princípios e tira conclusões, ou apresenta um programa e depois expõe os pontos sucessivos de actuação. É uma educação feita na vida: os discípulos, vivem com Jesus, vêem como ele reage a propósito de uma situação, como fala, como se comporta. Anúncio e vida se entrelaçam. Jesus faz e ensina: este é o fundamento para a educação evangélica. O Evangelho impõe-se por conaturalidade afectiva com o Senhor e com os que o vivem. Por isso, quando se fala de “escola de discipulado”, na tradição da Igreja, é sempre um discipulado vivo: mestre-discípulo. Assim se aprendem as coisas. Nós mesmos, se interrogarmos a nossa experiência, veremos que o que aprendemos veio sobretudo através dos contactos com verdadeiros cristãos; a graça de pais bons e santos, o encontro com algum sacerdote que nos impressionou particularmente; o seu modo de dizer, de fizer, de reagir, os seus silêncios, as suas observações no tempo certo nos ensinaram muito.

E assim também os outros aprendem de nós: não é tanto o que nós dizemos, mas o nosso modo de viver, de reagir, de julgar que é formativo. O próprio Jesus quis isso, foi ele quem começou este tipo de escola prática; muitas formas de iniciativa pastoral que colocam o evangelizador em contacto com o povo são eficacíssimas precisamente se houver esta osmose, esta transmissão invisível de valores.

Alguns dias atrás, li uma exposição teórica sobre a maneira pela qual são comunicados os significados da vida, e o autor enumerava uma série de elementos através dos quais são comunicados os significados: intersubjectividade, o símbolo, a língua e a vida concreta. Por este catálogo vê-se que a língua é apenas uma das maneiras pelas quais se comunicam os valores, e com frequência não a mais adequada. Existe a intersubjectividade, isto é, todas aquelas actividades que são inerentes ao estar junto, que têm significado também sem que isso seja dito. Por exemplo, o próprio facto de estarmos aqui, reunidos em oração e audição, tem um valor inexprimível em palavras porque significa comunidade de fé, audição de uma única Palavra, comunhão de presbitério, relacionamento entre o Bispo e os seus Sacerdotes, desejo de caminhar juntos.

Tudo isso é comunicado pelo simples facto de estarmos aqui, sem que ninguém tenha necessidade de dizê-lo; através desta intersubjectividade passam muitíssimos significados da vida. Por exemplo, a mãe que segura o filhinho no colo, assume um significado tão grande e rico que seria necessário um volume para exprimi-lo. Depois, existem os símbolos; os símbolos, os gestos, todas as formas de arte, do cântico, dizem muito mais do que aquilo que a língua pode exprimir. Mas a língua, é necessária, porque, do contrário, certos símbolos permanecem ambíguos, não claros.

Existe sobretudo a vida encarnada, as personalidades que encarnam os valores: são estas que transmitem os significados de maneira excepcional. Se, além disso, estas personalidades” estiverem reunidas numa intersubjectividade comunitária e usarem símbolos bem escolhidos, o influxo será ainda mais profundo.

Pensemos nas palavras de Jesus, nos seus gestos, na cruz como símbolo fundamental do seu amor, inexaurível como capacidade de ser significante. Então passemos a intuir como Jesus formou os seus: usou um modo pelo qual eles não conseguem compreender logo e a exprimir o que Ele diz e faz.

Desejo fazer mais uma observação que vai introduzir-nos nas meditações seguintes. A observação é esta: qual é o resultado desta educação acurada, bem calibrada, conduzida por Jesus segundo todas as regras? É frustradora, e o próprio Evangelho o diz. O Evangelho não nos oculta que toda esta maravilhosa aplicação de instrumentos educativos serviu bem pouco para formar os evangelizadores.

No início destes nove capítulos em que o evangelizador é formado para a diaconia fidei, para aquelas atitudes de desapego, de abandono ao Pai, de senso da cruz que são necessários para poder anunciar livremente o Evangelho, está escrito: “Mas, como todos estavam encantados com tudo o que Jesus fazia, ele disse aos seus discípulos: Gravai bem estas palavras: Em breve o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens. Mas não compreendiam nada. Estas palavras permaneciam misteriosas para eles, de modo que não podiam entendê-las. E eles tinham medo de lhe fazer perguntas a este respeito” (Lc 9,43).

Deve-se notar a insistência, quase um pouco cruel, do evangelista, no indicar esta incompreensão: não compreendiam, permanecia misteriosa, não compreendiam o seu sentido, tinham medo de perguntar. É precisamente aquele bloqueio que faz as coisas zumbir na cabeça, mas estão de tal forma fora da própria mentalidade que não se ousa romper o encanto, e por isso permanece o medo.

A situação é paradoxal: Jesus fala, anuncia um certo caminho, os seus estão ali perto e têm medo de interrogá-lo. É verdadeiramente um mal-entendido que se instaura entre Jesus e os seus; em muitas coisas estão de acordo, mas há um ponto, para Jesus fundamental, que eles não acolhem, que procuram rejeitar e sufocar. E Lucas é tão ousado a ponto de voltar a este tema – nove capítulos depois – no termo de toda esta educação – portanto, pouco antes da entrada em Jerusalém e do último milagre – no milagre do cego de Jericó: “Depois, em particular, Jesus disse aos Doze: Estamos subindo para Jerusalém e se cumprirá tudo o que foi escrito pelos profetas sobre o Filho do homem. Pois será entregue aos pagãos, zombado, insultado e cuspido. E, depois de o açoitarem, vão matá-lo. Mas ele ressuscitará no terceiro dia. Mas eles não entendiam nada disso. Estas palavras eram um enigma para eles e não sabiam o que Jesus lhes queria dizer” (18,31-34). Por três vezes insiste-se no facto que nove capítulos de vida comum com Jesus não produziram, neste ponto, nenhum resultado. É interessante para nós, porque faz compreender que a educação do evangelizador é difícil, entra em choque com certas resistências secretas. Enquanto não as tivermos bem esclarecido e desmascarado, as palavras passam por cima de nós, ressoam externamente, mas não entram no coração.

Na evangelização dos discípulos de Emaús, antes do encontro com Jesus, vê-se como as palavras haviam entrado, mas também haviam saído sem “aquecer” o coração; daqui o sofrimento, a crise, a dificuldade do evangelizador.

O que se pede agora, na fase sucessiva do Evangelho de Lucas, é a resposta a esta pergunta: por que tanta dificuldade, que aconteceu no ânimo dos discípulos para que não possam compreender o mistério de Cristo? Peçamos, na oração, que sejamos iluminados neste ponto que é um ponto realmente fundamental e que explica tantas crises nossas na evangelização, tantos momentos de desilusão, de desânimo, de bloqueio, de tédio.

Peçamos ao Senhor que sejamos libertados, não com a força do raciocínio e com uma vontade cerrar os dentes, mas com a força do Espírito que deve ser invocada com poder alegre e glorioso de salvação.

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Questa voce è stata pubblicata il 22/10/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , , .

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