COMBONIANUM – Spiritualità e Missione

Blog di FORMAZIONE PERMANENTE MISSIONARIA – Uno sguardo missionario sulla Vita, il Mondo e la Chiesa MISSIONARY ONGOING FORMATION – A missionary look on the life of the world and the church

FP.pt 4/2021 José, o homem que habita no Mistério

Formação Permanente – português 4/2021
José, o homem que habita no Mistério


Um homem capaz de entrar no mistério

O Evangelho (Mt 1, 16.18-21.24) diz-nos que José era “justo”, ou seja, um homem de fé, que vivia a fé. Um homem que pode ser incluído na lista de todas aquelas pessoas de fé que recordamos hoje no Ofício das Leituras. Aquelas pessoas que viveram a fé como fundamento do que se espera, como garantia do que não se vê; e a prova não se vê. José é homem de fé: por isso, era “justo”. Não somente porque acreditava, mas também porque vivia esta fé. Homem “justo”. Foi eleito para educar um homem que era verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus: era preciso um homem-Deus para educar um homem assim, mas não havia. O Senhor escolheu um “justo”, um homem de fé. Um homem capaz de ser humano e também capaz de falar com Deus, de entrar no mistério de Deus. E esta foi a vida de José. Viver a sua profissão, a sua vida de homem e entrar no mistério. Um homem capaz de falar com o mistério, de dialogar com o mistério de Deus. Não era um sonhador. Entrava no mistério. Com a mesma naturalidade com a qual levava adiante a sua profissão, com a precisão da sua profissão: ele era capaz de ajustar milimetricamente uma quina da madeira, sabia fazê-lo; era capaz de rebaixar, de diminuir um milímetro da madeira, da superfície da madeira. Justo, era preciso. Mas também era capaz de entrar no mistério que ele não podia controlar.

Eis a santidade de José: levar adiante a sua vida, o seu trabalho com justeza, com profissionalismo; e, no momento exato, entrar no mistério. Quando o Evangelho nos fala dos sonhos de José, explica-nos isto: ele entra no mistério.

Penso na Igreja hoje, nesta Solenidade de São José. Os nossos fiéis, bispos, sacerdotes, consagrados e consagradas, os Papas: são capazes de entrar no mistério? Ou devem ajustar-se segundo as prescrições que os defendem daquilo que não podem controlar? Quando a Igreja perde a possibilidade de entrar no mistério, perde a capacidade de adorar. A prece de adoração somente é possível quando entramos no mistério de Deus.

Peçamos ao Senhor a graça de que a Igreja possa viver no pragmatismo da vida diária e também na solidez – entre aspas – do mistério. Se não conseguir fazê-lo, será uma Igreja pela metade, uma associação piedosa, levada adiante por prescrições, mas sem o sentido da adoração. Entrar no mistério não é sonhar; entrar no mistério é precisamente isto: adorar. Entrar no mistério é fazer aquilo que faremos no futuro, quando chegarmos à presença de Deus: adorar.

Que o Senhor conceda esta graça à Igreja!

Papa Francisco, 19/03/2020

Come José, «guardiões» da criação e dos irmãos

Queridos irmãos e irmãs!

Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão. (…)

Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap. Redemptoris Custos, 1).

Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.

Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d’Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!

Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!

E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.

Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.

A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!

Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.

Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.

Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!

Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! Amen.

PAPA FRANCISCO, INÍCIO DO MINISTÉRIO PETRINO
San Pietro 19/03/2013

“Perfil” de José, o santo do anti-protagonismo

Nos Evangelhos fala-se pouco sobre ele e não se cita suas palavras. A devoção pelo pai putativo e protetor de Jesus, “padroeiro da Igreja”, cuja festa se celebra no dia 19 de março, é um culto que se consolidou aos poucos. O que sabemos sobre ele e como os dois últimos papas falaram sobre ele.

A figura de São José, “padroeiro da Igreja”, cuja festa se celebra no dia 19 de março, foi “descoberta” pela própria Igreja com certa lentidão. Não há vestígios sobre o seu culto nos calendários litúrgicos ou nos martirológios antes do século IX. No Ocidente, o culto aparece formalmente no século XI: dedicou-se a ele um oratório na catedral de Parma (em 1074) e construiu-se uma igreja em sua honra em Bolonha (1129).

No final do século XIV difundiu-se a festa de 19 de março dedicada ao santo, que se converteu em um preceito em 1621 por decisão de Gregório XV. Em 1870, Pio IX proclamou São José padroeiro da Igreja, e no ano seguinte reconheceu a ele o direito a um culto superior aos demais santos. O Papa Francisco, com um decreto da Congregação para o Culto Divino, de 1º de maio de 2013, incluiu uma menção de São José no cânon da missa, na oração eucarística, imediatamente depois do nome de Maria e antes dos nomes dos apóstolos.

O Evangelho de Mateus

Segundo o direito hebraico Jesus pertence a uma estirpe, a davídica, por ser filho de José. O primeiro dos dois Evangelhos da infância, o de Mateus, ocupa-se inteiramente da figura do pai putativo de Jesus para destacar que o Menino pertence à estirpe de Davi. Nele assume uma importância particular quando o carpinteiro aceita que o menino, filho de sua jovem e prometida esposa, não é seu. José é mencionado somente nos poucos parágrafos dos Evangelhos da infância, e nunca são citadas as suas palavras.

Seu nome significa “Ele [Deus] acrescentará” ou “Ele [Deus] reunirá”, e é o mesmo nome de outros seis personagens bíblicos. A tradição indica que este homem era idoso. Não só devido à sua completa ausência quando Jesus começa seu ministério público, ausência que permitiria deduzir que nessa época já não estava vivo. Também há a vontade, completamente apologética, de representar José idoso, é mais decrépito, para evitar qualquer insinuação sobre a castidade e sobre a virgindade de sua esposa Maria.

Migrante e refugiado

A iconografia clássica apresenta-o, pois, bastante idoso e com um bastão. José, com Maria e depois com o pequeno Jesus, foi um migrante e um refugiado. Migrante devido ao censo que o obrigou a ir de Nazaré a Belém, onde nasceu o menino nas condições precárias descritas por Lucas. Depois refugiado, porque se viu obrigado a fugir para o Egito, atravessando a fronteira de um país tradicionalmente acolhedor, para fugir da espada dos soldados de Herodes, que tinham recebido a ordem de matar todas as crianças pequenas de Belém.

O carpinteiro

Qual era a profissão de José? No Evangelho de Mateus (13, 55) lê-se esta definição de Jesus: “Não é este, por acaso, o filho do carpinteiro?” O próprio Cristo é definido pelo evangelista Marcos (6, 3) como “carpinteiro”. Estamos acostumados a traduzir a palavra grega “tékton” como “carpinteiro”. Mas estudos mais recentes tendem a reconsiderar esta definição e a propor uma tradução mais próxima a um “construtor”, embora esta, obviamente, seja uma hipótese.

“Tékton”, na época, indicava um operário que trabalhava com materiais duros, portanto não apenas madeira, mas também pedras, e que sabia fazer de tudo. Um indício que poderia indicar a solução de um José “construtor” seriam algumas parábolas do seu filho, dedicadas à arte de construir uma casa. Por exemplo, em Mateus (7, 24-26): “Qualquer um, pois que ouve estas palavras e as coloca em prática é comparável a um homem prudente que edificou sua casa sobre a pedra”.

No Evangelho de Lucas (14, 28-30), por outro lado, se pode ler: “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele. Dizendo: este homem começou a edificar e não pôde acabar”.

A menos de seis quilômetros de Nazaré estava Séfora (a atual Sípora), cidade que até o ano 20 a.C. foi a capital da Galileia, que depois teria sido substituída por Tiberíades. Carsten Peter Theide levantou a hipótese de que José e seu filho Jesus trabalharam na sua construção. A profissão de José, seja como for, devia permitir à sua família viver com dignidade.

“Era justo”

Merece também um comentário a expressão que Mateus usa ao definir José: “era justo”. O termo hebreu “sadiq”, explicam os estudiosos, significa “homem exemplar”, que respeita a Lei. Um hebreu “praticante”, observante, que possuía, portanto, certa cultura e que conhecia tanto o hebraico como o aramaico: a primeira era a língua clássica de Israel, a segunda era a que se usava comumente nessa época.

Uma antiga tradição rabínica relaciona o ofício de “operário”, “construtor”, com uma formação especial, ou seja, com um conhecimento especial do texto bíblico e com uma insólita capacidade para explicá-lo. José, escreve Mateus, é um homem “justo” e misericordioso. Ao tomar conhecimento da gravidez de Maria, antes de receber a mensagem de Deus em um sonho, decidiu repudiar sua esposa, mas em segredo. Não a repudia em público, não divulga a notícia da gravidez “ilegítima”. O anjo que aparece a ele em um sonho, com seu anúncio, resolve a situação.

As palavras de Bento XVI

Em uma homilia que o Papa emérito pronunciou no convento em que mora no Vaticano, Bento XVI traçou um “perfil” de São José: “Por que Deus escolheu José? Porque José era um homem justo, piedoso. Mas também porque José era um homem prático. Além disso, necessitava-se de um homem prático para organizar a fuga para o Egito, mas também para organizar a viagem para Belém por ocasião do censo e para satisfazer todas as necessidades práticas de Jesus”.

No dia 19 de março de 2006, o Papa Ratzinger recordou a figura do santo cujo nome carrega e destacou que “a grandeza de São José, junto com Maria, ressalta ainda mais porque sua missão foi desempenhada na humildade e no ocultamento da casa de Nazaré”.

Nas primeiras Vésperas da festa de São José de 2009, Bento XVI traçou, quase com estupor teológico, a figura do santo: “Ilustra-o São José de maneira surpreendente, ele que é pai sem ter exercido nenhuma paternidade carnal. Não é o pai biológico de Jesus, de quem apenas Deus é o Pai. No entanto, ele exerce uma paternidade plena e completa. Ser pai, sobretudo, é ser servidor da vida e do crescimento. São José demonstrou, neste sentido, uma grande dedicação. Por Cristo conheceu a perseguição, o exílio e a pobreza que deriva. Teve que estabelecer-se em um lugar diferente da sua aldeia. Sua única recompensa foi a de estar com Cristo”.

O “perfil” de Francisco

No dia 19 de março de 2013, o Papa Francisco celebrou a missa para o início do seu Pontificado. Na homilia, apresentou São José como modelo de educador, que protege e acompanha humildemente Jesus em seu crescimento. “José é ‘protetor’ porque saber escutar a Deus, se deixa guiar por sua vontade e, justamente por isso, é mais sensível às pessoas que se confiam a ele, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento ao que o rodeia e sabe tomar as decisões mais sábias. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus – com disponibilidade, com prontidão, mas também vemos qual é o centro da vocação cristã: Cristo! Protejamos Cristo na nossa vida para proteger os outros, para proteger a Criação!”

E, significativamente, no sábado 19 de março de 2016, festa de São José, [foi] assinada a exortação dedicada à família, documento que representa o caminho de dois sínodos.

O “documento de identidade” do protetor

Com tudo o que foi dito anteriormente, é possível concluir citando algumas características do “perfil” de São José. É um homem justo e misericordioso, capaz de ver além das convenções sociais. É um homem silencioso e humilde. Está aberto às “surpresas” de Deus, aos seus planos, embora alterem a vida cotidiana. É um protetor da vida, permite que Deus se faça homem, um menino inerme, “completamente dependente dos cuidados de um pai e de uma mãe” (como disso o Papa Wojtyla em Belém, em março de 2000); permite que cresça. É capaz de ser pai de um filho que não era seu. É um homem prático, capaz de ouvir a voz de Deus e de colocá-la em prática, para tomar as melhores decisões pelo bem de sua família.

de Andrea Tornielli
Vatican Insider, 17-03-2016.
http://www.ihu.unisinos.br

José, uma palavra vinda do silêncio

São José é a figura-chave para compreender algumas das dimensões essenciais da vocação cristã. Eis quatro delas: proteger a vida, praticar a justiça, deixar que Deus seja o protagonista da nossa vida, cultivar a dimensão mística (Mateus 1, 18-25; 2, 1-23).

No coração da Quaresma, a 19 de Março, a Igreja celebra a festa de São José. Como a de Maria no período do Advento (8 de Dezembro, festa da Imaculada Conceição). Representado frequentemente como um venerando ancião de barbas e cabelos brancos, de olhar triste e distante, de semblante preocupado, curvado sob o peso do seu destino… dir-se-ia que espelha o humor de um certo «espírito quaresmal» de outros tempos!

Os valores que o caracterizam, silêncio, obediência e serviço, também não estão de moda. Não é de admirar pois que a devoção a este santo tenha vindo a declinar desde há um certo tempo. E isto não obstante a exortação apostólica de João Paulo II Redemptoris Custos, de 1989, considerada a «magna carta» da teologia de São José, e o facto que “depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupe tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo” (Papa Francisco).

O Papa Francisco desde o inicio do seu ministério petrino tem vindo a chamar a atenção sobre a figura deste santo, culminando com a recente proposta do “Ano de São José” por ocasião dos 150 anos da declaração de São José como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX a 8 de dezembro de 1870, e com a publicação da Carta apostólica Patris Corde, Com coração de pai, com o objetivo de “aumentar o amor por este grande Santo”.

São José é uma figura-chave para compreender algumas das dimensões essenciais da vocação cristã. Eis quatro delas: proteger a vida, praticar a justiça, deixar que Deus seja o protagonista da nossa vida, cultivar a dimensão mística.

Servidor da Vida

Modelo de PATERNIDADE – Em hebraico, o nome José significa «Deus acrescente», «Deus te aumente». Uma vocação à fecundidade, à sobreabundância de vida, por conseguinte!

Descendente de David («filho de David»), originário de Nazaré, «carpinteiro» (tékton), uma profissão ligada à construção. Nos evangelhos é apresentado, por vezes, como o «esposo de Maria», coisa insólita porque geralmente era a esposa que pertencia ao marido. Mas também se diz de Maria que era «esposa de José» (Mateus 1,18) e que Jesus era o «filho do carpinteiro» (Mateus 13,55).

José antecipa e vive a palavra de Jesus que «um só é o nosso Pai» (Mateus 23,9). Encarna de uma maneira singular esta única paternidade divina (cf. Efésios 3,15). É pai sem exercer a paternidade carnal. Mas é pai para todos os efeitos, porque «ser pai é antes de mais ser servidor da vida e do seu crescimento» (Papa Bento XVI).

Como os antigos patriarcas, também ele recebe as comunicações de Deus através de sonhos, por três vezes. Sinal de uma vocação singular e de uma particular relação com Deus.

José é o último dos antigos patriarcas, mas o primeiro de uma nova geração, daqueles que «não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus» (João 1,13).

Esta «paternidade» é uma dimensão da vocação cristã. Somos chamados, como José, a adoptar e proteger a vida. Ser fecundos, viver ao serviço da vida, sem apossar-se dela, desprendidos. José nos ensina como se pode amar sem «possuir» as pessoas.

A paternidade/maternidade é um valor que urge descobrir hoje, numa sociedade de «vagabundagem de experiências», rica em «filhos pródigos» mas pobre de «pais» e «mães» capazes de esperar pacientemente em casa para abraçar tais filhos quando eles regressarem, desiludidos da vida e famintos de amor. Tantas vezes encontram a casa vazia, sem ninguém à espera deles!…

Saber «ajustar-se»

Modelo de JUSTIÇA – O evangelho define José um «homem justo» (Mateus 1,19). Justo porque, sendo «fiel», «ajusta» a sua vida de acordo com a Palavra do seu Senhor. Mas também porque, sendo «sábio», é capaz de «ajustar-se» à realidade. Com efeito, quando se dá conta que Maria está grávida, a sua primeira reacção é a de cumprir a Lei (repudiando Maria), mas decide fazê-lo em segredo. Introduz assim um elemento novo, de prudência e sabedoria. Mantém a sua confiança em Maria. Não se deixa levar pela «suspeita». Porquê? Porque há nele «uma longa frequentação da escuta de uma outra palavra que o toca e penetra» (Frédérique Oltra, carmelita).

Sendo «justo», ele é o «administrador sábio e fiel que o Senhor coloca à frente do pessoal de sua casa» (Lucas 12,42). José sabe que é «servo» e que deve servir bem. Não basta a boa vontade. Por isso o texto bíblico fala de um homem «sábio e fiel» (Mateus 24,45). «A inteligência sem a fidelidade e a fidelidade sem inteligência são insuficientes» para assumir a responsabilidade que Deus nos confia (Bento XVI).

Praticar a justiça faz parte da nossa vocação. Ser «justos», como José. Uma justiça que nos leva a adoptar um comportamento «justo» e a ocupar o lugar «justo» na vida, o do serviço. Uma justiça iluminada pelo amor, «o cumprimento perfeito da Lei» (Romanos 13,10). Um bem que também escasseia hoje. Fala-se muito de justiça, mas faltam «homens justos».

Ficar fora da fotografia

Modelo de DISCRIÇÃO – José é um homem discreto, uma pessoa reservada. Sempre «fora da fotografia», como comenta, com certa graça, um autor: «Duas irmãs folheavam o novo livro de religião, quando vêem uma pintura da Virgem Maria com o Menino Jesus. – Olha – diz a maior –, este é Jesus, e esta é sua mãe. – E onde está o pai? – pergunta a mais pequenina. A irmã pensou por um momento e então exclamou: – Ah, ele tira a fotografia.»

Homem do silêncio, os factos falam por si. Homem da obediência, o Evangelho sublinha o perfeito cumprimento das disposições que lhe são comunicadas pelo anjo em sonho (Mateus 1,24). Como diz o Cântico dos Cânticos: enquanto dorme, o seu coração permanece vigilante (5,2).

Esquecido de si mesmo, vive para «o menino e sua mãe» (Mateus 2,13.19). Como João Baptista, considera que é bom que ele mesmo diminua e que eles cresçam. A sua vida pertence-lhes totalmente. E assim, a certo ponto «desaparece»… para não fazer sombra ao filho!

Cada um de nós é chamado a seguir este testemunho. Discretos como José, pondo a nossa vida ao serviço da missão de Cristo. Saber pôr-se de lado, retirar-se atrás dos bastidores. Não é coisa fácil nem evidente. Vivemos numa sociedade que privilegia a «realização pessoal» e o protagonismo. Desde pequenos, concebemos o nosso próprio projecto de vida, o que queremos ser «quando formos grandes». A vocação implica renunciar a tal sonho humano (como José com Maria) para abraçar o divino. Saber eclipsar-se para que o projecto de Deus se realize em nós!

Habitar no mistério

Modelo de CONTEMPLAÇÃO – José é o santo do silêncio, um que não fala nunca. Mas um silêncio rico e profundo, que nos desafia. Porquê este silêncio? Porque José vive no mistério! Não se trata de uma questão de palavras, mas de atitude de vida, de toda a sua pessoa.

Diante do facto inesperado – para ele incompreensível e «misterioso» – de Maria grávida, José pensa em retirar-se, silenciosamente. É a palavra do anjo: «não tenhas medo de receber Maria como esposa, porque ela concebeu pela acção do Espírito Santo» (Mateus 1,20) que introduz José no mistério, como Gabriel fizera com Maria.

Esta palavra não elimina o mistério, não explica o que realmente aconteceu, nem como. Esta palavra introduz José no mistério que já absorvera Maria. José não está mais na frente do mistério mas dentro. Não é como o povo de Israel em frente da nuvem no deserto, entra dentro da nuvem, como Moisés ou como os três apóstolos no monte Tabor» (teólogo Borel).

Antes estava «fora» do mistério, de frente a ele, e por isso duvidava e tinha medo. Depois deixa-se conduzir por ele, como Maria após o seu «fiat». «Agora», dentro «do mistério, mesmo sem compreendê-lo, não o pode negar.

Entrar no mistério de Deus é a dimensão essencial de toda a vocação. Esta requer a disponibilidade a deixar-se «introduzir» nele. Sem isso, o vocacionado fica «de fora» e não encontrará as motivações para viver à altura da sua vocação. Será, na melhor das hipóteses, um «bom funcionário» ou um «mercenário», e no pior dos casos um «parasitário» ou «servo infiel» (Lucas 12, 46).

Em conclusão, José não é certamente o homem retratado por uma certa iconografia. Envolvido pelo mistério, no seio de uma família que amou e o amava, identificado com a sua vocação de protector do Autor da Vida, exercendo com competência a sua profissão… foi e é homem feliz!

Manuel João Pereira Correia

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Questa voce è stata pubblicata il 13/03/2021 da in Artigo mensal, Fé e Espiritualidade, PORTUGUÊS con tag .

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San Daniele Comboni (1831-1881)

COMBONIANUM

Combonianum è stato una pubblicazione interna di condivisione sul carisma di Comboni. Assegnando questo nome al blog, ho voluto far rivivere questo titolo, ricco di storia e patrimonio carismatico.
Il sottotitolo Spiritualità e Missione vuole precisare l’obiettivo del blog: promuovere una spiritualità missionaria.

Combonianum was an internal publication of sharing on Comboni’s charism. By assigning this name to the blog, I wanted to revive this title, rich in history and charismatic heritage.
The subtitle
Spirituality and Mission wants to specify the goal of the blog: to promote a missionary spirituality.

Sono un comboniano affetto da Sla. Ho aperto e continuo a curare questo blog (tramite il puntatore oculare), animato dal desiderio di rimanere in contatto con la vita del mondo e della Chiesa, e di proseguire così il mio piccolo servizio alla missione.
I miei interessi: tematiche missionarie, spiritualità (ho lavorato nella formazione) e temi biblici (ho fatto teologia biblica alla PUG di Roma)

I am a Comboni missionary with ALS. I opened and continue to curate this blog (through the eye pointer), animated by the desire to stay in touch with the life of the world and of the Church, and thus continue my small service to the mission.
My interests: missionary themes, spirituality (I was in charge of formation) and biblical themes (I studied biblical theology at the PUG in Rome)

Manuel João Pereira Correia combonianum@gmail.com

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