COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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O juízo final do estado (não) islâmico


terrorismo-islamico

O grupo que em 2014 mudou a geografia do Médio Oriente perdeu o “califado” cinco anos depois de o ter proclamado. Esvaiu-se a sua utopia messiânica, mas não o pesadelo que a ideologia salafita-jiadista representa. Caner K. Dagli, co-autor de uma monumental obra de exegese do Alcorão, e Jessica Stern, antiga conselheira de segurança de Bill Clinton, ajudam-nos a explicar a trajectória religiosa e belicosa do Daesh. 

Jessica Stern não ficou surpreendida com o curto tempo de vida do “califado” que o Daesh proclamou em Junho de 2014, depois do que parecia uma ascensão imparável, de Alepo, na Síria, até Mossul, no Iraque. Caiu em Março. Na ignomínia.

«Ao controlar um território do tamanho da Grã-Bretanha, o que é raro para a maioria dos grupos terroristas contemporâneos, o “estado islâmico” tornou-se bastante vulnerável – os seus inimigos sabiam onde o encontrar, porque o seu endereço tinha remetente», comenta para a Além-Mar a autora de ISIS: The State of Terror e Terror in the Name of God: Why Religious Militants Kill.

O grupo perdeu o território sob seu domínio, mas «permanece uma ameaça importante», alerta a investigadora, que foi membro do Conselho Nacional de Segurança do presidente Bill Clinton e hoje é professora na Universidade de Boston, nos EUA.

«Segundo responsáveis militares americanos, dezenas de milhares de combatentes sírios e iraquianos continuam escondidos na região, dezenas de milhares de combatentes estrangeiros escaparam, alguns deles regressando aos países de origem, e outros foram para as wilayats ou províncias do Daesh», refere a académica a quem o Council on Foreign Affairs deu o título de Superterrorism Fellow.

O Daesh tem actualmente «cerca de dez wilayats e umas duas dezenas de redes [salafitas-jiadistas]», adianta Jessica Stern. «Expande-se internacionalmente graças à colaboração com grupos rebeldes locais. Se um destes grupos promete lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi [o ‘“califa’ do “estado islâmico”], e este juramento é aceite, tornam-se imediatamente afiliados.»

«Alguns deles são declarados províncias. Foi o que aconteceu com o Boko Haram [na Nigéria], que é a Província da África Ocidental; o Abu Sayyaf e outros grupos nas Filipinas e na Indonésia, a Província da Ásia do Leste; e o Ansar Beit al-Maqdis, a Província do Sinai [no Egipto]».

Em Abril, num vídeo que o Daesh divulgou, Baghdadi anunciou a criação de uma nova “província”, na África Central, e aceitou os juramentos de lealdade de grupos no Mali e no Burkina Faso. Neste país, em particular, os alvos têm sido igrejas católicas – três ataques entre Abril e Maio.

É por tudo isto que Jessica Stern está pessimista: «Quando as forças americanas deixaram o Iraque em 2011, havia no país 700 membros da Al-Qaeda. Agora, pelo menos segundo Donald Trump, o “estado islâmico” foi mais uma vez “derrotado” – mas isto não é verdade! Sim, perdeu o seu proto-Estado, mas continua a ser uma poderosa organização terrorista, com dezenas de milhares de combatentes e centenas de milhões de dólares.»

Como é que um exército genocida e apocalíptico pode continuar a exercer este poder de atracção depois de uma vexante derrota? «Muitos dos que viveram esse pesadelo continuam a acreditar na utopia», diz a especialista em terrorismo. «Apesar de uma realidade horrenda sob o “estado islâmico”, milhares de pessoas continuam a ser-lhe fiéis.»

Um grupo exclusivista

Em 2015, num ensaio publicado na revista The Atlantic, sob o título «What ISIS Really Wants» e no qual tenta explicar porque o Daesh funciona como um íman não apenas para aventureiros e psicopatas, mas também para seguidores fervorosos, o autor, Graeme Wood, gerou controvérsia ao declarar: «A realidade é que o “estado islâmico” é islâmico: Muito islâmico.»

Para Wood, todas as decisões e leis promulgadas pelo Daesh «aderem a uma “metodologia profética”, isto é, seguem o exemplo de Maomé ao mais ínfimo pormenor». Os muçulmanos, acrescenta, «podem rejeitar o “estado islâmico”; quase todos o fazem», mas não podem «fingir que este grupo não é religioso». 

Citando Bernard Haykel, que ele descreve como «o principal especialista na teologia» do Daesh, Wood observa que muitas organizações muçulmanas, ao considerarem o Daesh “não islâmico”, padecem de «uma visão cor-de-rosa da sua própria religião», desvalorizando o que esta «exige do ponto de vista legal e histórico».

Insistir em que o Daesh «distorce» as escrituras do Islão «é absurdo e só se compreende por ignorância intencional», diz Haykel a Wood. 

«As pessoas querem absolver o Islão [com] o mantra de o Islão ser uma religião de paz. […] O Islão é o que os muçulmanos fazem e como interpretam os seus textos [sagrados]. E estes textos são partilhados por todos os muçulmanos sunitas», não apenas o Daesh – que «tem tanta legitimidade como os outros.»

Para Haykel, professor americano de origem libanesa na Universidade de Princeton, os combatentes do Daesh «são reminiscências autênticas do Islão original e reproduzem fielmente as normas da guerra» definidas no Alcorão. «Escravatura, crucificação e decapitação são métodos da tradição medieval adormecidos há centenas de anos que os jiadistas fizeram reviver.» O que mais surpreende, acrescenta, «não é apenas o seu literalismo, mas a seriedade com que lêem esses textos».

Os argumentos de Graeme Wood e Bernard Haykel mereceram uma crítica dura (The Phony Islam of ISIS) de Caner K. Dagli, professor de Estudos Religiosos no Jesuit College of the Holy Cross, em Worcester (Massachusetts, EUA), co-autor de uma extraordinária obra de tradução e comentário do Alcorão, The Study Quran

A interpretação que o Daesh faz da religião «não é literal, nem séria», mas sim «estreita, rígida e exclusivista», sublinhou Dagli. A sua «metodologia profética» não passa da prática de «escolher o que lhe convém e desprezar o que não lhe interessa», ignorando séculos de exegese por parte de juristas e teólogos – sunitas e xiitas.

Religião e civilização

Embora relacionados, o “Islão” que corresponde à Cristandade (a civilização) distingue-se do “Islão” que corresponde ao Cristianismo (a religião), uma distinção que, recomenda Dagli, também deve ser feita quando se usam os termos “islâmico” e “não islâmico”. Os muçulmanos para quem o Daesh é “não islâmico” não negam que os combatentes do grupo sejam “muçulmanos”.

«Pense nesta afirmação: os nazis são ocidentais», diz Dagli, académico de ascendência circassiana nascido na América, à Além-Mar, em entrevista por correio electrónico. «De um ponto de vista, é uma afirmação inegável: os nacional-socialistas [de Hitler] não vieram da Mongólia. Mas se eu afirmar: “Os nazis são muito ocidentais” (como Wood disse, que o Daesh é muito islâmico), então as pessoas percebem imediatamente a distinção. O primeiro uso de “ocidental” ou “islâmico” é uma descrição geográfica/civilizacional, o segundo é um julgamento de valor sobre a melhor e a pior expressão de uma civilização.»

Quando perguntamos o que o Daesh pensaria de Study Quran – uma obra de cinco autores e quase 2000 páginas, «ecuménica sem ceder às agendas do liberalismo secular», que demorou uma década a produzir e incorpora várias tradições proféticas (hadith) –, Caner K. Dagli responde: «Tenho a certeza de que, para eles, não tem qualquer interesse.»

Na interpretação que o grupo de Baghdadi faz das escrituras, «o problema está no facto de eles acreditarem em todas as noções rígidas dos textos sagrados, acreditarem que deve ser óbvio para todos que a leitura que eles fazem é a correcta, e que quem não concorda com eles só pode ser estúpido ou demoníaco.»

«Esta é a marca de todos os fundamentalistas (políticos, religiosos, ideológicos), que, de modo geral, não compreendem que outros possam, em boa-fé, olhar para as mesmas fontes de autoridade e chegar a uma conclusão diferente», lamenta Dagli. «Felizmente que o mundo cultural intelectual islâmico, na sua maioria, sempre foi capaz de tolerar uma pluralidade de ideias e ver nessa variedade uma força e não uma fraqueza.»

«Nem todos percebem que os maníacos que enchem as fileiras do “estado islâmico” têm por vezes zero conhecimento religioso e só se interessam por uma gloriosa violência para sua própria exaltação, encontrando na ideologia deste grupo uma justificação pronta a usar para matar sem limites.»

A doutrina wahhabita

Alguns analistas dizem que é impossível entender «a mente do estado islâmico» sem perceber a história do wahhabismo, a doutrina puritana e castradora do teólogo Muhammad ibn ‘Abd al-Wahhab, que, em 1774, firmou um pacto político-religioso com Muhammad ibn Saud, ajudando-o a estabelecer o primeiro Estado saudita, o Emirado de Diriyah. Uma doutrina que se mantém no reino actual.

Wahhab, tal como Baghdadi, intimava os fiéis a jurar lealdade a um único líder muçulmano. Os desobedientes seriam mortos, as suas mulheres violadas, os seus bens confiscados. Também ele era um takfiri, o que excomunga e mata os “apóstatas”. Foi ele quem reintroduziu a ideia de “martírio em nome da jihad”, garantindo aos suicidas “entrada imediata no paraíso”.

«É verdade que, quanto às suas crenças em relação aos não muçulmanos e até a outros muçulmanos (como os xiitas), os wahhabitas na Arábia Saudita e os salafitas, em geral, têm bastantes conceitos nocivos em comum», admite Caner K. Dagli. «Mas não basta perguntar o que liga as posições de ambos em termos de violência. Também devemos questionar a razão por que, em muitos casos, elas não conduzem à violência.» 

«É conveniente para as potências ocidentais centrarem-se em questões ideológicas, porque isso desvia a atenção do facto de a existência do Daesh ser impossível sem a destruição do Iraque.» Em todo o caso, reconhece, é verdade que «alguns destacados líderes religiosos sauditas não sabem como lidar com o facto de grupos como o “estado islâmico” se basearem em textos considerados normativos do sistema wahhabita do seu reino». 

Foi na Arábia Saudita que nasceu Osama bin Laden, o fundador da Al-Qaeda (“A Rede”) e mentor do jordano Abu Musab al-Zarqawi, “pai” do Daesh, ambos assassinados por forças americanas. Embora um e outro fizessem parte do movimento salafita-jiadista global, o ‘estado islâmico’ liderado agora pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi rapidamente suplantou a casa-mãe, que passou a ser dirigida pelo egípcio Ayman al-Zawahiri.

Al-Qaeda: divisões e fusões

Desde 2014, quando cortaram relações, devido a divergências inconciliáveis na luta pela supremacia [ver caixa], que o Daesh e a Al-Qaeda Central se digladiam numa guerra civil de carácter regional, tribal, étnica e nacionalista. 

«Os grupos jiadistas estão constantemente a dividir-se e a fundir-se, voltando a dividir-se e a fundir-se», atenta Jessica Stern que, em ISIS: The State of Terror, dedica um capítulo inteiro à rivalidade entre Baghdadi e Zawahiri. «Eles competem por dinheiro, combatentes e atenção, mas também colaboram ocasionalmente.»

«O Daesh emergiu de uma cisão na Al-Qaeda no Iraque e é possível que volte a integrar a Al-Qaeda Central», indica a investigadora americana. «O “estado islâmico” continuou a extraordinária brutalidade e violência antixiita da predecessora, Al-Qaeda no Iraque [AQI]; embora a Al-Qaeda Central evite este tipo de crueldade em que o Daesh se especializou, ambos continuam a ser organizações implacáveis, e ambos aprendem com a concorrência.»

Embora o Daesh olhe o mundo de forma totalitária e niilista, Jessica Stern garante que «não representa ameaça existencial para qualquer país ocidental». E explica porquê: «Há 79 Estados numa coligação contra o “estado islâmico”. Mesmo com dezenas de milhares de seguidores, [este grupo] constitui, para o Ocidente, uma ameaça psicológica mais do que militar. É provável que continue a expandir-se em países com governos fracos, em democracias iliberais ou incompletas, em guerras civis sectárias. São estes os factores de risco conhecidos na propagação de grupos terroristas.»

E será possível algum dia negociar com o Daesh como os EUA estão a fazer com os Talibãs no Afeganistão? «É provável que alguma entidade venha, numa determinada altura, a negociar com Baghdadi, mas quase seguramente nenhum Estado ocidental.»

Os desafios futuros

Desmantelado o “califado”, um dos grandes desafios para os Estados na Europa cujos cidadãos se juntaram ao Daesh será decidir o que fazer com os que regressam, em particular com as mulheres e filhos desses mujahedin – a maioria vítimas, mas alguns também perpetradores de crimes de guerra. 

Dos mais de 42 mil combatentes estrangeiros do Daesh, cerca de 5000 eram europeus. Destes, aproximadamente 30% regressaram a casa e outros 14% terão sido mortos, informa Colin P. Clarke no seu livro After the Caliphate.

«Esta é uma questão extremamente difícil de responder», afirma Jessica Stern, que ajudou a organizar os primeiros programas de desradicalização, reabilitação e reintegração de terroristas, cuja eficácia ainda não foi possível avaliar. «Há riscos significativos, seja qual for o modo que os países escolham lidar com a situação. Se eu tivesse de tomar uma decisão, ela dependeria do número de operacionais e do seu perfil de ameaça.» 

Entre Junho de 2014 e Junho de 2017, foram cometidos 32 ataques jiadistas na Europa, dos quais 17 só em França. Entre Junho de 2017 e Junho de 2018, houve mais uma dúzia. 

«Seria miopia minimizar o significado da ideologia islamista» do Daesh, «porque o salafismo-jiadismo se tornou um poderoso movimento social, uma marca popular e duradoura que veio para ficar e ganhar mais adeptos», escreve o académico libanês Fawaz A. Gerges em ISIS: A History. Em sua opinião, para «proteger o sagrado da manipulação política e o Estado da manipulação religiosa», o objectivo deveria ser «uma separação formal da mesquita e do Estado». 

Será possível este processo histórico?, perguntamos a Caner K. Dagli. «Porquê este apelo, agora? É esta a questão», responde. «De modo geral, as pessoas preferem olhar para factores dentro do Islão, sem tentar compreender 1400 anos de civilização islâmica. O nível do discurso sobre ideologia e violência no mundo islâmico tende a ser caricato. Imagine alguém a tentar explicar o conflito na Irlanda do Norte com base na ideologia católica ou protestante e a leitura dos respectivos textos sagrados.»

«A discussão sobre o mundo muçulmano está muitas vezes a este nível, porque, e esta é a principal razão, os intelectuais ocidentais tentam evitar a discussão sobre o papel desempenhado pelo domínio ocidental no mundo de maioria muçulmana e os efeitos das guerras.»

«Qualquer proposta de explicar o “estado islâmico” ou os Talibãs que não comece na destruição das sociedades do Iraque e do Afeganistão por uma invasão armada não é séria, e deve ser ignorada», esclarece Dagli.

«Imaginem a América a ser invadida e ocupada durante vinte ou trinta anos, ter o seu exército dissolvido, a sua sociedade civil destruída, a sua economia de rastos, uma grande parte da sua população deslocada, e depois receber lições de potências estrangeiras sobre o papel da religião na sociedade e o apelo do Cristianismo radical.»

«Eu diria: deixem as pessoas em paz e, então, se a sua incapacidade para “separar mesquita e Estado” ainda continuar a causar problemas, então terão o direito de dizerem alguma coisa. Além disso, quem é que nomeou o Ocidente árbitro do que o mundo muçulmano deve ou não fazer com as suas sociedades?» 

Apesar de tudo, reconhece Dagli, «não há dúvida que o mundo muçulmano tem muitos problemas que são internos e não são responsabilidade de potências externas – afinal de contas, o wahhabismo na Arábia Saudita nada tem que ver com o imperialismo ocidental.»

Margarida Santos Lopes, jornalista
Revista Além-Mar, Junho 2019

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Questa voce è stata pubblicata il 10/07/2019 da in Atualidade social, PORTUGUÊS con tag .

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