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Martini – O Evangelizador em São Lucas (6)


Testo word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (6)
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O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (6)
Carlo Maria Martini

Curso de Exercícios a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Sexta Reflexão
O CAMINHO DE PEDRO, PRIMEIRO EVANGELIZADOR

Pensei em meditar sobre uma figura que resumisse, melhor do que qualquer outra, o caminho que Jesus fez os seus discípulos percorrer para torná-los evangelizadores: é a figura de Pedro. Juntos, procuraremos reviver a experiência de Pedro no seguimento de Jesus.

São dois os momentos em que Pedro se confessa pecador. Lc 5,8: “Ao ver isto, Simão Pedro lançou-se aos seus pés dizendo: Senhor, afasta-te de mim porque sou um pecador”; e Lc 22,62: “Saindo, Pedro chorou amargamente”. Perguntamo-nos que diferença há entre o primeiro e o segundo momento; que caminho, que itinerário espiritual Pedro percorreu entre o primeiro e o segundo momento, e como é que a verdade do segundo momento é muito maior do que a verdade do primeiro.

No primeiro momento, Pedro é chamado “pescador de homens”, mas ainda era bastante incapaz de compreender, como veremos, o mistério do Evangelho. No segundo momento Pedro chega, por assim dizer, ao cume da sua preparação de evangelizador. Vamos procurar compreender este itinerário entre o chamamento de Pedro e o que segue a negação de Pedro. Como Pedro chegou a este ponto, através de que etapas? A sua experiência é importante para toda a Igreja, como o próprio Jesus afirma: “Simão, Simão, cuidado, Satanás pediu o poder de vos peneirar como se faz com o trigo; mas eu rezei por ti, para que a tua fé não desfaleça. De tua parte, quando voltares de novo para mim, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31-33). Portanto, a experiência de Pedro, mais uma vez, pode ser útil para nós, para confirmar-nos. A seguir, perguntamo-nos por que Pedro renegou Jesus, como chegou a tal incompreensão do querigma a ponto de se comportar pior do que os nazarenos, de eliminar Jesus da própria vida e de que maneira esta rejeição depois o habilitou a pregar o Evangelho.

Cada qual é chamado a reviver interiormente estes episódios repetindo de certa forma a experiência de Pedro, como os Evangelhos o apresentam.

Confissão e Incompreensão de Pedro

Vamos partir de Lc 9,20 recorrendo ao paralelo de Marcos, porque Lucas nos dá a confissão de Pedro mas não a desaprovação de Pedro quando quer impedir Jesus de escolher o seu caminho. Em Mc 8,29, Jesus afirma: “E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: Tu és o Cristo”. Aqui Pedro alcança o cume da sua missão, torna-se realmente aquele que, como evangelizador, profeta, apóstolo, sabe resumir o pensamento dos outros e dar-lhe uma expressão precisa. Neste momento, Pedro sente-se cheio de alegria; mostrou-se digno da confiança que Jesus depositou nele. Por isso fica desconcertado quando ouve estas palavras de Jesus: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sacerdotes-chefes e escribas, ser entregue à morte mas ressuscitar depois de três dias”. E disse isso abertamente. Então Pedro, chamando-o em particular, começou a censurá-lo. Ele, porém, voltou-se e, vendo os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: “Afasta-te de mim, Satanás! Porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens” (Mc 8,31-33).

Detenhamo-nos um momento para reflectir sobre a impressão que estas palavras podem ter suscitado no coração de Pedro, reflictamos sobre a mudança de humor que provocaram nele. Pedro terá pensado: mas afinal, que mal fiz eu, por que tratar-me desta maneira? No fundo, eu queria o bem dele, queria impedir um fim tão triste, queria que fosse honrado como merece; na verdade, não cheguei a compreender este Mestre, tem ideias que vão além daquilo que eu posso entender, e agora talvez não queira mais nada comigo, não me olhará mais.

Pedro vive um momento difícil, sente que compreende Jesus, mas não até ao fundo. Este mal-entendido é logo resolvido por um novo facto que devolve a euforia a Pedro: “Uns oito dias depois dessas palavras, Jesus subiu à montanha para rezar e levou consigo Pedro, João e Tiago” (Lc 9,28). Neste episódio da Transfiguração, vê-se com que entusiasmo e com que senso de responsabilidade Pedro vive o seu chamamento: “Pedro disse a Jesus: Mestre, como é bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e a terceira para Elias. E ele não sabia o que estava dizendo” (Lc 9,33).

Aqui Pedro aparece em toda a sua grande generosidade. Com efeito, não diz: façamos uma tenda também para mim. Pedro pensa em Jesus, em Moisés, em Elias; é o homem que, sentindo-se participante do Reino de Deus, se dá conta de toda a sua responsabilidade; está pronto a fazer e a decidir ele mesmo pelo Reino. Neste momento, sente-se exaltado ao máximo das suas forças, das suas capacidades, e podemos também pensar que, quando no dia seguinte desce da montanha (Lc 9,37) e vê os outros apóstolos que não foram capazes de expulsar o demónio de um menino, provavelmente compartilha das palavras de Jesus: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco e vos suportarei?” (Lc 9,41). Pedro pensa: eu realmente tenho fé, estou ao seu lado, estes outros apóstolos ainda não compreenderam de que se trata, não conseguem compreender o poder de Jesus que eu estou adquirindo. Pedro está crescendo precisamente na consciência das suas responsabilidades, daquilo que recai sobre os seus ombros.

E eis, como um novo duche frio, a palavra que, depois de tantos outros eventos (deixando de lado os intermediários e indo logo aos últimos episódios antes da Paixão), Jesus lhe dirige: “Simão, Simão, cuidado, Satanás pediu o poder de vos peneirar como se faz com o trigo; mas eu rezei por ti, para que a tua fé não desfaleça; da tua parte, quando voltares de novo para mim, confirma os teus irmãos!” E Pedro lhe disse: “Senhor, estou pronto para ir contigo até à prisão e a morte”. Mas Jesus respondeu-lhe: “Pedro, eu te afirmo: o galo não cantará hoje antes que tu, por três vezes, tenhas negado conhecer-me” (Lc 22,31-34).

Como vive Pedro estas palavras, que certamente contêm algo de muito importante para ele: “confirma os teus irmãos”? Aproveita a ocasião para pensar que, evidentemente, ele já está muito dentro da mensagem, está em condições de possuí-la e compreendê-la a fundo: “Senhor, estou pronto para ir contigo até à prisão e a morte”. Quando ouvimos estas palavras dizemos que estão cheias de presunção, mas dizemos isso a partir dos eventos que conhecemos; porque, em si mesmas, são palavras belíssimas, são palavras que todo cristão deveria poder repetir. O que existe nelas de negativo que poderia fazer-nos compreender, ainda que um pouco psicologicamente, como se prepara a queda de Pedro? Pedro realmente exprime o que sente, mas, de todo o contexto, parece claro que não deu ouvidos à palavra de Jesus: “Satanás pediu o poder de vós peneirar como se faz com o trigo. Eu rezei por ti”.

Se tivesse dado ouvidos, teria dito: Senhor, eu te agradeço porque rezaste por mim; eu me sinto fraco, sei que posso tão pouco, fica perto de mim. Em vez disso (e aqui se delineia um pouco o problema que já víamos nascer em Nazaré), Pedro faz do Evangelho, da tarefa que lhe é confiada, uma realidade que se torna sua, da qual ele já pode dispor, com força, e não um dom permanente do Senhor que deve ser pedido humildemente. Assim como os nazarenos teriam gostado de dispor do poder de Jesus a seu proveito, e se revoltam quando o Mestre lhes faz compreender que não há limites, para o poder de Deus e que Nazaré não é necessariamente o único lugar designado para os mistérios de salvação, da mesma forma Pedro, gradualmente, realiza uma certa apropriação da tarefa de evangelização: é sua, pertence-lhe, dá-lhe privilégios, certa força, certa coragem; e porque é sua, está pronto a tomar sobre si também as consequências.

Subtilmente prepara-se para a queda. Com efeito, o Evangelho é precisamente o dom gratuito de Deus, é a salvação que Deus gratuitamente concede ao pecador e, enquanto o recebermos com ânimo grato, com reconhecimento, com humildade, estamos na posição certa; mas logo que começamos a apropriar-nos dele, a administrá-lo como algo próprio, chegamos a inverter totalmente a situação. Então tornamo-nos nós mesmos os donos do Evangelho, os donos da Igreja, os donos das situações e não somos mais pessoas que recebem o dom e o transmitem, mas somos pessoas que pretendem usá-lo como algo próprio.

O erro no caminho de Pedro é subtil: vem desde o tempo em que, na montanha, queria dispor as tendas para todos e tinha a impressão de poder controlar a situação na qualidade de mordomo do Reino, julgando-se capaz de manobrar os mistérios de Deus. Por isso mesmo está-lhe reservada a lição da mais humilhante fraqueza do homem e do evangelizador, que é a incapacidade de enfrentar as situações-limites.

Mas prossigamos a leitura daquelas páginas tão instrutivas na sua psicologia: “Jesus depois disse: Quando vos enviei sem dinheiro, sem sacola e sem calçado, por acaso vos faltou alguma coisa? Eles responderam: Nenhuma! Jesus continuou: Mas agora quem tiver dinheiro, tome-o; quem tiver uma sacola, também; quem não tiver espada, venda o manto e compre uma. Porque é preciso que se cumpra em mim esta palavra da Escritura: Ele foi contado entre os malfeitores. Na verdade, o que está escrito a meu respeito está chegando ao seu fim. Então eles lhe disseram: Senhor, aqui estão duas espadas. Ele respondeu: o bastante” (Lc 22,35-38).

Certamente, por trás dos Doze está, mais uma vez, Pedro, sempre preocupado em salvar a situação; não tendo compreendido bem a palavra de Jesus, afirma: Aqui estou eu com a espada para defender-te, deixa isso comigo, podes ficar tranquilo, pois não vou deixar que os teus inimigos levem vantagem.

Pedro não é um covarde, não é medroso, não age assim porque tem medo da cruz; ele é realmente sincero. O seu erro está em colocar-se no primeiro plano. Em certo sentido, aprofundando teologicamente esta frase, poderíamos dizer que ele quer salvar Jesus, será ele o salvador de Jesus.

A crise de Pedro

A esta altura, encontramos o episódio do horto das oliveiras: Jesus está cheio de angústia, as suas gotas de sangue… e não consegue ter a companhia de nenhum dos discípulos, nem mesmo de Pedro. Pedro não consegue suportar a visão de Jesus fraco e nele começa a ruir o mito do Mestre: conhecia-o como o Senhor poderoso, vitorioso, aquele que sempre leva a melhor, que sabe encontrar as palavras apropriadas para qualquer situação, aquele que, com raciocínio pronto, derrota adversários caprichosos. Aqui, pela primeira vez, Pedro vê Jesus vencido pela fraqueza e nasce no seu coração uma imensa inquietação: como é possível que Deus esteja com este homem, se este homem tem medo, se este homem mostra tanta fragilidade?

Pedro fora educado pelo Antigo Testamento a ver o Deus grande, o Deus poderoso: Javé que vence as guerras, que derrota os inimigos. Já estava transferindo para Jesus todo o poder de Javé, mas agora que vê esta fraqueza, que pode fazer senão fechar os olhos e não pensar mais nisso? É o gesto de quem diz: não quero saber, não quero ver, não consigo compreender. A fraqueza de Jesus que está-se manifestando, faz com que Pedro tombe interiormente, porque é totalmente contrária à ideia que ele tem do Reino de Deus, à sua mentalidade de um Reino sempre vitorioso que lhe tinha feito dizer, no momento da primeira predição da Paixão: Senhor, não, isso não pode acontecer, jamais acontecerá, em ti está o poder de Javé. Agora duvida de que Deus esteja com este homem, pensa que Deus o está abandonando e fica transtornado.

Vem a prisão de Jesus. Judas, os guardas, o beijo da traição. Que faz Pedro neste momento? Apela para todas as suas energias: “Senhor, convém que os ataquemos com espada?” E um deles (Lucas não o nomeia, mas nomeiam-no os outros evangelistas), atacando o servidor do Sumo Sacerdote, cortou-lhe a orelha direita. Mas Jesus interveio: “Deixai-os agir” (Lc 22,49-50).

Pedro volta a ser verdadeiramente o homem heróico que quer morrer pelo Mestre, quer lançar-se à luta, vencer a todo o custo, talvez morrer, desde que o salve. Chega, por assim dizer, àquilo que julga ser o ápice da sua generosidade: é o Evangelho que me chama a isso, eu sou chamado a dar a vida, portanto devo dá-la.

Imaginemos o baque interior, já total, que acontece nele quando Jesus intervém: “Deixai-os agir”. E, tocando na orelha, curou-o. Voltando-se para os sacerdotes-chefes, os comandantes da guarda do Templo e os anciãos, Jesus disse-lhes: “Saístes com espadas e bastões como se fôsseis contra um bandido? Quando estava todos os dias convosco no Templo, não levantastes a mão contra mim. Mas esta é a hora e o império das trevas!” (Lc 22,5 1-53). Portanto, o próprio Jesus deixa o curso ao império das trevas. Pedro dá-se conta de que tudo o que havia pensado tinha ido por água abaixo; queria combater com o Mestre pelo Reino da luz, e o Mestre está ali, inerme, e aceita que o império das trevas leve vantagem sobre ele. A sua ideia de Deus se esboroa. Deus não é mais poder, não é mais bondade, não é mais justiça, não intervém para salvar Jesus. Quem é, então, este Mestre em quem acreditamos?

E Pedro cai numa profunda confusão interior que nos faz compreender muito bem todas as suas negações; se as lermos assim, como são propostas pelo Evangelho de Lucas, vemos com quanta fineza vem à luz a situação psicológica de Pedro: nem ele mesmo sabe o que quer.

Pedro segue o Mestre, mas de longe. Segue-o porque o ama; de longe porque não consegue mais pronunciar-se abertamente por ele, porque não o compreende: em resumo, que quer ele? Se quiser um acto de coragem, estamos prontos; se quiser outra coisa, que o diga e ao menos no-lo faça compreender!

E eis a primeira pergunta: “Também este estava com ele”. Mas ele negou dizendo: “Mulher, não o conheço”. Note-se a fineza, talvez casual, talvez proposital, desta frase: “com ele”. É a frase que Pedro tinha, dito pouco antes: “Contigo, Senhor, estou pronto a ir à prisão e à morte”. Agora, a este “com ele” não sabe mais reagir e diz: “Não o conheço”. Na realidade, a negação “não o conheço” tem uma certa verdade na mente de Pedro, porque Jesus não é mais aquilo que ele julgava, isto é, um líder, um chefe, um vencedor, um homem que sabe suportar as situações adversas. Não conhece mais, não compreende mais aquele homem abandonado ao poder dos inimigos, não sabe mais o que quer esse Jesus que saiu completamente dos esquemas mentais precedentes. Pedro realmente não consegue mais alcançá-lo.

Quando lhe é dirigida a segunda pergunta: “Também tu és um deles?”, Pedro nega também isso: “Não, não sou!” Penso que na resposta há, no fundo, uma pitada de desprezo: eles fugiram, eu ao menos queria fazer alguma coisa por ele, queria dar a vida, e a teria dado se me tivesse permitido. Não sou daqueles que tiveram medo, e também não estou com ele porque não o reconheço mais. Diz o texto: “Passada mais ou menos uma hora”. Podemos imaginar o drama de identidade que Pedro vive naquela hora: que quero eu, que foi a minha vida, como é que tive a ideia de seguir este homem?; e, contudo, eu acreditava nele, gostava dele, não devia trair-me desta maneira. Toda a reviravolta de um homem que generosamente seguiu um caminho e, num dado momento, não compreende mais o desígnio de Deus a seu respeito.

Que quer Deus de mim agora? Antes eu podia dizê-lo, até há poucas horas eu estava pronto para morrer com ele; agora não sei mais o que Deus quer. Sem dúvida, é uma hora terrível para Pedro. E, depois desta hora, outro insistia: “Na verdade, também este estava com Jesus; também este é galileu”. Mas Pedro disse: “Ó homem, não sei de que estás falando”.

Não sei se é por acaso ou se é coisa intencional do evangelista que a frase:. “Não sei o que dizes” é a mesma que, no monte da Transfiguração era anotada: “Não sabia o que dizia”. Então julgava ter nas próprias mãos as chaves do Reino, julgava poder dispor delas como senhor, e agora é levado a dizer: “Não sei o que dizes”, diante de uma pergunta tão evidente que o interroga precisamente sobre a sua identidade geográfica e cultural: se é ou não galileu.

A provação pela qual Jesus permitiu que Pedro passasse é uma das mais terríveis por que pode passar um homem quando chega a duvidar de tudo o que foi a sua educação religiosa, a sua formação: é este aquele Deus em quem acreditei? É verdadeiramente esta a vontade de Deus ao meu respeito, ou será que errei totalmente?

Se Pedro passou por esta situação, passou por toda a Igreja, passou por todos nós, passou para confirmar os irmãos; por isso, é uma prova que ele viveu como chefe da Igreja, como primeiro dos evangelizadores, sabendo que realmente não é possível sermos evangelizadores se não nos deixarmos envolver de tal “modo pelo desígnio de Deus a ponto de aceitar que seja o “seu” desígnio e não o nosso, o seu Evangelho e não o nosso, e a sua salvação e não a nossa.

No fundo, o dilema de Pedro poderia ser expresso muito simplesmente assim: Pedro queria salvar Jesus, mas na realidade era Jesus que devia salvar Pedro e este devia chegar à convicção de que era salvo, de que era perdoado por Jesus; ele era o primeiro depositário do perdão e da misericórdia evangélica. Isso custava-lhe muitíssimo, porque era muito cioso da sua fidelidade, da sua capacidade de ser honesto e leal. O Senhor quer que compreenda que também ele pode chegar a um momento de desorientação total e, por isso, se quiser evangelizar, deverá ter, como primeira coisa, uma compreensão sem limites da misericórdia salvífica de Deus e uma capacidade sem limites de compaixão pelos seus irmãos na Igreja. Neste ponto, o texto continua: “Naquele instante, enquanto ainda falava, um galo cantou”. Neste galo que canta está a denúncia do seu pecado: eis onde chegaste, tu que julgavas possuir o Reino, o Evangelho, ser o defensor do Mestre.

Esta denúncia fria, cortante e acusadora seria terrível se não surgisse, de repente, o olhar de Jesus: “Então o Senhor, voltando-se, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se das palavras que o Senhor lhe havia dito: “Antes que o galo cante, hoje me renegarás três vezes”. E, saindo, chorou amargamente.

A experiência de se deixar amar

Procuremos compreender a diferença que há entre este momento e aquele em que Pedro tinha dito: “Senhor, afasta-te de mim, pecador.” As palavras são substancialmente as mesmas, mas que diferença de experiência! Na barca, Pedro havia ficado um pouco surpreendido diante do poder de Deus, que o tinha presenteado com aquela grande pesca; cônscio da diferença entre o poder de Deus e a sua pobreza, no fundo não estava convencido de ter necessidade também ele da misericórdia de Deus. Podia ser um ajudante do perdão de Deus, uma pessoa que podia seguir Jesus, servir outros: não aceitava ser ele mesmo o objecto desta misericórdia, de ser o primeiro necessitado da palavra de salvação.

Mas eis que o Senhor o leva, quase inexoravelmente, até ao ponto em que Pedro realmente reconhece quem é, e no seu pranto há palavras muito simples: Senhor, eu também sou um pobre homem como todos; Senhor, eu não acreditava chegar a este ponto; Senhor, tem compaixão de mim; Senhor, tu vais morrer por mim que não te fui fiel, que te traí.

Aqui, finalmente, Pedro compreende o que é o Evangelho como salvação do homem pecador, compreende o verdadeiro ser de Deus que não é alguém que nos estimula a fazer o melhor, que não é um reformador moral da humanidade, mas é, antes de mais nada, o Amor oferecido sem limites, o puro Amor gratuito de misericórdia que não condena, não acusa, não censura. O olhar de Jesus não é acusador, nem admoestador; é simplesmente um olhar de misericórdia e de amor. Pedro, eu te amo também assim, eu sabia que eras assim e te amava sabendo que és assim. E agora compreende que diante de Deus não pode fazer outra coisa senão deixar-se amar, deixar-se salvar, deixar-se perdoar. É a isto que acena, de outro modo, o Evangelho de João no episódio do lava-pés: “Tu não me lavarás os pés; eu é que lavarei os teus, não tu os meus”. Como é difícil agradecer a alguém! O Evangelho é precisamente agradecer a Deus por tudo, sem excluir nada, sabendo-nos acolhidos poderosamente pela sua misericórdia e salvação.

Às suas custas, Pedro chega a esta intuição que lhe permitirá, depois, ser o primeiro evangelizador, o confirmador dos irmãos, o primeiro proclamador da palavra. Queria morrer por Jesus e agora vê que, de facto, é Jesus que quer morrer por ele, e aquela cruz que gostaria de ter afastado de Jesus é o sinal do amor, da salvação, da disponibilidade, de Deus por ele.

Aqui se realiza a inversão religiosa, tão difícil para todo o homem que, no fundo, crê sempre que Deus exige algo, que esteja sempre em cima para esmagar-nos e censurar-nos, e não consegue captar a imagem evangélica do Deus que serve, do Deus que põe a sua vida à nossa disposição, imagem que a Eucaristia nos coloca diariamente nas mãos. “Estou entre vós como quem serve”; “Eis o meu Corpo dado por vós”, antes de pedir alguma coisa a vós, peço simplesmente que vos deixeis amar totalmente.

Assim Pedro chegou à genuína experiência do Evangelho, compreendendo o poder do amor de Deus que envolve toda a vida do homem. Peçamos também nós, juntamente com Pedro, que o Senhor nos faça compreender a sua misericórdia que se exprime de tantas maneiras na vida do homem, de formas extremamente diferentes.

Foi dito, e com acerto, que Santa Teresa do Menino Jesus, na sua autobiografia, compreendeu perfeitamente este espírito evangélico; embora sem ter passado por nenhuma experiência de pecado e de traição, compreendeu perfeitamente que a substância do Evangelho é que a misericórdia de Deus nos ama, nos previne, nos cerca de um amor sem limites e, por isso, torna o homem seguro, permite-lhe lançar-se naquele caminho de confiança e coragem do qual nasce toda a experiência cristã. Aqui estamos na raiz do homem redimido diante da palavra evangélica de salvação que revela o homem a si mesmo. Peçamos poder compreender e pregar, com a vida e com as palavras, esta Boa Nova de salvação.

Poderíamos dizer, concluindo: Pedro faz a experiência, que talvez seja a mais fácil e a mais difícil da vida, de deixar-se amar. Até agora orgulhava-se de ser sempre o primeiro a fazer alguma coisa.

b

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Questa voce è stata pubblicata il 29/10/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , , .

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