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Primavera Árabe: Arábia infeliz


Mund Arabe

O Egipto trocou um ditador, Hosni Mubarak, por outro, Abdel Fattah El Sisi. No Bahrain, a família Al Khalifa continua a reinar, com protecção saudita. No Iémen, Abdullah Saleh foi morto e o país morre numa guerra invencível. Na Síria, o tirano Bashar al-Assad recuperou o controlo graças a Russos e Iranianos. Que “primavera” foi esta?

MARGARIDA SANTOS LOPES, jornalista
Revista Além-Mar, Maio 2019

De origem europeia, o termo “Primavera Árabe” evoca a “Primavera dos Povos” de 1848, a vaga de revoluções que derrubou regimes de França à Suíça, de Itália à Alemanha; a “Primavera de Praga” de 1968, que foi a luta contra o domínio de Moscovo sobre a Checoslováquia; ou a “Primavera da Europa de Leste” de 1989, que fez cair um Estado (a URSS), um império (o Pacto de Varsóvia) e uma ideologia global (o comunismo soviético).

Muitos viram um paralelo entre estas sublevações e as revoltas populares de 2011 que levaram à queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, de Hosni Mubarak, no Egipto, de Muammar Kadhafi, na Líbia, e de Ali Abdullah Saleh, no Iémen. Muitos esperavam que os islamistas fossem marginalizados e que, numa era de novas tecnologias, o poder ficasse nas mãos de uma nova geração de democratas e seculares. Não foi isso o que aconteceu.

Tunísia

O mundo árabe incendiou-se quando, em 17 de Dezembro de 2010, o vendedor ambulante Tarek al-Tayeb Mohamed Bouazizi se imolou pelo fogo na cidade tunisina de Sidi Bouzid, incapaz de suportar humilhações diárias por parte de corruptas autoridades municipais.

No dia 29, os protestos na Tunísia chegaram à vizinha Argélia. A 14 de Janeiro, quando Zine El Abidine Ben Ali, no poder desde 1987, foi obrigado a demitir-se e a fugir para a Arábia Saudita, começaram protestos na Jordânia. Seguiu-se Omã, no dia 17, o Egipto, no dia 25 e o Sudão no dia 30. No dia 12 de Fevereiro, foi a vez do Iraque, no dia 14, do Bahrain, no dia 19, do Kuwait, no dia 20 de Marrocos.

Oito anos depois da queda do ditador, a corrupção e o desemprego continuam o mal maior, mas a “Revolução de Jasmim” ofereceu à Tunísia um certo grau de democracia. Realizaram-se duas eleições nacionais – em 2011 para a Assembleia Constituinte e em 2014 para o Parlamento e Presidente da República. A próxima será em Novembro.

Em 2012, muitos grupos seculares formaram um único partido, Nidaa Tounes, fundado por Beiji Caid Essebi, hoje com 92 anos. Em 2014, o Nidaa Tounes foi o partido mais votado; dois meses depois, Essebi tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito, para um cargo em grande medida protocolar. Sem uma maioria clara, os secularistas e os “democratas muçulmanos” do Ennahda (eles recusam a etiqueta “islamistas”, porque, dizem, não encaixam na categoria do Daesh) formaram uma coligação que, devido a profundas divergências, em pouco tempo se transformou num governo minoritário, chefiado pelo primeiro-ministro, Youssef Chahed, um dissidente do Nidaa Tounes, que formou o seu Tahia Tounes.

A Freedom House reconhece que os Tunisinos beneficiam agora de mais liberdades cívicas e direitos políticos. Numa escala em que 1 é o país mais livre e 7 o menos, a Tunísia saltou do lugar 6 para 2,5 em 2010. É o único país árabe que merece a classificação de “livre”.

A democracia não trouxe prosperidade e os protestos, contra a austeridade ou a falta de trabalho, são frequentes e ruidosos. O desespero e a frustração continuam a crescer. Nas últimas eleições municipais, em 2018, apenas um terço do eleitorado foi às urnas – uma descida de 60% em relação a 2014. E os candidatos independentes ganharam mais votos do que qualquer partido, um sinal de alarme.

Bahrain

Há muito que a maioria xiita do Reino do Bahrain, pobre e discriminada pela minoria sunita no trono que a considera “uma quinta-coluna do Irão”, reclamava mais direitos. Mas só em 2011 é que as suas reivindicações ganharam dimensão nacional.

Em Fevereiro, os manifestantes começaram por pedir um Parlamento eleito e uma nova Constituição. Quando alguns deles foram mortos, dezenas de milhares concentraram-se na (entretanto demolida) Rotunda da Pérola, em Manamá, a capital, para exigir o afastamento da família real.

Em Março, o rei Hamad Al Khalifa pediu ajuda à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, que enviaram cerca de 1500 militares para salvar uma dinastia que existe há 200 anos (desde que a tribo Utub migrou do Najd para o Kuwait no início do século xviii). Foi uma intervenção apoiada pelos EUA, que têm neste país a sua Quinta Esquadra. A sublevação foi duramente reprimida: milhares de pessoas foram detidas e torturadas. Pelo menos 50 terão sido mortas.

Egipto

Hosni Mubarak, tal como Ben Ali, não mais voltou ao poder que ocupou durante três décadas, depois da sublevação que obrigou o Exército a afastá-lo em 10 de Fevereiro de 2011. Mas o que hoje vigora no Egipto não é a democracia pela qual clamavam milhares de manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo, mas o “regime contra-revolucionário” de Abdel Fatah El Sisi, que acaba de obter licença do Parlamento para se manter no poder até 2030.

Depois de Mubarak, os Egípcios tiveram um presidente democraticamente eleito (em 2012, com 52% dos votos), Mohammed Morsi, dirigente da Irmandade Muçulmana. Em Julho de 2013, depois de um mês de protestos nas ruas contra a má governação de Morsi, este foi destituído e preso pelo Exército, comandado por Sisi.

Em Agosto, centenas de apoiantes do presidente deposto concentrados em dois acampamentos no Cairo foram mortos a tiro por forças de segurança no que organizações de direitos humanos classificam como “a pior chacina da história moderna do Egipto”. Desde que assumiu o lugar de Morsi que tem sido este o método de Sisi. Não tolera a mínima crítica. São proibidas manifestações. Centenas de websites foram bloqueados. Quase todos os media independentes foram silenciados. Jornalistas, bloggers e académicos têm sido detidos.

A ONU acusa Sisi de usar leis antiterroristas para deter activistas que lutam pelos direitos das mulheres ou fazem campanha contra a tortura e as execuções extrajudiciais. Haverá no país dezenas de milhares de prisioneiros políticos.

O regime justifica estas medidas com “a necessidade de restaurar a estabilidade e de combater a insurreição” islamista ligada ao Daesh na península do Sinai.

Iémen

Ao contrário do que aconteceu noutros países árabes, no Iémen “foram divisões e rivalidades entre elites políticas da poderosa confederação tribal Hashid que moldaram a trajectória da revolta”, dizem os autores de “Revolution Suspended”, um dos capítulos do livro The New Middle East, coordenado por Fawaz A. Gerges.

Em 2011, os rivais do presidente, Ali Abdullah Saleh, “juntaram-se ao movimento de protesto popular e assumiram o seu controlo”. Contestado desde Janeiro, Saleh aceitou, em Novembro, assinar um acordo de transição, negociado pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que o obrigou a ceder três décadas de poder ao seu adjunto, Abd-Rabbu Mansur Hadi, em troca de imunidade.

Isto permitiu que, “em alguns aspectos, o velho regime se mantivesse”. Mansour Hadi deveria ser chefe de Estado interino até à realização de eleições, mas teve de enfrentar um crescendo de ataques da Al-Qaeda, um movimento separatista no Sul, corrupção, desemprego e escassez alimentar num país que já era o mais pobre do Médio Oriente.

Aproveitando-se da fraqueza do novo presidente, o movimento Houthi, que defende a minoria xiita zaidita do Iémen e já várias vezes se rebelara contra Saleh, conquistou a província de Saada, no Norte.

Muitos iemenitas, incluindo sunitas e responsáveis militares leais a Saleh, desiludidos com a transição que os marginalizava, apoiaram os Houthis quando eles atacaram Sanaa, em 2014, e avançaram sobre Áden, em 2015, obrigando Hadi a fugir do país.

Alarmados com a ascensão dos Houthis, uma milícia xiita com ligações ao Irão e ao Hezbollah libanês, a Arábia Saudita e outros oito Estados árabes – com apoio logístico de Washington, Londres e Paris – lançaram uma campanha de bombardeamentos aéreos para que Hadi retomasse o poder. Mas ele continua exilado e o seu governo reinstalado em Áden é incapaz de fornecer os serviços mais básicos à população. Os Houthis continuam em Sanaa (onde assassinaram Ali Abdullah Saleh em 2017) e mantêm o cerco à cidade de Taiz, de onde lançam mísseis contra território saudita.

Uma guerra que deveria “durar algumas semanas” prolonga-se, invencível, desde há quatro anos na antiga Arabia Felix, cobiçada pela sua localização estratégica. Situa-se num estreito que liga o mar Vermelho ao golfo de Áden, por onde passa a maior parte dos fornecimentos mundiais de petróleo.

As estimativas da ONU apontam para mais de 7000 civis mortos e mais de 11 mil feridos desde 2015 – 65% causados pelos ataques dos Sauditas e aliados. Os números recolhidos pelo grupo internacional Armed Conflict Location & Event Data Project, com sede nos Estados Unidos, são mais elevados: pelo menos 67 650 civis e combatentes mortos desde 2016.

Outros milhares de civis morreram de má nutrição e doenças. Cerca de 80% da população – 24 milhões – precisa de ajuda humanitária. Mais de 3,3 milhões são deslocados internos.

Síria

Em 31 de Janeiro de 2011, numa entrevista ao Wall Street Journal, o presidente Bashar al-Assad dizia-se convencido de que a onda de protestos na Tunísia não chegaria ao seu país. “Enfrentamos circunstâncias mais difíceis do que a maioria dos Estados árabes, mas a Síria é estável.”

Excesso de confiança. No dia 6 de Março, um grupo de rapazes foi preso em Deraa, por grafitar os muros da cidade com os slogans revolucionários gritados na Praça Tahrir no Cairo. Seria o “momento Mohamed Bouazizi sírio”, como anota Christopher Phillips no seu livro The Battle for Syria.

No final do mês, milhares de sírios enchiam as ruas de várias cidades, primeiro exigindo reformas e, depois, a queda do regime, quando este optou por uma brutal repressão e não pelo diálogo.

“A revolução síria não era liderada por um partido de vanguarda nem estava sujeita a um controlo centralizado”, lê-se em Burning Country, uma obra fundamental de Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami. “Não se cindiu, porque nunca foi monolítica. Começou nas ruas entre pessoas de diferentes origens.”

Nas primeiras semanas desta revolução, foram criados em bairros, aldeias e cidades comités de coordenação locais (CCL) ou tanseeqiyat, que organizavam actos de desobediência civil, considerando que a resistência armada ou uma intervenção militar estrangeira “seria inaceitável política, nacional e etnicamente.”

O objectivo dos CCL não era apenas a queda de um sistema injusto, mas a liberdade de todos os sírios. Se Assad – que em 2002, quando sucedeu ao pai, alimentara a esperança vã de uma “Primavera de Damasco” – fosse derrubado pela força, alegavam os comités, “seria quase impossível estabelecer as bases legítimas” de um país democrático. Não foi esta a posição que prevaleceu.

Seguiu-se uma guerra civil, um conflito sectário que se tornou o maior desastre humano do século xxi. Exacerbado pela minoria alauita no poder, criou as condições para a emergência do terror sunita salafita e abriu a porta a seis protagonistas externos, todos defendendo diferentes agendas (Rússia, EUA, Irão, Arábia Saudita, Turquia, Qatar).

Quase meio milhão de sírios foram mortos e quase dois milhões feridos. Mais de 5,6 milhões são refugiados e outros 6,2 milhões são deslocados internos – metade dos quais são crianças. No final de 2013, segundo a ONU, o desenvolvimento humano na Síria regredira quatro décadas. Dois anos depois, metade dos hospitais públicos estavam encerrados, menos de metade das crianças frequentava a escola e mais de 80% dos sírios viviam na pobreza. A esperança média de vida baixou de 70 para 55 em quatro anos. Quase 12 milhões de sírios precisam de assistência, ou seja 65% dos que permanecem no país.

Graças a Moscovo e a Teerão, Assad recuperou o domínio de 60% do país. Países que antes exigiam a sua demissão como condição prévia para a paz, reconstrução e reconciliação mostram-se agora receptivos a reabilitá-lo. Mas os Sírios, animados pelas sublevações na Argélia e no Sudão, continuam a acreditar que Bashar terá o mesmo destino de Bouteflika e Bashir. Em Abril, manifestantes voltaram às ruas, sobretudo em Deraa, berço da revolução, e em Ghouta Oriental.

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Questa voce è stata pubblicata il 11/05/2019 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag , .

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