COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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Natal do Senhor

NATAL DO SENHOR

MISSA DA NOITE DE NATAL
Lucas 2, 1-14

O mistério do andar e do ver
Papa Francisco

1. «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1).

Esta profecia de Isaías não cessa de nos comover, especialmente quando a ouvimos na liturgia da Noite de Natal. E não se trata apenas dum facto emotivo, sentimental; comove-nos, porque exprime a realidade profunda daquilo que somos: somos povo em caminho, e ao nosso redor – mas também dentro de nós – há trevas e luz. E nesta noite, enquanto o espírito das trevas envolve o mundo, renova-se o acontecimento que sempre nos maravilha e surpreende: o povo em caminho vê uma grande luz. Uma luz que nos faz reflectir sobre este mistério: o mistério do andar e do ver.

Andar. Este verbo faz-nos pensar no curso da história, naquele longo caminho que é a história da salvação, com início em Abraão, nosso pai na fé, que um dia o Senhor chamou convidando-o a partir, a sair do seu país para a terra que Ele lhe havia de indicar. Desde então, a nossa identidade de crentes é a de pessoas peregrinas para a terra prometida. Esta história é sempre acompanhada pelo Senhor! Ele é sempre fiel ao seu pacto e às suas promessas. Porque fiel, «Deus é luz, e n’Ele não há nenhuma espécie de trevas» (1 Jo 1, 5). Diversamente, do lado do povo, alternam-se momentos de luz e de escuridão, fidelidade e infidelidade, obediência e rebelião; momentos de povo peregrino e momentos de povo errante.

E, na nossa historia pessoal, também se alternam momentos luminosos e escuros, luzes e sombras. Se amamos a Deus e aos irmãos, andamos na luz; mas, se o nosso coração se fecha, se prevalece em nós o orgulho, a mentira, a busca do próprio interesse, então calam as trevas dentro de nós e ao nosso redor. «Aquele que tem ódio ao seu irmão – escreve o apóstolo João – está nas trevas e nas trevas caminha, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos» (1 Jo 2, 11). Povo em caminho, mas povo peregrino que não quer ser povo errante.

2. Nesta noite, como um facho de luz claríssima, ressoa o anúncio do Apóstolo: «Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens» (Tt 2, 11).

A graça que se manifestou no mundo é Jesus, nascido da Virgem Maria, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Entrou na nossa história, partilhou o nosso caminho. Veio para nos libertar das trevas e nos dar a luz. N’Ele manifestou-se a graça, a misericórdia, a ternura do Pai: Jesus é o Amor feito carne. Não se trata apenas dum mestre de sabedoria, nem dum ideal para o qual tendemos e do qual sabemos estar inexoravelmente distantes, mas é o sentido da vida e da história que pôs a sua tenda no meio de nós.

3. Os pastores foram os primeiros a ver esta «tenda», a receber o anúncio do nascimento de Jesus. Foram os primeiros, porque estavam entre os últimos, os marginalizados. E foram os primeiros porque velavam durante a noite, guardando o seu rebanho. É lei do peregrino velar, e eles velavam. Com eles, detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil.

Nesta Noite, partilhamos a alegria do Evangelho: Deus ama-nos; e ama-nos tanto que nos deu o seu Filho como nosso irmão, como luz nas nossas trevas. O Senhor repete-nos: «Não temais» (Lc 2, 10). Assim disseram os anjos aos pastores: «Não temais». E repito também eu a todos vós: Não temais! O nosso Pai é paciente, ama-nos, dá-nos Jesus para nos guiar no caminho para a terra prometida. Ele é a luz que ilumina as trevas. Ele é a misericórdia: o nosso Pai perdoa-nos sempre. Ele é a nossa paz. Amen.

Basílica Vaticana, Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Viver na manjedoura
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,

Por várias vezes nas leituras que hoje proclamamos, no profeta Isaías, no Evangelho de S. Lucas, se fala da luz, do aparecimento de uma luz. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, os pastores que apascentavam na noite, no desamparo dos campos foram de repente cercados pela luz. A própria liturgia multiplica as luzes. Hoje é de facto a noite luminosa, a noite que se faz clarão, a noite que se faz caminho que brilha, a noite brilhante. O brilho desta noite, a luz desta noite para que é que serve? Serve para nos vermos melhor, serve para olharmos para a nossa vida, para a nossa humanidade, para a nossa carne à luz do Menino do Presépio.

Esta luz traz um novo entendimento, uma nova compreensão do que é a vida. E é interessante porque há duas palavras que aparecem no texto de Isaías que nos servem como programa de celebração do Natal. O profeta diz: “Senhor, Tu multiplicaste a sua alegria.” Hoje, irmãos, nós não fazemos apenas contas de somar, sentimos que a vida se multiplica. Sentimos que Deus passa pela nossa vida e deixamos de ser o que eramos apenas, de contar com aquilo que trazíamos. Hoje nós valemos mais, hoje a nossa humanidade vale mais. A humanidade de cada um, a humanidade pura, a humanidade nua. A humanidade vale mais porque ela está investida desta multiplicação de vida que o próprio Deus nos trás. Por isso, é também uma luz nova sobre o valor da nossa humanidade.

Mas, ao mesmo tempo, esta nova compreensão faz-nos deixar para trás a lógica da guerra, a lógica da beligerância. Porque se diz: todo o calçado da guerra, todo o vestido, todas as gramáticas, todo o vocabulário que serviu para falar de violência, de hostilidade, de guerra tudo isso é para ser queimado, tudo isso é para ser deixado para trás. E, nesta noite, nós renascemos. Nós renascemos com olhos novos, mas também precisamos de palavras novas, de gramáticas novas, de modos diferentes, de modos inéditos de dizer a vida, de a cantar, de a perceber profundamente. Porque há um antes e um depois de Jesus Cristo, que não tem apenas a ver com a data, 2017 anos depois do acontecimento de Belém. Há um antes e depois que tem a ver com a compreensão, com o olhar que nós dedicamos à própria vida. Os pastores estavam como nós, no meio da noite, e foram cercados de luz. E o Anjo disse-lhes: “Não temais, anuncio-vos uma grande alegria que o será para todo o Povo.”

Queridos irmãs e irmãos, nós não estamos a celebrar o Natal do Senhor apenas como um facto que interessa aos cristãos. Não é apenas uma coisa nossa, uma coisa para nós. Esta boa notícia é uma notícia universal, é uma notícia para chegar a todos. É-nos confiada uma notícia que deve ir muito para lá destas paredes, que deve ir muito para lá do círculo da nossa família, dos nossos amigos. Nós somos investidos de uma missão que é fazer chegar a todos a boa nova de que hoje nasceu um Salvador. É uma palavra com uma força e uma precisão impressionantes, que quase nos fazem estremecer: “Hoje nasceu-vos um Salvador.” Poder dizer isto, poder primeiro aceitar esta verdade no fundo do meu coração: hoje nasceu para mim um Salvador. E poder contagiar, poder contaminar, poder alargar o horizonte da história com esta verdade que é a verdade transformadora, a verdade que salva. Porque aquele Menino, aquele Filho que nos foi dado transporta para nós a salvação.

É belo pensarmos como é que esta salvação se manifesta. Eu penso que de duas maneiras, que têm a ver com as leituras que hoje nós lemos e com a liturgia. Hoje, quando rezarmos o Credo, nós vamos ajoelhar-nos, ou genufletir um joelho, quando rezarmos: e Se fez carne, “Encarnou no seio da Virgem Maria e Se fez homem”. E se fez um de nós. Então, nós não estamos sós. E a nossa humanidade é o lugar da habitação de Deus – a nossa vida frágil, a nossa vida pequenina, a nossa vida impreparada, a nossa vida incompleta. A nossa vida que porventura até não nos satisfaz, a nossa vida esgotada, a nossa vida cansada, a nossa vida inconclusa, a nossa vida é o lugar de Deus, é a tenda de Deus, é a morada de Deus e de toda a Humanidade. Por isso, nós cristãos somos servos da humanidade, temos de cantar a beleza da humanidade, a inteireza da humanidade. De todo o Homem. E sobretudo das humanidades feridas. Da humanidade dos últimos, da humanidade daqueles que ficam para trás, daqueles que não têm voz nem vez, da humanidade sofrida, da humanidade subtraída, dos excluídos, dos descartados. Nós só temos a humanidade para poder tatear o rosto de Deus, é na humanidade que nós encontramos o divino. Por isso, a humanidade é o bem mais precioso, a humanidade para nós é o lugar de Deus, o rosto de Deus. Esse espaço onde Ele resplende.

Por isso, temos de nos comprometer na afirmação da humanidade, no serviço à humanidade, no cuidado, na atenção, no abraço à humanidade dos outros. Construindo, como diz o Papa Francisco, uma cultura do encontro, uma cultura da valorização do humano e não uma cultura do descarte.

Queridos irmãs e irmãos, na noite de Natal nós juntamo-nos, fazemos o esforço para que as famílias se reúnam, sejam alargadas. Isso é muito belo, porque é a humanidade mais próxima de nós. A humanidade dos nossos irmãos, da nossa família e estamos juntos. Mas, não nos esqueçamos que nós somos servos e somos irmãos de toda a humanidade. E que esta boa nova, não é apenas uma boa nova para os nossos, é uma boa nova para todos. Por isso, somos servos de uma humanidade que transcende os nossos limites, transcende o nosso apelido, transcende a nossa casa, transcende a nossa mesa. E é essa vigilância que a partir desta noite nós somos chamados a ter.

“Isto vos servirá de sinal, encontrareis uma criança deitada numa manjedoura.” É um sinal estranho este que nossa Senhora nos dá quando ela dá à luz o seu filho e o coloca numa manjedoura. É um sinal estranho porque a manjedoura é um sítio impuro, não é um sítio onde se coloque um bebé. A manjedoura é o lugar onde comem os animais, é o gamelão, é um sítio confuso, é um sítio difícil. Mas, Ele é colocado precisamente na manjedoura porque Ele vem para todos, Ele vem abraçar todos. Por isso, nós abeiramo-nos desta noite, nós abeiramo-nos do Presépio e sentimos que todos cabemos no abraço de Jesus. Nenhuma vida é excluída, o Senhor não desperdiça nada, não diz: Tu não pertences. Todos Lhe pertencemos, todos estamos no Seu projeto, todos estamos no Seu coração.

Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai ser pão para a fome do mundo. Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai ser pão partido para uma vida nova, para a construção de um mundo novo. Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai aceitar a condição de ser dom, de ser oferta, de ser alimento para os outros, de alimentar todas as fomes. A fome de sentido, a fome de razão de viver, a fome de verdade, a fome de consolação. Ele é colocado na manjedoura por mim, por cada um de nós que nos abeiramos desta noite famintos. Mesmo se vindo de uma ceia de Natal abundante – estes são dias também de abundância – o nosso coração é faminto. Tantas vezes nós estamos a ganir de fome, a gemer de fome, de uma fome que o pão não consola, de uma fome de significado, de uma fome de presença, de uma fome de infinito, de uma fome que não é a matéria que cura mas é essa força espiritual capaz de responder às inquietações profundas do nosso coração, da nossa alma. Hoje é o dia em que Ele Se faz alimento para nós e nos ensina que a vida só faz sentido quando nós aceitamos viver na manjedoura. Isto é, quando nós aceitamos que a nossa vida é também para ser distribuída, para ser gasta, para ser dada, para ser repartida, para ser oferecida como alimento para muitos, como boa nova para todos.

Por isso, queridos irmãos, esta é a noite que vence o nosso egoísmo, esta é a noite que vence o nosso temor, esta é a noite que vence a nossa ambiguidade, a nossa incerteza, a nossa indefinição. Esta é a noite que nos coloca na manjedoura e diz: Tu és pão, tu és pão. Jesus nasce em Belém, Belém quer dizer: casa do pão. Ele nasceu em Belém para ser alimento da fome do coração humano. Nós nascemos nesta Belém, que é hoje esta noite, nós fomos colocados na manjedoura para sermos pão, para sermos alimento, para fazermos da nossa vida dom à maneira Dele, seguindo os passos Dele.

José Tolentino Mendonça, Missa do Galo
http://www.capeladorato.org

MISSA DO DIA DE NATAL
João 1,1-18

Tocar o mistério de Deus
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,

As leituras deste dia de Natal reforçam muito a dimensão da visualidade. Nós vemos o próprio Deus, o Deus invisível pode-se tocar, o Deus invisível pode-se ver, o Deus transcendente torna-se próximo, vizinho da nossa vida. Por isso, o motivo da alegria é esse: Nós vimos! “Todos juntos soltam brados de alegria porque veem com os próprios olhos o Senhor que vem a Sião.” E depois, no prólogo do Evangelho de S. João de novo: “Nós vimos a Sua glória.”

Queridos irmãs e irmãos, o Natal fica incompleto se cada um de nós não vir, se cada um de nós não puder ver, não puder tocar o mistério de Deus. O Natal é a anti-abstração, o Natal é a anti-generalização, o Natal é a singularidade. Cada um de nós com as perguntas que traz, com as questões que transporta, com a situação de vida que vive é chamado a ver Deus. A ver naquele Deus connosco, naquele Menino de carne e osso, naquela criança, naquele Filho que nos foi dado. Cada um de nós é chamado a ver a realização da Promessa e é chamado a compreender um Deus que vem ao seu encontro.

Jesus não vem ao encontro da Humanidade, vem ao encontro de mim, de ti, de cada um de nós. É um convite a esse sentimento profundo de que a nossa vida agora é uma vida acompanhada. A nossa vida agora é uma vida que já não é mais na solidão ou na noite. Como dizia o profeta Isaías: “Ao povo que andava nas trevas surgiu uma grande luz.” É isso, queridos irmãs e irmãos, que hoje nós celebramos. Este Deus que vem para que eu O possa ver, para que com os meus olhos, com a minha carne, com a minha inteligência eu O possa entender, eu O possa acolher no meu coração e sentir que Ele vem para trazer-me o mais precioso dos dons. Esse é que é o grande presente. E é esse presente que S. João enuncia desta forma: “A todos os que acreditam Nele Ele deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” E é isto, queridos irmãs e irmãos, o mistério do Natal. É esta capacidade que Deus dá a mulheres e homens frágeis, imperfeitos, inacabados, inseguros e incertos como nós, a capacidade que Deus em Jesus nos dá de nos tornarmos filhos de Deus. Isto é, de vivermos uma vida divina, de vivermos uma vida que não é só a expressão da nossa carne e do nosso sangue, não é só o nosso bom ou mau feitio, não é só isto que somos e trazemos e repetimos. Não é só isso agora, nós não somos só nós, nós temos o poder de nos tornar filhos de Deus. A cada um de nós é concedido esse poder. Quer dizer, cada vida, cada uma das nossas vidas é ainda mais sagrada. A cada uma das nossas vidas é dado horizonte, é dado infinito, é dada uma capacidade de ser maior do que aquela que só por nós próprios poderíamos contar.

Temos o poder de nos tornarmos filhos de Deus. Isto é, nas pequenas coisas da nossa vida, na multiplicidade dos encontros, nesta teia que nos tece nós temos a possibilidade de ser divinos, de transportar Deus no nosso seio, de dar à luz Jesus como Maria deu à luz, ela que se torna símbolo da própria Igreja. Nós somos chamados a trazer à luz Jesus Cristo, a torna-Lo presente, a contar com essa vida infinita, com essa capacidade infinita de amar. É possível, é possível, é possível. E no fundo, o Natal o que diz a cada um de nós é:

“- É possível, é possível.

– Mas eu já sou tão velho.

– É possível.

– Eu sou casmurro como o boi ou como o jumento do presépio.

– Mas é possível, o boi e o jumento lá estão, é possível.”

É esta possibilidade de uma vida transformada, de uma vida de Deus refletida, espelhada na nossa humanidade que o Natal vem tornar presente a todos os que acreditam, a todos os que têm no seu coração um fio de fé, a todos aqueles que perguntam “Porque não?”, a todos os que olham com espanto e silêncio para o Menino do presépio.

Deus vem dar-nos a possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus e essa é a alegria. É a alegria que hoje nos invade, é a alegria que levamos uns aos outros, é a alegria que é servida às nossas mesas, é a alegria que é servida no nosso abraço, nos nossos votos, nas nossas saudações, nas mensagens trocadas, nos presentes que trocamos. É essa alegria! A alegria de acreditar que é possível, a alegria de vencer o fatalismo da nossa humanidade, da nossa idade, do nosso temperamento, da nossa biografia, da nossa história. É possível, é possível. É essa Boa Nova que torna belos os pés daqueles que a anunciam.

Queridos irmãs e irmãos, um grande dia de Natal, um dia santo de Natal, um dia que torna cada um de nós mais santos. Que nos sintamos instrumentos, canais da santidade de Deus que quer chegar à nossa vida.

“A todos aqueles que acreditam Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus.” Queridos irmãs e irmãos, nós somo-lo de facto, cada um de nós é essa possibilidade, é essa hipótese que o menino do presépio vem inaugurar para cada um de nós.

José Tolentino Mendonça, Natal do Senhor
http://www.capelado rato.org

«E o Verbo fez-Se carne a habitou entre nós»
D. Manuel Clemente

«E o Verbo fez-Se carne a habitou entre nós». O que aqui é dito é importantíssimo. Nesta frase está o cerne da fé cristã e aquilo que a distingue de muitas outras propostas que podem parecer espiritualistas, mas que não são ainda cristãs. Eu gostava muito de salientar este aspeto, por ser Natal e por ser particularmente relevante hoje: «E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós»… «Et incarnatus est»; «encarnou», como se diz no «Credo». Sempre que os grandes compositores trataram o «Credo» (o enunciado das verdades da fé cristã), quando chega ao «et incarnatum est», «encarnou», parece que tudo se suspende e temos aí uma parte especialmente expressiva dessa mesma composição. E porquê? Porque esta encarnação do Verbo é a marca de distinção da nossa fé cristã: «E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós».

«Carne» é uma maneira muito hebraica de dizer; a língua hebraica, a língua das escrituras, é muito realista, mesmo quando está por detrás do grego do Novo Testamento. Aqui, fala em “carne”, não em “pessoa humana”, pois que este é já um conceito muito trabalho, mais de origem grega, ao contrário de “carne”. “Carne” é aquilo que nós somos, enquanto nos vemos, enquanto nos tocamos… os nossos ossos, a nossa pele, o nosso sangue. Esta referência à carne remete para o realismo de uma presença naquilo que nos constitui e nos faz viver e, até, sofrer quando estamos doentes. «Sentir isto ou aquilo na carne» – costuma-se dizer quando se viver intensamente alguma coisa.

«O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós». Podemos traduzir «Verbo», a palavra latina que traduz a palavra grega “logos”, com os teólogos e, antes dos teólogos ainda, com os filósofos, que como «razão», que como «palavra». Mas tem dado muita matéria de reflexões aos teólogos e, enfim, a todos os pensadores cristãos nestes 2000 anos de História, porque refere-se à comunicação do próprio Deus: Deus comunica-Se, Deus, que nós nunca vimos, como diz São João, no início do seu Evangelho: «A Deus nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio de Pai, é que O deu a conhecer» (Jo 1, 18). Portanto, Deus comunica-Se, não comunica outra coisa além de Si, mas a Si próprio em Jesus Cristo: Ele é o Verbo de Deus, Ele é a comunicação de Deus. Especialmente neste evangelho de João, mas em muitos outros trechos do Novo Testamento, sejam de Jesus ou relativos a Jesus, nós encontramos esta mesma verdade, ou seja, que em Jesus de Nazaré não há uma comunicação qualquer, mesmo religiosamente falando. Não se trata de mais uma página da história religiosa da humanidade, mas sim da própria comunicação de Deus e do próprio Deus comunicado.

Por conseguinte, não é uma comunicação qualquer: em Jesus, é o próprio Deus que Se comunica. E, por isso, Ele até pôde dizer: «Quem me vê, vê o Pai» – (Jo 14, 9). O Pai… Deus como fonte, como origem sua e de todos! E Deus comunica-Se em Jesus: Ele é o Verbo de Deus! Mas trata-se de uma comunicação encarnada, assim tal e qual como ela foi vista no presépio de Belém, como ela vai ser vista depois pelos pastores e pelos magos, como ela vai ser vista em Belém, como ela vai ser vista em Nazaré da Galileia, como ela vai ser vista lá na oficina de José, onde Jesus aprendeu a profissão de carpinteiro, como ela vai ser vista depois na sinagoga de Nazaré, quando Jesus diz: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa Nova» – quer dizer, o Evangelho «aos pobres…» (Lc 14, 18); como foi vista depois, durante o tempo da sua vida pública, nas margens do lago da Galileia; como foi vista em Jerusalém e naqueles últimos dias, na entrada triunfal em Jerusalém, e na agonia dramática no Horto das Oliveiras, no Pretório de Pilatos, a caminho do Calvário e na crucificação… Jesus é o Verbo encarnado: o Verbo encarnou.

O que Deus tem para nos dizer, porque Deus é o nosso princípio e também o nosso fim, finalidade de todas as nossas vidas, este Deus vem até nós em Jesus Cristo e n’Ele manifesta todo o seu sentimento, que nós podemos apreender. O sentimento que tem para connosco manifesta-se neste “vir-até-nós”, mesmo quando nós hesitamos em recebê-l’O, mesmo quando retardamos acolhê-l’O: não fazemos como Maria, não fazemos como Jesus, não fazemos como os pastores, não fazemos como os Magos… Pelo contrário, não Lhe arranjamos presépio para nascer e não Lhe damos aquela companhia que Ele espera. E Ele insiste, este Deus insiste em vir até nós e em Jesus Cristo me todas as etapas da vida de Cristo, uma vida breve de pouco mais de 30 anos, mas maior do que toda a cronologia do mundo, porque Deus está nessa vida e comunica-Se. «Fez-Se carne», diz o Evangelho: faz-Se carne, faz-Se audível, faz-Se tangível e, na sua humanidade, chama por nós, apela ao nosso reconhecimento e à nossa presença também.

Neste Deus que vem até nós, há um mistério de companhia, de proximidade, de encarnação, de realismo. Não se trata de uma abstração! Perante este Deus que Se faz Deus, não é possível achar que cada um de nós pode pensar por si o que seja Deus: «Ah, eu cá acho…». Por mais que um de nós pense por si, nunca pensará senão por referência a si próprio; ou, então, achar-se-á na liberdade de dizer «eu cá aceito esta mensagem, mas não aceito aquela, porque está mais de acordo com o que me apetece ou com aquilo a que eu sou sensível e, porque, de contrário, já me exigiria outras coisas e eu agora não estou disponível para isso»…

O que nós temos no Natal é outra coisa: é o Verbo, a comunicação que o próprio Deus faz de Si! «Fez-Se carne», assumiu a nossa humanidade, assim tangível, audível, verificável e é aí que Ele nos salva, vindo a nós exatamente como presença, como companhia, como proximidade, não nos deixando sós! Por isso, um dos nomes que Lhe é dado é “Emanuel”, que quer dizer “Deus-connosco”. Ele é Jesus, que quer dizer “Deus salva”, e é “Emanuel”, que quer dizer Deus-connosco!

Hoje, podemos senti-l’O próximo também no seu corpo continuado que é a Igreja dos cristãos. Passa de uns para os outros e, nesta companhia, digamos nesta “carne” acrescentada, nesta corporeidade acrescentada que Jesus ganha na sua Igreja, Ele vai continuando a estar presente no mundo como proposta concreta, realista, porque quando nós pensássemos «ai, não, eu comunico diretamente com Deus, eu cá tenho a minha religião…», pensaríamos mal, porque não comunicaríamos senão connosco mesmos e com os nossos fantasmas, imaginações, alienações e por aí fora… Não! Deus visita-nos concretamente, encarna na figura de Jesus Cristo!

E nesta mesma figura, que nós hoje sabemos ressuscitada e presente em todo o mundo, chega a todos através do corpo que ganha nos seus discípulos e discípulas. Portanto, eu também não posso dizer: «Porque é que eu hei de juntar-me aos outros cristãos? Porque é que eu me vou reunir com eles? Porque é que eu hei ganhar o ritmo que este corpo (a Igreja) tem – como o próprio corpo humano tem, nas suas pulsações, na sua inspiração e na sua expiração?». Não! Eu tenho de encarnar também, tenho de me incorporar também, tenho de me ligar também à presença viva de Cristo ressuscitado, continuando assim o presépio de Belém, agora, em toda a parte, no seu corpo que é a Igreja, para que O alcance a Ele e para que esse Verbo continue a ressoar, para que eu continue a ouvir concretamente (não é abstratamente) e aí a ser salvo na sua companhia! O conforto e a esperança que Deus nos dá em Jesus Cristo estão precisamente nessa companhia! A sua encarnação, como eu fazia notar há pouco, consiste em passar pela nossa vida tal como ela acontece: encarnar é passar pelas diferentes fases da vida, pelo nascer, o crescer e o morrer, sem se poupar em nenhuma delas. Jesus não veio ao mundo para nos levar para um paraíso abstrato, onde estivéssemos sempre ao pôr do Sol ou, para quem goste mais de se levantar cedo, à alvorada… Não! Ele é a companhia para todas as horas e em todas as circunstâncias! Ele «fez-Se carne e carne somos nós tal como somos, não como imaginaríamos ser; e Ele é Deus, tal como se apresenta, e não como nós O imaginaríamos também.

A mensagem de Natal, depois ampliada por esse Natal perene que é a Páscoa de Jesus, nunca mais acaba.

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Questa voce è stata pubblicata il 22/12/2018 da in O Pão do Domingo, PORTUGUÊS con tag , , , .

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Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
combonianum@gmail.com

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