COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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Cartas da missão (1)

Cartas desde a missão no Togo e no Gana (1986-1989)


Numa capela de Liati, VR, Ghana, 1987


Lomé (Togo), Outubro 1986

Caros amigos,

Estou a escrever-vos finalmente desde a África, mais concretamente de Lomé, capital do Togo, onde cheguei há três semanas, com alguns dias de atraso sobre a data prevista. É que, precisamente nas vésperas da minha viagem Paris-Lomé, houve uma tentativa de golpe de estado no Togo (23 de Setembro). O aeroporto de Lomé foi encerrado temporariamente e em todo o país foi instaurado o recolher obrigatório (ainda em vigor). É uma primeira experiência da situação de instabilidade política que se vive em muitos países africanos!

Depois de alguns dias de espera em Paris, no dia 30 de Setembro pisava, pela primeira vez, solo africano. A viagem foi agradável, não obstante um “sobressalto” ao embarcarmos: um passageiro não compareceu no avião, depois de ter registado a sua bagagem, o que fez levantar suspeitas de bomba. Depois de duas horas de espera para detectar a bagagem suspeita, lá partimos finalmente.

Deixar a Europa e depois de poucas horas de voo encontrar-se em África é sempre uma experiência “chocante”: entra-se realmente noutro mundo! Tudo nos parece diferente. Falar de “primeiras impressões” resulta, por conseguinte, difícil. Elas são muitas e, por vezes, contrastantes. Acho mais prudente ir observando. Com humildade e paciência há que submeter-se a um lento processo de adaptação: ao clima, à comida, a outras condições de vida, a outros costumes e mentalidades. É o caminho por onde é forçoso passar para entrar no mundo daqueles que passam a ser o “nosso” povo!

Ficamos impressionados ao ver a pobreza em que vive a maioria da população, em contínua luta pela sobrevivência, mas mais impressionados ficamos ainda ao ver o optimismo das pessoas. O carácter jovial do africano é ainda mais forte que as contrariedades da vida. O sorriso não desaparece dos seus lábios. Ficamos impressionados ao ver que os cristãos são ainda uma minoria de 10% num ambiente predominantemente pagão, mas ficamos mais impressionados ainda ao ver a riqueza da sensibilidade religiosa deles; ao ver o entusiasmo das suas celebrações e o espírito apostólico que os anima!

Em Lomé eu deveria ficar apenas alguns dias, o tempo estritamente necessário para tratar da documentação para ir para o Gana, concretamente para a missão de Abor, onde trabalhou o padre José Augusto. Infelizmente, porém, a fronteira entre o Togo e o Gana encontra-se fechada, desde a tentativa de golpe de estado. È que o Togo acusa o Gana de ter apoiado os rebeldes. De maneira que não tenho outro remédio senão aguardar pacientemente! Saber esperar é uma virtude fundamental aqui em África!

Entretanto aproveitei para visitar as seis missões combonianas no Togo, todas elas no Sul (diocese de Lomé), relativamente bastante perto umas das outras. É uma zona densamente povoada, com uma média de 80.000 habitantes por missão, dos quais apenas dez por cento são cristãos. Comecei por Vogan, onde ainda se recordam do Irmão Humberto e vários me perguntaram quando é que ele regressa. Depois fui uma semana a Afanya, onde encontrei o P. António Maria, com a sua boa disposição de sempre. Acompanhando-o pelas aldeias, às escolas e capelas, pude contactar directamente com a gente e tomar consciência do trabalho realizado pelos nossos missionários, seja no campo da promoção humana como espiritual. De Afanya demos também um salto a Kouvé para visitar o padre Francisco Matos Dias. E presentemente encontro-me em Togoville, uma missão-santuário, nas margens do lago Togo, e aqui tudo me lembra o Irmão Alfredo do Rosário, que deu início a vários projectos de promoção humana destas populações.

Ver, por um lado, o trabalho que gerações de missionários realizaram antes de nós e, por outro, o muito que ainda resta por fazer, faz-me vir à mente quanto dizia Comboni: “O missionário deve considerar-se como um indivíduo despercebido no meio de operários que esperam os resultados não tanto da sua obra pessoal quanto de um conjunto de obras misteriosamente dirigidas e transformadas pela Providência!”.

Estou contente, apesar das dificuldades iniciais de adaptação, e agradeço ao Senhor pela vocação missionária que me concedeu. A vós agradeço-vos a vossa oração e amizade!

P. Manuel João


Afanya (Togo), Natal 1986

Caros amigos,

Foi no dia 30 de Setembro que pisei, pela primeira vez, solo africano, em Lomé, capital do Togo, uma semana depois duma tentativa de golpe de estado, que me obrigara a adiar por alguns dias a viagem. Em Lomé respirava-se ainda um ambiente de “alerta geral”, com “recolher obrigatório” e frequentes rusgas nas estradas. Apesar disso foi com alegria que vivi este meu primeiro encontro com África: era a realização dum “sonho” de há muitos anos!…

Os Missionários Combonianos presentes nesta zona da África trabalham em três países vizinhos: no Togo (sede central), no Gana e no Benin. Estava previsto eu ir para o Gana, mas por causa da situação política, a fronteira foi fechada, de modo que não há outro remédio senão esperar!… Aproveitei para visitar as nossas missões do Togo e para estudar os usos e costumes deste povo.

Presentemente encontro-me na nossa missão de AFANYA, uma missão com 75.000 habitantes, dos quais só 5.250 são baptizados (7%). Possivelmente irei cá ficar até Junho do próximo ano, para fazer o curso de introdução à língua local, o ewé. Em Afanya vim encontrar o P. António Oliveira, com quem já trabalhara em Coimbra. Tenho vindo a visitar com ele as vinte e tantas comunidades e capelas da missão, dispersas numa área de 500 km2.

Afanya é uma missão de muita actividade. Além do trabalho pastoral há diversos projectos de promoção humana: oficinas de aprendizagem (carpintaria, construção civil, arte); um “projecto poços” (dotar todas as aldeias da missão com um poço); um projecto em favor de leprosos (proporcionar aos leprosos da zona uma habitação condigna). Há ainda um hospital católico, dirigido pelos Irmãos de S. João de Deus, e uma casa para educação de raparigas, orientada por Irmãs, para além de várias escolas católicas, disseminadas pelas diversas aldeias da missão. Creio que esta missão será para mim uma boa introdução ao trabalho missionário!

Em conclusão, devo dizer-vos que estou contente e que agradeço a Deus por esta oportunidade de poder viver a minha vocação missionária no meio deste povo. É claro que há dificuldades: a dureza do clima tropical (muito quente húmido); a dificuldade da língua local, o ewé; o paganismo muito arreigado (esta é a zona do “vodú”, feiticismo) que muito dificulta o nosso apostolado… mas Deus vai dando também força e o entusiasmo para as enfrentar!

Resta-me desejar-vos um FELIZ NATAL! Na minha oração quotidiana os meus familiares, amigos e benfeitores têm sempre um lugar de destaque Sei que também rezais por mim e por isso vos agradeço de coração.

Um abraço do amigo
P. Manuel João


Afanya (Togo), Páscoa de 1987

Caros amigos,
Que a Paz do Ressuscitado inunde os nosso corações!

Aproveito esta ocasião da Páscoa do Senhor para entrar de novo em contacto convosco. Esta minha carta deseja ser um sinal da amizade que me une aos amigos, vencendo as barreiras da distância que nos separa!

Há seis meses que pisei, pela primeira vez, terra africana. Como o tempo passa!… Tenho ainda bem presentes as emoções desse primeiro momento: a alegria da chegada, o misto de curiosidade e ansiedade ao entrar num mundo diverso… mas sobretudo a confiança no Senhor que me enviara!…

Cá continuo provisoriamente na missão de Afanya (Togo) com o meu colega P. António Oliveira. Penso que só em Julho poderei partir para a missão do Gana, a que estou destinado, e que amo desde já, embora ainda a não tenha visitado (a fronteira com o Gana continua fechada!).

A minha preocupação principal de momento é o estudo da língua local. De duas em duas semanas desloco-me a uma missão vizinha, Togoville, a uns 50 Km para uma semana de estudo intenso da língua com um professor local. Somos apenas três: um irmão missionário comboniano italiano (Ir. Alfio), um outro canadiano dos Irmãos do Sagrado Coração (Ir. André) e eu. Vamos encorajando-nos mutuamente! A língua, muito difícil, é uma verdadeira ‘cruz’!…

As minhas impressões depois de seis meses? Estou contente e animado e continuo ‘resistindo’ bem à dureza do clima. Que dizer ‘desta’ África? Não pensem em “animais ferozes” ou coisas do género!… Os únicos animais que aqui encontramos são as cabras e a s galinhas, que vagueiam livres por todo o lado, obrigando-nos a fazer autênticas acrobacias quando atravessamos as aldeias. E os “esquadrões” de insectos que nos assaltam periodicamente na época das chuvas!… Ah, esquecia-me da enorme cobra pitão que há tempos encontrei atravessada no caminho, ao regressar da aldeia, à noite. Não pude evitar de parar para admirar de perto este pacífico animal de que me tinham falado com tanto respeito porque é considerado por cá “animal sagrado”!

O Togo, embora país pequeno e sem grandes recursos, conhece uma certa prosperidade e progresso, que nos impressiona logo à chegada. O índice de alfabetização é dos mais elevados da África. Encontramos escolas em todas as aldeias.

A Igreja encontra-se já bastante bem implantada, embora os católicos sejam a penas 20% da população. Há bastantes sinais de vitalidade desta Igreja jovem, que se prepara para celebrar o seu I centenário em 1992. O Espírito do Senhor está trabalhando no coração desta gentes. Alguns exemplos? Agboka Yaovi, leproso e pagão (melhor dito catecúmeno) que está a preparar um grupo de catecúmenos na sua aldeia e outro na aldeia vizinha, ao mesmo tempo que se prepara ele mesmo para o baptismo; ou os pagãos de Hedome que, mobilizados pelo único cristão da aldeia, decidem construir uma capela!…

É claro que nem tudo são rosas! Não faltam também os contrastes: oportunismo, lassidão de costumes entre os cristãos, abandono da prática religiosa… Mas o obstáculo principal à evangelização talvez seja o feiticismo, muito arreigado. Ainda agora me custa a crer no que me contou um catequista duma aldeia vizinha: um feiticeiro fez enterrar vivo um jovem que sofria de epilepsia, prometendo ressuscitá-lo curado! É claro que quando foram desenterrá-lo, dias depois, se morto estava, bem morto ficou, não obstante todas as “cerimónias” do charlatão. Deitou as culpas à família: que não cumpria exactamente as instruções dadas, que chorara durante o enterramento, etc. Novos sacrifícios de cabras e galinhas, novas cerimónias e a “ressurreição” foi adiada para mais tarde. Conclusão: o feiticeiro foi parar à prisão e o morto viu a sua ressurreição adiada “sine die” para o Juízo Final!…

O medo tolhe o espírito deste povo: o medo da vingança do “vodu” (feitiço), se não lhe satisfazem os caprichos; o medo incutido pelos feiticeiros, que não hesitam a recorrer ao envenenamento, por vezes, para tornar mais convincentes as suas ameaças….

Já podeis imaginar como é urgente anunciar o Evangelho para libertar este povo da escravidão do medo e da superstição. É o que tentamos fazer nós missionários, e para isso contamos com o vosso apoio e oração!

Que o Senhor Ressuscitado, que enviou os Seus Apóstolos pelo mundo a anunciar a Boa Nova, vos conceda de participar da Sua Paz e do seu anseio apostólico de salvar todos os homens.

UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA!

Um abraço do amigo
P. Manuel João Pereira Correia


Liati (Gana), Advento 1987

Caros amigos,

Aproveito, mais uma vez, da proximidade da Festa do Natal para vos escrever a comunciar-vos que, desde Julho, me encontro finalmente na missão de LIATI, no Gana, para onde os meus superiores me tinham destinado.

Aberta que foi a fronteira do Togo com o Gana, o meu colega P. Eugénio Petrogalli veio buscar-me. Liati fica a 150 Km da costa e muito perto da fronteira com o Togo. Na estrada que, partindo de Lomé, percorremos em direcção ao norte, costeando a fronteira com o Gana, deparámos inúmeras barreiras da polícia e de militares. Devido à tentativa de golpe de estado do ano passado, que partiu precisamente do Gana, esta estrada fronteiriça é particularmente vigiada. Ao verem o nosso carro com matrícula do Gana mandavam-nos parar mas ao verem que éramos sacerdotes saudavam-nos cordialmente e faziam-nos sinal para prosseguir.

Chegámos a Liati ao entardecer e, apesar da chuva impertinente (estávamos na estação das chuvas), os responsáveis da comunidade cristã vieram dar-me as boas-vindas à maneira tradicional. Bebemos juntos o vinho de palma, depois de eles terem invocado Mawu (Deus) e os antepassados, pedindo que abençoassem a minha estadia no meio deles. A mesma oração fiz eu ao entrar pela primeira vez na velha igreja e ao visitar a “gruta” de Nossa senhora, escavada no tronco dum enorme baobab.

As primeiras semanas foram para conhecer a missão. O ambiente natural, de montes e florestas (que a mão do homem, porém, vai pouco a pouco destruindo!) é encantador. A paróquia, fundada em 1928, é uma das maiores e mais antigas da diocese. Calculamos que haja umas 50.000 pessoas, dispersas numa extensão de 500 Km2. A maior parte da gente é já baptizada mas muitos são protestantes. No passado parece que houve bastantes problemas entre católicos e protestantes mas hoje existe um bom relacionamento, como eu pude constatar algumas vezes. Há umas semanas atrás, quando eu atravessava uma povoação, o carro enterrou-se-me na lama quase em frente da capela onde a comunidade protestante estava reunida. Qual não foi a minha surpresa ao ver o pastor protestante interromper o serviço litúrgico dominical para convidar a gente a vir ajudar-me a empurrar o carro!… O esmo já se não pode dizer das inúmeras seitas que surgem por todo o lado semeando desorientação!

As nossas comunidades/capelas são 35. Em geral podemos alcança-las de carro (embora na estação das chuvas, por vezes, isso se torne uma autêntica aventura, devido aos atoleiros e riachos). Algumas comunidades ficam situadas nos montes e temos que caminhar algumas horas para lá chegarmos É um bom exercício físico!… Por todo o lado as pessoas acolhem-nos muito bem e estimam-nos muito.

Além do trabalho pastoral temos também que cuidar do dispensário da missão, onde diariamente um grupo de enfermeiras assiste os doentes vindos de toda a zona; da escola profissional, frequentada por 150 jovens; das escolas católicas e outros projectos de promoção humana. De maneira que não temos mãos a medir!…

Estou contente e agradeço ao Senhor a missão que me confiou. Isto não quer dizer que tudo sejam consolações e alegrias. As cruzes também não faltam. Nem sempre se depara com acolhimento e gratidão. Há também quem procura estorvar a nossa acção, como aquele que… nos matou nove porcos (com vossa licença!), envenenando uns, ferindo outros! A cruz faz parte da vida missionária. Já dizia o nosso Fundador Daniel Comboni: “As obras de Deus nascem e crescem à sombra da cruz”!…

Depois de quase um ano de “resistência”, a malária veio bater-me à porta, e o pior é que não quer deixar-me!… Tive que ir parar ao hospital de Afanya (na missão onde eu estivera precedentemente, no Togo). Agora estou melhor, o apetite voltou e estou a tentar recuperar alguns dos quilos que perdi. Como vedes, o nosso “inimigo número um” continua a ser o mosquito, responsável da transmissão da malária. Isto não quer dizer que já me tenha familiarizado com outra “bicharada”, como as cobras! Há tempos uma veio visitar o nosso galinheiro matando-nos dois patos mas teve a gentileza de os deixar para nós os comermos. Afinal de contas, o animal mais simpático acaba por ser… a galinha a cozinhar na panela!

Não quero cansar-vos mais. Termino desejando-vos um SANTO E FELIZ NATAL e pedindo-vos que rezeis por nós missionários, a fim de que o Senhor nos dê a graça de O anunciarmos com a nosso palavra mas sobretudo com o testemunho da nossa vida. E lembrai-vos que ainda não será Natal para muita gente!…

Um abraço do amigo
P. Manuel João Pereira Correia


Liati (Gana), Natal 1987

QUE NOS TROUXESTE?

Caros amigos,

Estou a escrever-vos desde o Gana. Concretamente de LIATI, uma antiga missão situada numa bonita zona de colinas e florestas no sudeste do Gana, confiante com o Togo. Aqui Deus me colocou para viver a minha fé com um novo povo que passei a considerar também meu.

Venho partilhar convosco estas primeiras experiências e impressões da “minha” missão. Faço-o por um dever de amizade e porque sei que comungais do mesmo ideal missionário que me anima. Não é sem um certo esforço que se toma a caneta na mão, seja porque o trabalho pastoral é demasiado absorvente, seja porque a realidade que vivemos, e que ao princípio nos surpreende, se torna pouco a pouco “vida ordinária”, perde a sua novidade e deixa de constituir “notícia” aos nossos olhos.

Cheguei a Liati em Julho, depois de alguns meses de estadia no Togo, que aproveitei para o estudo da língua local, na expectativa da abertura da fronteira do Gana.

Recordo ainda muito bem o simpático acolhimento que me reservaram à minha chegada a Liati, em sintonia com a proverbial hospitalidade africana. Woe zo! Woe zo! Bem-vindo! Que significa literalmente: És tu que caminhaste!, ou seja, és tu que te deste ao trabalho de te pores a caminho para nos vires visitar! E era bem verdade, no meu caso, como dos meus colegas aliás. Não tanto pela viagem de alguns milhares de Km, de Portugal a Liati, mas sobretudo enquanto era a meta da “viagem” da minha vida, da minha vocação, um longo caminho, com tantas dificuldades e obstáculos a superar!

A celebrar a minha chegada, juntámo-nos para beber o tradicional vinho de palma, uma bebida obtida por fermentação da seiva da palmeira. Dei-me conta imediatamente que beber o “deha” (assim se chama esta bebida) não é uma simples ocasião de convívio. É um rito com as suas cerimónias e regras. Um dos anciãos, com grande solenidade, versando por três vezes no chão um pouco de vinho de palma, fez a libação invocando Deus e os antepassados, pedindo para mim uma feliz estadia no meio deles.

Depois, sem pressas, um a um bebemos o vinho de palma, servido num recipiente próprio, constituído por uma cabaça redonda cortada ao meio. Nos discursos que se seguiram, um ancião da comunidade cristã recordou-me que a minha primeira atitude deveria ser a de observar e aprender: “Lembra-te que já cá estávamos nós antes de tu cá chegares!”. Disse-lhes que era com uma atitude de criança que queria começar a minha vida no meio deles e pedia-lhes que me fizessem de “pais”. Deles teria que aprender muita coisa: a língua, os costumes, as tradições… Eles sorriram satisfeitos. De aí a pouco o catequista veio discretamente dizer-me que cruzar os pés como eu estava fazendo era sinal de indelicadeza!… Tinham realmente tomado a sério o que eu acabava de lhes dizer!…

Na visita às 35 comunidades da paróquia encontrei sempre o mesmo caloroso e simpático acolhimento. Eu procurava observar tudo: a gente, como vestem, como se relacionam, como vivem… Eu observava a simplicidade e pobreza das capelas, construídas em barro e palha, à maneira tradicional, ou em tijolo feito no local, sem portas e sem janelas, de muros nus e com simples tábuas assentes em tijolos a servirem de bancos; e como sinais religiosos, uma mesa a servir de altar e um pequeno crucifixo pregado na parede. Tudo muito simples, reduzido ao mínimo indispensável, como os meios de subsistência de que eles dispõem. Não há lugar para o supérfluo quando há que lutar para obter o essencial. O meu colega P. Eugénio, explicava-me que se trata duma opção de metodologia missionária, de caminhar com eles e ao passo deles, convidando-os a construir a capela com os próprios meios e segundo as possibilidades de que dispõem, em vez de lhes construirmos nós mesmos uma bonita capela com a ajuda dos nosso amigos de Europa.

E a vivência religiosa? O cristianismo nesta região tem já uma certa tradição, que em breve se tornará secular. Chamar “trõsubola” (pagão) a uma pessoa é quase uma ofensa. A maioria é já baptizada, na Igreja Católica, numa confissão protestante, ou… numa das numerosas seitas que surgem por todo o lado! A graça vai trabalhando no coração desta gente mas não podemos pretender milagres. Momentos de entusiasmo e exuberância religiosa por ocasião de festa, se alternam com momentos de apatia e indiferença na vida quotidiana. De certo modo a fé ainda não penetrou em muitos sectores da existência. A inculturação da fé cristã na vida e mentalidade da gente é um processo muito lento, que está ainda nos seus inícios.

Apesar dos limites e da pobreza de meios, estas comunidades estão dando sinais de maturidade cristã. Sob a orientação dos catequistas e do comité da capela, cada comunidade se reúne regularmente para o serviço litúrgico dominical. Quantas das nossas comunidades em Portugal estariam preparadas para caminhar sem a assistência continua do sacerdote? Somos apenas dois sacerdotes para 35 comunidades. Os verdadeiros protagonistas da missão são os catequistas. Munidos da Bíblia (que manejam com certa desenvoltura!) e do “Dzifomo” (“Caminho do céu”, o manual tradicional de orações e cânticos, compilado pelos primeiros missionários alemães), eles são as autênticas colunas da comunidade. Por isso, à preparação dos catequistas dedicamos a maior parte do nosso tempo e das nossas energias. Temos um encontro semanal com eles para a preparação da liturgia dominical e um curso mensal de formação.

Uma última coisa queria dizer-vos. Nestes “primeiros passos” na vida de missão acabo de descobrir que tenho “tornar-me criança”, sim mas criança… astuta, perspicaz e, por vezes, também… manhosa!, para não me deixar instrumentalizar e para permanecer fiel à minha vocação de anunciador do Evangelho. Eu explico-me. Há tempos, um dos responsáveis da comunidade cristã (depois de ter bebido um pouco!) veio dizer-me: “Estamos contentes que tu tenhas vindo viver no meio de nós mas… que nos trouxeste?”. Eu caí das nuvens! Era a mentalidade materialista, interesseira que se manifestava (in vino veritas!) e que pretenderia fazer de nós missionários simples “agentes do progresso”. Respondi-lhe então: “Trouxe-te o que tinha de mais precioso: a minha vida!”. E Deus se encarregaria de que estas palavras não fossem retóricas. Estou-o experimentando nestes últimos meses através da doença que, embora roubando-me as forças físicas necessárias para o apostolado, me recorda qual é o preço da missão: a doação da própria vida!

Tudo isto veio ajudar-me a viver dum modo diverso este meu segundo Natal na missão. Natal como mistério dum Deus que não encontrou modo melhor para mostrar o seu amor aos homens que “trazer-se a si mesmo!” Com a sua pobreza desiludiu alguns (os que esperavam um messias temporal) mas enriqueceu a outros: “Àqueles que O acolheram Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus” (S. João 1,12).

P. Manuel João P. Correia


Liati (Gana), 6 de Dezembro de 1988

Estimados amigos,

O NATAL está às portas! É o calendário que mo recorda, pois com este calor que nos faz transpirar continuamente e sem a mudança de estações a que estávamos habituados em Europa, quase nem nos damos conta do tempo passar! Mas a verdade é que o tempo voa… e eu já vou chegar atrasado com esta minha saudação natalícia!

Cá continuo na minha missão de LIATI (Gana) mas, a partir de Junho passado, com dois novos colegas: P. Lino e P. Luís, ambos combonianos italianos. Deixa-me que vo-los apresente. O P. Lino é o veterano e superior da comunidade, com 32 anos de África, primeiro na Uganda, depois no Togo e agora no Gana. O P. Luis veio doutra missão do sul. Com 11 anos de África, diz que Deus lhe prometeu 50, de maneira que espera continuar por cá ainda outros 39 anos!… O P. Luis é mais vulgarmente conhecido como “adelá”, o caçador!… Entendamo-nos bem: “caçador de homens”, antes de mais; mas nos momentos vagos tenta também caçar algum animal que tenha o azar de lhe aparecer pelo caminho! (Aliás, não faziam os Apóstolos algo de semelhante? Entre caçar e pescar não é grande a diferença!…). Esta é a minha comunidade. Somos os três bastante diversos em idade e temperamento mas procuramos imitar, na medida do possível, a unidade e o amor da… Santíssima Trindade!

O nosso trabalho principal é a assistência religiosa às comunidades cristãs, o que exige de nós muita paciência, devo confessar. A maioria da população da nossa paróquia é já baptizada (protestantes ou católicos) mas infelizmente os costumes e tradições são ainda profundamente pagãos. Para mais, a comunidade cristã é ameaçada por uma proliferação enorme de seitas que semeiam divisão e desorientação entre os cristãos e, a longo andar, indiferença e descrédito em relação a Cristo e à Sua Igreja. Só para dar uma ideia: em Xoxoe, uma pequena cidade que fica aqui perto de nós, existem 60 seitas, cada uma das quais pretende ser a verdadeira igreja de Jesus Cristo!

A nossa vida quotidiana decorre normalmente, sem muito de particular a assinalar. Isto não quer dizer que, de vez em quando, não aconteça alguma!… Como quando, há tempos, fiquei com a Land-Rover imersa no meio dum riacho, para regozijo duns amigos italianos de visita à nossa missão, que, depois do susto inicial, se divertiram a filmar a “aventura”. Eu é que não me diverti lá muito!… Ou quando acontece, ao atravessar a floresta, de pisar inadvertidamente as formigas carnívoras!… Aprendi por experiência própria a temê-las mais do que as serpentes!

A vida missionária reserva-nos um pouco de tudo mas é bonita, se vivida com fé e confiança no Senhor, que nos garantiu a sua assistência: “Eu estarei sempre convosco!” Há umas semanas atrás, em viagem em direcção a uma comunidade situada nos montes, encontrei o caminho esbarrado com uma enorme árvore que caíra durante a noite. Lá me lamentei com o meu anjo da guarda, resignado a dar meia-volta e tentar um longo giro por outro lado. Estava eu a procurar um sítio para virar o carro quando apareceu um homem com um machado que veio livrar-me de apuros. Cortados que foram alguns ramos da árvore, eu lá consegui passar por baixo dela e continuar a viagem, agradecendo a Deus este pequeno sinal da sua assistência, e o homem lá se foi ao seu campo, contente por ter sido útil ao padre!

Em Janeiro de 1989, nós combonianos celebramos o 25º aniversário da nossa presença nesta parte de África. Será uma ocasião de agradecimento a Deus por quanto tem feito através da nossa pobreza. Um obrigado também a vós, amigos, pela vossa oração e colaboração nesta obra missionária da Igreja!

Termino esta minha conversa convosco, desejando-vos um SANTO E FELIZ NATAL!

Um abraço do amigo
P. Manuel João P. Correia

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Questa voce è stata pubblicata il 20/08/2019 da in Cantinho pessoal, PORTUGUÊS con tag .

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Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
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