COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

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Natal do Senhor (A)

Natal do Senhor


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Viver na manjedoura
Missa do Galo

Queridos irmãs e irmãos,
Por várias vezes nas leituras que hoje proclamamos, no profeta Isaías, no Evangelho de S. Lucas, se fala da luz, do aparecimento de uma luz. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, os pastores que apascentavam na noite, no desamparo dos campos foram de repente cercados pela luz. A própria liturgia multiplica as luzes. Hoje é de facto a noite luminosa, a noite que se faz clarão, a noite que se faz caminho que brilha, a noite brilhante. O brilho desta noite, a luz desta noite para que é que serve? Serve para nos vermos melhor, serve para olharmos para a nossa vida, para a nossa humanidade, para a nossa carne à luz do Menino do Presépio.

Esta luz traz um novo entendimento, uma nova compreensão do que é a vida. E é interessante porque há duas palavras que aparecem no texto de Isaías que nos servem como programa de celebração do Natal. O profeta diz: “Senhor, Tu multiplicaste a sua alegria.” Hoje, irmãos, nós não fazemos apenas contas de somar, sentimos que a vida se multiplica. Sentimos que Deus passa pela nossa vida e deixamos de ser o que eramos apenas, de contar com aquilo que trazíamos. Hoje nós valemos mais, hoje a nossa humanidade vale mais. A humanidade de cada um, a humanidade pura, a humanidade nua. A humanidade vale mais porque ela está investida desta multiplicação de vida que o próprio Deus nos trás. Por isso, é também uma luz nova sobre o valor da nossa humanidade.

Mas, ao mesmo tempo, esta nova compreensão faz-nos deixar para trás a lógica da guerra, a lógica da beligerância. Porque se diz: todo o calçado da guerra, todo o vestido, todas as gramáticas, todo o vocabulário que serviu para falar de violência, de hostilidade, de guerra tudo isso é para ser queimado, tudo isso é para ser deixado para trás. E, nesta noite, nós renascemos. Nós renascemos com olhos novos, mas também precisamos de palavras novas, de gramáticas novas, de modos diferentes, de modos inéditos de dizer a vida, de a cantar, de a perceber profundamente. Porque há um antes e um depois de Jesus Cristo, que não tem apenas a ver com a data, 2017 anos depois do acontecimento de Belém. Há um antes e depois que tem a ver com a compreensão, com o olhar que nós dedicamos à própria vida. Os pastores estavam como nós, no meio da noite, e foram cercados de luz. E o Anjo disse-lhes: “Não temais, anuncio-vos uma grande alegria que o será para todo o Povo.”

Queridos irmãs e irmãos, nós não estamos a celebrar o Natal do Senhor apenas como um facto que interessa aos cristãos. Não é apenas uma coisa nossa, uma coisa para nós. Esta boa notícia é uma notícia universal, é uma notícia para chegar a todos. É-nos confiada uma notícia que deve ir muito para lá destas paredes, que deve ir muito para lá do círculo da nossa família, dos nossos amigos. Nós somos investidos de uma missão que é fazer chegar a todos a boa nova de que hoje nasceu um Salvador. É uma palavra com uma força e uma precisão impressionantes, que quase nos fazem estremecer: “Hoje nasceu-vos um Salvador.” Poder dizer isto, poder primeiro aceitar esta verdade no fundo do meu coração: hoje nasceu para mim um Salvador. E poder contagiar, poder contaminar, poder alargar o horizonte da história com esta verdade que é a verdade transformadora, a verdade que salva. Porque aquele Menino, aquele Filho que nos foi dado transporta para nós a salvação.

É belo pensarmos como é que esta salvação se manifesta. Eu penso que de duas maneiras, que têm a ver com as leituras que hoje nós lemos e com a liturgia. Hoje, quando rezarmos o Credo, nós vamos ajoelhar-nos, ou genufletir um joelho, quando rezarmos: e Se fez carne, “Encarnou no seio da Virgem Maria e Se fez homem”. E se fez um de nós. Então, nós não estamos sós. E a nossa humanidade é o lugar da habitação de Deus – a nossa vida frágil, a nossa vida pequenina, a nossa vida impreparada, a nossa vida incompleta. A nossa vida que porventura até não nos satisfaz, a nossa vida esgotada, a nossa vida cansada, a nossa vida inconclusa, a nossa vida é o lugar de Deus, é a tenda de Deus, é a morada de Deus e de toda a Humanidade. Por isso, nós cristãos somos servos da humanidade, temos de cantar a beleza da humanidade, a inteireza da humanidade. De todo o Homem. E sobretudo das humanidades feridas. Da humanidade dos últimos, da humanidade daqueles que ficam para trás, daqueles que não têm voz nem vez, da humanidade sofrida, da humanidade subtraída, dos excluídos, dos descartados. Nós só temos a humanidade para poder tatear o rosto de Deus, é na humanidade que nós encontramos o divino. Por isso, a humanidade é o bem mais precioso, a humanidade para nós é o lugar de Deus, o rosto de Deus. Esse espaço onde Ele resplende.

Por isso, temos de nos comprometer na afirmação da humanidade, no serviço à humanidade, no cuidado, na atenção, no abraço à humanidade dos outros. Construindo, como diz o Papa Francisco, uma cultura do encontro, uma cultura da valorização do humano e não uma cultura do descarte.

Queridos irmãs e irmãos, na noite de Natal nós juntamo-nos, fazemos o esforço para que as famílias se reúnam, sejam alargadas. Isso é muito belo, porque é a humanidade mais próxima de nós. A humanidade dos nossos irmãos, da nossa família e estamos juntos. Mas, não nos esqueçamos que nós somos servos e somos irmãos de toda a humanidade. E que esta boa nova, não é apenas uma boa nova para os nossos, é uma boa nova para todos. Por isso, somos servos de uma humanidade que transcende os nossos limites, transcende o nosso apelido, transcende a nossa casa, transcende a nossa mesa. E é essa vigilância que a partir desta noite nós somos chamados a ter.

“Isto vos servirá de sinal, encontrareis uma criança deitada numa manjedoura.” É um sinal estranho este que nossa Senhora nos dá quando ela dá à luz o seu filho e o coloca numa manjedoura. É um sinal estranho porque a manjedoura é um sítio impuro, não é um sítio onde se coloque um bebé. A manjedoura é o lugar onde comem os animais, é o gamelão, é um sítio confuso, é um sítio difícil. Mas, Ele é colocado precisamente na manjedoura porque Ele vem para todos, Ele vem abraçar todos. Por isso, nós abeiramo-nos desta noite, nós abeiramo-nos do Presépio e sentimos que todos cabemos no abraço de Jesus. Nenhuma vida é excluída, o Senhor não desperdiça nada, não diz: Tu não pertences. Todos Lhe pertencemos, todos estamos no Seu projeto, todos estamos no Seu coração.

Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai ser pão para a fome do mundo. Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai ser pão partido para uma vida nova, para a construção de um mundo novo. Ele é colocado na manjedoura porque Ele vai aceitar a condição de ser dom, de ser oferta, de ser alimento para os outros, de alimentar todas as fomes. A fome de sentido, a fome de razão de viver, a fome de verdade, a fome de consolação. Ele é colocado na manjedoura por mim, por cada um de nós que nos abeiramos desta noite famintos. Mesmo se vindo de uma ceia de Natal abundante – estes são dias também de abundância – o nosso coração é faminto. Tantas vezes nós estamos a ganir de fome, a gemer de fome, de uma fome que o pão não consola, de uma fome de significado, de uma fome de presença, de uma fome de infinito, de uma fome que não é a matéria que cura mas é essa força espiritual capaz de responder às inquietações profundas do nosso coração, da nossa alma. Hoje é o dia em que Ele Se faz alimento para nós e nos ensina que a vida só faz sentido quando nós aceitamos viver na manjedoura. Isto é, quando nós aceitamos que a nossa vida é também para ser distribuída, para ser gasta, para ser dada, para ser repartida, para ser oferecida como alimento para muitos, como boa nova para todos.

Por isso, queridos irmãos, esta é a noite que vence o nosso egoísmo, esta é a noite que vence o nosso temor, esta é a noite que vence a nossa ambiguidade, a nossa incerteza, a nossa indefinição. Esta é a noite que nos coloca na manjedoura e diz: Tu és pão, tu és pão. Jesus nasce em Belém, Belém quer dizer: casa do pão. Ele nasceu em Belém para ser alimento da fome do coração humano. Nós nascemos nesta Belém, que é hoje esta noite, nós fomos colocados na manjedoura para sermos pão, para sermos alimento, para fazermos da nossa vida dom à maneira Dele, seguindo os passos Dele.

Pe. José Tolentino Mendonça, Missa do Galo

Encarnou entre nós
Missa do Dia

Queridos irmãs e irmãos,
Neste dia de Natal temos o prólogo do Evangelho de S. João, este texto com uma densidade teológica, existencial que nos ajuda a descortinar o mistério da própria Encarnação do Senhor.

O que é isto que os nossos olhos veem? O que é isto que a nossa carne contempla? “No princípio era o Verbo, o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.” Este é o resumo daquilo que nós podemos olhar. E o que é que nós tocamos? Do que é que nós nos avizinhamos no mistério do Natal? Avizinhamo-nos de um Deus que Se faz carne, que toma a nossa carne, um Deus que visita a história, que a atravessa, que passa a estar entre nós, que passa a ser um de nós – a nossa carne, o nosso corpo, a nossa vida. Porque, o nosso corpo é este corpo individual que todos temos, mas é o corpo social, é a nossa história, é o corpo biográfico. O nosso corpo torna-se teomórfico. A nossa humanidade torna-se o lugar onde Deus habita, onde Deus esplende.

Então, nós temos de olhar para a nossa humanidade de outra forma, com outros olhos. No mistério da Encarnação, nós percebemos que a nossa humanidade passa a valer mais. Não apenas a minha humanidade individual, mas a humanidade passa a valer mais. Porque, Jesus vem mostrar o valor da nossa humanidade, vem dar-nos um novo olhar, uma nova compreensão daquilo que nós somos, daquilo que cada ser humano é. Vem alargar, finalmente nós podemos ver. Nós podemos ver a glória que está inscrita, que está agora tatuada na fragilidade da nossa condição humana.

Por isso, o tempo de Natal, estes dias de Natal são dias para contemplarmos. Contemplarmos a cena do presépio mas contemplarmos os presépios vivos. Uma rua da nossa cidade é um presépio vivo, as nossas casas, a nossa família é um presépio vivo. As pessoas que passam, conhecidos e desconhecidos, é um presépio vivo. Nós somos chamados a olhar para aquela humanidade que muitas vezes nos é indiferente, muitas vezes até nos agride, muitas vezes damos por desvalorizada. Somos chamados a reolhar, a rever a humanidade, agora com olhos novos, porque ela é o lugar onde está Deus.

Neste tempo do Advento e do Natal nós fizemos tantas coisas e chegamos a este dia muitas vezes até com o sentido: valeu a pena, não valeu a pena. Sentimos que investimos demasiada esperança, que caímos outra vez na armadilha do Natal. Voltei a acreditar e, de repente, este dia vai chegar ao fim. Há mais uma tarde e acaba tudo. E parece: pronto, lá caí outra vez. Porque, talvez possamos temer que o investimento de esperança, de afeto, de dádiva, de serviço, de cuidado que oferecemos nós não recebemos a troca, não vemos para que é que isto serve. Para que é que tudo isto existe, qual é o real valor de tudo isto. Será que não somos uns zombies que se contagiam uns aos outros com este espírito e que depois, no fundo, percebemos que nada disto valeu a pena. Eu penso que as palavras do prólogo de S. João nos ajudam a perceber porque é que vale a pena. Porque é que vale a pena? Porque é que vale a pena sermos dom, porque é que vale a pena até o nosso cansaço, a nossa fadiga? Porque é que vale a pena toda esta mobilização, porque é que vale a pena hoje a cidade estar vazia, porque é que vale a pena tudo isto que se cria?Porque é que vale a pena?

Vale a pena porque na nossa carne nós experimentamos uma diferença. O amor deixa-nos talvez mais cansados, talvez sem forças. O amor traz-nos a fadiga, o cuidado dos outros, a solidariedade. O pensamento dos outros mobiliza-nos, enche-nos de ocupações, muda a nossa agenda, transforma-nos. E esta modificação que cada um de nós experimenta, num custo de fadiga, de cansaço, de cuidado, de dádiva, de prestação de serviço, este custo que o Natal tem na nossa carne é a vinda de Deus. É Deus a vir ao nosso próprio corpo, à nossa própria vida. Esta espécie de desvitalização é o cavar a manjedoura dentro de nós, cavar o berço onde Deus vai nascer. Porque nós precisamos de fazer o caminho de Jesus, o caminho que Ele depois vai fazer na sua vida, porque esta história não acaba em Belém, esta história começa em Belém. E o que Ele nos ensina é a fazermos da nossa vida dom, é a darmo-nos por inteiro, é a sairmos de nós, é a não pensarmos em nós-próprios, em vivermos na alegria, na alegria do dar. Há uma infinita alegria que está no dar e não no receber, há uma infinita alegria que está no servir e não no ser servido, há uma infinita alegria em fazer-se o último, em esquecer-se de si. Há uma perfeita e infinita alegria em sermos pequeninos e ajudarmos a construir sorrisos, a sermos cúmplices dos sonhos dos outros, a realizar a alegria que os outros têm adiada. E nós dizemos: olha, hoje é o dia dessa alegria, é hoje que vais sorrir, é hoje que vais ter aquilo que sonhaste. Seja um brinquedo ingénuo, seja o que for, é a vida que está a ser partilhada, estamos a construí-la uns com os outros. Quando somos capazes de fazer isso, claro que há um custo. Mas, esse custo, que está até na nossa carne e no nosso corpo, é a forma de Deus, é a forma de Deus.

Queridos irmãs e irmãos, por isso o Natal é a festa do brilho e da abundância. Mas o Natal é a festa dos famintos, é a festa dos esfomeados, dos sedentos, daqueles que querem mais, querem mais da vida, querem outra coisa da vida, daqueles que não se conformam apenas com a rotina, com o dia-a-dia, que sentem que tem de haver um suplemento, tem de haver um plus, tem de haver alguma coisa que vá além da medida, que não seja apenas o normal, alguma coisa que nos traga o excesso, o excedente do brilho do próprio Deus, da glória do próprio Deus. Por isso, o Natal é este tempo assim desconforme, exagerado, é o tempo do desejo de Deus, é o tempo para dar espaço a essa fome e a essa sede que temos no nosso coração. Famintos de estrelas, nós que andamos colados ao chão. É tempo para sentir isso e para dar voz, dar corpo, dar lugar à expressão de tudo isso que está no nosso coração. E é assim que a nossa carne ganha a forma de Deus.

“O Verbo fez-se carne e encarnou entre nós e viveu entre nós.” É a isto, irmãos e irmãs, que temos de nos agarrar, traduzindo na nossa carne, na nossa vida, nas nossas relações, nas nossas construções a presença de Deus. Dando ao mundo a forma de Deus. Este é o programa do Natal, procuremos vivê-lo à nossa medida, à nossa dimensão com aqueles que encontrarmos, partilhando, vivendo este milagre que é este dia, mas ao mesmo tempo, tendo a capacidade de o multiplicar, de o expandir, de fazer do Natal uma surpresa que chega a quem pensava ou já não pensava que ele pudesse existir.

Pe. José Tolentino Mendonça, Natal do Senhor

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org

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Questa voce è stata pubblicata il 24/12/2019 da in O Pão do Domingo, PORTUGUÊS con tag .

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San Daniele Comboni (1831-1881)

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Combonianum è stata una pubblicazione interna nata tra gli studenti comboniani nel 1935. Ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e di patrimonio carismatico.
Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
Pereira Manuel João (MJ)
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