COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

Blog di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA – Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa MISSIONARY ONGOING FORMATION – A missionary look on the life of the world and the church

Anthony Bloom, Escola de Oração

Formação Permanente – português
Testo word FP.pt Anthony Bloom, Escola de Oração
Testo   PDF FP.pt Anthony Bloom, Escola de Oração


Anthony Bloom (1914-2003), de origem russa, é um monge e bispo metropolita da Igreja Ortodoxa Russa em Inglaterra e Irlanda,  uma grande autoridade espiritual, muito conhecido como pregador, diretor espiritual e escritor sobre oração e temas de vida cristã. Eis um livro seu sobre a oracão.


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Escola de Oração
Anthony Bloom

Conteúdo:

1. A Ausência de Deus
2. Batendo à porta
3. Caminho de interiorização
4. Como aproveitar o tempo
5. Dirigindo-se a Deus
6. Duas meditações
a. A Mãe de Deus
b. O «Staretz» Silouan1. A ausência de Deus

1. A Ausência de Deus

Uma vez que me proponho ajudar na prática inicial da oração, gostaria de deixar claro o que entendo por “aprender a orar.” Não o tentarei justificar ou explanar de um modo especulativo. Eu gostaria de mostrar a que é preciso estar atento e o que se deve fazer quando se desejar rezar. Como eu mesmo sou principiante, parto do princípio de que também vocês o são, e juntos tentaremos começar. Não me dirijo àqueles que aspiram a uma oração mística ou a mais elevados estados de perfeição, pois tais coisas aprendemo-las por nós mesmos. Quando Deus irrompe através do nosso ser ou quando nós mergulhamos em Deus, em certas circunstâncias excepcionais, porque as coisas subitamente se nos manifestam com uma profundidade que antes nunca tínhamos experimentado, ou porque repentinamente descobrimos em nós um recôndito no qual persistimos em oração e de onde esta jorra, então não há problemas de oração. Quando estamos atentos a Deus, colocamo-nos em sua presença, adoramo-lo, falamos-lhe.

Coloca-se então, desde o início, um problema verdadeiramente importante: a situação daquele para quem Deus parece estar ausente. É disso que eu gostaria de falar agora. Obviamente, não estou me referindo à ausência real de Deus — Deus nunca está realmente ausente, — mas à sensação da ausência de Deus. Estamos perante Deus, clamamos para um céu vazio, do qual não obtemos resposta. Voltamo-nos para todas as direções e não o achamos. O que devemos pensar de tal situação?

Em primeiro lugar, é muito importante lembrar que a oração é um encontro e uma relação, uma relação que é profunda. Essa relação não pode ser forçada, nem da nossa parte nem da parte de Deus. O fato de que Deus se possa fazer presente ou deixar-nos com a sensação da sua ausência, faz parte dessa relação viva e real. Se nós quiséssemos arrastá-lo ao nosso encontro, forçá-lo a vir a nós simplesmente porque escolhemos esse momento para nos encontrarmos com ele, não haveria relação nem encontro. Podemos fazer isso com uma imagem, com a imaginação ou com diversos ídolos que podemos colocar diante de nós em vez de Deus; nada semelhante podemos fazer com o Deus vivo, tal como não podemos fazê-lo com pessoa alguma. A relação deve iniciar-se e desenvolver-se em mútua liberdade. Se olharmos para o relacionamento em termos de relação mútua, veremos que Deus pode queixar-se de nós muito mais do que nós dele. Queixamo-nos de que ele não se faça presente nos poucos minutos que lhe reservamos. No entanto, o que dizer das vinte e três horas e meia, durante as quais Deus pode estar batendo à nossa porta, enquanto nós respondemos: “Estou ocupado, desculpe” ou simplesmente nada respondemos, porque nem sequer o ouvimos bater à porta do nosso coração, da nossa mente, da nossa consciência ou da nossa vida? Eis, portanto, uma situação em que não temos o direito de nos queixar da ausência de Deus, porque nós nos ausentamos dele muito mais do que ele de nós.

Em segundo lugar, é muito importante considerar que um encontro face a face com Deus é sempre, para nós, uma ocasião de julgamento. Não podemos encontrar-nos com Deus na oração, na meditação ou na contemplação, sem que sejamos salvos ou condenados. Eu não me refiro aos termos definitivos da salvação ou condenação eternas como já concedidas e recebidas, mas sim a um momento crítico, a uma crise. “Crise” vem do grego e significa “julgamento.” O encontro com Deus face a face, na oração, torna-se um momento crítico em nossas vidas. Temos de agradecer-lhe que ele nem sempre se nos apresente quando desejamos encontrá-lo, porque poderia ser que não fôssemos capazes de suportar tal encontro. Lembremos as muitas passagens da Escritura que nos mostram quanto é perigoso acharmo-nos face a face com Deus, pois Deus é poder, Deus é verdade, Deus é pureza. Portanto, o primeiro pensamento que devemos ter, quando não sentimos de modo palpável a presença de Deus, é de gratidão. Deus é misericordioso. Ele não vem de modo intempestivo. Dá-nos uma oportunidade de nos julgarmos a nós mesmos, de compreendermos, de não chegarmos à sua presença num momento em que isso pudesse significar condenação.

Gostaria de apresentar um exemplo. Há muitos anos, um homem me procurou. Pediu-me que lhe mostrasse Deus. Disse-lhe que não podia, mas acrescentei que, certamente, se eu pudesse, ele não seria capaz de vê-lo, porque pensei — e penso agora: — para encontrar Deus, é preciso que tenhamos algo em comum com ele, algo que nos dê olhos para ver, perceptibilidade para captar. Perguntou-me então por que eu pensava assim. Sugeri-lhe que refletisse alguns momentos e me dissesse se havia alguma passagem, no Evangelho, que particularmente o tocasse, para que eu descobrisse a conexão entre ele e Deus. Respondeu-me:

— Sim, no oitavo capítulo do Evangelho segundo João, a passagem que diz respeito à mulher surpreendida em adultério.

Eu lhe disse:

— Bom, esta é uma das mais belas e comoventes passagens. Agora recline-se e pergunte a si mesmo qual é o seu papel na cena descrita. Será o papel do Senhor? ou, ao menos, está do seu lado, cheio de misericórdia, de compreensão e cheio de fé para com essa mulher que pode arrepender-se e tornar-se uma nova criatura? Será o papel da mulher surpreendida em adultério? Ou será de um daqueles homens mais velhos que imediatamente se afastaram porque estavam cientes dos seus próprios pecados? ou de um dos jovens que ainda esperaram?

Pensou por alguns minutos e respondeu:

— Não, penso que sou o único judeu que não teria desertado, mas apedrejado a mulher.

Eu disse:

— Dê graças a Deus por não ter consentido que se deparasse com ele face a face.

Talvez seja esse um exemplo extremo. No entanto, em que medida poderá levar-nos a reconhecer em nós mesmos situações semelhantes? Isso não quer dizer que recusemos categoricamente a palavra de Deus ou o exemplo de Deus, mas que nós fazemos, de um modo menos violento, o que os soldados fizeram durante a Paixão. Gostaríamos de vendar os olhos de Cristo para podermos desferir livremente os nossos golpes, sem sermos vistos. Não é isso o que em certa medida fazemos quando ignoramos a presença divina e agimos segundo os nossos próprios desejos, os nossos caprichos, contrariamente a tudo o que é vontade de Deus? Tentamos cegá-lo, mas, na verdade, cegamo-nos a nós mesmos. Em tais momentos, como podemos nós chegar à sua presença? Certamente podemos, em arrependimento e pesarosos; não porém da maneira como desejávamos ser imediatamente recebidos — com amor, com amizade.

Examinemos algumas passagens do Evangelho. Gente muito mais notável do que nós hesitou em receber Cristo. Lembremos o centurião que pediu a Cristo que curasse o seu servo. Cristo disse: “Eu irei curá-lo.” Mas o centurião replicou: “Senhor, não sou digno de receber-te sob o meu teto; basta que digas uma palavra e o meu criado ficará curado.” Fazemos nós o mesmo? Voltamo-nos para Deus e lhe dizemos: “Não é preciso que me faças sentir a tua presença de modo palpável. Basta que digas uma palavra e eu serei curado.

Basta que digas uma palavra e tudo se resolverá. De nada mais preciso, no momento.” Ora, consideremos o exemplo de Pedro em sua barca, após a pesca milagrosa, caindo de joelhos e dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador.” Pede ao Senhor que deixe a sua barca, porque se sente humilde, e sente-se humilde porque subitamente compreendeu a grandeza de Jesus. Porventura é assim que nos comportamos? Quando lemos o Evangelho e a imagem de Cristo glorioso nos surge arrebatadora, quando rezamos e tomamos consciência da grandeza, da santidade de Deus, acaso dizemos: “Eu sou indigno de que ele se aproxime de mim”? E não falemos de todas as ocasiões em que deveríamos reconhecer que ele não pode vir a nós, porque não estamos para recebê-lo. Queremos dele coisas, mas a ele não queremos, de modo algum. Será isso um relacionamento? Conduzimo-nos desse modo com os amigos? Amamos nós o amigo, ou visamos aquilo que a amizade nos pode dar? Ocorre o mesmo no que diz respeito ao Senhor?

Examinemos as nossas orações, as suas e as minhas. Pensemos no calor, na profundidade e intensidade da nossa oração, quando se refere a alguém a quem estimamos ou a um assunto da nossa vida. O nosso coração está então aberto, o íntimo do nosso ser todo recolhido em oração. Quer isso dizer que, para nós, é Deus quem conta? Não, de modo algum. Revela apenas o nosso interesse por aquilo que pedimos. Quando fazemos a nossa oração apaixonante, profunda, intensa, pela pessoa que amamos ou pela situação que tememos, e subitamente esfriamos ao passarmos para outro assunto de menos interesse para nós, o que terá mudado? Foi Deus que esfriou? Foi Deus quem se retirou? Não; isso revela que toda a exaltação, toda a intensidade da nossa prece não tinha nascido da presença de Deus, da nossa fé nele, do nosso desejo dele, da nossa consciência dele; tinha nascido unicamente do nosso interesse por aquele, por aquela ou por aquilo, em vista de quem ou de que rezávamos, não por causa de Deus. Como podemos então surpreender-nos ao sentirmos a ausência de Deus? Somos nós que nos ausentamos, somos nós que esfriamos no momento em que não mais nos ocupamos de Deus. Por que? Porque ele não nos interessa muito.

Há, porém, outros motivos pelos quais Deus se torna “ausente.” Enquanto formos autênticos, verdadeiramente nós mesmos, Deus pode estar presente e pode fazer algo conosco. Entretanto, a partir do momento em que tentarmos ser aquilo que não somos, não haverá nada a fazer: nós nos tornaremos uma personalidade fictícia, uma presença irreal; e uma presença irreal não pode aproximar-se de Deus.

Para estarmos em condições de rezar, devemos estar integrados num contexto que é definido como o Reino de Deus. Devemos reconhecer que ele é Deus, que ele é Rei, devemos abandonar-nos a ele. É preciso, ao menos, estarmos interessados na sua vontade, mesmo que não nos sintamos, por ora, capazes de cumpri-la inteiramente. Mas se não o estamos, se tratamos a Deus como fez o jovem rico que, por ser muito rico, não pôde seguir a Cristo, então, como poderemos encontrar Deus? Assim, o que muitas vezes gostaríamos de possuir, o que ardentemente desejamos, através da oração, através do profundo relacionamento com Deus, é apenas algum período de felicidade. Não estamos preparados para vender tudo quanto possuímos a fim de adquirirmos a pérola preciosa. Como conseguiremos, então, essa pérola de grande preço? É ela que esperamos alcançar? Não acontece o mesmo nas relações humanas? Quando um homem e uma mulher se apaixonam, os outros não mais lhes interessam nesse sentido. Resumindo, diz um ditado antigo: “Quando alguém tem uma noiva, não mais está rodeado de homens e mulheres, mas de gente.”

Não é isso o que poderia, o que deveria acontecer com todas as nossas riquezas, quando nos voltamos para Deus? Seguramente, elas se tornariam pálidas e cinzentas, apenas um indefinido fundo contra o qual a única figura importante apareceria em relevo intenso. Nós gostaríamos apenas de um toque de azul no quadro geral da nossa vida, na qual há tantos recantos sombrios. Deus está preparado para se manter fora dela, está preparado para assumi-la completamente, como uma cruz, mas não está preparado para ser, em nossa vida, apenas uma peça

Por isso, ao pensarmos na ausência de Deus, não seria necessário perguntar-nos a nós mesmos de quem é a culpa? Responsabilizamos sempre Deus, acusamo-lo, quer diretamente, quer perante os outros, de estar ausente, de nunca estar presente quando dele precisamos, nunca responder quando a ele nos dirigimos. Por vezes tornamo-nos “piedosos” (muito piedosos, entre aspas) e dizemos piamente: “Deus está provando a minha paciência, a minha fé, a minha humildade.” Achamos mil maneiras de transformar os juízos de Deus em novas formas de elogio a nós mesmos. Somos tão pacientes que podemos até suportar Deus. Não é assim? Quando eu era jovem sacerdote, fiz um sermão — um dos muitos que preguei numa paróquia — e uma jovem veio ter comigo e me disse:

— Padre Antônio, o senhor deve ser terrivelmente mau.

Repliquei-lhe:

— Sou mau, não há dúvida. Mas, como soube disso?

Ela respondeu:

— Porque o senhor descreveu tão bem os nossos pecados, que os deve ter cometido todos!

Certamente, a chocante descrição que lhes faço agora dos maus pensamentos e das más ações diz mais respeito a mim do que a vocês; porém, talvez lhes diga também respeito, embora em menor escala.

Se queremos rezar, devemos partir da certeza de que somos pecadores, necessitados da salvação; de que estamos separados de Deus, mas não podemos viver afastados dele; de que tudo o que oferecemos a Deus é a nossa ânsia desesperada de nos comportarmos de tal modo que Deus queira receber-nos e nos acolha no arrependimento, nos acolha com benevolência e com amor. E assim, desde o início, a oração preparatória é verdadeiramente a nossa humilde ascensão para Deus, um momento em que nos voltamos para ele, temerosos de nos aproximarmos, pois sabemos que, se o encontrarmos demasiadamente cedo, antes que a sua graça nos tenha podido ajudar a preparar o encontro, acontecerá o julgamento. E tudo o que podemos fazer é voltar-nos para ele com toda a reverência, toda a veneração e suprema adoração, com todo o amor de Deus de que formos capazes, com toda a atenção e seriedade ao nosso alcance, e pedir-lhe que faça algo conosco que nos permita encontrá-lo, face a face, não para o julgamento nem para a condenação, mas para a vida eterna.

Gostaria de lembrar, aqui, a parábola do fariseu e do publicano. Chega o publicano e se coloca no fundo da igreja. Ele se sente condenado, sabe que, em termos de justiça, nenhuma esperança lhe resta porque é um estranho ao Reino de Deus, Reino da eqüidade e Reino do amor; não pertence nem a um nem a outro. Mas, na cruel, violenta, abominável vida que levara, algo aprendeu de que o honrado fariseu nenhuma idéia tinha. Ele aprendeu que, num mundo de competição, num mundo de animais de rapina, num mundo de crueldade e covardia, a única esperança que nos resta reside num ato de misericórdia, num ato de compaixão, ato inteiramente inesperado, que não radica em nenhum direito nem sequer em relações naturais capazes de suspender a ação cruel, violenta, impiedosa do mundo em que vivemos.

Contudo, ele sabe, por exemplo, sendo ele mesmo um usurário, um prestamista, um ladrão etc., que há momentos, inexplicavelmente — porque isso não faz parte da perspectiva do mundo, — momentos em que ele perdoará uma dívida; repentinamente o seu coração se torna indulgente e vulnerável; ou também, noutra ocasião, não poderá lançar na prisão alguém, porque um rosto lhe trouxe algo à lembrança ou uma vez lhe foi diretamente ao coração. Não há lógica nisso. Pois isso não faz parte do horizonte do mundo e também não é o seu modo normal de proceder. É algo que irrompe de dentro, que é inteiramente absurdo, a que ele não pode resistir. Mas, sabe também, provavelmente, quantas vezes ele mesmo foi salvo do desastre final, graças a essa intrusão da inspirada e extraordinária misericórdia, compaixão, perdão.

Por isso, ele permanece no fundo do templo, pois não ignora que todo aquele domínio interior, a igreja, é um reino de justiça e amor divino, ao qual ele não pertence e no qual não pode penetrar. Mas, ele sabe também, por experiência, que o impossível acontece e, por isso, diz: “Tem piedade, quebra as leis da eqüidade, quebra as leis da religião, desce na misericórdia até nós que não temos direito nem a sermos perdoados nem a sermos admitidos.”

Penso eu: esse deveria ser, constantemente, o nosso ponto de partida.

De certo você se lembra de duas passagens em que Jesus afirma a são Paulo: “É na fraqueza que se manifesta a minha força.” Essa fraqueza não é a que manifestamos ao pecar e ao esquecermos Deus, mas uma fraqueza que consiste em sermos inteiramente dóceis, inteiramente transparentes, inteiramente abandonados nas mãos de Deus. Habitualmente nós tentamos ser fortes e impedimos Deus de manifestar o seu poder.

Todos nos lembramos de como aprendemos a escrever quando éramos crianças. A nossa mãe nos colocava um lápis na mão, tomava a nossa mão na sua e começava a movimentá-la. Como não sabíamos o que ela tencionava fazer, deixávamos a nossa mão completamente livre na sua. Eis o que eu pretendo dizer com o poder de Deus manifestando-se na fraqueza. Podemos ainda tomar, como termo de comparação, a vela de um barco. Somente por ser frágil, uma vela pode captar o vento e ser usada para manobrar o barco.

Se em vez da vela fosse colocada uma forte prancha, não se poderia operar. É, pois, a fraqueza da vela que a torna sensível ao vento. O mesmo ocorre com a manopla e a luva cirúrgica. Tão forte é a manopla quão frágil é a luva. Esta, contudo, em mãos hábeis, pode fazer milagres, porque é flexível. Assim, uma das coisas que Deus persiste em fazer-nos ver, é que devemos substituir a imaginária e insignificante força perturbadora que nós temos, pela fragilidade da entrega e abandono em suas mãos. Vou dar-lhes um exemplo.

Há vinte e cinco anos, um amigo meu, pai de dois filhos, foi morto durante a libertação de Paris. Seus filhos sempre me haviam detestado porque tinham ciúmes de que seu pai fosse meu amigo, mas, quando o pai morreu, voltaram-se para mim, pois eu fora amigo de seu pai. Um dos filhos era uma moça de quinze anos, que certo dia me procurou no meu consultório (eu era médico antes de me tornar sacerdote). Ela viu que, além do meu equipamento médico, eu tinha um volume dos Evangelhos sobre a mesa. Então, com toda a segurança própria da juventude, me disse:

— Não consigo entender como é que um homem considerado instruído pode acreditar em coisas tão estúpidas.

Eu lhe perguntei:

— Já leu?

— Não.

Então acrescentei:

— Lembre-se de que somente as pessoas mais idiotas emitem juízos sobre coisas que não conhecem.

Depois disso, ela leu os Evangelhos e ficou tão interessada que toda a sua vida mudou, porque ela começou a rezar e Deus lhe deu uma experiência da sua presença, na qual ela se manteve por algum tempo. Depois, foi atingida por uma doença incurável e, sendo eu já sacerdote e estando na Inglaterra, escreveu-me: “Desde que o meu corpo começou a enfraquecer e a decair, o meu espírito tornou-se mais vigoroso do que nunca e eu sinto a presença divina de modo muito fácil e alegre.” Voltei a escrever-lhe: “Não espere que isso dure muito. Quando você tiver perdido um pouco mais as forças, já não conseguirá voltar-se para Deus e lançar-se em sua busca. Sentirá, então, que não tem acesso a Deus.” Após algum tempo, ela voltou e escrever: “Sim, tornei-me agora tão fraca que não posso fazer o esforço de me dirigir a Deus, nem sequer de desejá-lo ativamente, e Deus afastou-se.” Porém eu lhe respondi: “Tente agora ir mais longe. Procure aprender a humildade no sentido verdadeiro e profundo da palavra.”

A palavra “humildade” deriva da palavra latina “humus,” que significa terra fértil. Para mim, a humildade não é aquilo que freqüentemente fazemos dela: trejeitos bobos ensaiados para parecermos os piores do mundo, tentando convencer outros de que os modos artificiais de nos comportarmos mostram que estamos conscientes disso. A humildade está expressa na situação da terra. A terra está sempre aí, pronta para tudo aceitar, nunca lembrada, constantemente pisada por todos, vazadouro onde despejamos tudo o que não presta, tudo aquilo de que não temos necessidade. Ei-la aí, silenciosa e tudo aceitando e milagrosamente transformando todos os resíduos em novas riquezas, apesar da corrupção; transformando até a corrupção em força vital e em novas possibilidades criativas; aberta à luz do sol, à chuva, pronta a receber qualquer semente que nós lancemos nela e capaz de produzir trinta, sessenta, cem por um. E eu dizia àquela mulher: “Aprenda a ser assim diante de Deus: abandonada, entregue, preparada para aceitar tudo das pessoas e tudo de Deus.” Na verdade, ela foi obrigada a receber muito dos homens: passados seis meses, seu marido abandonou-a, cansado de uma mulher agonizante; assim, a recusa fluiu abundantemente. Mas, Deus fez brilhar a sua luz e fez cair a sua chuva. Efetivamente, passado algum tempo, ela me escreveu: “Estou nas últimas. Não consigo mover-me para Deus, mas Deus tem descido até mim.”

Essa não é apenas uma história para ilustrar o que eu disse, mas um argumento em favor do tema em pauta: essa é a fraqueza na qual Deus pode manifestar o seu poder, e essa é a situação na qual a ausência de Deus pode tornar-se presença de Deus. Nós não podemos apoderar-nos de Deus. Todavia, quando permanecemos como o publicano ou como essa moça, fora do campo dos “direitos” e apenas no da misericórdia, podemos encontrar Deus.

Tentemos pensar na ausência de Deus e compreender: antes que possamos bater à porta, lembremo-nos de que não é apenas à porta do Reino entendido de modo geral, mas que Cristo disse realmente: “Eu sou a porta.” Então, devemos compreender que nos encontramos do lado de fora. Se gastarmos o tempo de modo louco, achando que já nos encontramos no Reino de Deus, certamente não tem sentido batermos a qualquer porta para que se nos abra. Obviamente, devemos olhar à volta, tentando ver onde há anjos e santos e onde está a mansão que nos pertence e, quando nada mais virmos a não ser escuridão ou paredes, podemos legitimamente achar surpreendente que o paraíso seja tão sem atrativos. Todos temos de nos compenetrar de que ainda não estamos nele, de que ainda estamos do lado de fora do Reino de Deus; temos de nos perguntar a nós mesmos: “Onde está a porta e como bater a ela”?

No capítulo seguinte, tentaremos aprofundar este tema: como bater à porta e manter a expectativa de entrar, de chegar a ser um habitante do paraíso, do lugar onde é possível rezar.

2. Batendo à porta

Tal como eu disse ao falar da maneira como nos apercebemos da ausência de Deus — que obviamente não é objetiva, mas subjetiva — a menos que tenhamos consciência de que estamos fora do Reino de Deus, de que é necessário batermos à porta para sermos nele admitidos, podemos gastar grande parte da nossa vida achando que já estamos nele, comportando-nos como se assim fosse; então, jamais atingiremos aquela profundidade, na qual o Reino de Deus se revela em toda a sua beleza, verdade e glória.

Quando eu digo que estamos do lado de fora, não quero significar apenas que haja uma situação na qual estejamos radicalmente fora ou radicalmente dentro. Eu pensaria, de preferência, em termos de uma crescente progressão, de profundidade em profundidade, de altura em altura, seja qual for a fórmula preferida, de modo que a cada passo já estejamos dotados de alguma riqueza, de alguma profundidade, contudo, prosseguindo ainda, constantemente, desejando e caminhando para maior riqueza e maior profundidade. É muito importante ter isso presente, porque nós somos extraordinariamente ricos, mesmo enquanto estamos fora. Deus concede-nos tanto, somos tão dotados intelectualmente e emocionalmente, as nossas vidas são tão cheias, que nós podemos achar que tudo consiste nisso, que atingimos a realização e a plenitude, que alcançamos o fim da nossa busca. Entretanto, nós devemos capacitar-nos de que há sempre mais. Devemos regozijar-nos com o fato de sermos tão ricos sendo tão pobres. No entanto, devemos anelar à verdadeira riqueza do Reino, cuidadosos de não sermos seduzidos pelo que já possuímos, de não voltarmos as costas àquilo que está à nossa frente.

Devemos ter presente que tudo quanto possuímos constitui uma dádiva. A primeira bem-aventurança é a da pobreza: somente vivendo de acordo com ela é que poderemos entrar no Reino de Deus. Essa bem-aventurança tem dois aspectos. Primeiro, há o fato iniludível de que nada do que possuímos pode ser preservado, queiramos ou não. É a descoberta de que eu nada sou e nada tenho: pobreza total, irremediável, sem esperança. Existimos porque fomos queridos na existência e a ela trazidos. Nada fizemos para isso, não foi um ato da nossa vontade livre. Não possuímos a vida, de tal maneira que ninguém no-la possa tirar; todo o nosso ser e tudo quanto possuímos é, portanto, efêmero.

Temos um corpo que morre. Temos a mente; todavia, basta uma veia minúscula estourar no cérebro para que a maior inteligência repentinamente se extinga. Temos um coração sensível e ativo; contudo, no momento em que gostaríamos que emanasse toda a nossa simpatia, toda a compreensão por alguém necessitado disso, não temos senão uma pedra em nosso peito.

Assim, em certo modo podemos dizer que nada possuímos, porque não somos senhores de nada daquilo que se acha em nosso poder. E isso poderia levar-nos, não ao sentido de que pertencemos ao Reino de Deus, alegrando-nos nisso, mas ao desespero, se não nos lembrássemos do seguinte: muito embora essas coisas não sejam de tal maneira nossas a ponto de não poder ser tiradas de nós, entretanto, elas estão em nosso poder. É esse o segundo aspecto da bem-aventurança. Somos ricos e tudo quanto possuímos constitui uma dádiva e um sinal do amor de Deus e dos homens, uma dádiva incessante do amor divino. E, embora nada possuamos, o amor divino se manifesta contínua e totalmente. Entretanto, tudo quanto por nós mesmos assumirmos como próprio, terá sido arrancado ao reino do amor. Certamente será nosso, mas teremos perdido o amor. E somente aqueles que dão tudo se tornam conscientes da verdadeira pobreza espiritual, total, final, irremediável, e possuem o amor de Deus expresso em todos os seus dons. Disse um teólogo: “Todo o alimento deste mundo é o amor divino feito pão.” Penso que é verdade: no momento em que tentamos enriquecer, mantendo seguramente alguma coisa em nossas mãos, somos então vencidos, pois é na medida em que tivermos as mãos livres que poderemos pegar ou largar tudo quanto quisermos.

O Reino consiste nisto: sabermo-nos livres de toda a posse. Essa liberdade nos coloca num plano de relações em que tudo é amor, amor humano e amor divino.

Se agora raciocinamos nesses termos, podemos aplicar a mesma ideia ao que dissemos antes. Sim, somos ricos. Todavia, nunca devemos ser seduzidos pelo que possuímos, achando que podemos agora destruir o velho celeiro e edificar outros novos, para que mais possamos armazenar das nossas riquezas. Nada pode ser armazenado, a não ser o próprio Reino de Deus. E assim, podemos desfazer-nos de uma coisa após outra, para progredirmos na liberdade, a liberdade de sermos ricos. Você nunca se deu conta de que ser rico sempre significa um empobrecimento em outro nível? Basta dizermos: “Este relógio é meu,” que, fechando a mão sobre ele, conservamos o relógio e perdemos a mão. E, se confiarmos a nossa mente às riquezas, se fecharmos o nosso coração de modo a preservarmos tudo quanto nele existe, nunca perderemos isso, mas nos tornaremos tão pequenos quanto aquilo a que nos confinamos. Mas, se isso é certo, no momento em que alcançarmos base firme, no momento em que estivermos conscientes do nosso total despojamento de todas as coisas, então estaremos às portas do Reino de Deus, estaremos quase cientes de que Deus é amor e nos sustenta com o seu amor. Atingido esse ponto, duas coisas podemos simultaneamente garantir: é possível rezar para além da nossa total miséria, abandono e pobreza; e é possível alegrarmo-nos por sermos tão ricos do amor de Deus. No entanto, isso se dará somente se chegarmos ao ponto da descoberta, pois, enquanto acharmos que somos ricos, nada haverá para agradecer a Deus e não poderemos estar cientes do seu amor. Além disso, freqüentemente a nossa ação de graças é demasiado genérica e o arrependimento que manifestamos a Deus não é senão um arrependimento genérico.

Experimentei isso certa vez, do modo menos romântico e menos espiritual possível. Lembro-me de que, sendo ainda adolescente, me dirigi a um lugar planejando a minha viagem, na esperança de chegar a hora habitual do almoço, e pensando que, se chegasse a tempo, não me deixariam esperando na sala contígua, sem me oferecerem algo para comer. Mas, o trem se atrasou e eu cheguei depois do almoço, com uma fome devoradora. Viajava com um amigo e, já que ambos estávamos com muita fome, perguntamos se haveria algo que pudessem dar-nos. Disseram-nos:

— Temos meio pepino.

Olhamos o pepino e nos olhamos um ao outro. Pensamos: “É tudo o que Deus tem para nos dar?” Então o meu amigo disse:

— Agora vamos dar graças.

Eu pensei: “Graças por um pepino?” Meu amigo tinha mais fé e era mais piedoso do que eu. E foi assim que lemos primeiro as orações de Noa, em seguida mais algumas, e depois abençoamos o alimento. Durante todo o tempo tive dificuldade de desprender-me do meio pepino, do qual a quarta parte seria minha. Finalmente, dividimos o pepino e o comemos. Em toda a minha vida, nunca me senti tão grato a Deus por uma porção de comida. Tomamo-la como quem comia um alimento sagrado. Comi-o cuidadosamente, sem nada perder da refrescante delícia desse rico pepino; ao terminarmos, não hesitei em dizer:

— Agora demos graças ao Senhor. E, de novo, começamos a dar graças.

Não podemos viver uma vida de oração, não podemos avançar no caminho para Deus, a não ser estando livres do desejo de possuir, para que haja duas mãos para oferecerem e um coração totalmente aberto, não como uma bolsa que receamos conservar aberta porque o nosso dinheiro pode cair, mas como uma bolsa aberta e vazia, e para que haja uma inteligência inteiramente franqueada ao desconhecido e ao inesperado. Esse é o modo de sermos ricos e, ao mesmo tempo, totalmente livres da riqueza. Esse é o ponto no qual alguém pode dizer que está fora do Reino e, contudo, é muito rico, que está dentro e, contudo, também muito livre.

Isso é verdade, por exemplo, quando jejuamos. Não me refiro ao jejum e abstinência que afetam apenas o estômago, mas àquela atitude de sobriedade que nos permite ou compele a nunca nos deixarmos escravizar por coisa alguma. É essa uma questão de toda a nossa conduta de vida. Antes de mais nada, diz respeito à nossa imaginação, porque é nela que começamos a pecar. Um dos nossos escritores ortodoxos, no século IX, disse que os pecados da carne são os pecados que o espírito comete contra a carne. A carne não é a responsável; e eu penso que, neste sentido, nós devemos aprender a dominar a imaginação. Enquanto a imaginação não toma conta de nós, as coisas ficam lá fora. Uma vez que a nossa imaginação se enredou e se deixou prender pelas coisas, então nós ficamos grudados a elas. Sabemos que há coisas como carne, vegetais, pudins etc. Este é um fato objetivo. Acomodados, comentamos com nós mesmos: “Na realidade, eu não tenho fome, mas há tantas coisas gostosas que podemos comer! De que gostaria eu?” Em cinco minutos, teremos lançado tentáculos sobre uma variedade de coisas. Tal como Gulliver, estaremos presos à terra por um cabelo, por outro e mais outro; cada um dos cabelos não é nada realmente, mas a soma total mantém-nos solidamente presos. Uma vez que deixamos nossa imaginação agitar-se à vontade, as coisas tornam-se mais difíceis. A esse respeito devemos ser sóbrios e lutar pela liberdade. Há grande diferença entre apego e amor, entre fome e avidez, entre interesse vivo e curiosidade, e assim por diante. Cada uma de nossas inclinações naturais tem um correlato que é marcado pelo mal e que é um dos meios pelos quais somos escravizados. É isso o que eu quero significar por tentáculos de captura. Comece dizendo “não.” Se não dissermos “não” a tempo, estaremos na disputa. Mas, neste caso, sejamos implacáveis, pois a razão e o desprendimento são mais preciosos do que tudo o que podemos possuir como escravos.

O que até agora eu disse, caso seja verdadeiro, há uma porta à qual devemos bater. A propósito, certos problemas tornam-se muito agudos. Se a porta em questão fosse a de alguma igreja, seria muito simples, pois bastaria chegarmos e bater. Mas, o embaraço está em que habitualmente não sabemos onde bater. Quantas vezes as pessoas querem rezar e se perguntam a si mesmas: “Onde está o cerne da oração? Para onde volver o meu olhar e o meu coração?” Se você é muçulmano, é simples: volta-se em direção à Meca. Porém, mesmo assim, uma vez que nos tenhamos voltado para o leste, o que haverá então? Você não pode centrar-se sobre coisas que sejam inferiores a Deus. No momento em que tentar centrar-se num deus imaginário ou num deus que você possa conceber, estará no grande perigo de ter colocado um ídolo entre você mesmo e o Deus real. Esse é um pensamento que já no século IV foi expresso por São Gregório Nazianzeno. Diz ele: no momento em que colocarmos um sinal visível perante nós, seja um crucifixo, seja um tabernáculo, uma imagem ou uma figura invisível, Deus como nós o imaginamos, ou Cristo como o temos visto em quadros; no momento em que fixarmos nossa atenção nisso … já que tomamos a imagem que forjamos, em lugar da pessoa a quem dirigimos a nossa oração. O que nós devemos fazer é reunir todo o conhecimento que possuímos sobre Deus, para podermos chegar à sua presença, mas lembrando-nos de que todo o nosso conhecimento sobre Deus pertence ao passado, fica para trás, e nós nos achamos face a face com Deus em toda a sua complexidade, toda a sua simplicidade; tão próximo e, contudo, ainda desconhecido. Somente se estivermos completamente abertos ante o Deus desconhecido, ele pode revelar-se a nós, tal como somos hoje, do modo que ele escolher. Assim, com essa abertura do coração e da mente, nós podemos permanecer diante de Deus sem tentarmos dar-lhe uma forma ou aprisioná-lo em conceitos e imagens; então, devemos bater à porta.

Onde? O Evangelho nos diz que o Reino de Deus está, primeiramente, dentro de nós. Se não conseguirmos descobrir o Reino de Deus dentro de nós mesmos, se não pudermos encontrar Deus no mais fundo de nós mesmos, as possibilidades de encontrá-lo fora serão muito remotas. Quando Gagárim voltou do espaço e fez a sua notável declaração de que não tinha visto Deus no céu, um dos nossos padres em Moscou observou-lhe:

— Se você não o tinha visto na terra, nunca o veria no céu.

Isso também é verdade acerca do que venho dizendo. Se eu não estabelecer um contato com Deus em minha própria pele, quer dizer, neste minúsculo mundo que sou eu, então serão muito escassas as possibilidades de vir a conhecê-lo, vir a encontrá-lo face a face. Diz São João Crisóstomo: “Descobre a porta do teu coração, e terás encontrado a porta do Reino de Deus.” É para a intimidade que nos devemos voltar, e não para o exterior; mas intimidade em sentido muito especial. Eu não estou dizendo que devemos tornar-nos introspectivos. Não estou afirmando que devemos interiorizar-nos à maneira da psicanálise ou da psicologia. Não se trata de uma viagem ao interior de mim mesmo, mas de uma viagem através de mim mesmo, a fim de emergir do nível mais profundo do meu eu para o lugar em que ele se acha, o ponto no qual Deus e eu nos encontremos.

O problema da oração que se inicia tem, portanto, dois aspectos: primeiro, este caminhar para a intimidade; segundo, o uso de palavras na oração e a direção que a elas se deve dar.

Falarei agora do segundo ponto. A que ou a quem dirigirei o afiado gume da minha oração? Com freqüência, as pessoas tentam lançar apelos ao céu, e ficam surpreendidas ao descobrirem que o céu está vazio e não lhes faz eco. Não é aí que devemos encontrar eco. Um escritor espiritual do século XVII, São João Clímaco, escreveu que as palavras de uma oração se assemelham a uma flecha. Entretanto, possuir uma flecha não é suficiente. Se quisermos atingir um alvo, devemos ter um arco com boa corda e um braço forte para a estirar. Se tivermos um bom arco, mas não pudermos esticar a corda, a seta voará a pequena distância, caindo perto. Se a seta não for lançada com braço possante, não atingirá o alvo. Precisamos, pois, do arco, da corda, do braço e da força.

Agora, dado que as palavras da oração são a seta, nós apontaremos em direção ao ponto mais profundo, onde está Deus, no interior de nós mesmos; devemos voltar o arco para dentro e atingirmos a nós mesmos no ponto mais profundo. Depois, temos de prover a flecha de todas as condições que lhe permitam voar vigorosamente. Com muita freqüência, estamos desatentos na oração, o nosso coração não está nela e a nossa oração não está apoiada em nossa vida. Aqui, se o desejarmos, acharemos analogias com o arco, a corda e a força.

Há momentos em que procuramos vencer rupturas no processo de aprofundamento, clamando a Deus que se acha na raiz de todas as coisas. Nesses casos, veremos perfeitamente o lugar aonde vamos e para onde dirigir a nossa oração: não para trás nem para cima, porém cada vez mais para o fundo — contra todas as resistências que surjam no caminho, contra todos os pretextos falaciosos e todas as coisas que nos impeçam de ir penetrando sempre mais fundo. Assim, orar vai se tornar algo perfeitamente viável, embora seja um exercício difícil, árduo e ousado.

Por conseguinte, em primeiro lugar, devemos escolher uma oração. Isso é muito importante, precisamente como é importante usar as palavras corretas no relacionamento com alguém. Qualquer que seja a nossa escolha, deve tratar-se de uma oração que tenha sentido para nós, uma oração que não nos inquiete. Eu devo admitir que a leitura amena de manuais de oração me deixa inquieto com muita freqüência. Sinto que, se Deus estivesse real e concretamente presente diante de mim, decerto eu não ousaria fazer-lhe todos esses discursos vazios e dizer-lhe coisas, a respeito dele, que ele conhece muito antes de eu ter vindo ao mundo. Assim, há uma necessidade de seleção, porque, se nós estamos contrariados com a nossa oração, Deus poderá estar descontente conosco e também com a nossa oração. Além disso, você nunca será capaz de apresentá-la sinceramente a Deus. Portanto, o que primeiro importa realmente, é encontrar palavras que sejam dignas de nós e dignas de Deus. Eu disse “dignas de nós e dignas de Deus,” porque, se elas são suficientemente boas para nós, então Deus poderá aceitá-las; mas, se não forem suficientemente boas para nós, deixemos Deus em paz, ele já ouviu coisas melhores. Também não devemos tentar encontrar palavras extraordinárias: um dos perigos, na oração, é tentar palavras que estejam de algum modo ao nível de Deus. Ora, como nenhum de nós está ao nível de Deus, fracassamos e perdemos muito tempo tentando encontrar palavras adequadas.

Sem pretender uma total cobertura da matéria, apenas gostaria de oferecer uma imagem sobre o valor de um ato de adoração ou de palavras de adoração. Na vida de Moisés, no folclore hebreu, há uma passagem digna de atenção. Moisés encontra um pastor no deserto. Passa o dia com o pastor, ajuda-o a ordenhar as ovelhas e, ao entardecer, vê que o pastor coloca o leite melhor numa tigela de madeira que deixa a certa distância sobre uma pedra lisa. Moisés pergunta-lhe, então, por que isso. E o pastor explica:

— Este é o leite de Deus.

Moisés fica intrigado e lhe pergunta o que quer dizer. O pastor explica:

— Tomo sempre o melhor leite que tenho e o levo como oferenda a Deus.

Moisés, que é extremamente mais requintado do que o pastor com sua fé ingénua, pergunta:

— E Deus o toma?

— Sim, replica o pastor, ele o toma.

Moisés sente-se então impelido a instruir o pobre homem e esclarece que Deus, sendo puro espírito, não bebe leite. Contudo, o pastor está seguro de que bebe. Assim, sustentam uma breve discussão que termina Moisés sugerindo ao pastor que se escondesse por detrás dos arbustos, para descobrir se de fato Deus vinha beber o leite. Moisés retirou-se para o deserto a fim de rezar. Escondeu-se o pastor, veio a noite e, à luz da lua, vê uma pequena raposa que chega correndo do deserto, olha à direita, à esquerda e, em linha reta, se lança em direção ao leite, bebe-o e desaparece novamente no deserto. Na manhã seguinte, Moisés encontrou o pastor profundamente deprimido e abatido.

— O que foi? perguntou. O pastor lhe disse:

— O senhor tinha razão, Deus é espírito puro e não quer o meu leite.

Moisés surpreendeu-se e acrescentou:

— Você deveria estar contente. Agora sabe mais acerca de Deus do que sabia antes.

— Sim, eu sei, respondeu o pastor, mas a única coisa que eu podia fazer para expressar o meu amor por ele, eu a perdi.

Moisés compreendeu. Retirou-se para o deserto e rezou intensamente. Durante a noite, numa visão, Deus lhe falou:

— Moisés, fizeste mal. É verdade que eu sou espírito puro. Todavia, sempre aceitei com gratidão o leite que o pastor me oferecia como expressão do seu amor; mas, já que eu não precisava dele, por ser espírito puro, partilhava-o com aquela raposinha que tem loucura por leite.

Tentei assinalar, primeiramente, que a nossa oração deve estar voltada para o íntimo, não para um Deus do céu nem para um Deus distante, mas para Deus que está mais perto de nós do que nós pensamos; em segundo lugar, que o primeiro ato da oração consiste em escolher palavras perfeitamente ajustadas àquilo que nós somos, palavras que não nos deixem desconcertados, que expressem adequadamente o que desejamos e sejam dignas de nós — então as oferecemos a Deus em plena consciência. Devemos também colocar o coração inteiro num ato de adoração, de reconhecimento, de apreço, que é o verdadeiro sentido da caridade, numa ação que nos envolva a mente e o coração, ação inteiramente adequada àquilo que somos.

A primeira coisa que sugiro, portanto, é perguntar-nos a nós mesmos que sentido têm as palavras, como oração a Deus, quer dirigida por nós quer por outras pessoas. Perguntemo-nos também até que ponto elas nos tocam o coração, até que ponto somos capazes de concentrar nelas a mente, pois, se nós não podemos estar atentos às palavras que dizemos, por que razão Deus o estaria? Como pode recebê-las como expressão de amor, se nós não colocamos nelas o nosso coração, se apenas colocamos certa cortesia associada a uma boa dose de distração?

Se aprendemos a servir-nos de alguma oração escolhida, nos momentos em que podemos dedicar toda a atenção à presença divina e a oferecemos a Deus, o que ocorre é que gradualmente a consciência de Deus cresce dentro de nós; quer estejamos acompanhados, escutando, falando, quer estejamos a sós, trabalhando, essa consciência se torna tão forte que, mesmo no meio de outras pessoas, estaremos tranqüilos e aptos a rezar. A analogia que alguns de nossos autores espirituais estabelecem, apresenta dois níveis diferentes: um é mais simples e mais rude e, penso eu, expressa muito bem o que eles tentam dizer; o outro é mais elevado.

O nível mais simples e rude consiste em algo que um dos nossos grandes diretores espirituais, Teófano, o Monge, enuncia do seguinte modo: “A consciência de Deus deverá manter-se em nós, tão claramente quanto uma dor de dentes.” Quando temos uma dor de dentes, não conseguimos esquecê-la de jeito algum. Podemos estar falando, lendo, cantando, fazendo seja lá o que for: a dor de dentes estará continuamente presente e não poderemos escapar ao ato da sua presença. Diz ele que deveríamos acalentar do mesmo modo uma dor em nossos corações. Não me refiro ao coração de carne, mas ao nosso âmago. Dor que seria um arrebatado anseio de Deus, um sentir que nos fizesse exclamar no momento em que tivéssemos perdido o contato na oração: “Estou só. Onde estará ele”?

O modo mais elevado de colocar a analogia consiste no seguinte: quando nos sobrevêm uma grande alegria, uma grande pena ou uma grande aflição, não a esquecemos no decorrer do dia. Escutamos as pessoas, trabalhamos, lemos, levamos a cabo os nossos compromissos e o sentimento de aflição, a consciência de alegria, a euforia das notícias está incessantemente conosco. O mesmo deverá dar-se também com o sentido da presença de Deus. E, se o sentido for tão claro quanto aquele, poderemos rezar enquanto nos ocupamos em outras tarefas. Podemos rezar enquanto trabalhamos fisicamente, mas também podemos rezar quando estamos com as pessoas, escutando ou mantendo uma conversa ou qualquer outro tipo de relacionamento. Mas, como disse, não é isso o que inicialmente nos acontece; penso até que devemos exercitar-nos primeiro numa atitude de adoração atenta e de contrição, em condições que o permitam, pois é muito fácil, na oração, tornar-nos desatentos, deslizar da vigilância para o devaneio. Comecemos por aprender essa espécie de atenção ao rezar, de completa estabilidade de adoração respeitosa e abandono em Deus, naqueles momentos em que podemos fazê-lo sem dispersão da mente e do coração; desse modo, poderemos experimentá-lo em outras ocasiões.

No capítulo seguinte, prosseguiremos neste tema, mostrando de que modo poderemos assumir uma ou duas orações e aproveitá-las para penetrarmos profundamente em nós, até o ponto em que Deus se encontra. Além disso, tentarei expor como podemos avançar nesta penetração, visto que este é outro exercício. Não nos esqueçamos da pequena raposa; ela pode ser muito útil em nossa vida de oração. E, já que estamos no tema das raposas, se você quiser saber como fazer amizade com Deus, aprenda de outra raposa, no livro de Saint Exupery, intitulado “O pequeno príncipe,” a maneira de fazer amigos, com alguém que é extremamente sensível, vulnerável e tímido.

3. Caminho de interiorização

Eu tinha dito que um dos problemas que temos de enfrentar e resolver é este: para onde dirigir a minha oração? A resposta que eu tinha insinuado deveria ser dirigida para nós mesmos. Não teremos condições de apresentar ao Senhor a oração que nos propomos fazer, a menos que ela seja, para nós, importante e significativa. Se estamos desatentos às palavras que pronunciamos, se o nosso coração não reage a elas ou se a nossa vida não se orienta no mesmo sentido, a nossa oração não chegará a Deus. Portanto, a primeira coisa a fazer é escolhermos uma oração na qual possamos absorver toda a nossa mente, todo o nosso coração e toda a nossa vontade. Não é necessário que essa oração seja um grande modelo de arte litúrgica, mas tem de ser verdadeira, algo que não fique muito aquém de tudo o que desejamos expressar. Devemos compreendê-la em toda a sua riqueza e exatidão.

Três coisas devemos fazer quando recorremos às palavras. Podemos usar a oração espontânea, oração que jorra da nossa própria alma; podemos utilizar a breve oração vocal extremamente intensa e rica em conteúdo — orações muito breves — podendo conter um mundo de significados; e podemos usar aquelas que, às vezes de maneira antipática, são chamadas, de orações feitas: vão desde produções vulgares de pessoas que tentam inventar orações para todas as oportunidades, até a manifestação da experiência profunda dos santos, expressa em orações não inventadas por eles, mas que o Espírito Santo gravou no íntimo de suas vidas e de seus corações. Gostaria de comentar cada uma dessas categorias.

Rezar espontaneamente é possível em duas situações: nos momentos em que nos tornamos vivamente conscientes de Deus, quando essa consciência nos impele a uma resposta de adoração, de alegria, ou qualquer modalidade de resposta que sejamos capazes de oferecer sinceramente e perante o Deus vivo; ou então, quando subitamente tomamos consciência do risco fatal em que incorremos quando estamos disponíveis perante Deus, momentos em que repentinamente clamamos a partir do abismo do nosso desespero e abandono, e também a partir do sentimento de que não há, para nós, esperança de sermos salvos, a menos que Deus nos salve.

Essas duas situações constituem os dois pólos extremos: a visão acerca de nós mesmos na situação desesperada em que nos encontramos, sem Deus, sozinhos, ansiosos e incapazes de abrir caminho; ou também o deslumbramento de nos acharmos subitamente face a face perante Deus, podendo espontaneamente rezar, sem darmos demasiada importância às palavras que usamos. Podemos ir repetindo: “minha alegria, minha alegria.” Podemos dizer palavras, porque estas não têm importância, são apenas maneiras de ir sustentando o ânimo, falando sem nexo, loucamente, do nosso amor e do nosso desespero. Lembremos a passagem do Evangelho referente à transfiguração, na qual Pedro diz a Jesus Cristo: “Façamos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.” O Evangelho diz que ele não sabia o que dizia, porque estava fora de si. Ele estava perante algo tão irresistível que dizia tudo o que lhe vinha à mente, soltava qualquer coisa que pudesse expressar o seu sentimento.

Agora, se pensamos ser capazes de manter a oração espontânea ao longo da vida, iludimo-nos ingenuamente. A oração espontânea deve brotar da nossa alma: não se trata simplesmente de girar uma torneira e deixar correr. Não se trata, aqui, de acionar algo para nosso uso, em qualquer momento. A oração nasce do fundo da nossa alma, de cada deslumbramento ou dor, mas não se dá numa situação de mediocridade, na qual não estejamos inundados pela presença divina ou inteiramente dominados pelo sentimento daquilo que somos e da posição em que nos encontramos. Portanto, tentar o emprego da oração espontânea em tais momentos, torna-se um exercício inteiramente ilusório. Há largos períodos nos quais não estamos nem no fundo do mar nem no topo da montanha, em que temos de fazer alguma coisa para conseguir rezar: é o período em que não podemos rezar espontaneamente, mas podemos fazê-lo por convicção. Isso é muito importante, pois muitas pessoas, que iniciam uma vida de oração, pensam que não estarão sendo sinceras se não sentirem fortemente as palavras e frases que empregam. Isso não é verdade. Podemos, por vezes, ser inteiramente sinceros na lucidez da nossa inteligência, na retidão da nossa vontade, muito embora em dado momento tais ou quais palavras ou talvez gestos não exprimam o que sentimos nessa ocasião.

Eis o exemplo que me ocorre: quando vivemos com a nossa família e trabalhamos fora, num trabalho pesado, podemos chegar em casa fisicamente extenuados. Nesse momento a nossa mãe, irmã ou irmão, seja quem for, nos pergunta:

— Você gosta de mim?

Então respondemos:

— Gosto.

Tal pessoa continua investigando:

— Você gosta realmente de mim neste momento?

Honestamente temos de dizer:

— Não. Nada sinto, a não ser dor nas costas e cansaço no corpo todo.

No entanto, era perfeitamente correto dizer: “eu gosto de você.” Pois sabemos que sob toda aquela exaustão há uma corrente viva de afeição. Quando Cristo disse: “Aquele que me ama, guarda os meus mandamentos,” ele não disse: “Se me amas, passarás de uma emoção a outra, de um estado de êxtase a outro, de uma visão teológica a outra.” Disse apenas: “Se crês nas minhas palavras, então vive de acordo com elas.” Esse “vive de acordo” implica sempre viver um pouco acima do que nós achamos que deva ser isto: fazer mais do que se teria feito espontaneamente.

Há, pois, necessidade de uma espécie de oração que não é espontânea, mas que é verdadeiramente radicada na convicção. Para consegui-la, podemos valer-nos de uma grande quantidade de orações existentes. Já dispomos de uma variada coleção de orações produzidas pelo Espírito Santo nos sofrimentos da fé. Por exemplo, temos os salmos, possuímos tantas orações breves e longas, das quais podemos valer-nos, na riqueza litúrgica de todas as Igrejas.

O que importa é aprendermos e conhecermos muitas dessas orações, para que possamos encontrar no momento oportuno a oração adaptada. Basta aprendermos de cor numerosas passagens significativas dos salmos ou de orações dos santos. Cada um de nós é sensibilizado por determinadas passagens. Marquemos essas passagens que penetram em nosso coração, que mais profundamente nos movem, que são significativas para nós, que expressam algo já encontrado em nossa experiência, algo do pecado, algo da felicidade em Deus, como também algo da luta. Aprendamos essas passagens, porque um dia, quando estivermos completamente prostrados, tão profundamente abatidos que não possamos extrair da nossa alma nenhuma expressão espontânea ou conteúdo espontâneo, descobriremos que essas palavras acodem à nossa mente e se nos oferecem como dádiva de Deus, como dádiva da Igreja, como dádiva de santidade, ajudando a nossa simples falta de forças. E, então, necessitaremos das orações que aprendemos e que fazem parte de nós mesmos.

Na Igreja Ortodoxa, temos orações da manhã e da tarde que são, no conjunto, mais longas do que as habitualmente usadas no Ocidente. Para ler essas orações, levaríamos cerca de meia hora pela manhã e meia hora pela tarde. Alguém que tentasse aprendê-las de cor, poderia valer-se delas em outros momentos. Mas, não basta apenas aprender de cor as orações. Uma oração só tem sentido se for vivida. Se elas são “vividas,” se vida e orações se entrelaçam totalmente, as orações tornam-se uma espécie de refinado madrigal que oferecemos a Deus, por momentos, quando lhe dedicamos tempo.

Se na oração da manhã fizermos uma afirmação, devemos ao longo do dia viver de acordo com ela. E eu penso que, independentemente de aprendermos tantas passagens significativas quanto possamos, devemos estabelecer uma praxe: quando descobrimos uma frase que tenha para nós um sentido particular — ao lermos o Evangelho, ao lermos a Bíblia, ao rezarmos com palavras da liturgia, — devemos tentar aplicá-la no decorrer do dia, implacavelmente, por tanto tempo quanto possamos. Pode-se pensar que somos capazes de assumir tal frase e viver de acordo com ela durante um dia inteiro. No entanto, isso é extremamente difícil. Se você conseguir manter a afirmação de uma oração por uma hora sem quebrar a praxe, pode dar-se por satisfeito; mas faça-o! Diga: “Acabo de ler esta oração; o meu coração está preparado, ó Senhor, o meu coração está preparado. Durante meia hora farei com que o meu coração esteja aberto para Deus e pronto para obedecer à sua vontade.” Meia hora, não mais. Conceda então uma pausa a você mesmo e volte-se para qualquer coisa diferente, porque, se você tenta cingir-se a uma só sentença categórica e exigente, acabará simplesmente dizendo: “Não posso mais.” E acabará nada fazendo. Mas, diga: “Tenho três ou quatro ou cinco sentenças como senhas para o dia, e quero tentar por a primeira em prática desde o momento em que a li até às dez horas da manhã, depois eu me voltarei para a seguinte e depois para a outra.” Então verá que todas as palavras da oração, todos os pensamentos e sentimentos que os santos expressam em suas orações, pouco a pouco se tornam vivos para você, penetrando profundamente a sua vontade, o seu corpo, pois é com o seu corpo que terá de pôr em prática os mandamentos.

No entanto, você pode objetar: “Essas palavras não me dizem grande coisa.” Se elas exprimem uma convicção básica, mas você nada sente no momento, recorra contrito a Deus e diga-lhe: “Esta é a minha fé cristã básica; todavia, repara que nada sinto acerca dessas palavras.” A partir daí, poderá descobrir que, de repente, você irrompe numa oração espontânea. Poderá manifestar a Deus o seu sofrimento, a sua miséria, o seu pesar consigo mesmo e se reanimará, com a firme decisão de dizer a Deus que é verdade e que a sua vontade está unida à dele.

A última maneira de rezarmos consiste no uso mais ou menos continuado de uma oração vocal, como pano de fundo, ou muleta, ao longo do dia e da vida. O que eu tenho agora em mente é algo especialmente usado pelos ortodoxos. É aquilo que designamos “oração de Jesus,” uma oração que está centrada no nome de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador.” Essa oração é usada pelos monges e monjas, mas também pelo povo leigo. É uma oração de constância, porque é uma oração que não é discursiva — não passamos de um pensamento ao outro. — É uma oração que nos coloca face a face com Deus, mediante uma profissão de fé naquilo que se refere a ele e que define uma situação que diz respeito a nós. É a profissão de fé que constitui um resumo de todo o Evangelho, em conformidade com o espírito da maior parte dos ascetas e místicos ortodoxos. Reconhecemos o senhorio de Cristo, o seu soberano direito sobre nós, o fato de que ele é nosso Senhor e nosso Deus. Implica que toda a nossa vida esteja na dependência da sua vontade e que nós mesmos nos submetamos à sua vontade e não a outros desejos. Eis o nome de “Jesus,” no qual confessamos a realidade da encarnação e tudo o que a encarnação significa: Cristo, no qual vemos o Verbo de Deus encarnado, na seqüência do Antigo e do Novo Testamento, o Ungido de Yahweh. Enfim, a perfeita profissão daquilo que ele é: o Filho de Deus. Essa não é apenas uma profissão de fé em Jesus Cristo, mas também uma abertura para a via Trinitária, porque ele é o Filho do Pai. E ninguém pode reconhecer, no profeta da Galiléia, o Filho de Deus encarnado, a não ser que o Espírito Santo o ensine a ver, a compreender, e a comprometer-se. Aqui temos, pois, a quarta profissão de fé que nos permite estar com Deus face a face, em verdade, e professar em espírito. Daí vem o “tem piedade de nós.” “Tem piedade” é a tradução da palavra “eleison.” Quando dizemos “Kyrie eleison,” usamos palavras gregas que significam: “Senhor, tem piedade.”

A razão pela qual insisto nessas palavras que nós usamos na oração, é que há palavras em todas as línguas modernas, que têm significações especializadas e restritas em contraste com as línguas antigas. Com freqüência empregamos na oração, palavras que são extremamente ricas, sem nos apercebermos da profundidade daquilo que dizemos, porque tomamos as palavras pelo que elas significam em nossa linguagem usual. Entretanto, elas poderiam ter ressonâncias profundas em nossos corações, se as relacionássemos com outras coisas que conhecemos.

Eu gostaria de dar um exemplo, que pode chocar eruditos de línguas clássicas, porque a filologia subentendida é duvidosa. Entretanto, já que o exemplo se baseia num jogo de palavras, feito há muitos séculos pelos padres espirituais gregos que conheciam a sua língua e não se constrangeram ao fazer o trocadilho, eu tirarei partido disso. Muitos de nós empregamos as palavras “Kyrie eleison” ou “Senhor, tem piedade” em certos momentos da vida. Pelo menos, sabemos que tais expressões existem e conhecemos aproximadamente o que elas querem dizer. Em resumo, trata-se de um apelo a Deus, à sua misericórdia, à sua compaixão, à bondade do seu coração. Ora, o ponto em que os estudiosos de línguas clássicas podem encontrar erro no que digo e no jogo de palavras dos padres gregos, é que, alguns deles derivam “eleison” da mesma raiz das palavras gregas que significam “oliveira,” “azeitona” e “azeite.”

De qualquer modo, deixemos aos eruditos os seus debates e lancemos um olhar àquilo que nos teria sido transmitido de um ponto de vista das Escrituras. Quando dizemos “Kyrie eleison,” podemos contentar-nos com o sentido de que se trata de um apelo geral à misericórdia de Deus. Neste caso, ele não deverá satisfazer-nos, porque nós não podemos colocar a totalidade da nossa vida neste “Senhor, tem piedade.” Além disso, as próprias palavras não têm grande sentido na linguagem comum. Porém, se pensarmos na oliveira, na azeitona e no Antigo Testamento, veremos o seguinte: a primeira vez que a azeitona e o ramo de oliveira aparecem é no fim do dilúvio, quando o ramo é trazido a Noé pela pomba (trata-se da mesma pomba que paira sobre Cristo no dia do seu batismo?). O ramo de oliveira é sinal de que a ira de Deus cessou, de que o perdão foi gratuitamente concedido, de que novos tempos e novas perspectivas se abrem diante de nós. Essa é a primeira situação. Contudo, nem sempre podemos seguir esse caminho, porque não basta apenas termos novos tempos e novas perspectivas abertas, se temos o coração ferido, se temos a vontade dividida ou se a mente ou o corpo são incapazes de discernir ou seguir o caminho. Temos necessidades de cura. Lembremo-nos, pois, do óleo que o bom samaritano derramou sobre as feridas daquele homem que fora vítima dos salteadores. Com o seu poder de curar, Deus fará a nós possível, tirar proveito da sua ira que cessa, do perdão que nos é oferecido e, certamente, da dádiva de tempo, espaço e eternidade.

Outra imagem é a unção dos sacerdotes e reis que, do meio do povo de Israel, eram chamados para permanecerem no limiar, entre o mundo divino e o mundo humano, entre a unidade e harmonia da vontade de Deus e a diversidade e complexidade do mundo humano, para não falar das tensões e oposições. Para estar em condições de permanecer aí, um homem necessita não só de capacidade humana; necessita de uma dádiva divina. Era esse o significado da unção dada a sacerdotes e reis. Mas, no Novo Testamento todos somos sacerdotes e reis, e a nossa vocação como seres humanos e como cristãos está além daquilo que um ser humano pode realizar. Somos chamados a tornar-nos membros vivos do Corpo de Cristo, templos edificados sobre um solo puro e digno do Espírito Santo e participantes da natureza divina. Tudo isso ultrapassa as nossas próprias capacidades humanas e, no entanto, temos necessidade de ser integralmente humanos, no sentido profundo em que um cristão concebe a humanidade à imagem do Filho de Deus encarnado. Para alcançarmos isso, necessitamos da graça e da ajuda de Deus. Tudo nos é mostrado com a mesma imagem.

Ora, se refletíssemos com igual simplicidade acerca de outras palavras que usamos na oração — para isso basta um dicionário, uma Bíblia e um pouco de reflexão, — elas se tornariam depois intelectualmente muito ricas. Prestaríamos, nesse caso, mais atenção naquilo que dizemos, e a nossa oração deixaria de ser apenas um amontoado de palavras vazias ou de palavras que são meros símbolos de alguma coisa, cujo verdadeiro significado se perdeu.

Então, antes de dizermos “Kyrie eleison” — “Senhor, tem piedade de mim; Senhor, mostra-te compassivo para comigo; Senhor, derrama sobre mim o teu amor e ternura” — teríamos pensado na situação em que nos encontramos. Descemos já ao mais fundo do nosso abismo? Defrontamo-nos com possibilidades infinitas e, ao mesmo tempo, com a incapacidade de realizarmos qualquer delas por estarmos profundamente feridos? Todavia, estamos curados, em face de uma vocação de tal modo sublime, que nos sentimos humilhados ao pensar nela, porque ela nos transcende? Contudo, ela poderá consumar-se, mas somente se Deus nos conceder o poder para tanto.

Isso requer uma atenta consideração das palavras; também requer tanto uma elaboração delas, como levá-las a fazerem parte das nossas emoções, de modo a concentrarmos nelas toda a intensidade e profundidade da nossa vida pessoal. Entretanto, se as palavras que utilizamos não se tornam realidades em nossa maneira de viver, elas não terão sentido e não conduzirão a nada, pois serão como um arco, cuja seta não poderá ser lançada porque falta a corda. É inteiramente descabido pedir a Deus uma coisa que não estamos dispostos a fazer. Se dissermos: “Ó Deus, livra-me desta ou daquela tentação,” enquanto ao mesmo tempo procuramos as maneiras de cair nela confiados em que Deus nos livre agora que ele está na direção, não teremos muitas probabilidades de nos sairmos bem. Deus nos dá força, mas somos nós quem deve usá-la.

Quando em nossas orações nos dirigimos a Deus para que nos dê forças para fazermos algo em seu nome, não lhe pedimos que o faça por nós, mas por sermos demasiado fracos para nos dispormos a fazê-lo.

As vidas dos santos são elucidativas a esse respeito. Na vida de são Filipe Néri é isso mesmo o que nos vem descrito em certa ocasião. Era um homem irascível, que facilmente disputava e tinha violentas explosões de ira. Naturalmente, sofria também as violentas explosões de seus irmãos. Certo dia, reconheceu que esse estado de coisas não podia continuar. Fosse por virtude, ou por não mais agüentar seus irmãos — a sua vida não diz, — o fato é que ele corre à capela, cai perante a imagem de Cristo e lhe suplica que o livre dessa ira. Retirou-se depois cheio de esperança. A primeira pessoa que encontrou foi um irmão que jamais lhe havia despertado a mais leve cólera, mas, pela primeira vez na vida, esse irmão foi agressivo e rude para com ele. Foi assim que Filipe explodiu em fúria e, cheio de raiva, foi ao encontro de outro de seus irmãos que para ele fora sempre uma fonte de consolo e alegria. Contudo, até esse homem lhe respondeu asperamente. Filipe correu de novo à capela, lançou-se aos pés da imagem de Cristo e exclamou: “Ó Senhor, eu não te pedi que me livrasse desta ira?” E o Senhor lhe respondeu: “Sim, Filipe, mas, por essa razão, eu multipliquei as ocasiões, para que aprendas.”

Eu penso que é muito importante compenetrar-nos de que é desse modo que Deus procederá conosco. Não é ele quem há de ser crucificado, em vez de nós, todos os dias. Há um momento em que nós devemos carregar a nossa própria cruz. Cada um de nós deve carregar a sua própria cruz e, quando pedimos alguma coisa em nossas orações, devemos comprometer-nos e fazê-la com todas as nossas forças, com toda a nossa inteligência, com todo o entusiasmo que possamos colocar nas ações e com toda a coragem e energia que tenhamos. Deus nos dará, por acréscimo, todo o poder para executá-la. Se assim não fizermos, perderemos o tempo. Isso implica em que o “Kyrie eleison,” ou quaisquer palavras similares que possamos articular, devem ser orientadas para nós. A nossa mente tem de ser formada, moldada por essas palavras, ocupada e posta em harmonia com elas. O nosso coração deve aceitá-las com inteira convicção e expressá-las com toda a força de que ele seja capaz, e a nossa vontade deve assumi-las e transformá-las em ação.

Desse modo, oração e ação devem tornar-se duas expressões da mesma situação, frente a frente com Deus, com nós mesmos e com todas as coisas que nos cercam. Se assim não for, estaremos perdendo tempo. De que vale expormos a Deus as nossas dificuldades e, quando ele nos dá forças para vencê-las, nos sentamos à espera de que ele o faça por nós? De que serve repetir palavras que se tornaram tão pobres e inexpressivas porque apenas permitem manter entre nós e Deus uma ligação tão frágil quanto uma teia de aranha?

Por conseguinte, escolhamos as palavras adequadas, escolhamo-las e fixemos nelas toda a nossa atenção, porque exprimem autenticidade e são palavras que Deus ouvirá, pois são verdadeiras. Coloquemos nelas todo o nosso coração. Tornemos essas palavras muito vivas com a nossa consciência intelectual, pois são verdadeiras, e façamo-las penetrar até o mais íntimo do nosso próprio coração.

As palavras da oração têm a particularidade de serem sempre palavras de compromisso. Não podemos dizer simplesmente, palavras de oração, sem que nelas esteja implícito o seguinte: “Se digo isto, quer dizer que tenho de fazê-lo quando surgir a oportunidade.” Quando dizemos a Deus: “Custe, custe o que custar, salva-me, ó Senhor!” devemos lembrar-nos de que toda a nossa vontade deve estar posta nisso, porque um dia o Senhor nos dirá: “Aqui está o preço, paga-o.” Diziam os escritores antigos: “Dá o teu sangue, e Deus te dará o seu Espírito.” Eis o preço. Abandona tudo, ganharás o céu; abandona a escravidão, adquirirás a liberdade. Tanto mais quanto a nossa vontade já estiver comprometida, não apenas no ato da oração, mas em todas as suas conseqüências; assim também o deve estar o nosso corpo, porque o ser humano não é apenas uma alma presa a um corpo por algum tempo. Trata-se de um ser constituído de corpo e alma, um ser único, que é o homem.

É necessário um esforço físico para rezarmos, uma atenção e uma atitude física na qual rezamos. Se o alimento nos torna pesados para a oração, o jejum faz parte dela. Se o praticarmos, estaremos batendo à porta.

Agora, se quisermos chegar, com todas essas palavras, ao íntimo de nós mesmos, penetrar cada vez mais profundamente, à maneira de sondagens para extrair algo das profundezas da terra, então, há que correr um risco, e esse risco consiste em que é muito difícil penetrarmos a nossa interioridade.

Parece simples. Todos nós temos a pretensão de sermos profundos e de que será tanto mais delicioso quanto mais avançarmos em profundidade. De modo algum, não é tão simples quanto parece. Na verdade, quando chegamos a certa profundidade, tudo está bem. Porém, ao longo do caminho as coisas se apresentam muito semelhantes às das histórias da demanda do Graal: há toda uma espécie de monstros com os quais nos cruzamos; e esses monstros não são demônios, não são o nosso próximo, somos exatamente nós. Isso torna o caminho mais desagradável e muito difícil de percorrer.

Em geral, é a gula, o medo e a curiosidade que nos fazem viver voltados para fora. Um cientista francês que trabalhou na América, Alexis Garrei, disse no livro intitulado O homem, esse desconhecido: se perguntássemos a nós mesmos onde termina a nossa personalidade, veríamos que a língua de uma pessoa voraz, está projetada como tentáculos em direção a todos os alimentos do mundo; os olhos da pessoa curiosa são como tentáculos projetados e presos a tudo ao seu redor; as orelhas do bisbilhoteiro se tornam longas e amplas, distendendo-se para muito, muito longe. Se pudéssemos então retratar o que nós vemos, perceberíamos quão pouco de nós mesmos permanece no interior, pois tudo é extrovertido. Portanto, a primeira coisa que devemos fazer é desligar os tentáculos e recolhê-los. Não podemos penetrar no interior de nós mesmos, se estivermos completamente mergulhados no exterior.

Tentemos uma experiência e veremos como, no decorrer dela, descobriremos grande número de outras coisas úteis. Tentemos encontrar tempo para estarmos a sós com nós mesmos. Fechemos a porta e sentemo-nos no quarto no momento em que nada mais tenhamos a fazer. E digamos: “Estou agora comigo mesmo.” E permaneçamos de fato conosco. Após brevíssimo lapso de tempo, provavelmente nos sentiremos muito aborrecidos. Isso nos ensina algo muito útil. Leva-nos à compreensão de que, se nos sentimos assim após dez minutos de estarmos sozinhos com nós mesmos, não podemos surpreender-nos de que outros se sintam igualmente aborrecidos. Por que isso? Porque nós temos muito pouco a oferecer a nós mesmos como alimentação para o pensamento, para a sensibilidade e para a vida. Se observarmos com atenção a nossa vida, logo descobriremos que raramente vivemos de dentro para fora, mas antes respondemos a uma incitação ou excitação. Em outras palavras, vivemos de reflexos, de reação. Algo acontece, e nós reagimos, alguém fala e nós respondemos. Porém, quando nos deixam sem nada que nos estimule a pensar, falar ou agir, percebemos que há em nós muito pouco que nos incite à ação, seja em que direção for. Na realidade, essa é uma descoberta dramática. Estamos completamente vazios, não agimos a partir da nossa própria interioridade, mas aceitamos como nossa a vida que, na realidade, é alimentada de fora. Habituamo-nos a que as coisas aconteçam e nos instiguem a fazer outras. Como é raro podermos viver com simplicidade, através da profundidade e riquezas que supomos existirem dentro de nós!

Há uma passagem em As aventuras do sr. Pick-wick, de Carlos Dickens: é uma excelente descrição da minha vida, e, provavelmente, também da sua. Pickwick vai ao clube. Aluga uma charrete e, ao longo do trajeto, faz muitas perguntas. Entre elas a seguinte:

— Diga-me: como é possível um cavalo tão desprezível e miserável puxar um carro tão grande e pesado?

O cocheiro replicou:

— Não é problema do cavalo, senhor, é problema das rodas.

Retornou o sr. Pickwick:

— O que quer dizer isso?

Respondeu o cocheiro:

— Veja, temos um magnífico par de rodas, tão bem engraxadas, que basta um ligeiro movimento do cavalo para que as rodas comecem a girar; por isso, o pobre cavalo é que deve correr para salvar a vida.

É dessa maneira que vivemos a maior parte do tempo. Não somos o cavalo que puxa, somos o cavalo que foge do carro, no pavor de perder a vida.

Porque não sabemos ainda como agir sem uma razão externa, descobrimos que não sabemos o que fazer; então, começamos a aborrecer-nos cada vez mais. Assim, em primeiro lugar, devemos aprender a conviver a sós conosco e com o aborrecimento, tirando daí todas as conclusões possíveis.

Depois de algum tempo, isso torna-se pior do que simples aborrecimento, porque não estamos apenas aborrecidos de modo a podermos dizer: “Sou pessoa ativa e estou sendo útil ao meu próximo. Pratico sempre o bem. Estar sem fazer nada por alguém é dura prova para mim.” Começamos a descobrir algo diferente. Estamos aborrecidos quando procuramos livrar-nos desse aborrecimento, voltando-nos para o interior de nós mesmos, na esperança de que haja em nós algo que lhe ponha fim. Imediatamente descobrimos que nada há que não tenhamos pensado dezenas de vezes. Toda a série de emoções acumuladas aí estão, como um piano que fechamos, porque não estamos habituados a ver o piano tocar sozinho. É preciso que alguém toque, pressionando as teclas. Não estamos habituados à inatividade, e isso torna-se de tal modo aborrecido que pode levar-nos à angústia. Se lermos os padres do deserto, que disso tiveram larga experiência, ou os monges que consomem as suas vidas nos mosteiros, vemos que há momentos em que eles simplesmente saem das celas clamando por socorro, tentando encontrar alguma coisa ou alguém, seja quem ou o que for. O próprio demônio teria sido preferível a esse vazio da autocontemplação. Um dos autores espirituais, Teófano o monge, diz: “A maior parte das pessoas é como apara de madeira, que se enrola sobre um vazio central.” Se somos realmente honestos, temos de admitir que essa descrição convém praticamente à situação de todos nós.

Devemos, pois, estar em condições de combater essa angústia e dizer: “Não, eu vou superar isso e chegar ao ponto em que a própria angústia me induzirá a fazer aquilo de que a boa vontade se mostra incapaz.” Na realidade, sobrevém um momento de desespero, aflição e terror que nos obriga a penetrar mais profundamente em nós e gritar: “Senhor, tem piedade! Estou sucumbindo, Senhor, salva-me!” Descobrimos que não há nada em nós que possa dar vida ou, mais propriamente, que seja vida; e tudo aquilo a que chamamos vida, que imaginávamos ser vida, era aparência e dentro nada mais havia.

Olhamos então o abismo do nada e sentimos que menos vestígios de nós haverá, quanto mais profundamente penetrarmos. É esse um momento perigoso, um momento em que podemos hesitar.

Nessa altura, alcançamos o primeiro estágio de profundidade, em que começamos a estar preparados para bater à porta. Antes desse, havia: o nível onde permanecemos apenas repousando em relação ao nosso próximo, antes de nos sentirmos aborrecidos; o nível em que ficamos simplesmente aborrecidos e magoados por termos de passar por isso; o nível em que começamos a nos inquietar e preocupar. Sentimo-nos, em seguida, ligeiramente angustiados, pois não havíamos tido até então motivo para chorarmos e gritarmos com o desespero que enchesse toda a nossa mente, todo o nosso coração, toda a nossa vontade, todo o nosso corpo. Nesse contexto, a gente tem a sensação de que eu estarei perdido e não haverá mais esperança, a menos que surja Deus, pois sei que, se eu emergir dessa profundeza, simplesmente retrocederei para o reino da desilusão, para a vida instintiva, mas não real.

Esse é o momento em que podemos começar a bater à porta que ainda está fechada, mas além da qual há esperança, aquela esperança que Bartimeu, o cego das portas de Jericó, sentia dentro do seu extremo desespero, quando Cristo ia passando.

Pelo Evangelho nós sabemos que Bartimeu se achava à beira da estrada, com uma cegueira incurável, perdida toda a fé, toda a esperança na ajuda humana e reduzido à mendicância para sobreviver. Realmente ele espera, não na caridade (a palavra caridade significa “amor”), mas naquela espécie de caridade que consiste em lançar moedas a alguém, sem nunca o ter visto. E um dia, esse homem que tinha abandonado a esperança, que em sua presente cegueira se instalara na poeira dos caminhos, ouve falar do homem, do novo profeta que operava milagres na Terra Santa. Se ele pudesse ver, provavelmente se teria erguido e percorrido o país até o encontrar, mas não lhe é possível acompanhar esse operador de maravilhas. E assim, permanece onde está, e a presença de alguém que poderia tê-lo curado deve ter aumentado o seu desespero, tornando-o mais agudo. Mas, certo dia, percebeu a multidão que passava, e o rumor era diferente de outras multidões. Provavelmente, por ser cego, desenvolvera o seu ouvido alcançando uma sensibilidade superior à nossa, pois perguntou:

— Quem está passando?

E lhe responderam:

— Jesus de Nazaré.

No mesmo instante se ergueu num impulso de máximo desespero e extrema esperança. Extrema esperança porque Cristo passava ao seu alcance; no fundo, porém, a sua era a miragem desesperada. Meia dúzia de passos levaria Jesus até Bartimeu, e meia dúzia de passos o afastariam, provavelmente para nunca mais se aproximar dele. Nessa desesperada esperança, começou a chorar e clamar:

— Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim.

Foi uma perfeita profissão de fé. E, nesse momento, por ter sido tão profundo, o seu desespero colocou em movimento a sua audaciosa esperança de ser curado, salvo, reintegrado. E Cristo o ouviu.

Há um grau de desespero que vai unido à esperança total e perfeita. É esse o momento em que estamos aptos a rezar, porque penetramos em nós mesmos. Então é suficiente dizer: “Senhor, tem piedade.” Não é necessário fazermos nenhum dos elaborados discursos que achamos nos manuais. Basta apenas gritar, no meio do desespero: “Socorro!” E ele nos ouvirá.

Com freqüência, não conseguimos em nossa oração suficiente intensidade, convicção e fé, porque o nosso desespero não é bastante profundo. Temos Deus em acréscimo a tantas outras coisas que possuímos, queremos a sua ajuda, mas, ao mesmo tempo, tentamos obter ajuda onde quer que possamos, e conservamos a Deus de reserva para o arranque final.

Nós mesmos nos dirigimos aos príncipes e aos filhos dos homens e dizemos: “Ó Deus, dá-lhes força para que façam isto ou aquilo por mim.” Muito raramente nos afastamos dos príncipes e filhos dos homens, dizendo: “A ninguém pedirei socorro, a não ser a ti.” Se o nosso desespero vier do fundo do nosso ser, se aquilo que pedimos, pelo qual clamamos, é de tal modo importante que se some a todas às necessidades da nossa vida, então acharemos palavras adequadas e estaremos em condições de atingir o cerne da oração: o encontro com Deus.

E agora, algo mais sobre o tumulto. Também aqui o centro é Bartimeu. Ele grita. E o que diz o Evangelho sobre aqueles que o cercam? Tentaram reduzi-lo ao silêncio. Podemos ver toda a gente piedosa, com visão perfeita, pernas robustas, boa saúde, rodeando a Cristo, falando de temas elevados, como o reino que está para chegar e os mistérios da Escritura; toda essa gente voltando-se para Bartimeu e exclamando: “O quê? Não podes ficar calado? Teus olhos, teus olhos, que importância têm eles quando se fala com Deus?” Bartimeu estava como alguém pulando fora do contexto para pedir a Deus, desesperadamente, por alguma necessidade — enquanto certo cerimonial prosseguia — e destruindo, assim, a boa ordem. Seria imediatamente posto fora; seria reduzido ao silêncio. Mas o Evangelho também diz que, apesar de toda aquela gente tentando reduzi-lo ao silêncio, ele insistiu, porque o assunto era para ele de capital importância. Quanto mais tentavam fazê-lo calar, mais ele gritava.

Eis a minha mensagem. Há um santo grego chamado Máximo, jovem que certo dia foi à igreja e ouviu a Epístola, na qual se dizia que devemos rezar incessantemente. Isso o impressionou de tal maneira que pensou nada mais poder fazer, senão cumprir essa indicação. Saiu da igreja, foi para as montanhas próximas e se pôs a rezar incessantemente. Como camponês que era, grego do século IV, sabia o Pai-nosso e algumas outras orações. Tal como nos conta, começou a recitá-las uma e outra vez e assim por diante. Então sentiu-se bem: estava rezando, estava com Deus, estava desvanecido, tudo lhe parecia tão perfeito, exceto um fato: pouco a pouco o sol começou a declinar e começou a fazer frio e ficar mais escuro. À medida que a escuridão aumentava, começou a perceber toda a espécie de sons horríveis: estalar dos ramos sob as patas dos animais selvagens; gemidos de animais menores sendo mortos pelos maiores; olhos faiscantes etc. Sentiu então que estava realmente só, que era uma coisa pequena e desprotegida, num mundo de perigo, de morte e assassínios, e que ele não tinha ajuda, se Deus não lhe viesse em socorro. Não continuou repetindo o Pai-nosso e o Credo, mas fez exatamente o que Bartimeu fizera; começou a clamar: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim.” E clamou assim durante a noite inteira, pois, as feras e o faiscar dos seus olhos não consentiram que dormisse. Amanheceu o dia, todos os animais se recolheram para dormir e ele pensou: “Agora posso rezar.”

Todavia, sentiu fome. Decidiu colher alguns frutos, mas deteve-se perto de uma moita, ao imaginar que todos aqueles olhos faiscantes e patas selvagens deviam estar escondidos entre as moitas. Começou a caminhar de mansinho e a cada passo dizia: “Senhor Jesus Cristo, salva-me, socorre-me, socorre-me, salva-me. Ó Deus, ajuda-me, protege-me.” Naturalmente, a cada fruto que colhia ia rezando várias vezes.

O tempo foi passando. Anos depois, encontrou um velho e experimentado asceta que lhe perguntou como aprendera a rezar incessantemente. Máximo respondeu:

— Eu penso que foi o demônio que me ensinou a rezar sem parar.

O outro replicou:

— Parece-me que compreendo o que quer dizer, mas gostaria de ter a certeza de que o entendi corretamente.

Nicolau explicou como aos poucos se habituara a todos os ruídos e perigos do dia e da noite. Entretanto, assaltaram-no as tentações: tentações da carne, tentações da mente, dos sentimentos e, mais tarde, mais violentos, os ataques do demônio. Depois disso, não houve momento algum do dia ou da noite em que ele não gritasse a Deus: “Tem piedade, tem piedade, socorro, socorro, socorro!” Então, certo dia, passados assim quatorze anos, o Senhor lhe apareceu e, nesse momento, sobreveio-lhe a tranqüilidade, a paz, a serenidade. Não sentia medo, nem da escuridão, nem dos arbustos, nem do demônio. O Senhor tinha feito desaparecer tudo.

— A essa altura, disse Máximo; aprendi que eu fico sem esperança e totalmente desamparado se o Senhor não vem. Por isso, mesmo quando estou sereno, em paz e feliz, vou dizendo: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim.” Pois eu sei que somente na misericórdia divina é que existe paz de coração, paz de inteligência, a serenidade no corpo e retidão da vontade.

Desse modo, Nicolau aprendeu a rezar, não apesar do barulho, mas por causa do barulho e porque o tumulto era um perigo real. Se pudéssemos tomar consciência de que estamos num tumulto muito maior, que o demônio está à espreita, tentando prender-nos e destruir-nos; que cada encontro humano é um julgamento, uma crise, uma situação na qual nós somos chamados a receber Cristo ou a sermos mensageiros de Cristo para a pessoa que encontramos; se nos compenetrássemos de que a vida toda tem esse significado intenso, então seríamos capazes de clamar e rezar continuamente, e o barulho não seria impedimento, mas uma condição real para aprendermos a orar enquanto somos ainda demasiado inexperientes para fazê-lo em profundidade e sem qualquer estímulo.

Quando nada sabemos acerca da oração, quando nunca rezamos em toda a nossa vida ou não rezamos bastante, como é possível aprendermos a rezar nas condições de vida em que vivemos? Eu o experimentei em várias situações: nos anos em que exercia a medicina, durante cinco anos na guerra, no sacerdócio. Realmente, dá certo. É possível fazê-lo, se formos suficientemente simples para isso. Você poderá agir da maneira seguinte.

Ao despertar, pela manhã, a primeira coisa que você deve fazer é agradecer a Deus o novo dia, mesmo que não se sinta particularmente feliz com o dia que começa: “Alegremo-nos e sejamos gratos ao Senhor no decurso deste novo dia que ele nos concede.” Feito isso, dê a você mesmo algum tempo para se compenetrar da verdade daquilo que disse e realmente se dispor nesse sentido — talvez em nível de profunda convicção e não de maneira que se poderia dizer jovial. Em seguida, levante-se, lave-se, enxugue-se, faça tudo o que tiver de fazer; depois, volte-se de novo para Deus. Aproxime-se de Deus com duas convicções: uma, a de que você pertence ao próprio Deus; a outra, a de que este dia também pertence a Deus e é inteiramente novo e está começando. Nunca existiu antes. Para falar à maneira russa, é como vasta extensão de neve imaculada. Ninguém a pisou ainda, ei-la, inteiramente virgem e pura, à sua frente. E agora, o que se segue? Segue-se que você pedirá a Deus que abençoe este dia, que todas as coisas nele contidas sejam abençoadas e dirigidas por ele. Depois disso, você deve levá-lo a sério, pois muitas vezes dizemos: “Ó Deus, abençoa-me;” e, tendo sido abençoados, agimos como o filho pródigo: reunimos todos os nossos bens e vamos viver uma vida dissoluta numa região estranha.

Este dia está abençoado por Deus, pertence a Deus e, agora, ocupemo-nos nele. Você anda neste dia qual mensageiro do próprio Deus. Quem quer que você encontre, é no caminho do próprio Deus que o encontra. Você está aí como a presença do Senhor Deus, a presença de Cristo, a presença do Espírito, a presença do Evangelho — essa é a sua função nesse dia particular. Quando você assume uma situação em nome de Deus, ele nunca disse que seria crucificado e você elevado. Você deve estar preparado para se envolver em situações, uma após outra, em nome de Deus, vivendo-as como o Filho de Deus o fez: em humilhação e humildade, em verdade e preparado para ser perseguido, e assim por diante. Normalmente, quando cumprimos os mandamentos de Deus, o que esperamos é ver, imediatamente, um resultado maravilhoso; é o que lemos, por vezes, nas vidas dos santos. Quando, por exemplo, alguém nos bate numa das faces, nós lhe oferecemos a outra, embora não esperemos que nos voltem a bater, mas na esperança de ouvirmos a outra pessoa dizer: “Como é humilde”!

Recebemos a nossa recompensa, e a outra pessoa a salvação da sua alma. Ora, pode não acontecer assim: freqüentes vezes temos de pagar o preço, ferem-nos duramente. O que importa é estarmos preparados para isso. Quanto a esse dia, se nós o aceitamos como abençoado por Deus, escolhido por sua própria mão, então, cada pessoa que encontramos é uma dádiva de Deus, cada circunstância que se nos depara é uma dádiva de Deus, quer seja amarga ou doce, quer gostemos ou não gostemos dela. É dádiva do próprio Deus. E, se você a recebe desse modo, então está apto a enfrentar qualquer situação. Então, devemos enfrentá-la com o desembaraço de quem sabe que tudo pode acontecer, quer gostemos ou não; se nos conduzimos em nome do Senhor, ao longo de um dia que saiu, novo e único, das mãos dele e foi abençoado para ser vivido por nós, então, podemos rezar e viver, como se se tratasse das duas faces da mesma moeda. Agimos e rezamos num único sopro, por assim dizer, pois todas as situações, que se sucedem umas às outras, requerem a bênção de Deus.

Alguns anos atrás, falei disso em Taizé e mantive depois, correspondência com cerca de trinta moços e moças de lá. Uma delas escreveu-me: “Tentei seguir o seu conselho. Tentei-o com todas as minhas energias. Já não há um minuto em que eu não esteja rezando e agindo, rezando e agindo e, agora, nem posso ouvir a palavra de Deus, nem posso suportar esta espécie de oração.” Eu lhe respondi: “Você apanhou uma indigestão. Deveria ter usado o senso comum na oração, tal como usa o senso comum na vida. Como antes nunca rezou, você não pode começar mantendo dezoito horas de diálogo e oração com Deus, enquanto faz outra coisa. No entanto, pode escolher uma ou duas ocasiões e colocar nelas toda a sua energia; pode simplesmente voltar os seus olhos para Deus, sorrir-lhe e mergulhar nele. Há momentos em que você pode dizer a Deus: Tenho de descansar um pouco, não tenho forças para estar contigo o tempo todo. — E isso é inteiramente verdade. Você ainda não é capaz de aguentar a companhia de Deus por todo o tempo. Pois bem, diga isso. Deus o sabe perfeitamente, faça você o que fizer. Afaste-se por um momento e diga: Vou descansar. Por uns instantes aceito ficar um pouco menos santo.”

Dessa maneira podemos descansar e olhar as coisas que também são de Deus — árvores, prédios — e, passados alguns momentos, voltar a ele. Se tentarmos rezar continuadamente, cedo cansaremos; mas se aprendermos a escolher os momentos, conseguiremos fazê-lo.

Se você proceder assim, estará apto a rezar. Pode experimentar, mas não se esqueça de ser sóbrio, porque há um pecado que os Padres espirituais qualificam de “gula espiritual”: consiste em querer, num momento, receber mais e mais de Deus, quando deveria fazer dieta e contentar-se com o pouco que lhe basta.

4. Como aproveitar o tempo

Na tensão da vida moderna em que vivemos, o problema do aproveitamento do tempo assume importância máxima. Eu não tentarei convencê-lo de que você tem tempo suficiente, e, se quiser, pode rezar.

Apenas quero falar do aproveitamento do tempo no meio das tensões, da correria da vida. Vou poupá-lo a qualquer descrição acerca da maneira como você pode conseguir tempo: direi somente que, se tentarmos e conseguirmos gastar um pouco menos, haverá um pouco mais. Se usarmos migalhas do tempo que perdemos, para conseguirmos curtos momentos para recolhimento e oração, podemos descobrir que temos muito tempo. Se pensarmos na quantidade de minutos vazios, ao longo de um dia, nos quais nos ocupamos apenas por receio do vazio e de estarmos a sós com nós mesmos, nos compenetraremos de que há uma profusão de curtos períodos que poderiam ser-nos destinados, a nós e a Deus. Mas, o que eu quero falar é algo que me parece mais importante. Trata-se da maneira pela qual nós podemos regular e deter o tempo. Só podemos orar se nos mantivermos num estado de firmeza e íntima paz, face a face com Deus. Isso nos liberta do sentido do tempo, não do tempo objetivo, aquele que avaliamos mediante o relógio, mas do sentido do tempo subjetivo, que foge depressa e que sempre dizemos não ter.

Antes de mais nada, quereria chamar a atenção para alguma coisa que todos nós conhecemos e discutimos: não há necessidade alguma de correr atrás do tempo para o deter. Ele não foge de nós, vem ao nosso encontro. Quer estejamos atentos ao minuto que se segue, quer estejamos desatentos, ele chegará. Qualquer que seja a nossa ação relativamente ao futuro, ele se tornará presente e, assim, não é necessário tentar um salto do presente para o futuro. O que podemos é, simplesmente, aguardá-lo; podemos conservar-nos inteiramente imóveis e, contudo, mover-nos no tempo, pois é o tempo que se move. Sabemos o que acontece quando nos encontramos no carro ou no trem; se não somos nós que o conduzimos, então nós nos recostamos e olhamos pela janela. Podemos ler, podemos pensar, podemos descansar, enquanto o trem se move e, em dado momento, aquilo que era futuro torna-se presente, quer seja a próxima estação, quer seja a última, à qual nos dirigimos. Eu penso que isso é muito importante. O erro que muitas vezes cometemos em relação à nossa vida interior, consiste em imaginarmos que, se nos precipitarmos, atingiremos mais rapidamente o futuro. Mais ou menos como aquele homem que corria do último para o primeiro carro do trem, na esperança de diminuir a distância entre Londres e Edimburgo. Quando se trata de um exemplo, vemos quão absurdo ele é, mas quando tentamos constantemente viver um palmo adiante de nós mesmos, já não sentimos o absurdo disso. Mesmo que seja isso que nos impeça de estarmos inteiramente no momento presente, eu me atrevo a dizer que é o único momento no qual podemos estar, pois ainda que imaginemos estar para além do tempo ou para além de nós mesmos, não estamos. A única coisa que acontece é apressar-nos, mas nem por isso nos movemos mais depressa. Mais de uma vez você deve ter observado o seguinte: uma pessoa com duas malas pesadas, tentando apressada apanhar um ônibus. Ela está tão apressada quanto pode, corre tão velozmente quanto lho permitem as malas, e o seu intento é estar onde não está.

Mas, sabemos o que acontece nas férias, quando fazemos um passeio. Podemos andar alegre, divertida e apressadamente; ou, se estamos em boa idade e forma, podemos até correr; mas, em tudo isso, nenhuma pressa sentimos, porque no momento o que importa é o correr, não o chegar. Eis o que temos de aprender acerca da oração: situar-nos no presente. Habitualmente pensamos ou agimos como se pensássemos que o presente é uma linha imaginária, muito, muito tênue, entre o passado e o futuro. Continuamente, rolamos do passado para o futuro, transpondo essa linha, mais ou menos como poderíamos rolar um ovo sobre uma toalha. Se o fizermos, veremos que ele escapa incessantemente, não está em parte alguma em nenhum momento, não há presente, está sempre no futuro.

Nem todos têm a sorte de gozar experiências decisivas, “instâncias de descoberta” que mostram coisas. Mas, eu gostaria de relatar, em poucas palavras, uma experiência muito útil que tive.

Durante a ocupação alemã da França, alinhei no movimento da resistência. Certo dia, ao descer para o metrô, fui detido pela polícia. Essa foi uma das experiências mais interessantes que tive. Deixando de lado todos os toques românticos sobre o que ocorreu e como ocorreu, colocarei em termos mais filosóficos o que diz respeito ao tempo. O que se passou então foi o seguinte: eu tinha um passado e um futuro, e transitava de um para o outro, descendo rapidamente a escada. A certa altura, alguém me colocou a mão sobre o ombro e disse: “Pare, dê-me os seus documentos.” Nesse momento, várias coisas me ocorreram. Uma foi que eu comecei a pensar muito rapidamente, a sentir muito intensamente e a estar consciente de toda a situação com um relevo e um colorido que nunca antes percebera nos últimos degraus do metrô Étoile. A segunda coisa foi que eu me compenetrei de que não tinha passado, porque o passado real que eu tinha era aquele pelo qual eu poderia ser fuzilado. Assim, aquele passado não mais estava ali. O falso passado, acerca do qual eu estava preparado para falar, nunca existira e, assim, achei-me ali como um lagarto que fora apanhado pela cauda e que fugira, deixando em algum lugar a cauda, de maneira que o lagarto terminava onde a cauda tinha ficado. (Embora nesse momento eu não tenha elaborado tanto sobre a filo do tempo), descobri então outra coisa muito interessante da qual me apercebi ao mesmo tempo, mas que fui compreendendo gradualmente. Tratava-se do seguinte: temos apenas um futuro de tal amplitude que podemos prever um minuto antes que ele aconteça ou um centímetro antes de o atingirmos; nada vem depois, porque não fazemos idéia do que poderá chegar. Somos como alguém mantido às escuras, num quarto desconhecido; tudo o que aí existe são trevas pressionando os olhos. Aí, pode não haver nada diante de nós, ou pode haver uma infinidade de coisas, dá na mesma. Terminamos exatamente onde começa a escuridão. Foi assim que descobri que também não tinha futuro. Foi então que descobri ser impossível viver por um lado no passado e, por outro, no futuro. O lagarto não tinha cauda e as trevas cobriam o meu rosto. Descobri que eu era pressionado no sentido do momento presente, que todo o meu passado estava aí e tudo quanto poderia vir a ser estava condensado no momento presente, com uma intensidade, um colorido extremamente divertido e que eventualmente permitiu que eu me escapasse!

Agora no que respeita ao tempo, sem descer a muitos detalhes, há ocasiões em que nos apercebemos de que o momento presente aí está, o passado se foi irremediavelmente: é irrelevante, a não ser na medida em que se prolonga no presente; e o futuro é irrelevante porque pode ou não ocorrer. Isso acontece, por exemplo, quando sofremos um acidente, quando estamos num momento de perigo que requer uma ação extremamente rápida. Não temos tempo para deslizar do passado para o futuro. O que resta a fazer é centrar-nos no presente com todas as energias e com todo o nosso ser, condensados na palavra agora. Descobrimos, com enorme empenho, que estamos no agora. Conhecemos o plano tão delgado que a geometria nos ensina, que não tem espessura. Esse plano geométrico, totalmente sem espessura, que é agora, move-se ao longo das linhas do tempo ou, antes, é o tempo que corre sob ele e nos traz agora tudo aquilo de que necessitamos no futuro. É essa a conjuntura que devemos assinalar, e devemos fazê-lo da maneira mais pacífica possível. Penso que devemos agir com exercícios para fazer o tempo parar e nos situarmos no presente, neste agora que é o meu presente e que é também a interseção da eternidade e do tempo.

O que poderemos fazer? Este é o primeiro exercício. Poderá ser feito quando você nada tiver que fazer, quando nada o arrastar, quer para trás, quer para a frente, e quando puder dispor de cinco minutos, três minutos ou meia hora de tempo livre. Sente-se e diga: “Estou sentado, sem nada fazer, nada farei por cinco minutos.” E descontraia-se, e compenetre-se durante esse tempo (um ou dois minutos é o máximo que poderá suportar no começo): “Estou aqui na presença de Deus, em presença de mim mesmo e na presença de toda a mobília que me cerca, tranqüilo e imóvel.” Naturalmente, há mais uma coisa que você deve fazer: decidir que, nesses dois ou cinco minutos que você determinou para aprender que o presente existe, não deverá sair para atender ao telefone, à porta se baterem ou porque um repentino surto de energia o incite a fazer, imediatamente, o que deixou de fazer nos últimos dez anos. Acalme-se, pois, e diga: “Aqui estou eu.” E assim permaneça. Se você se exercitar nesse sentido em momentos desperdiçados da sua vida, quando tiver aprendido a não se inquietar interiormente, mas a estar totalmente calmo e feliz, firme e sereno, então, alongue os poucos minutos e, depois, um pouco mais ainda. Evidentemente, chegará um momento em que serão necessárias algumas defesas, porque poderemos estar sossegados por dois minutos, mesmo que o telefone toque ou alguém bata à porta, e quinze minutos podem ser longos demais para que o telefone ressoe ou para que alguém espere à porta. Mas, então, considere que não abriria a porta nem atenderia ao telefone, se não estivesse em casa. Ou se tiver bastante coragem ou estiver suficientemente convicto do que está fazendo, poderá adotar a atitude de meu pai. Ele colocava na porta uma breve inscrição: “Não bata. Estou em casa, mas não atendo.” Esta é uma forma muito mais decisiva, porque as pessoas compreendiam imediatamente, ao passo que: “Por favor, aguarde cinco minutos,” esse “por favor” normalmente se esgotava em dois minutos!

Então, quando você tiver adquirido esse equilíbrio e estabilidade, terá de aprender a deter o tempo, não apenas nos momentos em que ele se arrasta ou de qualquer modo se detém, mas em momentos em que acelera, em que nos pressiona. A maneira de consegui-lo é a seguinte. Estamos ocupados com alguma coisa que consideramos muito proveitosa e até pensamos que o mundo deixaria de seguir o seu curso, se ela não fosse feita. Mas, subitamente, em certo momento dizemos: “Paro!” E descobrimos uma porção de coisas. A primeira é que o mundo não vacilou e que o mundo todo — se é possível imaginá-lo — pode esperar cinco minutos sem que você se ocupe dele. Isso é importante, porque habitualmente nos enganamos a nós mesmos, dizendo: “Devo fazer isto, isto é caridade, é dever, não posso deixar de fazê-lo.” Podemos, pois, em momentos de preguiça, deixar de fazê-lo por bem mais que os cinco minutos que escolhemos para rezar. Portanto, a primeira coisa a decidir é esta: “Aconteça o que acontecer, paro aqui.” O procedimento mais simples consiste em ter um despertador. Regule-o e proponha-se: “Agora vou trabalhar sem olhar o relógio, até que ele toque.” Isso é muito importante. Uma das coisas que devo esquecer é o hábito de olhar o relógio. Se nos dirigimos a algum lugar e sabemos que estamos atrasados, olhamos o relógio. Contudo, não podemos andar tão depressa, se olharmos o relógio de pulso como se fitássemos simplesmente em reta, em frente. E, se você dá conta, de que está, sete, cinco ou três minutos atrasado, isso não lhe diminui o atraso. Assim, antecipe a hora da partida e chegará a tempo; ou, se está atrasado, ande o mais rápido que puder. Ao chegar à porta, pense como se deverá mostrar contrito quando a porta se abrir! Portanto, quando soar o despertador, você sabe que, nos cinco minutos seguintes, o mundo parou: e não se mexa do lugar. Trata-se do tempo do próprio Deus, e você está serenamente instalado nele, silenciosamente, pacificamente. Ao começar, verá como é difícil, e sentirá ser de grande importância terminar de escrever uma carta ou de ler um parágrafo. Na realidade, descobrirá rapidamente que pode muito bem protelar isso por três, cinco ou até dez minutos, sem que nada aconteça. E se estiver ocupado em algo que requeira atenção, descobrirá que poderá fazê-lo depois, muito melhor e mais rapidamente.

Vou lhe dar outro exemplo. Quando eu era médico, no início me sentia injusto para com aqueles que estavam na sala de espera, se demorasse no exame da pessoa que eu estava atendendo no consultório. Por isso, no primeiro dia, tentei ser tão rápido quanto me era possível com aqueles que recebia na sala de consulta. Ao terminar, descobri que não conservava a menor lembrança das pessoas que tinha examinado, porque, durante todo o tempo em que me ocupara do paciente, tinha os olhos postos para além dele, na sala anexa, adivinhando e contando as cabeças daqueles que ainda não examinara. O resultado foi ter de repetir todas as perguntas, todos os exames, duas e até três vezes, por não conseguir lembrar-me, ao terminar, se os tinha ou não feito. Naturalmente, nem todos são como eu; você poderá ter memória melhor, mas esta é, precisamente, uma situação que pode dar-se com qualquer pessoa.

Senti, então, que essa atitude era simplesmente desonesta. E decidi que procederia como se a pessoa a quem estava atendendo fosse a única. No momento em que se esboçava o pensamento “devo ser rápido,” eu me recostava na cadeira e entabulava uma breve conversa, por alguns minutos, exatamente para defender-me de toda a precipitação. Passados dois dias, descobri que não tinha mais necessidade do exercício. Basta, na verdade, concentrar-nos inteiramente na pessoa ou tarefa à nossa frente e, ao terminarmos, descobriremos que gastamos metade do tempo que antes despendíamos. Porém, vimos tudo, e tudo ouvimos.

Desde então, freqüentemente tenho aconselhado, nesse sentido, pessoas de variadas condições de vida e trabalho. Portanto, se fizermos tais exercícios começando com breves paradas no tempo que não se move, e terminando por parar, dizendo “não” ao tempo que tenta mover-se velozmente, descobriremos que, a partir do momento em que tenhamos superado a tensão interior, a agitação interior, a inquietação e a angústia, o tempo passa perfeitamente. Podemos imaginar que para cada minuto há apenas um minuto que passa? Pois é exatamente o que ocorre. É estranho, mas é verdade que, pela maneira de procedermos, podemos pensar que cinco minutos possam ser despachados em trinta segundos. Não, cada minuto conta quanto o minuto seguinte, cada hora tanto quanto a hora seguinte. Nada há nisso de desastroso. Você pode perguntar: “Terei tempo para fazer tudo isto?” Eu lhe responderei à maneira russa: “Se você não morrer primeiro, terá tempo para fazê-lo. Se morrer antes, não precisará fazê-lo.” Há outro ditado no mesmo gênero que poderá reservar para futuras experiências: “Não se preocupe com a morte. Quando ela vier, você não escapará, mas enquanto você está por aqui, a morte não está.” Trata-se do mesmo princípio. Por que hei de preocupar-me com uma situação que se resolverá por si mesma?

Uma vez que aprendemos a não nos inquietarmos, podemos fazer qualquer coisa a qualquer velocidade, em qualquer grau de atenção e vivacidade, sem a sensação de que o tempo nos escapa ou nos apanha. Trata-se do sentimento, a que já me referi, de quando estamos em férias, com todo o tempo livre à nossa frente. Podemos apressar-nos ou não, sem qualquer avaliação do tempo, porque apenas nos ocupamos do que fazemos, sem qualquer outra determinação. E, então, veremos que podemos rezar, qualquer que seja a situação em que nos encontremos, sem que haja nada que nos possa impedir de fazê-lo. O que pode impedir-nos de rezar é atirar-nos na tormenta ou permitirmos que ela nos penetre em vez de rugir à nossa volta.

Podemos recordar o episódio da tempestade no mar da Galiléia, relatado no Evangelho: Cristo adormecido no barco e a tempestade rugindo à volta. Primeiramente os apóstolos trabalham com ardor e cheios de esperança para sobreviver. Então, em certo momento, perdem a cabeça, e a tempestade, que se agitava fora, penetra-os, a tempestade toma conta deles. A angústia e a morte já não os estão simplesmente rondando, elas os invadem. Voltam-se então para Cristo e fazem o que nós freqüentemente fazemos com Deus: olhamos para ele no tempo da prostração e da tragédia, e nos indignamos por ele estar tão tranqüilo. O relato evangélico sublinha, dizendo que Cristo dormia com a cabeça apoiada num travesseiro — o derradeiro insulto: eles estão perecendo, e ele está confortavelmente instalado. É exatamente isso que muitas vezes sentimos sobre Deus. Como ousa ele estar tão feliz, como ousa estar tão descansado, quando eu estou tão aflito? E os discípulos fazem exatamente o que tantas vezes nós fazemos. Eles não se aproximam de Deus, dizendo: “Tu que és a paz, tu que és o Senhor, diz uma palavra e o meu servo será curado; diz uma palavra e a ordem será estabelecida.” Eles o sacodem do sono e dizem: “Não te importa que pereçamos?” Em outras palavras: “Se nada podes fazer, ao menos não durmas. Se nada melhor podes fazer, ao menos morre na angústia conosco.” Cristo reage, ergue-se e exclama: “Homens de pouca fé!” E, afastando-os, voltou-se para a tempestade e, projetando a sua calma interior, a sua harmonia e paz sobre a tempestade, ordena: “Calma.” E tudo se acalma.

Eis o que nós podemos e devemos ser capazes de fazer. No entanto, isso requer treino inteligente e sistemático, exatamente do mesmo modo que treinamos para fazermos outras coisas. Aprendamos a dominar o tempo e, aconteça o que acontecer, qualquer que seja a fadiga, tanto na tempestade como na tragédia ou simplesmente na confusão em que vivemos continuamente — estar calmos, imóveis no presente, face a face com o Senhor, quer em silêncio, quer falando. Se utilizamos palavras, então podemos levar a Deus tudo quanto nos cerca, todo o vendaval. Se preferimos o silêncio, podemos permanecer no centro do ciclone, furacão, ou na calma, embora deixando rugir a tormenta à nossa volta enquanto nos situamos lá onde Deus se encontra, no único ponto de total estabilidade. Mas, esse ponto de estabilidade radical não é um ponto no qual nada sucede. É o ponto em que todas as tensões conflitantes se cruzam, equilibrando-se umas às outras e suspensas da mão poderosa de Deus.

O verdadeiro silêncio é algo extremamente intenso, possui densidade, é real e ativo. Lembro-me de uma passagem da vida dos santos do deserto: um deles, convidado por seus irmãos a pronunciar um sermão em homenagem a um bispo que os tinha visitado, disse: “Não, não quero, porque se o meu silêncio nada lhe diz, minhas palavras serão vãs.” É essa a espécie de silêncio, em torno do qual deveria girar o nosso aprendizado ou que deveríamos tentar atingir. Como consegui-lo? Vou tentar mostrá-lo a vocês através de uma parábola ou imagem: o estudo das aves.

Se quisermos observar as aves em suas circunvoluções nos bosques e campos, devemos despertar antes delas. Temos de estar preparados para vigiar, ativos, inteiramente sacudido o sono, antes do despertar da primeira ave. Na verdade, antes que os pássaros dêem conta de que amanheceu. Devemos embrenhar-nos nos campos ou bosques, mantendo-nos aí, totalmente serenos, em absoluto silêncio, inteiramente descontraídos, a ponto de não nos movermos para não assustarmos os adormecidos de sono leve que nos cercam, porque de outro modo levantariam vôo, afastando-se subitamente para onde não pudéssemos ouvir nem ver. Observar as aves implica, por um lado, no sossego, quietude, repouso e, ao mesmo tempo, numa intensa vigilância, porque, se nos sentamos no campo sonhando o não sonhado sonho da nossa breve noite, todas as aves terão fugido para bem longe, antes de nos apercebermos de que o sol já esquenta as nossas costas. É fundamental estarmos alertas e animados, e ao mesmo tempo silenciosos e descontraídos: essa é a preparação contemplativa para o silêncio contemplativo. A real dificuldade oscila entre aquela espécie de vigilância que nos permitirá receber com espírito inteiramente aberto, completamente livre de preconceitos e de ansiedades, o impacto de algo que virá ao nosso encontro, e ao mesmo tempo aquela serenidade que nos permitirá receber o impacto sem sonharmos com a imagem da nossa própria presença, que o destruirá.

Há cerca de trinta anos, logo após a minha ordenação, mandaram-me antes do Natal, para uma casa de idosos. Vivia aí uma senhora, que faleceu pouco mais tarde, aos cento e dois anos. Ela veio ver-me depois da minha primeira celebração e me disse:

— Padre, gostaria que me aconselhasse sobre a oração.

Eu lhe respondi:

— Ah, sim, peça a fulano.

Ela acrescentou:

— Em todos estes anos, fui perguntando às pessoas com fama de entendidas em oração, mas elas nunca me deram uma resposta plausível. Por isso eu pensei que o senhor, que provavelmente não sabe nada, poderia dizer a coisa certa.

Que situação encorajadora! Então eu perguntei:

— Qual é o seu problema?

A velha senhora prosseguiu:

— Nestes quatorze anos, tenho rezado a Oração de Jesus quase continuamente, e nunca me apercebi da presença de Deus.

Então eu disse o que pensava:

— Se a senhora fala durante todo o tempo, não deixa a Deus oportunidade de uma palavra.

Ela perguntou:

— O que devo fazer?

Eu acrescentei:

— Vá para o seu quarto depois do café, ponha-o em ordem, coloque a sua poltrona em posição estratégica, de modo a deixar atrás todos os ângulos escuros que sempre há nos quartos de pessoas idosas, para os quais empurram as coisas que não devem ser vistas. Acenda a sua lamparina diante da imagem que tem e, antes de tudo, faça o inventário do seu quarto. Sente-se, olhe à sua volta e tente ver onde vive, porque eu estou seguro de uma coisa: se a senhora rezou durante todos esses quatorze anos, há muito tempo que não vê o seu quarto. Tome então o seu tricô e, durante quinze minutos, procure bordar diante da face de Deus, mas eu lhe proíbo de dizer uma só palavra de oração. Vá apenas tricotando, e tente gozar a paz do seu quarto.

Ela não pensou que esse fosse um conselho muito piedoso, mas o aceitou. Passado algum tempo ela veio me ver, e disse:

— O senhor sabe? Dá certo.

Perguntei:

— O que é que dá certo? O que aconteceu?

Eu estava muito curioso para saber como é que o meu conselho dera resultado. Ela continuou:

— Fiz exatamente o que o senhor me aconselhou. Levantei-me, lavei-me, arrumei o quarto, tomei café, voltei para o quarto, verifiquei que nada havia para me perturbar; então, sentei-me na poltrona e pensei: “Oh! que beleza, tenho quinze minutos, durante os quais posso ficar sem fazer nada, e sem que isso me pese na consciência!” Olhei à minha volta e, pela primeira vez depois de anos, pensei: “Deus do céu! Como é lindo o quarto em que vivo: uma janela aberta para o jardim, um belo panorama, bastante espaço para mim, coisas que eu juntei durante anos.”

E ela acrescentou: Sentia-me calma, pois o ambiente era apaziguante. Havia um relógio fazendo tique-taque, mas o silêncio não me perturbava; eu sublinhava precisamente o fato de tantas coisas estarem em tamanho silêncio e, depois de certo tempo, me lembrei que devia tricotar perante a face de Deus. E comecei a fazê-lo. Cada vez mais, fui-me tornando consciente do silêncio. As agulhas tocavam os braços da minha cadeira, o relógio batia pacificamente, nada havia que causasse preocupação, não tinha necessidade de estar tensa e, nessa altura, percebi que o silêncio não era apenas ausência de rumor, mas que o silêncio tinha substância. Não era ausência de alguma coisa, mas presença de alguma coisa. O silêncio tinha densidade e riqueza, e começou a penetrar-me. O silêncio ao redor começou a chegar e juntou-se ao silêncio que havia em mim.

Por fim, ela disse algo muito belo que achei mais tarde num escritor francês Georges Bernanos. Disse:

— De repente, descobri que o silêncio era presença.

No coração do silêncio estava ele, que é todo serenidade, todo paz, todo equilíbrio.

Após essa data, ela viveu cerca de dez anos mais e dizia que sempre podia encontrar o silêncio quando ela mesma estava quieta e calada. Isso não quer dizer que ela tivesse deixado de rezar. Significa apenas que podia manter o silêncio contemplativo por um tempo; em seguida a sua mente começava a agitar-se e ela voltava à oração vocal até que a mente se acalmava e acomodava; abandonava novamente as palavras e mergulhava no silêncio, como antes. Freqüentemente isso poderia acontecer conosco, se em vez de começarmos dessa forma tentando fazer coisas, simplesmente disséssemos: “Estou na presença de Deus. Que alegria! Vamos serenar.”

Na vida de um padre católico da França, João Maria Vianney, o Cura d’Ars, conta-se a história de um velho camponês que costumava gastar horas e horas sentado na capela, imóvel, sem nada fazer. O padre perguntou-lhe:

— O que você está fazendo todas essas horas?

O velho camponês respondeu:

— Eu olho para ele, e ele olha para mim, e nós somos felizes.

Somente poderemos alcançar essa experiência, se atingirmos certo grau de silêncio interior. Comecemos com o silêncio dos lábios, o silêncio das emoções, o silêncio da mente, o silêncio do corpo. Mas, seria erro supor que podemos começar pelo mais elevado grau final, isto é, com o silêncio do coração e da mente. Devemos começar calando a boca, calando o nosso corpo, conservando a calma, expulsando as tensões, não para mergulharmos no devaneio e na frouxidão; mas, usando a fórmula de um dos nossos santos russos, para sermos como a corda do violino, ferida de tal maneira que possa dar as notas corretas, mas não ferida excessivamente, a ponto de quebrar, nem também tão fracamente que mal sussurre. Mais adiante devemos aprender a escutar o silêncio, a estarmos totalmente abandonados; então podemos, mais freqüentemente do que julgamos, descobrir que são reais as palavras do Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato.” No próximo capítulo, vamos considerar as condições básicas necessárias para firmarmos a oração e a dirigirmos a Deus, preparados para lhe falarmos.

5. Dirigindo-se a Deus

Neste capítulo, gostaria de me referir àqueles momentos em que estamos tão preparados que a oração se torna realmente possível e eficaz.

Tendo em conta o que eu disse antes e supondo que isso tenha estado constantemente presente como pano de fundo, orar é obviamente uma conexão, um encontro, um modo de nos mantermos em relação com o Deus vivo. Há momentos em que essa relação se torna algo vivo. E já que se trata de relação, desejo começar fazendo algumas considerações, que tanto se referem à oração quanto à convivência humana.

Uma relação torna-se pessoal e real no momento em que distinguimos uma pessoa de uma multidão. É o que acontece quando tal pessoa se torna única em seu direito próprio, quando deixa de ser anônima. Alguém falou de “sociedades anônimas,” nas quais em vez de haver nomes, sobrenomes, qualidade e personalidade, nós somos definidos em termos gerais como “contribuintes;” e assim por diante. Em nossas relações com as pessoas, freqüentes vezes, há este elemento de anonimato: “eles.” Falamos em terceira pessoa quando sentimos que alguém pode facilmente ser substituído por outrem, por se tratar de uma relação funcional, não pessoal, e porque essa função pode ser exercida indistintamente, quer a pessoa esteja quer não esteja substituída por outra, anônima. Em outras palavras, quereria dizer que uma relação se torna real no momento em que começamos a pensar numa pessoa em termos de “o sr., a sra.,” em vez de “você.” Isso não requer uma troca de linguagem, trata-se de uma troca íntima. Todos conhecemos muito bem, estou certo, esses dois tipos de relações com alguém: “eu” e “você,” ou “eu” e “ele.”

Comecemos a rezar no momento em que, em vez de pensarmos num Deus longínquo “ele,” “o Todo-poderoso” e assim por diante, pensemos em termos de “você,” quando já não se trata de uma relação distante, na terceira pessoa, mas na primeira e na segunda. Consideremos, por exemplo, o livro de Jó, no qual aparece um conflito. Consideremos tantas outras instâncias na Escritura e na vida, na vida dos santos e dos pecadores, quando ocorrem tensões e algum violento embate. Trata-se sempre de assunto pessoal. Não existe oração quando existe precaução, um relacionamento distante e frio, quando há cerimônia entre nós e Deus. Não há oração enquanto não lhe falamos, se vamos a ele através de longa e complexa série de palavras e atos. Há, porém, um momento em que rompemos com tudo isso e falamos em primeira e segunda pessoas. Dizemos “eu,” esperando que ele seja o “tu.” Deixamos de lado o refinado e majestoso “vós,” preferindo o singularizante “tu.”

Há também outra particularidade no relacionamento caloroso. Isso acontece quando procuramos um nome para uma pessoa. Não falo agora do sobrenome genérico, vazio de significação, mas da referência do nome à pessoa. Sabemos, por exemplo, o que um apelido pode ter de pessoal, seja de forma positiva, seja negativa. Um apelido pode ser um modo de esmagar, de excluir, de destruir tudo o que existe entre duas pessoas; mas pode também ser um nome que somente duas pessoas ou um pequeno grupo usam, por estarem tão profunda e intimamente ligadas que o nome acumula mil significações para elas, pois é extremamente pessoal. Quanto mais extravagante for, mais pessoal se torna, pois ninguém poderia inventá-lo, a não ser você.

Há, depois, o sobrenome. Parece-nos muitas vezes estranho o termo genérico “humanidade,” de modo que muitas pessoas têm o mesmo sobrenome. Contudo, se o examinarmos mais atentamente, no relacionamento humano, podemos descobrir que o sobrenome é o sinal de uma comunidade.

De geração em geração, recuando na história, pessoas que são do nosso sangue, cuja vida se liga aos nossos ossos, à nossa hereditariedade, ao nosso espírito, usaram o mesmo nome, que nos une retroativamente, por muitas gerações. De certo nos vinculará a outros no futuro e, mediante várias uniões de casamento e família, constituirá uma vasta rede de pessoas profundamente ligadas umas às outras. Em vez de pensarmos em nomes, se nos ativermos à hereditariedade, à genealogia, não é o que encontramos, relativamente ao Senhor, em dois Evangelhos? Não é precisamente isso que tal genealogia nos sugere? Um laço de geração em geração, entre seres humanos concretos, reais? Desse modo, um sobrenome é algo que podemos encarar com imenso interesse, porque ele condensa, numa palavra, o nosso passado e, se pensássemos nos mesmos termos acerca de outras pessoas, os seus sobrenomes poderiam ganhar vida. Em vez de ser uma expressão daquilo que há de único em cada pessoa e da sua singularidade nesse relacionamento conosco, como ocorre com o apelido, nos ligariam a todos instantaneamente: a essa única pessoa, a todo um mundo de seres…

Depois, há o nome cristão, o nome que nós recebemos no batismo: é o nome pelo qual Deus toma posse da pessoa. O nome cristão liga a pessoa a Deus, porque ela, quando o recebe, morre e ressuscita com Cristo; mas liga-a também à variedade de pessoas a quem foi concedido esse mesmo nome, em primeiro lugar àquele que transformou um nome pagão no nome cristão do primeiro santo que o trouxe à Igreja.

Nós temos ainda outro nome que não conhecemos. Lembremos a passagem do Apocalipse, que diz, que no Reino cada um receberá uma pedra branca com um nome escrito, um nome que apenas é conhecido de Deus e daquele que o recebe. Esse não é o apelido, não é o nome de família, não é o nome cristão. É um nome, uma palavra que é idêntica a nós mesmos, que coincide conosco, que somos nós. Quase podemos dizer que se trata de uma palavra que Deus pronunciou quando nos chamou à existência e que nos identifica tal como somos. Esse nome define a nossa absoluta e irrepetível individualidade, no que diz respeito a Deus. Ninguém pode conhecer o nome, como ninguém pode, em última análise, conhecer alguém como Deus o conhece. E mais ainda, é fora desse nome que aparece tudo o mais que pode ser conhecido acerca de nós.

Pode causar surpresa que eu me tenha concentrado nos nomes. Eu o fiz porque parte da nossa oração é dirigida imediatamente a Deus e constitui um laço entre nós e Deus; mas a outra parte constitui o laço entre nós e todo o mundo exterior. Quando rezamos uns pelos outros, quando rezamos pelo mundo, estamos levando a Deus nomes, e nada mais. Tais nomes, segundo as circunstâncias, estão cheios ou vazios de significação, na medida em que estejamos ou não aptos a sentir a profundidade daquilo que dizemos. Se perante Deus estamos referindo pessoas sem qualquer atenção aos nomes, referindo-os apenas como rótulos destituídos de profundidade, as nossas relações são de qualidade mesquinha. Mas, se pronunciamos um nome com alguma das significações que tentei expor de modo muito abreviado, então, a nossa oração deixará de ser uma simples oferta da pessoa em nossas mãos abertas; será uma ligação entre nós e ela, com uma profundidade que não é de compaixão nem de amor, mas de identificação, de partilha, de solidariedade, o que tem caráter completamente diferente.

Há outro sentido em que isso também é verdadeiro. A não ser que venhamos a descobrir o verdadeiro nome de Deus, não teremos acesso livre, real, feliz a ele. Enquanto nos dirigimos a Deus em termos gerais, por exemplo, “o Todo-poderoso,” “o Senhor Deus;” enquanto colocamos o artigo antes da palavra, tornando-a obscura, um termo genérico, não podemos usá-la como nome pessoal. No entanto, há momentos em que os escritores sagrados, por exemplo, irrompem com alguma palavra que tem valor de um apelido, algo que ninguém mais poderia ter dito, que está no limite entre o possível e o impossível, que só se pode dar porque há uma relação. Lembremos o salmo em que, após expressar-se em formas mais contidas, Davi subitamente exclama: “Ó minha Alegria!” É esse o momento em que todo o salmo adquire vida. Dizendo: “Ó tu, Senhor nosso,” “ó Todo-poderoso,” e outras expressões semelhantes, estava enunciando a Deus fatos a respeito dele, mas era todo diferente ao irromper com a exclamação: “ó tu, minha Alegria!” E quando dizemos a Deus: “ó minha Alegria,” ou: “ó Dor da minha vida, que te ergues no meio dela como um tormento, como um problema, como um obstáculo!” quando podemos dirigir-nos a ele com ímpeto, então se haverá estabelecido uma relação de oração.

É, pois, muito importante verificarmos, em nossa experiência, se há nomes mediante os quais recorremos a Deus. Entretanto, o uso dos nomes pode mudar de quando em quando. Há momentos em que captamos determinado aspecto das nossas relações com Deus, enquanto em outros vemos outros, exatamente do mesmo modo que, em nosso convívio afável de amizade, não escolhemos só uma expressão para nos dirigirmos uns aos outros, mas uma grande variedade, cheia de matizes. Usamos “o Todo-poderoso,” usamos “o Senhor,” “o Criador,” “a Providência,” “a Sabedoria,” mas usamos também um nome muito simples, como Jesus, que é, diria eu, um nome cristão.

Pode parecer-nos um tanto estranho dizer que Cristo tem um nome cristão, e espero que se entenda o que eu quero dizer. Lembro-me de uma discussão que uma das minhas paroquianas, que era cristã, teve com seu esposo que não o era. Passara ele muitos anos da vida tentando levá-la à evidência de que o cristianismo não tinha valor; certo dia, exasperada, ela o interpelou: “Como pode você dizer isso, quando Deus, que era primeiramente um judeu, em seguida se tornou cristão?” A maneira como eu digo que Jesus é um nome cristão pode muito bem sugerir algo desse raciocínio primitivo.

Todavia, trata-se de nome humano, do primeiro cristão inscrito no rol da Igreja. E, se nos lembramos disso, se tomamos consciência da ligação que se estabelece entre ele e nós, então compreenderemos por que gerações e gerações de cristãos se firmaram nesse nome. Provavelmente, não terá sido porque são Paulo diz: “ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho.” Pois, embora seja isso verdade, não é o que torna um nome caloroso e amável. Tal expressão seria equivalente a esta: “o Todo-poderoso” ou “o Senhor;” mas o nome de Jesus é um nome vivo, real, pessoal.

Todos podemos descobrir outros nomes. Estou inteiramente convencido: se algum dia brotar em você a expressão: “ó tu, minha Alegria,” ou qualquer outro grito dessa natureza, será o momento em que terá descoberto uma relação entre ele e você, uma relação que lhe será própria, que não é partilhada com muitas outras pessoas. Não quero dizer, com isso, que não a deva partilhar. Nós temos para com Deus palavras que pertencem a todos nós, mas existem aquelas que cabem somente a mim ou a você, tal como, nas relações humanas, há sobrenomes, há nomes próprios, há apelidos. É bom que você tenha um apelido para invocar o Deus Todo-poderoso, um apelido que contenha toda a profundidade do seu coração, todo o calor de que seja capaz, que se torne a sua maneira de dizer: “Na minha singularidade, é essa a maneira de apreender a tua singularidade.”

Se no processo de descobrir em que ponto você está em relação a Deus — na medida em que você é alguém que está de fora, — se você chegar ao ponto de bater à porta ou de aprofundar cada vez mais em si mesmo, dirigindo a oração para o interior de si mesmo, indo até o ponto onde há uma porta onde bater, ao ponto em que ela pode ser aberta — chegará então o momento em que a porta se abrirá; mas, então, você deverá ter um nome diante de Deus. Você deve estar em condições de dizer uma palavra que mostre que você é o próprio que foi à procura dele e não apenas um ser humano, inconstante, que esteve em busca de um Deus anônimo.

No processo de busca, terá de suportar dores, angústias, esperança, expectativa, toda uma série de emoções humanas. Deus terá sido o desejado, o único que fez você falhar. Ele terá sido o único por quem você anela e o único que você detesta por lhe escapar, o único a quem você ama bem mais do que a todas as coisas, sem o qual não pode viver e a quem você não pode perdoar, porque ele não lhe responde; e muitas coisas mais. Porém, até o fim dessa pesquisa, brotarão aos poucos palavras que você pode dizer a Deus, de sua própria experiência, em demanda do Graal, palavras que são propriamente de você. Pode descobrir que elas coincidem com muitas palavras que outros usaram. Entretanto, elas deixaram de ser palavras anônimas, serão palavras que você tem em comum com outras pessoas, mas que se tornaram sinceramente suas. Não usemos, contudo, palavras do dicionário vulgar, palavras que não fazem parte de você mesmo. Quando você começar a ouvir a fechadura ranger na porta, quando sentir que ela se vai abrir, use então as suas palavras, aquelas que lhe são próprias, e chame a Deus pelo nome que ele conquistou na vida íntima de você mesmo. Então, nesse momento, você o terá encontrado. E nas relações continuamente aprofundadas e enriquecidas, que hão de seguir-se, você terá muito tempo para descobrir outras palavras, para desfazer as palavras de aversão e angústia. Tal como os mártires no Apocalipse, você dirá: “Teus caminhos são justos e verdadeiros!” (Ap.15:3).

Essas palavras apagarão todas as expressões de amargura, todos os nomes que parecem cruéis; mas conservará os nomes que são pessoais, que são próprios, e constituirão um relacionamento efetivo e um real modo de estar vinculado ao Deus vivo. O que eu disse sobre como “aprender a orar,” penso que seja bastante prático, tanto que você pode experimentar. Obviamente, muito mais haveria a dizer acerca das mesmas coisas e muito mais deveria dizer acerca de outras; mas tente pôr em prática o que ao longo destas linhas eu sugeri; então verá que não perdeu o tempo. Indague acerca de um nome; e, se você não tiver nome, não se surpreenda por não ser ouvido: você não está chamando.

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Questa voce è stata pubblicata il 03/03/2020 da in Artigo mensal, Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag , .

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San Daniele Comboni (1831-1881)

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Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
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