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Nigéria: O gigante continua adormecido


Caos, violência e uma abstenção recorde marcaram as eleições gerais no país mais populoso de África e o que tem mais pobreza extrema em todo o mundo, apesar da riqueza petrolífera. O presidente, Muhammadu Buhari, ganhou um segundo mandato para governar uma nação ferida por múltiplos conflitos étnicos e religiosos, corrupção crónica e exclusão de milhões de jovens.

Lagos

Uma vista da cidade de Lagos

MARGARIDA SANTOS LOPES, jornalista
Revista Além-Mar, Abril 2019

A primeira esperança de Jideofor Adibe quando Muhammadu Buhari tomar posse como presidente da Nigéria, em 29 de Maio, é que não perca tempo a formar governo. No início do primeiro mandato, em 2015, demorou seis meses, com isso ganhando o epíteto de Baba-Go-Slow (“Pai Anda Devagar”).

«Se voltar a desperdiçar seis meses, o país entra novamente em recessão», avisa o nigeriano Adibe, cientista político, académico, editor e um dos observadores das eleições gerais de Março, em entrevista telefónica à Além-Mar.

«Estamos todos à espera de ver se, para o próximo governo, Buhari convidará tecnocratas competentes, e não apenas pessoas da sua confiança. Ele tem de empreender mudanças urgentes ou a sua tarefa será bem mais difícil.»

Para já, Buhari enfrenta uma batalha legal, pois a sua vitória, por quatro milhões de votos (dados oficiais), foi rejeitada pelo principal adversário, Atiku Abubakar, que garante ter recebido «quase dois milhões». É, apesar de tudo, um «sinal positivo», anota Adibe, que o derrotado «tenha recorrido aos tribunais, e não à violência, para contestar os resultados».

«A prioridade terá de ser a formação de um governo inclusivo, que não seja suspeito de favorecer os muçulmanos do Norte», onde a participação excedeu os 50 %, sublinha Adibe, professor associado de Ciência Política na Universidade Estatal de Nasarawa, em Keffi (Nigéria), fundador e director da prestigiada revista académica African Renaissance.

«Se olharmos para o padrão de voto, os Estados de maioria cristã no Sul e no Leste [com apenas 20% de afluência às urnas] rejeitaram Buhari e preferiram Atiku» – que é do Norte, muçulmano e da etnia fulani, tal como Buhari.

«Fosse quem fosse o vencedor, a sua missão seria sempre muito complicada», admite Adibe. Num país rico e dependente do petróleo (é o maior produtor de África), mas que ultrapassou a Índia em pobreza extrema (87 milhões), «a corrupção endémica é um dos [nossos] maiores infortúnios, mas não bastará ao presidente continuar a fazer promessas de a combater».

«É imprescindível criar postos de trabalho, não apenas na agricultura, e abrir perspectivas de futuro aos jovens», os mais afectados pelo desemprego (23,1%), sublinha Adibe. «Sentindo-se excluídos, os jovens são facilmente atraídos para o banditismo ou recrutados por movimentos secessionistas e extremistas. A maior parte dos conflitos que assolam a Nigéria deve-se ao facto de o Governo não ser inclusivo e haver um grande desespero económico. O presidente tem de mudar isto, em vez de estar sempre a culpar governantes anteriores.»

Nigeria

Vinte anos de democracia

A eleição do chefe de Estado, de 109 senadores e 360 deputados da Assembleia Nacional, no dia 23 de Fevereiro, «foi muito importante por várias razões – e uma delas por ter sido a primeira vez que votaram nigerianos nascidos após o fim do poder militar há vinte anos», enaltece Idayat Hassan, directora em Abuja, a capital, do Center for Democracy and Development (CDD), que promove a democracia e o desenvolvimento na África Ocidental.  

Embora só 35 milhões tivessem ido às urnas – a mais baixa taxa de participação desde que o país regressou a um governo civil em 1999 –, a advogada que coordenou o Movimento contra a Corrupção na Nigéria salienta a grandeza do escrutínio que faz do seu país um barómetro em África. «Foram as maiores eleições no continente, com mais de 84 milhões de eleitores inscritos», destacou, em entrevista, por correio electrónico, à Além-Mar.

Para Idayat Hassan, «é significativo» que o Gigante de África esteja a viver «um dos mais longos períodos ininterruptos de democracia na sua história». Quanto à abstenção recorde, justifica-a, em parte, com «o medo da violência e o medo de que os votos não contem».

Foi também isso que constatou Jideofor Adibe, observador do Center for Development Research: «Muita gente ficou em casa porque, em 2015, houve imensas fraudes e centenas de mortos. Uma robusta presença policial e militar [sobretudo no Sul] terá afastado eleitores. Outros, desapontados com os resultados de há quatro anos, terão achado que qualquer voto seria em vão. E nem toda a gente estava disposta a esperar em longas filas.»

«Esta foi a 20.ª tentativa de realizar eleições democráticas», exulta Adibe. «Em alguns lugares, testemunhámos caos, confrontos e irregularidades. Mas, na maior parte do país, a votação até correu bem.»

É um veredicto que não parece aplicar-se à eleição de 29 dos 36 governadores – figuras poderosas que dominam orçamentos maiores do que os de alguns países africanos – em Lagos, por exemplo, com 17,5 milhões de habitantes, a população conjunta de Cabo Verde, Gabão, Gâmbia, Libéria e Serra Leoa, o PNB é maior do que o do Quénia. No escrutínio de 9 de Março, a maioria dos observadores denunciou gravíssimas irregularidades.

O Congresso dos Progressistas (APC), de Buhari, ganhou em treze Estados. O Partido Popular Democrático (PDP), de Atiku, conquistou nove, sobretudo nas regiões petrolíferas do Delta do Níger, no Sul e Sudeste. Nos restantes Estados, em cinco dos quais o PDP estaria em vantagem, a comissão eleitoral declarou os resultados inconclusivos.

Jovens governados por velhos

A apatia dos eleitores poderá ser explicada pela personalidade do vencedor e do vencido. Numa nação onde cerca de 62 % dos mais de 190 milhões de habitantes têm menos de 25 anos, Buhari tem 76 e Atiku 72.

O presidente reeleito é visto como incorruptível, mas alguns dos que o rodeiam têm a reputação manchada. Também o rival, que de um contentor portuário construiu um império nos sectores do petróleo e distribuição, é suspeito de enriquecimento ilícito.

«É mais o que une Buhari e Atiku do que o que os distingue», escreveu, na página da Internet do Council on Foreign Relations, John Campbell, antigo diplomata norte-americano em Abuja e co-autor do livro Nigeria: What the World Needs to Know. «São da mesma geração, nascidos antes da independência e ambos procuram representar um país onde a média de idades é de 18 anos. Nenhum deles oferece ideias novas.»

O país já mudou as leis que impediam o acesso dos mais jovens à política, graças a uma dinâmica iniciativa nas redes sociais designada por #NotTooYoungToRun. Ainda assim, dos 23 mil candidatos às eleições de 23 de Fevereiro, só dez tinham menos de 40 anos.

Os maiores apoiantes de Buhari são os pobres do Norte. Este general na reserva que, nos anos 1980, fez parte de um regime militar, assume-se agora um «democrata renascido». Em 2015, beneficiou de uma vaga de deserções no PDP e andou pelo país com o símbolo do APC na mão – uma vassoura – prometendo limpar o país dos flagelos da corrupção e dos insurrectos islamitas do Boko Haram, entretanto transformado num “franchisado” do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Foi o primeiro candidato da oposição a derrotar um presidente em funções, Goodluck Jonathan, cristão da etnia Ijaw.

Situação de insegurança

A luta implacável contra o grupo que, em 2014, raptou 276 meninas de uma escola em Chibok foi uma das promessas cumpridas por Buhari. «O Boko Haram não foi erradicado, como assegura o presidente, mas está bastante enfraquecido», graças a uma intervenção militar no Nordeste, reconhece Jideofor Adibe.

Embora também tenha investido na agricultura e em infra-estruturas, Buhari foi, porém, incapaz de revitalizar a «maior economia de África», e a sociedade permanece «muito desigual, com o fosso entre ricos e pobres a impedir o país de desenvolver o seu verdadeiro potencial», avalia Idayat Hassan. «Isto é tão grave que alguns nigerianos se questionam sobre se a democracia é a solução.»

Os apoiantes de Buhari, pai de dez filhos para quem «o lugar da mulher é na cozinha», deram-lhe o benefício da dúvida, indiferentes às críticas de que passou grande parte do primeiro mandato ausente, em tratamento numa clínica de Londres, e de que quem tem governado o país é o vice-presidente, Yemi Osimbajo.

Para Idayat Hassan, além de dar esperança aos jovens – que ela descreve como «o petróleo futuro da nação» –, o maior desafio do presidente reeleito, num país com cerca de 250 grupos étnicos, será enfrentar a «situação de insegurança em cinco de seis zonas geopolíticas da Nigéria» – no Nordeste, no Centro e no Sul.

Vários conflitos

O conflito no Nordeste, região que inclui seis Estados – Adamawa, Bauchi, Borno, Gombe, Taraba e Yobe –, é, provavelmente, o mais grave da última década. No reduto do Boko Haram, sete anos de ataques e confrontos com tropas federais causaram cerca de 20 mil mortes e 2,6 milhões de deslocados internos.

No Centro-Norte, onde se situam os Estados de Benue, Kogi, Kwara, Nasarawa, Níger e Plateau, intensifica-se outro conflito, «complexo e multifacetado». Trata-se de «uma competição por terra e recursos, com ataques e contra-ataques de represália», entre pastores muçulmanos da minoria fulani e agricultores cristãos, explicam Abul Azad, Emily Crawford e Heidi Kaila, autores do relatório Conflict and Violence in Nigeria. À medida que aumenta a população da região, áreas que antes serviam para apascentar animais são agora usadas para cultivo. Por outro lado, alterações climáticas e a pressão do Boko Haram têm reduzido os terrenos de pasto, forçando os criadores de gado a seguir para Sul.

E, no Sul, que inclui os Estados de Akwa Ibom, Bayelsa, Cross River, Delta, Edo e Rivers, onde a Nigéria explora o petróleo, as desigualdades entre populações locais e funcionários das petrolíferas, mas também a degradação ambiental causada por derrames de crude, alimentam fortes tensões étnicas e políticas.

No Sudeste, o maior elemento de instabilidade é o legado não resolvido da Guerra do Biafra (1967-1970), de que resultou um milhão de mortos. Ressentido com a falta de oportunidades, o povo igbo, predominantemente cristão, retomou em 2015 os apelos à autonomia, através de um novo movimento separatista: Povos Indígenas do Biafra/IPOB. Para o Governo, eles são «terroristas» e as suas manifestações têm sido duramente reprimidas.

No Delta do Níger, militantes do Movimento para a Emancipação, ao qual fora prometida uma amnistia geral em 2009, voltaram a pegar em armas em 2016. Os seus ataques a importantes oleodutos têm causado avultados prejuízos económicos.

«Em países em desenvolvimento, onde o processo de formação do Estado-nação ainda está em curso, as divisões religiosas e étnicas tendem a ser muito profundas e exacerbadas em tempo de eleições», destaca Jideofor Adibe.  

O analista nigeriano concorda com a análise da BBC de que as eleições de Fevereiro-Março «nunca prometeram a possibilidade de uma nova era». Para ser honesto, conclui ele, «muitos de nós ficámos desiludidos. Há pouca coisa para celebrar. Em muitas regiões, o resultado não reflecte a vontade popular. Mas a verdade é que tudo isto faz parte de um processo democrático.»

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Questa voce è stata pubblicata il 06/04/2019 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag , .

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Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
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