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Martini – O Evangelizador em São Lucas (9)


Curso de Exercícios do cardeal Martini a um grupo de Sacerdotes da diocese de Milão.

Texto word Martini – O Evangelizador em S. Lucas (9)
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O EVANGELIZADOR EM SÃO LUCAS (9)
Carlo Maria Martini


Gesu-Cristo-Risorto

Nona Reflexão
AS PALAVRAS DO RESSUSCITADO

Nós te agradecemos, Senhor, porque depois de Ressuscitado te manifestaste a Pedro, aos apóstolos, aos discípulos e lhes renovaste a missão de evangelizar e apascentar. Nós te agradecemos porque enviaste sobre eles o teu Espírito que os encheu da certeza da tua Presença viva, colocou na sua boca as palavras justas e os guiaste nas alegrias e dificuldades. Nós te pedimos, Senhor, para que te manifestes no meio de nós, assim como te manifestaste aos apóstolos; nós te pedimos que te manifestes no meio de nós com o teu Espírito, assim como te manifestaste no Cenáculo aos apóstolos, reunidos com Maria.

Põe na nossa boca as tuas palavras, as tuas intenções, torna-nos de novo participantes da tua missão. Faz que partamos daqui com uma consciência nova do dom do testemunho que colocaste no nosso coração, pela tua misericórdia e para a ajuda de muitos.

Pedimos isto a ti, Senhor, que vives e reinas com o Pai e com o Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. Amém.

Hoje meditaremos juntos sobre as palavras que o Ressuscitado pronuncia diante dos Doze e que são referidas no fim do Evangelho de Lucas (cap. 24) e no início dos Actos. “Recebereis um poder quando o Espírito Santo descer sobre vós. Então, sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1,8).

Diante destas palavras, perguntamo-nos três coisas: primeiro, com que ânimo Pedro e os Apóstolos recebem as palavras de Jesus ressuscitado; segundo, quais são as palavras, qual é o conteúdo; terceiro, em que situação as recebemos nós e que dizem elas a nós, hoje.

Os apóstolos diante das palavras do Ressuscitado

A que ponto da sua formação de evangelizadores chegaram neste momento? Aqui seria necessário resumir todos os vários aspectos do caminho que vimos os Apóstolos percorrer no seguimento de Jesus e em particular de Pedro.

Eles são testemunhas, de certa forma, da primeira derrota apostólica de Jesus, que em Nazaré é rejeitado e sai exteriormente derrotado, mas livre no espírito, porque sabe que aquela é a obra do Pai e não obra sua.

Depois, vem o episódio da pesca milagrosa de Pedro, que reconhecendo, diante do poder que opera em Jesus, a sua pobreza e fragilidade, se coloca com entusiasmo no seguimento do Senhor. Em seguida, vêm os sucessivos entusiasmos, a associação à pregação do Mestre que atrai o povo, faz milagres, cura; a associação ao seu serviço, aos sofrimentos do povo, às diaconias ex-fide, nas quais os apóstolos são exercitados, às quais são convidados; a sua tomada de consciência de tantas misérias, de tantos sofrimentos, e também a tomada de consciência de Pedro das suas responsabilidades, da missão que pesa sobre ele, até ao momento em que esta missão lhe parece algo pessoal, quase um privilégio, coisa de que ele directamente é responsável.

Começa o caminho da segunda parte de Lucas, em que Jesus educa os Apóstolos ao desapego, ao abandono ao Pai, ao reconhecimento de que tudo o que possuem, compreendida a própria missão evangélica, é obra, do Pai neles. Por fim, a dura lição da Paixão e da morte: Pedro aprende que a salvação vem somente do Senhor e que ele mesmo é o primeiro destinatário desta obra de salvação. Como analogamente acontece com Maria, Pedro se sente expropriado daquela que lhe parecia ser a própria capacidade de fazer, para que ela lhe seja restituída, misericordiosamente, pelo Senhor, como obra de Deus nele: é o momento em que Pedro e os Apóstolos recebem o mandato para a humanidade.

Para resumir um dos aspectos importantes deste caminho formativo dos Apóstolos evangelizadores, devemos retornar ao texto do qual partimos, onde se fala da unidade do corpo e dos dons que Jesus dá à sua Igreja: “Um só corpo, um só espírito, como uma só é a esperança à qual fostes chamados, a da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só baptismo. Um só Deus Pai de todos, que está acima de todos, age por meio de todos e está presente em todos” (Ef 4,4-6). Portanto, esta é a obra que Deus realiza no mundo; esta é a obra de salvação, que não é nossa, que não é empreitada nossa; o próprio Deus a leva avante, misteriosamente, em tudo e em todos.

Depois, Paulo acrescenta: “A cada um de vós, todavia, foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo”. E continua: “Foi ele quem de uns fez apóstolos, de outros, profetas ou evangelistas, pastores ou doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, e para a construção do Corpo de Cristo”(Ef 41-1-12).

A obra é do Pai, a obra é de Jesus que a realizou na Cruz, a obra é o Amor infinito do Pai, que – através de Jesus – se derrama sobre cada um de nós; a nós é dada como graça, como dádiva, uma participação nesta obra, segundo a medida do dom de Cristo, e ela permanece em nós fresca, borbulhante, livre – não fonte de peso, de tristeza, de amargura, mas fonte de entusiasmo e de criatividade – enquanto a consideramos graça e dádiva que o Ressuscitado continuamente lhe concede.

Ser evangelista, pastor, presbítero é dom de Deus, e enquanto vivermos esta situação como dom, poderemos vivê-la com aquela liberdade, com aquela alegria, com aquele desapego sereno da eficácia imediata, que não nos deixa imobilizados – seria exactamente o contrário daquilo que o Senhor quer! – antes nos estimula, verdadeiramente a rever as posições, a repensá-las, a olhá-las de vez em quando com olhar novo, a perguntar-nos sobre o sentido daquilo que fazemos, sobre o porquê o fazemos e como se poderia fazer melhor.

O caminho a que chegaram os Apóstolos, no momento em que lhes foi confiado o mandato, é, portanto, a possibilidade de recebê-lo não como uma posse afanosa a defender ciosamente, a administrar de forma privada e pessoal, mas como o dom do Ressuscitado! É recebido precisamente quando não se esperava mais, quando temiam que o Senhor os tivesse abandonado pela sua infidelidade. Em vez disso, o Senhor, que é o bom evangelizador, proclamador da misericórdia de Deus, coloca nas suas mãos este tesouro do ministério porque tem confiança neles e o confia ao seu coração livre.

Este ponto de chegada da sua formação evangelizadora, permite-nos explicar como, a partir deste momento, começa o livro dos Actos dos Apóstolos que, em cada página, deixa transparecer a alegria do Evangelho, a liberdade, a inventiva, a serenidade. Apesar de, tudo. Basta recordar, como exemplo, o fim do capítulo 5, v. 41, onde se lê que os Apóstolos espancados, surrados e rejeitados “saíram felizes por terem sido ultrajados por amor do Nome”.

A alegria e a serenidade, apesar dos espancamentos, fazem-nos compreender com que liberdade viviam aquele dom como coisa de Deus e não sua, com a certeza de que o próprio Deus, de um modo ou de outro, estava operando pelas suas mãos.

Creio que como recordação destes dias poderíamos levar precisamente este desejo: que o Senhor nos conserve sempre no sinal da sua graça e nos faça compreender que o seu ministério, com todas as suas fadigas, com todos os seus momentos pesados, difíceis, duros, nos é dado como dom e não para esmagar-nos ou para colocar-nos na tristeza das preocupações, ainda que, concretamente, devamos enfrentar muitas preocupações e muitas tristezas porque participamos das preocupações, das tristezas, dos sofrimentos, da morte do povo. Estamos sempre em contacto com casos-limites da experiência humana, mas o Evangelho e a capacidade de evangelizar permanece em nós como dom, como graça gratuita. Paulo repete nas suas cartas: “a nós foi dado este dom, esta capacidade; por nós mesmos não somos capazes nem de fazer nem de dizer alguma coisa, e a nossa capacidade nos vem de Deus, o nosso poder fazer, falar, agir nos é dado pelo Senhor”.

Minhas testemunhas

Quais são as palavras que os Apóstolos recebem no mandato que nos é apresentado no início dos Actos? “Recebereis um poder quando o Espírito Santo descer sobre vós. Então, sereis as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra”.

Comecemos pela afirmação central: “sereis as minhas testemunhas.

Portanto, os Apóstolos são chamados a serem testemunhas: quem é testemunha? Aquele que viu alguma coisa e que dá fé que viu. Mas, na linguagem dos Actos, é algo mais, é aquele que se empenha pessoalmente por aquilo que viu e compreendeu – como num tribunal se depõe em favor de alguém.

Serão testemunhas de quê? Testemunhas “de mim”. O testemunho dos Apóstolos refere-se à pessoa de Jesus, ao seu poder, à sua vida, à sua capacidade de construir uma humanidade nova, de refazer a existência de um ladrão que, na cruz, está para cair no desespero, de reconstituir relações novas baseadas no serviço, na gratuidade, na amizade; é sempre de Jesus que são testemunhas, antes ainda de serem testemunhas de um projecto, de uma ideia, de algo a construir. Como são testemunhas? É o próprio v. 8 que o diz: “Recebereis um poder quando o Espírito Santo descer sobre vós”. Jesus sabe muito bem que o caminho da Igreja é longo e que há necessidade não só da memória do passado, mas também de uma experiência e de um dom no presente: e eis o dom do Espírito, sem o qual não é possível realizar uma obra evangelizadora. É a força do Espírito que desceu sobre nós pela imposição das mãos e que, continuamente, nos é devolvida, actualizada na oração e na celebração eucarística. Todas as vezes que o invocamos, o Espírito nos dá esta força, nos coloca na atitude evangelizadora certa, reutiliza o sacramento da Ordem que recebemos.

Aqui se desenvolve aquela que poderíamos chamar a ascética sacerdotal, aquela austeridade de vida que põe em primeiro lugar a oração, a actividade meditativa, oração comum, invocação de Deus para o nosso ministério, culto atento da eucaristia, com a preparação e o esforço para colocá-la no centro da jornada.

A força do Espírito é descrita, no Novo Testamento, como a força que dá alegria, paz, serenidade, amabilidade, confiança; quando sentimos que nos falta alguma destas coisas, isso significa que devemos reactualizar em nós esta força, sem a qual as simples palavras da memória de Cristo ou os simples subsídios das palavras que repetimos, nos parecem insuficientes.

O nosso tempo descobre, sempre mais, na Igreja, a presença do Espírito que se exprime na vitalidade da experiência cristã. Precisamente nestes dias, de Santos Exercícios, percebemos, instintivamente, uma força, uma serenidade interior, uma calma, uma paz, que são o dom do Espírito que se reactiva em nós. E sentimos isso todas as vezes que fazemos experiências deste tipo, ou também simples experiências de comunicação na fé ou de verdadeira fraternidade sacerdotal: são todos momentos em que damos espaço ao espírito e nos é renovada a força da imposição das mãos.

Jesus coloca juntas as duas coisas: “Recebereis um poder do Espírito” e “sereis as minhas testemunhas”. Não há uma sem a outra: e devemos, para nós e para os outros, multiplicar estas ocasiões em que é dado espaço ao Espírito de Deus, deixando-o agir de maneira fervente, dando liberdade ao seu poder.

Sereis as minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até as extremidades da terra.” Palavras que, evidentemente, têm um significado geográfico e assinalam de certa forma o curso da pregação nos Actos, mas têm também um significado filológico, ou seja, este dom não é apenas para vós, para um pequeno grupo, para alguns iniciados; é um dom para todos “até aos últimos confins da terra”. Tende confiança de que não há situação humana na qual não existe uma sede profunda de verdade, de justiça, de fraternidade e, por isso, no fundo, uma sede profunda de Deus, à qual não sejais enviados.

Isso nos faz pensar – quando olhamos em torno de nós e vemos tanta gente, sobretudo nos momentos em que a cidade anónima nos cerca (no metropolitano, nas estações) – no modo pelo qual Deus pode manifestar-se nesta cidade, a esta gente.

Enquanto sentimos o coração um pouco apertado de medo, o Senhor nos responde, como a Paulo em Corinto: “Não temas, nesta cidade há um povo grande para mim” (At 18). Deus tem os seus meios para ajudar aquelas pessoas; no momento, talvez nem todos estejam prontos para entrar, logo, numa clara delimitação jurídica da Igreja, mas devemos dizer com certeza que existe um povo, para o Senhor nesta cidade; há uma inquietação, uma espera e nós somos enviados a esta espera, nós ou outros – o Senhor opera de mil maneiras – e ele nos previne com a sua acção.

Se estivermos atentos, poderemos descobrir o seu desejo e ajudá-lo, talvez apenas um pouco, e se não pudermos fazer com que tantas pessoas realizem uma caminhada total e definitiva, poderemos ao menos dirigir uma palavra de esperança, um momento de luz e depois outros farão o resto. Jesus diz em Jo 4,38: “Outros trabalharam e vós entrastes no seu trabalho”; não nos foi prometida a possibilidade de uma construção sempre completa, desde o início até ao fim, e muitas vezes não poderemos prestar mais, do que uma ajuda, talvez importante e decisiva, mas não completa.

Continuadores da fé apostólica

Sereis minhas testemunhas… Até às extremidades da terra”. São três os momentos importantes que caracterizam o modo pelo qual levamos avante a missão evangelizadora confiada aos Doze. Fazemos isso na fé de Pedro e da Igreja, com o testemunho do Espírito, mediante a abertura das Escrituras.

Na fé de Pedro. Não estamos entre aqueles que viram e acolheram o Senhor Ressuscitado; estamos entre os que acreditaram e iniciaram aquela cadeia de crentes que chega até nós. A nossa vida cristã, a nossa pregação, o nosso sacerdócio fundam-se nos Apóstolos, na tradição viva, no Magistério que deriva dos Apóstolos até João Paulo II; funda-se na indefectibilidade da Igreja que Cristo prometeu. Nós agimos e vivemos sempre apoiados na Igreja, na sua tradição, na sua vida, na sua hierarquia; se nos afastarmos, por pouco que seja, deste corpo, não seremos mais nada e a história nos recorda isso. Pensemos em tantas pessoas ou grupos, que julgavam poder fazer alguma coisa em oposição à Igreja que tinham projectos extraordinários e depois se deram conta, à medida que se afastavam da Igreja visível, da tradição apostólica e dos Papas, que perdiam significado na sociedade, perdiam vigor e eficácia.

Com todas as críticas que podiam fazer à Igreja institucional, com todas as ideias que podiam propor – talvez boas e interessantes – na medida em que se afastavam desta matriz perdiam a eficácia apostólica, o vigor, o impacto. É a lei comum que nos mostra que nós agimos – mesmo que não nos demos conta disso – sempre estreitamento ligados à Igreja, no álveo do rio da tradição. Efectivamente, acontece que muitos problemas estão acima de nós e sozinhos não conseguimos compreender ou clarificar muitas coisas e devemos apoiar-nos na Igreja, naqueles que nos precederam e que nos seguiram, na fé dos santos, na santidade anónima das pessoas que, nos séculos, levaram avante esta fé. Há uma santidade anónima que se pode verificar em situações maravilhosas: as mães, os pais dos sacerdotes, os sacerdotes que nos educaram, aqueles párocos dos quais recebemos ensinamentos de vida. Tudo isto é a Igreja na qual nos apoiamos, em nome da qual pregamos, com a qual proclamamos a Ressurreição. Quando, na noite da Páscoa, anunciamos o Cristo Ressuscitado, não é a nossa pessoa, não é só a nossa voz que se eleva na Igreja, mas a voz de toda a Igreja que nós interpretamos.

Todos nós buscamos a Deus, sentimos profundamente o desejo dele – como Santo Agostinho o exprimiu. Gostaríamos de vê-lo, de saboreá-lo, mas compreendemos que não podemos ir a ele a não ser juntos, não podemos ir a ele a não ser apoiando-nos uns nos outros, na capacidade, na inteligência e dentro da visão dos outros. Ou seja, experimentamos a nossa condição de homens que, embora talvez pretendendo ou presumindo resolver por nós mesmos todos os problemas da existência, na realidade nos damos conta de que somos chamados a resolvê-los juntos.

A Igreja católica exprime também esta profunda verdade: ao encontro de Deus caminha-se juntos, não só no presente mas no passado e no futuro. No futuro a Igreja compreenderá o que hoje não compreendemos, verá melhor as indicações universais da salvação trazida por Cristo. Devemos alegrar-nos por esta futura capacidade da Igreja, ainda que agora talvez soframos em razão de coisas não esclarecidas, não definidas, e parece-nos que, com relação à experiência humana, nem tudo foi completamente assumido e valorizado. Estamos a caminho, e nos alegramos com as possibilidades que se abrem para a Igreja do futuro.

O Vaticano II disse claramente que a Igreja cresce até ao fim dos tempos, no conhecimento de Deus e na fé. Nós somos simplesmente um momento deste caminho de crescimento indefinido que o Senhor dá à sua Igreja; o nosso coração se abre à esperança, e nós não pretendemos ser a síntese de todas as coisas possíveis ou boas que se podem fazer. Há um caminho histórico cujas leis devemos respeitar, sabendo que constituímos parte simples e humílima deste caminho, somos gotas deste rio imenso que vai para Deus. Portanto, na força de Pedro, na tradição da Igreja, nós vivemos, pregamos, operamos, testemunhamos.

Com o testemunho do Espírito. Aqui impressiona-me sempre a frase dos Actos que explica e esclarece o que dissemos: “Recebe um poder do Espírito” (At 1,8). E, melhor ainda, Pedro, diante do Sinédrio, explica o que significa o facto de ser ele testemunha, como acontece o seu testemunho. “E destes factos somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem” (At 5,32). Portanto, não somos só nós testemunhas que, com base no testemunho apostólico, levamos avante a mensagem, mas podemos dizer: contemplai as obras do Espírito na Igreja.

Quais são estas obras? É toda a vitalidade eclesial de fé, de esperança, de caridade que o Espírito suscita e que toda a pessoa sem preconceito deve saber reconhecer. É verdade que uma pessoa com preconceitos sempre pode encontrar defeitos, pode sempre referir-se a um quadro global não plenamente satisfatório, mas, quando uma pessoa honesta se encontra verdadeiramente diante de actos de fé, de amor, de sacrifício, de dom da vida, de desinteresse levado avante com constância, com perseverança, então não pode deixar de dizer: aqui há alguma coisa que não consigo explicar, algo que o puro senso de utilidade, o puro senso do ordinário vaivém da vida não consegue fazer compreender.

A Igreja vive e está viva na medida em que suscita continuamente experiências de caridade, de serviço desinteressado, de coragem diante das provações, de luminosa aceitação dos sofrimentos e da morte, que são co-testemunho, ou seja, testemunham juntamente connosco e com a nossa palavra. De resto, quais são os factos que atraem os jovens? São atraídos precisamente quando vêm serenidade, alegria, desinteresse, espírito de sacrifício. Compreendem que existe alguma coisa, buscam as razões disso e as recebem através do querigma proclamado, sempre num contexto de testemunho do Espírito na vida concreta dos cristãos.

A abertura das Escrituras. Os dois discípulos de Emaús não dizem: “Explicava-nos as Escrituras”, mas “abria-nos as Escrituras”. São duas as palavras usadas. Em Lc 24,27 diz-se que, começando por Moisés e por todos os profetas, Jesus explicou-lhes as coisas que lhe diziam respeito, e no v. 32 diz-se: “Não é verdade que o nosso coração ardia, quando nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?” Quero sublinhar a particularidade do texto: “não é verdade que o nosso coração ardia”, mas o texto grego tem um particípio presente: “acaso o nosso coração não ia se aquecendo gradualmente enquanto ele nos falava assim e nos abria as Escrituras?”

O que é a acção de abrir as Escrituras? É colocar alguns acontecimentos de salvação – de que os discípulos participaram sem compreender o seu sentido – num contexto geral de história da salvação que faz aparecer claramente o seu sentido. Eis o valor desta abertura das Escrituras. A Escritura, apresentando-nos o desígnio de Deus sobre o homem e sobre a história, o progressivo desenvolver-se, no homem, desta clareza de Deus, da vida da justiça, da verdade, da fraternidade; apresentando-nos Jesus no cume deste caminho e a sua Ressurreição como a chave da história que explica todo o desejo do homem, o seu movimento ascensional para a vida, a justiça, a verdade que não tenha limites, permite enquadrar a totalidade daquilo que o homem pensa e deseja, no plano do Espírito e da Verdade, e dar a esta um significado.

Por isso, na Escritura encontramos o modo de puxar os cordéis das diversíssimas experiências humanas, no campo do desejo do bem e da verdade, para reunificá-los num quadro coerente em que o anúncio da Ressurreição apareça como o selo de Deus num desígnio de salvação e não como um evento estranho e inesperado. Sinto-me interpretado e compreendido pela Escritura, a Escritura me diz aquilo que eu desejava e aquilo que eu temia, me dá as chaves desta espera e desta expectativa. É o espelho do homem que busca a Deus, que procura a verdade e o significado da vida, que procura fugir do desespero e do medo que se apoderam dele quando se encontra sem ideais e, por isso, se lança em experiências ensurdecedoras ou excitantes que momentaneamente podem ajudar, mas que logo depois o fazem recair no vazio. A Escritura revela o homem a si mesmo, os seus desejos, o seu destino, e lhe faz compreender como a pregação do Ressuscitado é verdadeiramente o selo de Deus sobre tudo aquilo que se foi realizando na história de salvação do mundo.

Estes são os tesouros que nos são dados: a Igreja, o seu testemunho, a sua pregação, o seu magistério, o Espírito que, em nós e nos outros, actualiza a alegria desta vida, e a Escritura – prolongada no comentário dos Padres, da teologia, do magistério que a explica e a amplia.

E é um dom, não é um peso; é preciso ter presente isso, não é um castelo enorme e difícil de ser mantido junto por causa de tantas coisas, de tantas realidades complexas; é um dom, o dom de Deus, é o próprio Jesus como dom simplicíssimo e, por isso, imediatamente perceptível ao homem de boa vontade; mas é um dom que deve ser explicado, precisado, prolongado num caminho de fé, que deve ser expresso num programa pastoral que abrace momentos, situações, actividades, desejos, episódios. É preciso partir sempre desta unidade fundamental que é o dom da graça, da salvação. É um dom que enche o coração de alegria, projectando sobre todo o resto aquela luz fundamental que é o dom evangélico de Deus.

Juntos, peçamos ao Senhor a graça de unificar assim a nossa vida e de ter um espírito indiviso nos vários momentos do nosso dia, nos diversos tipos de serviço que o ministério comporta.

Conceda-nos o Espírito Santo aquela unidade de vida que tudo simplifica e – como lemos nos escritos dos santos – torna tudo fácil e tudo esclarece; por isso, a ele voltamos todas as vezes que o nosso ministério nos faz sentir o seu peso, para que nesta simplicidade originária encontremos a solução que buscamos e o dom a que tanto aspiramos.

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Questa voce è stata pubblicata il 19/11/2018 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , .

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