COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

–– Sito di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA –– Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa A missionary look on the life of the world and the church –– VIDA y MISIÓN – VIE et MISSION – VIDA e MISSÃO ––

Cartas da missão (2)

Cartas desde a missão no Togo (1989-1993)


young fr joao in togo sp2


Adidogome (Lomé, Togo), Natal de 1989

Caros amigos,

Eis-nos de novo às portas do Natal! Os dias passam velozes, as semanas e os meses voam!… E sempre a mesma sensação de ser continuamente ultrapassado pelo tempo! Aproveito mais uma vez da ocasião do Natal para vos escrever e pôr em dia a correspondência.

Nesta altura as nossas cidades da Europa encontram-se todas enfeitadas, convidando a gente para as compras do Natal. Também aqui começam a aparecer tímidos sinais nas ruas principais da capital, mas o ambiente que nos rodeia é bastante diferente, naturalmente. E quando digo diferente não penso só ao calor insuportável destes dias de harmatan que chega até nós do deserto do Sahara e que nos faz sonhar com o frio ou a neve das nossas terras. Penso sobretudo aos sinais dum outro Natal completamente diverso, o da miséria de tanta gente que nos rodeia e que nos faz lembrar a humildade e pobreza do nascimento de Jesus no presépio de Belém.

Para mim será o quarto Natal por terras de África, e este ano será a ADIDOGOME, bairro periférico da cidade de Lomé, capital do Togo. Na verdade é desde Junho que me encontro numa nova comunidade. Deixei a minha missão de Liati (Gana) com o coração a chorar. Quando se começa a conhecer a gente e a travar amizades partir é doloroso, mas isto faz parte da vida do missionário. Fui destinado ao nosso seminário-postulantado de Adidogome como formador. Aqui se encontram 14 jovens de vinte e tal anos, provenientes do Togo, Gana, Benim e Costa do Marfim, que se preparam para se tornarem sacerdotes combonianos.

Somos dois padres. O meu colega é o P. Jerónimo Miante, italiano. Além da formação dos seminaristas foi-nos confiada a responsabilidade da paróquia de Adidogome, consagrada a “Maria, Mãe do Redentor”. A população deve rondar os 50.000 habitantes, mas a grande maioria é ainda pagã. A igreja foi inaugurada em Abril e agora, pouco a pouco, andamos a construir a sacristia e a dotar a igreja de tudo o necessário. Depois haverá que pensar aos salões paroquiais… Entretanto as aldeias secundárias reclamam também um pouco de atenção: quem pede a construção ou reparação da capela, quem um sino, quem uma sala para os encontros… Não há mãos a medir! Vai-se fazendo o que se pode, com a ajuda dos amigos e benfeitores e, naturalmente, com a colaboração da população local, que procuramos sensibilizar em primeiro lugar, de maneira a que sintam que é obra deles e fruto do suor e trabalho deles.

Pouco a pouco a Igreja vai nascendo e crescendo no meio deste povo. A influência da religião tradicional (vodu) é ainda muito forte. Há semanas, numa aldeia aqui perto, foi encontrado o cadáver dum rapaz que, de regresso da escola, foi apanhado por desconhecidos que lhe cortaram a cabeça e outros órgãos do corpo (destinados a cerimónias pagãs!), para depois desaparecerem. De vez em quando sucedem ainda coisas destas, mesmo às portas da capital. Ninguém vê, ninguém fala. O medo da vingança é mais forte. O medo mantém esta gente escrava. É o medo ainda que faz esta pobre gente gastar por vezes os poucos tostões que possuem para comprar um “gri-gri”, um amuleto para se protegerem (!) contra infortúnios e maus-olhados!

No campo social, encontramo-nos empenhados particularmente no ensino: temos uma escola católica, aqui no centro da missão, com mais de mil alunos (três grupos escolares, com seis classes cada um). Andamos ainda a completar o edifício (mais um quebra-cabeças!).

Entre a formação dos seminaristas e o trabalho da paróquia já podeis imaginar que não nos resta muito tempo livre. Graças a Deus (e às vossas orações!), ultimamente tenho andado bem de saúde. Agradeço-Lhe também a vossa amizade e apoio que nos dão ânimo e coragem nos momentos mais difíceis (também os há!).

Um sincero “muito obrigado” a quanto colaboraram ma compra da estátua de Nossa Senhora de Fátima que me enviaram para Liati, e que se encontra já num “santuário mariano” situado sobre um monte, para velar sobre toda a missão (e a recordar a passagem dum missionário português por aquelas terras!). Eventuais ofertas, seja para o sustentamento dos nossos seminaristas, seja para as obras em curso na missão, é melhor que sejam enviadas à nossa Procura das Missões em Lisboa, com a indicação que me sejam enviadas para o Togo.

Resta-me desejar-vos um SANTO E FELIZ NATAL. Que o Senhor encontre o nosso coração aberto para O acolher neste Natal na pessoa do nosso irmão mais necessitado.

Um grande abraço do amigo
P. Manuel João Pereira Correia


Dzogbegan (Togo) Páscoa 1990

Estimados amigos,

O aproximar-se da Páscoa do Senhor oferece-me uma oportunidade para vos escrever e enviar-vos uma curta mensagem de BOAS-FESTAS.

Para nós cristãos a Páscoa é a festa mais importante do ano litúrgico, porque nela celebramos a mistério central da nossa Fé: a ressurreição de Nosso senhor Jesus Cristo! É esta a Boa-Nova que nós missionários anunciamos pelo mundo fora. A ela consagramos todas as nossas capacidades e energias, toda a nossa existência. A vocação missionária da Igreja nasceu no dia de Páscoa.

Escrevo-vos desde Dzogbegan, um mosteiro beneditino situado no norte da nossa diocese de Lomé, onde me encontro com os nossos seminaristas para passar uns dias de retiro em preparação à Páscoa do Senhor. Aqui, na paz e sossego deste lugar de oração, lembrei-me de vós junto do Senhor e pensei enviar-vos esta breve saudação amiga. A tarefa da formação dos seminaristas e a sobrecarga de trabalho pastoral próprio do tempo de Quaresma, especialmente a preparação dos catecúmenos para o baptismo, têm-me impedido de escrever pessoalmente a cada um de vós, como seria meu desejo.

Em breve penso ir de férias (mês de Julho) e talvez tenhamos a oportunidade de nos encontrarmos para partilhar convosco um pouco desta minha experiência missionária. A fins de Setembro estarei de volta, se Deus quiser, para continuar o meu serviço missionário aqui, em Adidogome (Lomé-Togo).

Votos duma santa e feliz Páscoa! Que a paz e alegria do Ressuscitado encha os nossos corações!

Um abraço do amigo
P. Manuel João P. Correia


Adidogome (Lomé, Togo), Natal 1990

Queridos amigos,

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Deus ama”: é o hino que os anjos cantam, celebrando a alegria do nascimento do nosso Salvador. A Igreja junta a sua voz à deles para aclamar o Senhor e invocar a paz sobre os homens. E nós missionários tentamos levar a mensagem natalícia a todos os povos para que em todas as línguas se possa cantar. GLORIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS QUE DEUS AMA!

Aproveito, mais uma vez, da época de Natal para saudar os amigos e dar algumas notícias.

Depois do período de férias, aqui me encontro de novo no nosso Postulantado de Adidogome (Lomé – Togo) para continuar o meu trabalho de formador dos nossos seminaristas combonianos e também de pároco. Este ano os nossos postulantes são catorze, vindos dos três países desta zona ocidental da África onde nós combonianos estamos presentes: Togo. Gana, Benim. Comigo encontra-se o P. Maximino de Almeida, colega português. Juntos procuramos levar para a frente o trabalho do seminário e da paróquia.

O número de cristãos aumenta continuamente (temos presentemente mais de 700 catecúmenos que se preparam para o baptismo), o que exige de nós cada mais tempo e disponibilidade. A título de exemplo, no ano passado celebrávamos uma só missa no centro. Este ano tivemos que começar a celebrar uma segunda para os jovens, e agora, devido ao grande número de crianças, vamos ter que celebrar uma terceira para as crianças. Além disso, vamos abrir uma nova comunidade numa aldeia, o que aumentará para cinco o número de comunidades que teremos de seguir.

Como é bem verdade o que dizia o Senhor: “A messe é grande mas os operário são poucos”! Quanto bem se poderia fazer, se houvesse mais missionários! As pessoas estão abertas à mensagem cristã, estão sedentas de Deus. Só que, muitas vezes, devido à falta de missionários que anunciem a Boa Nova, estas pessoas acabam por ir beber nas águas insalubres dos charcos de toda a classe de seitas que proliferam por todo o lado, valendo-se da ignorância da gente. É uma situação que nos faz sofrer continuamente.

Uma outra preocupação nossa são as obras paroquiais. Graças a Deus, terminámos a igreja e a sacristia. Agora tencionamos começar a construção dos salões paroquiais, aqui no centro e noutra aldeia. As respectivas comunidades cristãs andam atarefadas a “inventar” possíveis fontes de receita para colaborar no financiamento das obras. As pessoas são generosas, não obstante a situação de pobreza em que vivem. Não hesitam a dar do pouco que têm.

Pensamos também terminar o edifício da escola primária católica para poder receber 1.500 alunos no próximo ano lectivo. Isto para não falar doutros “sonhos”!…. Boa vontade e confiança na Providência e… nos amigos não faltam! E quanto ao resto, Deus dirá!

Termino desejando a todos os amigos um SANTO NATAL. Que a celebração deste mistério aumente a nossa fé em Deus-Amor e fortaleça os nossos laços de fraternidade.

Um abraço do amigo
P. Manuel João Pereira Correia


Adidogome (Lomé, Togo), 21 de Junho 1991

Caros amigos,

Várias pessoas me têm escrito – admiradas com o meu longo silêncio – a perguntar se eu ainda estou vivo!… Realmente, desta vez exagerei. É já desde o Natal que praticamente não escrevo a ninguém. Uma pessoa amiga dizia-me que contava já com isso: pela experiência tida com outros colegas missionários, ela tinha-se dado conta que os missionários que regressam à missão para um segundo período de trabalho deixam de escrever. Porquê? Talvez porque o trabalho nos absorve completamente, ou ainda porque as novidades deixam de ser tais, ou então… por simples descuido! Seja o que for, conto com a vossa compreensão e, se for o caso, com o vosso perdão!…

Quero aproveitar desta “ocasião de graça” que é o regresso a Portugal, de férias, do meu colega P. Maximino para enviar um abraço a todos os amigos e para lhes agradecer as orações que fazem por mim. Elas estão a ser ouvidas: nunca mais tive problemas de saúde, embora ultimamente os mosquitos (causadores da malária) nos tenham atacado duma maneira nunca vista! Continuem a rezar, não só por mim (não quero ser egoísta!) mas também por este país que está a viver um momento muito delicado. Na próxima semana vai começar uma “conferência nacional” para discutir o futuro da nação. É desde o mês de Outubro que se tem vivido numa situação de incerteza, greves, confrontações violentas, mortes e desaparecimentos de pessoas. O governo aceitou agora, finalmente, de respeitar a vontade popular mas o futuro ainda é incerto. Aliás, toda a África se encontra em ebulição. Deus queira que seja para o bem destes povos, sedentos de paz e de justiça social!

Aqui em Adidogome, onde me encontro, a vida vai decorrendo normalmente, com as suas pequenas alegrias e tristezas de cada dia. A nossa comunidade cristã continua a crescer e o número de “capelas” a aumentar. No domingo passado houve a confirmação de 180 jovens. Tivemos também a alegria de celebrar o sacramento do matrimónio duma dúzia de casais que se preparavam há alguns meses para o receber. O casamento é o grande problema que nós encontramos aqui no nosso trabalho pastoral. As pessoas têm medo de se comprometer por causa da poligamia dos homens (ter várias mulheres é um sinal de virilidade, poder e riqueza!) e da instabilidade da vida conjugal. E as crianças são as que pagam as consequências: abandonadas, especialmente pelo pai, crescem sabe Deus como, sem o apoio de que necessitariam para um desenvolvimento normal da personalidade.

Além do edifício espiritual que é a comunidade cristã, temos que pensar também aos edifícios materiais para a acolher. Aqui no centro da paróquia estamos a construir um edifício com cinco salas paroquiais para as reuniões dos vários grupos e para o catecismo, e noutra aldeia um outro com três salas e sacristia. Tudo isto graças à ajuda dos cristãos da Europa, mas os de aqui também colaboram generosamente, não obstante as dificuldades cada vez maiores que eles encontram para obter “o pão nosso de cada dia”!…

Os nossos seminaristas estão prestes a ir de férias (talvez já se tenham esquecido que a nossa missão é também seminário!). Cinco deles, no fim de Julho, partirão para o noviciado, no Zaire. É um sinal da bênção de Deus no nosso trabalho de formação. Rezai por eles também!

E fico-me por aqui. Termino enviando um grande abraço de muita amizade e de muita gratidão para todos vocês, amigos e familiares, que colaborais connosco nesta obra missionária da Igreja. Que o senhor vos abençoe!

O amigo
P. Manuel João


Adidogome (Lomé, Togo), 21 de Maio 1992

Estimados amigos,

Queria escrever-vos antes da Páscoa mas as actividades pastorais não mo permitiram. Faço-o agora, atrasado mais ainda em período pascal e, por conseguinte, a tempo de vos desejar a Paz e a Alegria de Jesus ressuscitado! Que todos nós possamos experimentar a vida nova que Ele veio comunicar aos homens.

Por aqui nós continuamos o nosso trabalho normalmente. Este ano já abrimos seis novas comunidades e pensamos abrir uma meia dúzia mais até fins do ano. Acabo de vir duma aldeia: Kleme Agokpanou. Visitei o chefe, um velho do tempo dos alemães (que colonizaram o Togo até à primeira guerra mundial) para pedir que nos deixe fundar uma nova comunidade cristã na sua aldeia. Acolheu-nos muito bem e prometeu-nos falar com os anciães para nos encontrar um terreno.

Para este trabalho apostólico procuramos interessar os grupos das comunidades mais velhas. Cada um encarrega-se de criar uma nova comunidade numa aldeia vizinha. Dificuldades não faltam, naturalmente. Agora teremos que pensar à construção de algumas “capelas” provisórias para estas novas comunidades. Para isso contamos com a colaboração generosa dos nossos amigos.

O Senhor não nos falta com a sua assistência e protecção. Ainda há apenas duas ou três semanas o pude experimentar. Estava eu de visita a uma aldeia para ver uma escola que a população tinha construído e que eu tinha prometido ajudar a cobrir com folhas de zinco. Quando eu dava a volta ao edifício para calcular o número de folhas de zinco necessário para o telhado, não reparei num grande e profundo buraco que eles tinham feito para obter o barro para a construção. Caí dentro do buraco mas de maneira tal que nem uma arranhadela me fiz. As pessoas ficaram admiradas (e eu também!). O anjo da guarda fez bem o seu dever!…

O nosso trabalho com os seminaristas continua bem. Nos fins de Julho irei acompanhar um grupo de dez novos noviços ao Zaire. É lá que se encontra o noviciado comboniano para a África ocidental. No dia 25 de Julho será ordenado o primeiro sacerdote comboniano togolês. São os primeiros frutos do trabalho de animação missionária que temos vindo a fazer aqui a partir de 1981, ano da celebração do centenário da morte de Daniel Comboni, nosso Fundador.

Várias pessoas me perguntam sobre a situação social e política do país. Actualmente o Togo é dirigido por um governo provisório que deveria preparar as eleições. O caminho da democracia tem-se revelado difícil e o futuro, por enquanto, é bastante incerto. Nós continuamos a rezar e a convidar as pessoas à reconciliação, alimentando a esperança duma transição para a democracia feita na paz e na concórdia nacional. Contamos também com a vossa oração!

Termino desejando a todos a bênção de Deus.

Um grande abraço do amigo
P. Manuel João


Adidogome (Lomé, Togo), 1.12.1992

Caros amigos,

O NATAL, com a sua mensagem de Paz e Amor, faz-nos recordar, duma maneira especial, a família e os amigos, e eu quero aproveitar esta ocasião para vos escrever e partilhar convosco um pouco da minha vida missionária.

GLORIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS QUE DEUS AMA! É com esta aclamação dos anjos que eu desejaria começar esta minha carta. Ela tem uma significação toda especial no contexto da situação política e social que este país (Togo) está vivendo.

Neste momento vamos já na quarta semana de greve geral decretada pela oposição contra o actual regime, que faz “orelhas moucas” às justas reclamações do povo, que deseja uma sociedade mais justa e fraterna. Não sabemos qual será o desfecho desta prova de força entre o antigo regime e o movimento democrático. Entretanto o povo sofre. Muitas pessoas começam a vir bater-nos à porta: têm fome! Estamos a tentar organizar-nos em vista desta situação de emergência, para tentar ajudar os mais desfavorecidos. Como será o nosso Natal?! Rezai por nós e por este povo para que Deus possa encontrar os “homens de boa vontade” dispostos a acolher o dom da Sua Paz! Os nossos cristãos também não se cansam de rezar por esta intenção: a toda a hora e momento há gente a rezar na igreja!…

Quanto a nós prosseguimos o nosso trabalho missionário com entusiasmo. Graças a Deus (e à vossa oração!), a saúde não me tem faltado. Continuo com a responsabilidade do seminário (postulantado comboniano) e da paróquia. Este ano, porém, dois novos colegas (P. Fabio e P. Roberto), italianos, foram destinados à nossa comunidade, um provisoriamente para aprender a língua local, o outro para colaborar connosco na formação e na pastoral.

O trabalho, entretanto, não pára de aumentar. Continuamos a fundar novas comunidades cristãs para ocupar todos os pontos estratégicos da região. De três comunidades que havia há três anos quando aqui cheguei, passámos já a dezasseis. Esta manhã mesmo fui pedir um terreno a um chefe para abrir uma nova comunidade cristã. No próximo domingo vamos lá começar uma campanha de evangelização. Amanhã irei ver o chefe duma outra aldeia. Lá as Testemunhas de Jeová anteciparam-se e fazem de tudo para impedir que nos implantemos na aldeia!…

O nosso trabalho não é fácil. A religião tradicional está profundamente enraizada no coração deste povo e a conversão à fé cristã é fruto dum longo processo que exige tempo e paciência. A superstição, o medo dos tabus escravizam a alma deste povo!

Esta manhã enviei o nosso cozinheiro Koku visitar uma aldeia onde tencionamos começar uma nova comunidade. Acaba de me contar que o chefe é acusado de ter assassinado uma pessoa que desaparecera há dias. Parece que não é a primeira vez que é acusado de semelhante crime. Foi com pouco entusiasmo que me decidi a abrir uma comunidade naquela aldeia. Uma das razões era precisamente a má impressão que o chefe me dera e que poderia comprometer a nossa acção. Koku comentava, pelo contrário, que este crime e a má fama de que goza a aldeia era mais uma razão para lá ir anunciar o Evangelho. Sabedoria e fé dos simples!

Alegrias e tristezas convivem no dia-a-dia do missionário. Ainda há pouco tempo, no domingo de Cristo Rei, numa nova comunidade que acabámos de abrir, uma rapariguinha de sete anos morreu atropelada ao atravessar a estrada, à saída da celebração dominical. Quando vieram comunicar a triste notícia fui imediatamente visitar a família, mesmo se era já noite. Foi com o coração cheio de tristeza e em sobressalto que entrei naquela casa (ainda por cima nos perdemos à sua procura!). Como nos iriam receber? Dentro de mim eu queixava-me com Deus: Porquê permitiste esta desgraça, Senhor? Eu lamentava a sorte da pequena Adzotoa mas temia também as consequências deste facto para a vida desta jovem comunidade nascente. Os pagãos iriam comentar que era um aviso do Vodu (divindade pagã) para todos aqueles que se tornassem cristãos! Mas a família (pagã) recebeu-me muito bem e pediu que eu mesmo viesse enterrar a pequenita. A mãe, em lágrimas, pediu-me que rezasse por ela “para que o seu coração se apaziguasse”!

Regressando a casa, eu pensava naquelas palavras de Jesus ao bom ladrão, do texto do evangelho desse mesmo dia: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso!”. O Senhor me fez compreender que essas palavras tinham sido dirigidas a Adzotoa, a quem eu dei o nome de Cecília, a santa que o calendário litúrgico comemorava nesse dia, 22 de Outubro. A pequena Adzotoa-Cecília intercede agora no céu pelos seus irmãos da comunique de Apedokoe e pela sua aldeia, que bem precisa. Ainda há dias mataram lá três homens (degolados e queimados!), acusados de terem assassinado um rapaz e de lhe terem amputado membros do corpo para usar em ritos pagãos!…

Uma outra preocupação nossa é dotar as comunidades cristãs dum lugar de culto. Para isso tive que tornar-me… mestre-de-obras! E devo confessar que até lhe ganhei um certo gosto! Devo tê-lo herdado do meu pai, certamente. No dia 18 de Outubro inaugurámos uma capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Santo Antonio ainda a disputou também, mas foi Nossa senhora que venceu. Penso que Santo Antonio não ficou zangado com Ela, tanto mais que lhe prometi que, se ele nos ajudasse, não nos esqueceríamos dele numa próxima ocasião!

Na véspera da bênção da capela, quando preparava a homilia, veio-me a curiosidade de ir ver em que dia eu tinha celebrado a primeira missa de abertura daquela comunidade. E qual não foi a minha surpresa ao ver que fora precisamente no domingo 12 de Maio do ano passado, no dia em que o Papa se dirigira a Fátima para aí rezar com cerca dum milhão de peregrinos. Um feliz acaso ou um sinal de que Ela mesma escolhera esta comunidade?

Neste momento estamos a construir duas novas capelas (de 20 metros de comprimento por 9 de largura). Vamos lá ver se conseguimos termina-las. Faltam-nos os meios necessários! Esperamos que a Providência venha em nossa ajuda! Uma das capelas será dedicada a S. José e a outra a Santo António! Veio-me a ideia de vos convidar a lançar uma campanha nas vossas paróquias, dirigida especialmente aos “Josés” e aos “Antónios”, para nos ajudarem a terminar estas capelas! Perdoai-me a ousadia!…

Esta carta já vai demasiado longa. Termino desejando-vos a todos um SANTO E FELIZ NATAL. Rezai por nós e pela paz deste país!

Com muita amizade,
P. Manuel João Pereira Correia


Lomé (Togo), 10.3.1993

Estimados amigos,

Escrevo-vos esta carta em pleno tempo de Quaresma. Com o olhar fixo em Jesus que caminha à sua frente qual novo Moisés, toda a Igreja, o novo Israel, se encontra em marcha em direcção à Páscoa. Nós, Igreja do Togo, estamos a viver esta Quaresma num contexto muito particular: há quatro meses que a população se encontra em greve geral, como forma extrema de luta para reclamar a democratização d país. Aqui a Páscoa é esperada não só como libertação espiritual mas também como libertação da opressão e da violência dos “faraós” que escravizam este povo. Entretanto a população sofre, especialmente por falta de alimento. Estamos a tentar ajudar, na medida do possível, em colaboração com a Caritas.

Centenas de milhares de pessoas abandonaram o país para ir refugiar-se nos países vizinhos, no Gana e no Benim em particular. Na sua visita ao Benim, no dia 3 de Fevereiro, o Papa dizia, dirigindo-se aos muitos milhares de togoleses vindos para o ver: “Quero manifestar toda a minha simpatia e afeição aos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, aos catequistas e aos fiéis do Togo e, através dos que se encontram aqui, a todos os togoleses. Neste momento estais a passar por grandes dificuldades. Neste momento de prova, eu continuo a rezar para que Deus dê a paz ao vosso povo. A violência e o desprezo pelas aspirações legítimas dos cidadãos nunca conduziram ao progresso cívico e social”. Deus escutará o grito do seu povo!

Quanto a mim, estes sãos os últimos meses que passo nas missões. Os superiores destinaram-me a trabalhar em Roma, a partir do 1 de Julho, como secretário geral da formação no instituto comboniano. O peso desta nova responsabilidade, confesso-vos, assusta-me bastante. Além disso, dizer adeus à missão por alguns anos não é fácil! Por isso confio muito na vossa oração!…

Agradeço ao Senhor esta graça que me deu de poder partilhar sete anos da minha vida com este povo. Foram anos bonitos, não obstante as dificuldades encontradas e as minhas póprias fraquezas.

Caros amigos, termino desejando-vos uma Páscoa muito feliz. Que a Paz de Jesus ressuscitado, a Paz que Ele oferece aos seus amigos, inunde os nossos corfações e renove toda a nossa vida!

Com amizade,
P. Manuel João Pereira Correia

P.S. Caros amigos,

Afinal de contas esta carta, que eu escrevera para vos desejar uma santa Páscoa, não chegou a partir na devida altura, um pouco por causa da greve, um pouco por descuido meu.

Esta é a última vez que vos escrevo desde a minha missão no Togo. Dentro de alguns dias (30 de Junho) partirei para Roma e de lá seguirei para o México em vista do meu futuro trabalho de secretário-geral da formação e da promoção vocacional do Instituto Comboniano.

Tenho vivido muito intensamente estes últimos meses de missão, procurando levar a bom termo alguns projectos que tinha concebido (criação de novas comunidades cristãs nos pontos estratégicos da região e construção de algumas capelas), não obstante a situação socio-política de muita tensão.

Do 11 de Agosto ao 10 de Setembro estarei de férias em Portugal para rever os amigos e repousar um pouco antes de começar o meu novo trabalho ao serviço da Direcção Geral do nosso Instituto, em Roma. Até lá, um grande abraço de muita amizade.

Annunci

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google photo

Stai commentando usando il tuo account Google. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

Questo sito utilizza Akismet per ridurre lo spam. Scopri come vengono elaborati i dati derivati dai commenti.

Informazione

Questa voce è stata pubblicata il 20/08/2019 da in Cantinho pessoal, PORTUGUÊS con tag .

  • 327.374 visite
Follow COMBONIANUM – Spiritualità e Missione on WordPress.com

Inserisci il tuo indirizzo email per seguire questo blog e ricevere notifiche di nuovi messaggi via e-mail.

Segui assieme ad altri 734 follower

San Daniele Comboni (1831-1881)

COMBONIANUM

Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
combonianum@gmail.com

Disclaimer

Questo blog non rappresenta una testata giornalistica. Immagini, foto e testi sono spesso scaricati da Internet, pertanto chi si ritenesse leso nel diritto d’autore potrà contattare il curatore del blog, che provvederà all’immediata rimozione del materiale oggetto di controversia. Grazie.

Categorie

%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: