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Martini – O itinerário dos Doze no Evangelho de Marcos (1)

ITINERÁRIO ESPIRITUAL DOS DOZE (1)
Carlo Maria Martini

Testo word Martini – Marcos, O Itinerário Espiritual dos Doze (1)
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Martini - O itinerário dos Doze no Evangelho de Marcos

INTRODUÇÃO GERAL

Gostaria de dar apenas duas indicações que podem servir para entrar no trabalho dos Exercícios que gradualmente iniciaremos amanhã.

A primeira indicação sobre o tema e a segunda indicação sobre os actores dos Exercícios.

Escolhi como tema o Evangelho de São Marcos e por isso nos ocuparemos com a leitura deste Evangelho. Não faremos uma leitura continuada (ou seja, não tomaremos o Evangelho capítulo por capítulo), e nem uma leitura directamente temática (isto é, não nos deteremos em alguns temas do Evangelho de Marcos, por exemplo, sobre o Reino de Deus, as parábolas, os milagres etc.). Antes, faremos uma leitura catequética porque ela nos ajudará a percorrer uma via, um caminho espiritual mais em harmonia com um curso de Exercícios Espirituais.

Que entendemos nós por leitura catequética?

Devemos partir do facto provável que São Marcos apresenta uma catequese, um manual para o catecúmeno. Em outras palavras, o Evangelho de Marcos é um Evangelho feito para aqueles membros das primitivas comunidades que começam o itinerário catecumenal. Para Marcos pode-se falar, sem mais, de Evangelho do catecúmeno. Mateus é, ao contrário, o Evangelho do catequista; ou seja, o Evangelho que dá ao catequista um conjunto de prescrições, doutrinas, exortações. Lucas é o Evangelho do doutor; isto é, o Evangelho dado àquele que quer um aprofundamento histórico-salvífico do mistério, numa visão mais ampla. João, por fim, é o Evangelho do presbítero, aquele que ao cristão maduro e contemplativo dá uma visão unitária dos vários mistérios da salvação.

Marcos é o primeiro destes quatro manuais: o manual do catecúmeno; é por isso que está centralizado num itinerário catecumenal. Ele pode ser condensado em torno da palavra de Jesus aos seus: “A vós é dado o mistério do Reino; aos outros, tudo é comunicado por meio de parábolas” (Mc 4,11).

O Evangelho de Marcos, com efeito, mostra-nos como pelas parábolas, isto é, pela visão exterior do mistério do Reino, podemos penetrar no interior e receber este mistério. Portanto em Marcos há um caminho catecumenal que, contudo, ainda não é o objecto específico destas as nossas considerações.

Neste itinerário catecumenal que se desenvolve ao longo de todo o Evangelho de Marcos, desempenham papel importante os doze apóstolos.

Proponho, pois, como objecto específico, segundo o qual consideraremos o Evangelho de Marcos, o itinerário espiritual dos Doze. Neste itinerário cada um de nós poderá rever, reflectir, repensar o próprio caminho interior.

A segunda indicação diz respeito aos actores deste retiro: quem age nestes dias. Os actores são três.

O Espírito Santo é quem conduz o retiro. Com relação a ele, a pergunta a fazer é a seguinte: Quid vult? Que quer de mim o Espírito neste retiro? Para onde quer conduzir-me?

O segundo actor, guiado pelo Espírito, sois cada um de vós. A pergunta que deveis fazer-vos é esta: Quid volo? Que desejo eu, que estou pretendendo, que me proponho? Deixemos que aflorem gradualmente, na solidão, os nossos desejos interiores, as nossas necessidades, frequentemente sufocados pela urgência dos outros, pelo clima de todo dia, adverso ao silêncio e à oração.

A terceira pessoa que entra em acção sou eu mesmo. Não serei mais do que um sugeridor: e o sugeridor tem a tarefa de facilitar o trabalho dando, aqui e ali, alguma indicação temática que ajude cada um a reflectir sobre o itinerário dos Doze no Evangelho de Marcos. Sendo eu um sacerdote jesuíta, quero notar por fim que o itinerário ascético (asketikós, de askein = exercitar), como é proposto no Evangelho de Marcos, é o mesmo que, com outras palavras, é reflectido no livro dos “Exercícios espirituais” de santo Inácio.

Termino estas palavras de introdução acrescentando um pensamento que tiro do último e interessante livro de Hans Urs Von Balthasar: O complexo anti-romano (trad. italiana de G. Moretto, Brescia, 1974). O Autor examina amplamente como pode existir hoje na Igreja um fenómeno de oposição a Roma, típico do o nosso tempo.

Uma das coisas que me impressionou, lendo o livro, é a importância que ele dá ao princípio mariano da Igreja. As palavras que quero citar e às quais talvez poderemos voltar, referem-se a este fato: a Igreja diz ele é petrina (isto é, apostólica), mas ao mesmo tempo é também mariana.

Balthasar mostra difusamente como os dois aspectos, que se compenetram mutuamente, apresentam a face completa da Igreja. De certa forma, um integra o outro e, do ponto de vista do aspecto também exterior, humano e afectivo da vida diária, o completa.

Por isso, devendo meditar sobre o itinerário dos Doze em Marcos, devemos ter presente Maria Santíssima em a nossa oração para que nos ajude a penetrar sempre mais no coração da Igreja, como o Evangelho a apresenta; ou seja, em toda a sua totalidade, de modo a poder confrontar-nos diariamente com esta Igreja apostólica e mariana.

PREFÁCIO AO EVANGELHO DE SÃO MARCOS

Perguntamo-nos: existe um itinerário dos Doze no Evangelho de Marcos? No Evangelho de Marcos, os Doze têm uma importância suficiente que nos permita seguir com certo rigor exegético o seu caminho?

Começamos com uma constatação de leitura: no Evangelho de Marcos aparece com bastante frequência a palavra: os Doze (oi dódeka). Existem sete passagens que podemos chamar as passagens dos Doze.

A primeira menção está no capítulo terceiro: “Instituiu Doze” (3,14); repetida em 3, 16: “Fez os Doze”. Encontramos a segunda no capítulo seguinte: “Quando ele ficou sozinho, os seus, junto com os Doze, perguntaram-lhe o sentido das parábolas” (4,10).

A terceira passagem encontra-se no capítulo sexto: “E chama os Doze” (6,7). Aqui é interessante notar que o grego repete o mesmo verbo (proskaléitai) de Mc 3,13: “Chamou os que queria para junto de si”.

Intimamente relacionados com esta passagem, no fim do mesmo capítulo, temos os apóstolos que se reúnem junto a Jesus: os Doze são convidados por ele a irem a um lugar deserto e solitário (6,31).

A quarta vez encontra-se no capítulo nono, em algumas instruções de Jesus aos discípulos: Ele “chamou os Doze e disse-lhes: se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último” (cf. 9,35; 5-50).

A quinta menção dos Doze está no capítulo seguinte: a terceira predição da morte e ressurreição: 10,32-35.

A sexta passagem está contida no capítulo onze: Jesus, depois de ter entrado “em Jerusalém, no templo, e depois de ter observado todas as coisas, como já era tarde, saiu com os Doze para Betânia” (11,11). Por isso, a presença dos Doze no apostolado hierosolimitano de Jesus é lembrada expressamente.

Por fim, a sétima vez ocorre no capitulo catorze, quando se inicia a Paixão. Aqui a menção dos Doze volta mais vezes porque todo o capítulo é apresentado em estreita conexão com os Doze. “Então Judas Iscariotes, um dos Doze… (14,10). “A tarde já tinha caído quando Jesus veio com os Doze…“ (14,17). “E disse-lhes: é um dos Doze, que põe comigo a mão dentro do prato” (14,20). E por fim: “…Judas, um dos Doze…” (14,43).

Portanto, a palavra os Doze aparece com frequência em Marcos; e aparece em intervalos regulares em sete diferentes contextos, quase a cada dois capítulos. Do capítulo terceiro ao capítulo catorze, a via do discípulo que aos poucos chega ao conhecimento de Deus é descrita pelo evangelista como assinalada pela presença dos Doze. A partir do momento da sua constituição (cap. 3) até à dispersão na hora da prova com a traição de Judas (cap. 14) esta presença é sublinhada em toda a secção principal do Evangelho.

Podemos afirmar: os Doze acompanham o caminho de Jesus desde a sua primeira afirmação até à prova final.

Devemos notar que a estes textos, onde aparece a palavra os Doze e que podemos tomar rigorosamente como ponto de partida para a nossa reflexão, deveriam ser acrescentados outros três textos que sem uma menção directa tratam contudo de episódios que lhes dizem respeito. Eu mencionaria sobretudo no capítulo 1,16.20, os primeiros chamamentos; isto é, os primeiros quatro chamados junto ao lago, os primeiros quatro dos Doze; no capítulo 8,27-30: Pedro, que em nome dos Doze, confessa que Jesus é o Cristo; no capítulo 16,7: o novo chamamento dos Doze, para que se reunam a Jesus na Galileia, depois da Ressurreição.

Se levarmos em consideração todos os episódios mencionados, teremos uma espécie de estrutura apostólica da versão marciana. Por isso, está confirmada a possibilidade de meditar o itinerário dos Doze do Evangelho de Marcos. Possuímos dez perícopes apostólicas (sete mais três), em lugares importantes do Evangelho. Elas têm a sua origem numa afirmação inicial: “Para que estivessem com ele” (3,14).

Toda a carreira dos Doze inicia-se a partir deste momento fundamental da sua existência que é “estar com Jesus”. E tudo o que segue é aprofundamento daquilo que significa concretamente “estar com Jesus” para a vida de um homem chamado à intimidade pessoal com o Senhor.

Eis por que aquela frase tão dura, tão inesperada: “E instituiu Doze para que estivessem com ele” (3,14), na sua própria rudeza está cheia de imenso significado e contém em germe toda a vocação dos apóstolos. As dez perícopes mostram o caminho segundo o qual os apóstolos chegaram verdadeiramente a estar com Jesus e a possuir o mistério do Reino: “A vós é dado o mistério do Reino de Deus” (4 11). Estar com Jesus, receber dele o mistério do Reino, são duas expressões que descrevem a identidade dos apóstolos e o seu caminho.

Podemos fazer uma última observação sobre este itinerário. Nele o momento da penitência não é colocado no início, mas o encontramos sobretudo no fim, com a prova da Paixão, no capítulo 14. No início há apenas um aceno a ela, porque, em Marcos, não é apresentado um itinerário de conversão que começa com a penitência e prossegue com a descoberta de estar com o Cristo, mas nos é apresentado um chamamento a estarmos com Cristo. Este chamamento deve ser gradualmente aprofundado, até reconhecer, numa reflexão penitencial, quanto ainda nos falta para sermos fiéis a uma vocação já existente.

Por isso, seguiremos o caminho de Marcos sem fazer uma análise rigorosa de cada perícope. Mas nós as teremos presentes como pano de fundo, de modo a poder entender como a revelação, progressiva do mistério do Reino, se realiza naqueles que são chamados a “estarem com Ele”.

Meditaremos o caminho que estas perícopes pressupõem ou indicam: isso significa que nos colocaremos no Lugar dos Doze e nos perguntaremos:

  • Que atitude supõe nos Doze este colocar-se à escuta com relação a Jesus?
  • Que mentalidade encontra neles?
  • Que pressupostos de fé são exigidos, que caminho se quer fazer percorrer; e que provações apresenta esta via?
  • Como acontece a gradual revelação do Reino de Deus para que se compreenda não só com palavras, mas com factos o que significa “estar com Ele”?

Eis o caminho que procuraremos palmilhar.

Primeira Meditação
O MISTÉRIO DE DEUS

Esta meditação ajuda-nos a colocar-nos nas disposições do Princípio e Fundamento (E. 23). Ela quer criar em nós a condição de total disponibilidade ao mistério de Deus, à sua actividade, à sua iniciativa. Para criar esta disponibilidade nós recorremos ao Evangelho de Marcos.

Queremos reflectir juntos sobre o mistério de Deus em Marcos; melhor ainda, ver que importância tem o sentido de Deus no caminho catecumenal que Marcos propõe; que importância tem, nele, a educação para o sentido de Deus.

Notemos desde já que aí se fala pouco de Deus, e que a instrução sobre Deus parece bastante limitada.

Faltam, por exemplo, as instruções fundamentais como aquela de Mt 6 sobre a providência ou sobre o Pai-nosso, que é a ocasião de uma simplicíssima, mas ampla catequese sobre Deus.

Se consideramos também as estatísticas, mesmo levando em conta o valor limitado que devemos atribuir a dados desse género, vemos que em Marcos o nome de Deus ocorre 37 vezes, contra 46 em Mateus e 108 em Lucas. No Evangelho do catecúmeno, ao contrário do Evangelho do doutor, há portanto uma menção muito discreta da pessoa de Deus.

Poderíamos chegar à mesma conclusão para a menção de Pai: a palavra aparece 13 vezes em Marcos, mas apenas cinco vezes é referida a Deus, ao passo que João usa centenas de vezes o nome Pai referido a Deus; porque, evidentemente, uma catequese sobre Deus Pai faz parte da instrução do cristão iluminado, ao passo que no início ele é apenas mencionado.

Como é possível este silêncio sobre Deus? Por que se fala pouco dele? Creio que devemos fazer menção à situação concreta do catecúmeno na Igreja primitiva. Os catecúmenos da Igreja primitiva, sobretudo aqueles aos quais se dirige o Evangelho de Marcos ou seja, provavelmente catecúmenos provenientes em grande parte do paganismo já traziam em si um grande senso religioso. Não eram de forma alguma estranhos para ele o pensamento, a palavra, o vocábulo, a menção continua de Deus; como muito bem diz São Paulo falando precisamente dos pagãos: “Porque, embora digam haver deuses no céu e na terra, na verdade há uma multidão de deuses e de senhores (kyrioi)…” (1Co 8,5). Tanto é verdade que Paulo, entrando em Atenas, se irrita com a presença contínua de simulacros de divindades e diz que os atenienses são extremamente supersticiosos. Que se tratasse de gente supersticiosa aparece também pelo facto que se verificou em Éfeso e é narrado em Actos 19,18-19. Ali se diz que muitos dos convertidos trouxeram os seus livros mágicos para queimá-los e com eles fez uma fogueira que valia milhões (cinquenta mil denários de prata). Isso significa que a superstição estava extremamente difundida, e o catecumenado era ministrado a gente que, no fundo, falava até demais de Deus. O problema não era tanto de colocar neles o sentido da divindade, que para eles estava em toda a parte e aparecia em todos os fenómenos, mas de lutar contra uma religiosidade errónea.

Entre parênteses, poderíamos perguntar-nos: é realmente pior a nossa situação de hoje, de ateísmo difuso? Talvez seja mais fácil falar do Deus verdadeiro numa situação de ateísmo do que numa situação de superstição onde falar de Deus pode ser mal interpretado, torcido e desfigurado.

O Evangelho de Marcos nasceu numa situação em que, no início, não era oportuno falar de Deus porque isso podia ser mal interpretado. Eis um motivo provável por que não se falava muito ao catecúmeno sobre Deus. Veremos que, na realidade, se falava de Deus, mas não de maneira directa. Portanto, de que forma se fazia a instrução do catecúmeno sobre Deus?

Esta realizava-se provavelmente, baseando-se em grande parte no Antigo Testamento sobretudo nos salmos. O livro dos Salmos educava o catecúmeno para o verdadeiro sentido de Deus, por isso a comunidade primitiva também de cristãos provenientes do paganismo o lia com muita frequência e conhecia muito bem os salmos. Isso aparece pelas citações frequentíssimas que faz dos Salmos o Novo Testamento e que não seriam explicáveis se a comunidade à qual são dirigidas as cartas apostólicas não os conhecesse perfeitamente.

O catecúmeno era educado para o sentido de Deus através dos salmos. Também nós, no fundo, nos Exercícios Espirituais, seguimos o mesmo caminho. Através da recitação dos salmos nos reeducamos para este sentido profundo de Deus que é absorvido mais com a oração do que com a comunicação verbal daquilo que se pode dizer sobre Deus (cfr. E.20).

Nos poucos acenos feitos no Evangelho de Marcos ao mistério de Deus, captamos aquele sentido específico de Deus que ele espera do catecúmeno e também aquele sentido específico de Deus no qual se realiza a revelação que Jesus faz de si aos Doze.

Por isso, a meditação que proponho é uma breve leitura dos principais textos de Marcos, cerca de quinze, nos quais se podem encontrar acenos directos e indirectos a Deus, para ver qual a figura, quais os aspectos de Deus que são sublinhados e, por isso mesmo, quais devem ser considerados mais importantes num caminho catecumenal para Deus e para a intimidade com o Senhor Jesus, que esconde o itinerário dos Doze.

Estes textos podem ser divididos em quatro séries: há alguns textos preliminares que focalizam os aspectos fundamentais, depois são dadas algumas indicações sucessivas, a seguir uma série de temas bíblicos particulares e, por Último, as indicações finais sobre o mistério.

Quatro tipos de textos, e cada uma destas séries compreende três ou quatro textos por ordem.

1. Série: Textos preliminares (Mc 1, 2; 1, 3; 1, 10.11)

Como traduzir estes textos na nossa experiência? Quem é Deus? Aquele que toma a iniciativa misteriosa: “Eis que envio o meu mensageiro na tua frente” (1,2). Deixo de lado o v. 1 porque é muito discutido; provavelmente é autêntico, mas prefiro não levá-lo em consideração. No v. 2 Deus não é mencionado, mas é aquele que toma a iniciativa misteriosa, não bem definida; algo está para acontecer; Deus de certa forma vem ao nosso encontro.

Deus é o Deus que vem. “Preparai o caminho do Senhor” (1,3): Deus está vindo. Esta indicação, clara e misteriosa ao mesmo tempo, sobre Deus como alguém que está vindo a nós, que se move por sua iniciativa na nossa direcção, reaparece mais adiante: “Viu os céus abertos” (1,10); isto é, Deus: “O vosso Pai que está nos céus” (11,25), se faz presente à nossa realidade, à nossa experiência, põe-se em comunicação connosco a partir do céu.

E como entra em comunicação connosco? A resposta é: “Através do seu Filho amado” (1,11): poderíamos, dizer o Filho modelo, aquele Filho no qual compreenderemos alguma coisa do impenetrável mistério de Deus.

Portanto, Deus aparece como mistério impenetrável que, em determinado ponto toma uma iniciativa misteriosa com relação a nós e se aproxima de nós para nos sacudir. Não é muito; mas está dito tudo o que pode suscitar um sentimento de espera, de preparação.

Portanto, o catecúmeno não é convidado a dizer logo: “Deus está aqui, Deus é isto ou aquilo”; isto é, exprime algo daquilo que é Deus. Em vez disso, é convidado a compreender que Deus é aquele que está para tomar posse da sua vida, e vai ao seu encontro com uma misteriosa iniciativa que ele é chamado a aceitar, sem conhecê-la detalhadamente.

2. Série: Indicações esclarecedoras (Mc 1, 14; 1,15; 1, 35; 2, 7)

Jesus dirigiu-se à Galileia pregando o Evangelho de Deus” (1,14); por isso indirectamente sabemos que Deus é o Deus do Evangelho.

Aproximou-se o Reino de Deus” (1,15); portanto, Deus é o Deus do Reino.

Como traduzir estas duas indicações? O Deus do Evangelho; isto é, o Deus que nos traz uma boa noticia, a qual está para mudar a nossa situação. O Deus do Reino; ou seja, o Deus que está para colocar as coisas no seu lugar, misteriosamente.

Deus é aquele que entra na sua vida com uma mensagem perturbadora, cheia de alegria, e que vem reordenar as coisas da sua vida. Por isso, de novo: atitude de quem ainda não sabe o que Deus quer, mas se prepara em plena disponibilidade à aceitação de uma novidade misteriosa que deve entrar no seu íntimo.

Outro acento misterioso, totalmente indirecto, nós o encontramos mais adiante: De madrugada, muito antes do raiar do dia ele se levantou e, saindo para um lugar deserto, ali ficou rezando” (1,35). Aqui Deus aparece como aquele a quem Cristo reza. Cristo, apresentado primeiro como Filho modelo e seu revelador, está em misteriosa união com Deus; e nós, embora sem saber muito mais sobre Deus, encontramo-nos imersos numa atmosfera de expectativa, respeito, reverência, tensão para o mistério de Deus que, em Cristo se nos está revelando.

E ainda, no capítulo seguinte: Quem pode perdoar os pecados senão somente Deus? (2,7). A frase é proferida pelos adversários mas serve para dizer-nos que somente Deus pode perdoar-nos. Ela nos oferece o sentido do perdão. Deus entra com uma iniciativa que é boa nova de perdão e o homem deve ficar na expectativa, e à escuta, disposto e pronto para recebê-lo.

Por estes poucos acenos vemos que se leva a cabo uma transformação completa da mentalidade pagã, para a qual Deus era o ser à disposição do homem, sobre o qual o homem podia pôr as mãos, torná-lo propício, pedindo e obtendo dele o que queria; um Deus diante do qual o homem estava em estado de actividade manipuladora. Agora, pelo contrário, o homem é colocado em estado de total passividade, de expectativa, audição, reverência, respeito. É Deus que está para fazer, está para pôr em acção o seu Reino.

Nós devemos ouvir humildemente sem compreender, estar prontos a ir para onde ele quiser levar-nos. Estes são alguns dos aspectos fundamentais da espera do mistério de Deus recolhidos na primeira parte de Marcos.

Do capítulo 2 em diante, são pouquíssimas as outras menções sobre Deus porque, como veremos, Jesus está em acção. Ele está para revelar o mistério da sua pessoa; consequentemente a catequese sobre Deus não aparece em primeiro plano. Uma vez que o homem se tornou disponível, é indicado o Filho, e então começa o caminho do seguimento do Filho, que nos permite purificar-nos de todo um falso modo de compreender a Deus, para chegar a conhecê-lo na verdade.

3ª Série: Temas bíblicos

Todavia, nos capítulos 11, 12, 13, ainda há quatro menções de Deus que sublinham temas blblico-veterotestamentários. Elas nos fazem constatar que no Evangelho marciano não se perdiam de vista alguns temas fundamentais, que se supunham pontos de partida para uma catequese do “Deus do nosso Senhor Jesus Cristo”.

Quais são estes quatro pontos fundamentais que se referem sempre à catequese veterotestamentária, sobre Deus? No capítulo 10, a resposta de Jesus: “Ninguém é bom senão Deus” (10,18). Ela revela ao catecúmeno a bondade de Deus, o único bom que deve ser amado “com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças”, como se diz em 12,30. Encontramos outra passagem de catequese veterotestamentária no capítulo seguinte: a exortação ou indicação (depende das traduções): “Tende fé em Deus” (11,22), trad. C.E.I. Notemos que o texto grego é muito misterioso porque diz: échete pístin Theoû; isto é, inverte a questão: Quem é Deus? Aquele que merece fé e confiança, aquele que merece total abandono. Aquilo em que mais se insistirá no itinerário catecumenal: abandonai-vos ao mistério de Deus que quer agir em vós não segundo a vossa maneira, mas como Ele quer. E por isso sede totalmente disponíveis.

Outro acento veterotestamentário encontra-se no capítulo treze; o Deus da criação lembrado de maneira muito indirecta: “Do início da criação até ao dia de hoje” (13,19).

Deus único, Bom Fiel, Criador, Realidade suprema a ser amada, eram temas veterotestamentários então muito presentes. Com efeito, Marcos nos dá um modelo de catequese para gente que acreditava nestes valores.

Sobre estes temas constrói-se a ideia evangélica do Deus que vem, toma uma iniciativa cheia de mistério, do Deus ao qual é preciso abandonar-se e que nos guia misteriosamente por meio do Cristo.

Esta é a disposição fundamental com que o catecúmeno inicia a sua catequese e que o anúncio evangélico supõe nele.

4ª Série: Temas reveladores

Finalmente, os últimos dois textos que são básicos e reveladores da identidade de Deus em Marcos.

No capítulo catorze, a oração “Abbá, Pai! Tudo te é possível, afasta de mim este cálice! Porém, não o que eu quero, mas o que tu queres” (14,36).

Quem é Deus que está por trás desta representação que nos é dada pelas palavras de Jesus? É o Deus a quem tudo é possível (ideia veterotestamentária), o Deus que pode afastar o cálice, mas que, na realidade, não o faz. Isto é, o Deus ao qual é preciso entregar-se totalmente porque tem a nosso respeito um plano completo e nos guia através de caminhos misteriosos, assim como guiou a Cristo.

Por isso o catecúmeno é convidado a passar de uma ideia humanamente fabricada de Deus, em que tudo é predisposto, em que ele pode apoiar-se e obter o que quiser, fazendo este ou aquele acto de culto, a um Deus que misteriosamente intervém e o conduz com bondade, mas que o leva aí onde Ele quer através da iniciativa evangélica de salvação que para o homem é sempre imprevisível e desconcertante.

Em Marcos, com efeito, o último texto em que Jesus nos fala de Deus é o texto mais dramático do Evangelho. Na cruz Jesus grita: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (15,34). Como é possível que se encerre com esta passagem a série dos poucos acenos ao mistério de Deus em Marcos?

Precisamente porque nele temos o ápice desta revelação: o Deus que é apresentado no Evangelho, o Deus a quem tudo é possível, o Deus que tem nas mãos todas as coisas e ao qual nos abandonamos totalmente, não está obrigado a fazer o que nós esperamos dele, e pode também abandonar-nos exteriormente como abandonou o seu Filho. Claro que nas palavras de Jesus há também um sentido de esperança, mas não se deve esquecer que são palavras de abandono. Deus deixou Cristo numa situação de amargura, de desolação exterior, de derrelicção humana como se efectivamente o tivesse abandonado.

Por isso, o catecúmeno é convidado a reflectir atentamente: toma cuidado porque o caminho pelo qual andas não é um caminho fácil, um caminho em que Deus te dará segurança de êxito em êxito, um plano certo que já programaste, mas te colocas nas mãos de um Deus misericordioso que é bom, que quer o melhor para ti, mas não de teu modo. Está em jogo aquela disponibilidade total que Sto. Inácio põe como condição fundamental dos Exercícios: aceitar o mistério do Deus diferente de nós, que com frequência nos leva para onde não queremos ir (E. 5). Foi o que Jesus disse a Pedro: levar-te-ão para onde não queres ir (Jo 21,18).

É abandonar-se totalmente ao mistério de Deus para todas as surpresas que a todo momento, em toda idade da existência, Ele pode manifestar.

Carlo Maria Martini
Ed Loyola, S. Paulo 1988
Retiro de 1974

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Questa voce è stata pubblicata il 04/02/2019 da in Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , , .
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