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Martini – O Evangelizador em São Lucas (7)


Curso de Exercícios do cardeal Martini a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Texto word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (7)
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O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (7)
Carlo Maria Martini


La pasión de Cristo - cruz

Sétima Reflexão
JESUS, EVANGELIZADOR NA PAIXÃO

Essas que eram vantagens para mim, as considero desvantagens por causa de Cristo. Sim, considero isso tudo uma perda em comparação com a sublime vantagem de conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, renunciei a tudo, e passei a considerar tudo uma imundície, para ganhar a Cristo. E para estar unido a ele, não mais com a minha justiça, aquela que vem da Lei, mas com a justiça que vem pela fé em Cristo, aquela que é dom de Deus e está fundada na fé” (Flp 3,7-9).

É este o ponto a que chegou Pedro, no momento em que Jesus o olha. Sabe que não deve mais basear-se na sua capacidade de seguir o Mestre e é através da sua confiança em Jesus Salvador que ele é salvo e se torna capaz de segui-lo: O texto continua: “A fim de conhecer a ele e o poder da sua ressurreição e, participando dos seus sofrimentos, me conformar a ele na morte e assim chegar, se for possível, à ressurreição dentre os mortos” (vv. 10 – 11). A partir desta passagem, podemos, rezar assim:

Agradeço-te, Senhor, porque, revelando a Pedro a sua fraqueza lhe revelaste a tua bondade, a tua misericórdia e lhe ofereceste o teu próprio poder. Agradeço-te, Senhor, porque revelas também a nós este teu poder. Concede-nos participar intimamente dos teus sofrimentos, para poder conhecer-te a fundo na tua força de evangelizador, de salvador, para poder participar do poder da tua ressurreição.

Senhor, nós desejamos sempre fugir deste caminho, desejamos chegar logo ao poder da ressurreição sem a comunhão com a tua morte; tu, ao contrário, nos educas, como fizeste com Pedro, a passar através desta comunhão com os teus sofrimentos. Faz que passemos através da experiência da cruz de maneira certa; isto é, faz que a acolhamos como um evangelho, como uma Boa Notícia, como o poder de Deus para a nossa salvação, como algo que nos conforta, que nos torna claro o sentido da vida, que nos dá realismo, verdade, coragem; não como algo que nos oprime, nos esmaga e nos espanta.

Mãe do Senhor, tu que seguiste Jesus na sua Paixão e participaste dolorosamente de todas as suas provações, faz que também nós saibamos participar delas com fé em verdade e simplicidade, com abertura de coração para unir-nos contigo à glória do Ressuscitado.

Concede-nos isso, ó Pai, Tu que nos enviaste o teu Jesus, morto e ressuscitado, e agora nos dás a plenitude do Espírito, na glória do Cristo que vive aqui, no meio de nós e em toda a Igreja, nas nossas igrejas, em todas as regiões do mundo e em todos os homens. Agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Assim fomos introduzidos no tema que proponho para a meditação. Pelo olhar de Jesus, Pedro foi colocado, de repente, na situação certa, compreendeu verdadeiramente quem é ele e quem é Jesus, qual a verdadeira atitude a tomar diante dos mistérios da salvação. Mas Jesus ainda deve continuar a sua obra de evangelizador, por Pedro e por todos nós. E ele a continua na sua Paixão, onde se mostra o grande evangelizador do Pai. Não é por nada que São João, referindo-se à Paixão diz: “Vimos a glória de Deus” (Jo 1,14).

Em tempos passados era mais frequente a meditação sobre a Paixão (pensemos na Via Sacra tão difundida entre o povo); pode-se reflectir sobre o sofrimento do Senhor, sobre a multidão das suas dores, pode-se pôr o acento em Jesus que sofre pela injustiça do mundo e do sistema que o esmaga, realidades que se tornaram emblemáticas da situação injusta em que o pobre com frequência se encontra.

Hoje vamos deter-nos sobretudo em Jesus que na paixão aparece como evangelizador. Surge espontânea a necessidade de rezar com gratidão dizendo: Eu te agradeço, Senhor, porque me amaste até este ponto, porque fizeste isso por mim.

Trata-se de contemplar o que Jesus, evangelizador e redentor, faz por nós, não com o intento de acusar-nos porque somos preguiçosos, mas com o intento de reanimar-nos, de reabrir-nos o coração porque o Mestre nos ama, porque nos compreende, porque está perto de nós.

De facto, esta meditação da Paixão assume, na nossa vida, diversas colorações dependendo das nossas experiências: quanto mais entramos em experiências difíceis, as nossas ou de outros – de humilhação, de solidão, de doença grave, de situações-limite – tanto mais profundamente compreendemos que, verdadeiramente, a revelação de Deus no Cristo sofredor é uma das chaves da existência humana, sem a qual em muitas situações realmente não saberíamos o que dizer, nem a nós mesmos nem aos outros.

Para contemplar Jesus, evangelizador do Pai e redentor nosso, leiamos os capítulos 22 e 23 de Lucas. É verdade que, no relato da Paixão, os quatro Evangelhos se aproximam muito: com efeito, sendo o relato mais antigo e mais tradicional, permitem-se menos variações. Mas Lucas, embora seguindo o esquema tradicional, apresenta algumas omissões típicas, algumas sublinhas que o caracterizam e fazem com que o seu relato coloque no centro o Jesus testemunha fiel, Mestre, evangelizador.

Por exemplo, é precisamente de Lucas o olhar a Pedro, o convite às mulheres, em Jerusalém, o perdão aos crucificadores, o acolhimento ao malfeitor arrependido. São todos episódios que mostram Jesus evangelizador por excelência, precisamente no momento mais dramático da sua vida.

Paremos por um momento em oração, vivamos em contacto com cada cena e peçamos aquela participação no sofrimento de Cristo de que fala Paulo em Fl 3,10-11. Como exemplo, examinaremos juntos as três passagens da Paixão.

A primeira é a de Jesus humilhado, e refere-se sobretudo aos insultos que Jesus recebe no julgamento, durante a audiência no tribunal. A segunda passagem é a de Jesus tentado. Por fim, a cena por excelência, a mais bela de toda a paixão, é aquela em que Jesus acolhe o ladrão arrependido; neste relato aparece na sua plenitude Jesus evangelizador. Realmente, Jesus mostrou a um homem desgraçado e perdido, a salvação de Deus, alcançando assim o cume da sua missão.

Jesus humilhado

As humilhações de Jesus: “Enquanto isso, os homens que guardavam Jesus zombavam dele e o espancavam; cobriam o seu rosto e perguntavam: Adivinha quem te bateu! E lhe dirigiam muitos outros insultos” (Lc 22,63-65). Infelizmente, tantos factos de perseguição na Igreja e de tortura no mundo tornaram esta cena de tremenda actualidade: basta seguir alguma coisa do que se conta, sempre com grande pudor, de alguns que viveram na sua pele estas experiências.

Detenhamo-nos por um momento e meditemos sobre estas perseguições precisamente para procurar compreender como Jesus as viveu.

Pedro apresenta uma interpretação do que acontece a Jesus, na sua primeira carta: “Ele, que não cometeu pecado e em cujos lábios não se encontrou fraude, sendo ultrajado, não respondia aos ultrajes:” Sendo atormentado, em lugar de ameaças, confiava a sua causa àquele que julga com justiça” (1Pdr 2,22-23).

Naturalmente, sobre o pano de fundo desta citação” está Is. 53, o cântico do servo de Javé, que deve ser relido neste contexto: o homem mudo diante daquele que o tortura e o mata.

Reflictamos sobre o significado humano desta cena. Quem é que ofende assim Jesus? São guardas, servos, pessoas que pela sua vez são humilhadas e ofendidas; portanto, pessoas acostumadas a receber humilhações e ofensas por parte dos seus superiores, acostumadas a reconhecer que o direito é do mais forte. Geralmente os humilhados são eles; eles são desprezados, condenados aos trabalhos mais difíceis, mais, inúteis, sem poder revoltar-se. Mas, desta vez, encontra-se, diante deles, alguém mais fraco do que eles, mais frágil do que eles. Eis como surge a miséria da condição na qual os homens, uns contra os outros, desencadeiam os seus instintos: estes homens muitas vezes foram oprimidos, talvez surrados sem razão, e agora procuram retribuir contra alguém, mais fraco do que eles. A sua vida é amarga, pesada, sem nenhuma abertura, sem nenhuma alegria familiar; eles se exprimem por aquilo que são. Não se trata de maldade pura: é precisamente o sofrimento do homem, que vive situações impossíveis e que desabafa contra Jesus.

Que fazem contra Jesus? Certamente o provocam e o atingem naquilo que ele tem de mais caro, na sua qualidade de profeta, ele que é “Palavra do Pai”: “Adivinha quem te bateu?”, insultam-no como homem que pode conhecer os corações, como homem que pode anunciar uma verdadeira palavra.

E que pensam enquanto fazem isso? Talvez nos perguntemos com espanto: mas por que este homem não reage, que existe nele, pois não se levanta contra nós? Não é o profeta em quem acreditávamos. Talvez tenham ficado desiludidos porque esperavam uma reacção violenta e tudo isso os inquieta e confunde.

Como reage Jesus? Enquanto Lucas nos faz compreender que Jesus responde com o silêncio, João nos faz compreender que Jesus responde um pouco com o silêncio, um pouco com alguma palavra de esclarecimento positivo: “Se falei erradamente, mostra a todos o que foi; se, pelo, contrário, falei bem, por que estás batendo em mim?” (Jo 18,23).

Eis Jesus evangelizador que, no mesmo momento em que é assim maltratado, se dirige à humanidade mais profunda de quem o golpeou, procurando fazê-lo raciocinar: porque fazes isso? Porque estás descontente dentro de ti, estás interiormente humilhado, te sentes oprimido; deves procurar compreender quais são os desejos mais profundos dentro de ti. Bate-me, se quiseres, mas esclarece a ti mesmo os teus desejos, esclarece a ti mesmo o que queres ser. Jesus diz isso com a sua palavra e, ainda mais, com o seu silêncio. Certamente, no seu coração desculpa estes homens, compreende-os na sua rudeza, na sua brutalidade, compreende que, no fundo, bem pouco do que fazem é culpa deles e se oferece por eles. Oferece-se por eles como salvação, como Palavra humilde do Pai.

É-nos muito difícil compreender como é possível que Jesus se revele numa tal fraqueza, pois que Jesus deixa que esta maldade recaia sobre ele e pense poder curá-la mais com a paciência do que com a censura e o castigo.

Peçamos ao Senhor que nos faça compreender realmente este mistério da fraqueza de Deus manifestada em Jesus, este mistério da fraqueza da Igreja inerme e perseguida da qual nasce um esplendor de Igreja incrível. E vemos isso em torno de nós, vemos que de populações como as da Polónia vêm lições certamente maravilhosas de vitalidade cristã, de fé, de empenho; é toda “uma Igreja que, certamente, usou também os meios corajosos da defesa, da palavra, da resistência, mas sempre meios inermes, meios fracos, nunca o uso das armas, nunca a contestação violenta, sempre a serenidade, a constância da fé, o não envergonhar-se da cruz de Cristo e da sua humilhação.

Somente uma consideração da história da salvação mais ampla nos permite compreender que da fraqueza nasce uma força imensa, que há um testemunho em que a humanidade inerme e indefesa grita, com a força da resistência, em favor da justiça.

Nós acolhemos tudo isso como Palavra de Deus que procura iluminar-nos sobre o facto de que o poder do Senhor não se mostra apenas no agir, mas também no sofrer, e no sofrer com aquela humildade, simplicidade, mansidão, na qual sobressai uma, profunda dignidade. Quando olhamos para esta cena, nos perguntamos: quem é o vencedor, quem representa a verdadeira dignidade do homem. Certamente é Jesus que representa o mais profundo ser do homem justo e verdadeiro, que compreende e supera, com a sua mansidão, os que se levantam contra ele: confunde-os, espanta-os com a sua maneira de agir tão pouco costumeira.

Jesus tentado

As “tentações” de Jesus na cruz: “O povo ficava por ali, olhando. Mas os dirigentes zombavam de Jesus, dizendo: Salvou aos outros; que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito! Os soldados também o insultavam. Aproximaram-se, oferecendo-lhe vinagre, enquanto diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo! E, em cima da sua cabeça, havia um letreiro em grego, latim e hebraico: Este é o rei dos judeus. Um dos malfeitores crucificados o insultava: Não és tu o Cristo? Salva-te, então, a ti mesmo e a nós também” (Lc 23,35-39).

Parece-me notar uma analogia com as primeiras tentações de Jesus no deserto. “Se tu és o Filho de Deus, faz com que estas pedras se transformem em pão; se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo”. Aqui se propõe a Jesus o uso do seu poder messiânico em favor dele mesmo; por trás desta proposta, existe toda a ideia que o Antigo Testamento tinha cultivado, do poder de Deus: “Se é o Cristo de Deus, salve a si mesmo; se é o rei dos judeus, desça”. Ou seja: se realmente representa a imagem de Deus que nós temos em mente, de um Deus poderoso, de um Deus dominador, que mostre isso.

Jesus se encontra num momento dramático. Se escutasse os seus interlocutores e descesse da cruz, todos acreditariam nele. Mas, se desce da cruz, como é que vai mostrar a imagem de um Deus que aceita a morte por amor ao homem? Sem dúvida, apresentará a imagem de um Deus poderoso, um Deus do sucesso, um Deus de que alguém pode servir-se para as suas ambições, mas não mostrará mais a imagem, inédita em toda a história das religiões – e que o homem sozinho nunca consegue imaginar – do Deus que serve, que dá a sua vida pelo homem, que o ama até despojar-se de tudo por seu amor, e a aceitar o aniquilamento de si.

É precisamente esta ideia de um Deus dominador, exigente, impaciente, que quer impor-se ao homem, que Jesus veio negar. O Evangelho traz a imagem de um Deus que é misericórdia, que se esvazia de si por amor do homem.

Um Deus assim parece-nos sempre um pouco incrível e surge um movimento de desconfiança, porque é difícil para o homem aceitá-lo: um pouco como para Pedro, que não queria aceitar que o Mestre morresse por ele, que lhe lavasse os pés. Todavia, é esta imagem revolucionária do amor de Deus, tão incrível, que Jesus leva até ao fim, no seu corpo, na sua carne, na cruz. E é aquela de que os outros tentam desviá-lo: salva-te e ti mesmo, serve-te do teu poder, mostra a tua capacidade de servir.

Nunca contemplaremos demais esta cena. Aqui estamos precisamente no coração do Evangelho e, graças a Deus, podemos contemplá-la sempre, porque esta é a Eucaristia, o Cristo feito pão, feito alimento: este é o meu corpo, este é o meu sangue dado por vós. Fazei isso na minha memória.

Naturalmente, segue-se disso toda uma concepção diferente da vida: também nós devemos ser pessoas que sabemos nos despojar, esquecendo-nos pelos outros. Resistiremos sempre, talvez, um pouco a este conceito de Deus precisamente porque, se o aceitarmos, teremos que mudar o nosso modo de ser e de viver.

Da contemplação do Crucificado nasce a imagem da Igreja como Igreja ao serviço não de si mesma, mas do homem, de todas as suas necessidades, em particular das mais profundas, que são a necessidade de verdade, de amor, de justiça, de fé, de esperança. Da contemplação do Crucificado nasce a revelação do homem que encontra a si mesmo colocando-se à disposição dos outros, no amor aos irmãos.

A palavra amor resume tudo isso, ainda que com frequência seja entendida de tantos modos fáceis; portanto, temos necessidade da contemplação do Cristo que nos mostra como Deus ama, até que ponto se põe a serviço dos outros, até que ponto renuncia aos seus privilégios de poder (“Embora tendo em si o poder de Deus, humilhou-se a si mesmo” Flp 2,6ss.).

Devemos fazer da nossa vida um acto real de serviço e colocar-nos em estado de disponibilidade. Disponibilidade que chega, na Igreja, até à perseguição e ao martírio: a Igreja faz resplandecer a sua disponibilidade quando, diante da contestação, propõe humildemente a palavra, e aceita, em certas circunstâncias, até ao silêncio, desde que continue o seu testemunho de verdade, realizando assim o seu supremo serviço.

Somente o Espírito Santo, entrando em nós como dom do Ressuscitado, nos permitirá, dia após dia, integrar verdadeiramente na nossa existência este Evangelho, este modo de ser de Deus, esta realidade de Deus em Jesus e esta realidade de Jesus em nós. Todavia, a contemplação do Senhor crucificado é extremamente iluminadora para nós e para tudo aquilo que a Igreja é para o mundo.

Jesus evangelizador

A última cena que vem imediatamente depois, é aquela em que Jesus se mostra o evangelizador pleno e obtém o primeiro fruto da sua vida e morte evangelizadora. “Um dos malfeitores crucificados o insultava: Não és tu o Cristo? Salva-te, então, a ti mesmo, e a nós também! Mas o outro o repreendia: Tu, que sofres a mesma pena, não temes a Deus? Para nós, o castigo é justo: pagamos os nossos crimes. Mas este não fez nenhum mal! E continuou: Jesus, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino! Jesus lhe respondeu: Eu te asseguro: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!” (Lc 23,39-43). Reflictamos por um momento sobre estas palavras, que somente Lucas apresenta, e que constituem uma análise muito fina daquilo que o homem convertido vive gradualmente em si.

Entretanto, pensemos quem podia ser este homem: um malfeitor, isto é, alguém que tinha vivido a lei da violência, a lei do mais forte, e, a certa altura, teve que sucumbir diante de alguém mais forte do que ele.

Agora encontra-se numa situação na qual podia experimentar sobretudo mal-estar, raiva, ira contra a sociedade; uma situação certamente de extrema confusão e embaraço. Em vez disso, contemplando Jesus que sofre com humildade e mansidão, abre-se gradualmente à clareza de que existe um mundo novo de valores e de relações e que não existe apenas a violência, não existe apenas a lei do mais forte. Descobre uma humanidade que ele nunca tinha conhecido, que nem suspeitava pudesse existir e que está ali, perto dele; descobre um novo tipo de homem que não age dentro de esquemas de força, que não se aproveita do próprio poder, seja o poder que a pessoa tem ou que lhe é atribuído, e que vive, com abandono, o seu sofrimento.

É realmente algo incrível, inaudito, que, o leva gradualmente a compreender um pouco a situação daquele nazareno que aceitou colocar-se do lado da injustiça: “Nós recebemos justamente o que nos é devido pelas nossas acções; ele, pelo contrario, não fez mal algum. Começa a ver claramente as relações das coisas, a julgar bem sobre as pessoas, e aquele fundo de honestidade que certamente existia nele, aos poucos aflora e se manifesta com liberdade; há diferença entre nós e ele, somos diferentes, ele representa um tipo diferente de humanidade.

Até este ponto emergiu somente a sua honestidade humana; mas, a certa altura, olhando como Jesus sofre e o seu modo de abandonar-se, no sofrimento, nas mãos do Pai, dá o passo decisivo da confiança e faz esta oração: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.”

Notemos que pela primeira vez no Evangelho, Jesus é chamado pelo nome e com tal familiaridade (os Apóstolos o chamam Senhor ou Mestre). Aqui, a comunhão no sofrimento, levou rapidamente àquela amizade que é capacidade de entender-se até ao fundo: sente em Jesus um amigo, sente-se compreendido perfeitamente e sabe que pode dirigir-se a ele da maneira mais imediata: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”. Dessa forma exprime a sua amizade, a sua fé, o seu abandono ao poder de Deus que opera em Jesus: é um homem que compreendeu perfeitamente o Evangelho, compreendeu que naquele crucificado se manifesta o poder de Deus, se revela um modo de viver diferente daquele que ele viveu, um modo de viver fraterno que ele mesmo, a partir deste momento, pode pôr em acção com um acto de amizade. Se a amizade existe, pode-se confiar um no outro e se este amigo é poderoso pode ajudar-me, posso confiar nele.

Eis um homem que reconstituiu o tecido das relações da sua vida em poucos instantes. Passou de uma existência na qual tudo era suspeito, violência, fazer o mal um ao outro, a uma situação na qual existe a amizade, fidelidade, confiança, abandono recíproco e clareza. Por trás destas coisas está Deus que, no caso de se manifestar, só poderá manifestar-se assim, neste novo tipo de humanidade amiga, confiante, digna no sofrimento, capaz de relações novas.

E então eis a resposta de Jesus: “Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. É a primeira, pessoa que Jesus acolhe na sua salvação, o primeiro evangelizado. Evangelizado sem a ressurreição, evangelizado pela glória de Deus que resplandece na maneira pela qual Jesus enfrenta o seu sofrimento e a sua morte. São coisas que com dificuldade se consegue compreender, que não é fácil exprimir por meio de palavras, porque compreendemos que – como para aquelas realidades encarnadas de vida nas quais se comunicam os significados mais profundos da existência – não é tanto a análise das palavras, mas antes a participação daquilo que Jesus vive, que nos permite penetrar na sua realidade.

Peçamos ao Senhor a fim de que possamos compreender estas lições de evangelização e de força que nos vêm da Paixão de Jesus. São realidades reveladas sobretudo pela oração, e das quais a Igreja nos alimenta continuamente porque são elas que a regeneram no seu verdadeiro ser de Igreja a serviço, de Igreja disponível, de Igreja capaz de criar uma nova forma de homem, um homem que represente, no meio da história de crueldade e injustiça, a glória e o poder de Deus.

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Questa voce è stata pubblicata il 05/11/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , .

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